Farasó
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Um faraó conta sua trajetória desde a vida na plebe até o trono. Farasó é uma fábula sobre as estruturas sociais, o poder, o controle, e o preço que tudo isso cobra.
Antes do trono, houve degraus.
Antes dos degraus, houve uma infância esmagada pelo peso de uma pirâmide.
Não de pedras de calcário, mas de poder.
Cresci pisado por um destino.
Vendo homens pisarem em outros homens até aprender que o mundo se reduz a uma marcha ininterrupta de pés sobre pescoços.
Ninguém precisou me dizer isso em voz alta.
Nem precisei do sussurro dos oráculos.
Minha cartilha foi o corpo de meu pai servindo de camelo aos seus patrões, e a dignidade de minha mãe, estendida como tapete para o desfile das damas da corte.
Alfabetizei-me com a dor da fome.
A escolha era um fio de faca contra a garganta:
— Ou você pisa, ou é pisado.
Iludido pela crença de que a vida fosse uma moeda, escolhi pisar na cara de cada pessoa para alcançar a coroa.
Escolhi ser o pé e não o pescoço.
Enchi meu peito de ambição sem saber que estava respirando o veneno mais refinado das tragédias.
Cada degrau da minha ascensão foi pago com fragmentos da minha humanidade.
Pedaços que nunca mais recuperei.
Na infância, antecipei o golpe. Empurrei antes de ser empurrado. Perdi o riso dos pares e chamei isso de triunfo.
Na juventude, usei a humilhação como escudo. Amputei as amizades com a precisão de um cirurgião. Acreditei que um coração de pedra era um coração invencível.
No exército, converti homens em pedras de calçamento. Pisei em escudeiros, soldados e oficiais. Enterrei companheiros em covas rasas de indiferença. E chamei isso de liderança.
Andar e subir viraram, dentro de mim, o mesmo verbo.
Cada pescoço sob meus pés era um degrau a menos até o topo onde, prometi a mim mesmo, ninguém jamais me pisaria novamente.
A pirâmide tinha muitos andares, e eu conhecia todos, porque subi cada um deles com os próprios pés.
Na base ficavam os camponeses, homens como meu pai, pisados por todos. Acima deles, artesãos, pisando os camponeses. Depois mercadores, pisando os artesãos, pisados pelos nobres e sacerdotes.
Todos suportando o peso de quem estava acima enquanto despejavam esse mesmo peso sobre quem estivesse abaixo.
E, no cume, o trono, um pódio de pedra esperando por quem tivesse fôlego para vencer a escalada bestial.
Eu tive o fôlego das tempestades de areia.
E subi com a fúria de um beduíno sedento perseguindo a miragem de um oásis.
Inventei buracos para vender areia.
Comprei dívidas e cobrei com juro de sangue.
Transformei aliados em rivais, e rivais em oportunidade.
Fui o salvador que oferecia proteção contra o terror que eu mesmo soprava nos ouvidos do povo.
Enquanto o Egito lutava, eu prosperava como um abutre, recolhendo o que sobrava nas poças de sangue.
Rostos tornaram-se nomes.
Nomes tornaram-se números.
E números tornaram-se o mármore sob meus pés.
Quanto mais alto eu subia, menos pessoas havia ao meu lado.
E eu chamava isso de sucesso.
Sentei no trono.
O Egito era uma tapeçaria estendida aos meus pés.
Ninguém ao meu lado.
Ninguém.
— Finalmente! — eu disse em voz alta.
Minha voz atravessou o salão vazio e voltou sozinha.
Pensei que aquele eco fosse o som da grandeza.
Hoje sei que era profecia.
Reinei por décadas com o terror da fronte franzida.
Um silêncio meu fazia generais tremerem.
Um olhar bastava para dobrar os joelhos.
Nunca fui contrariado.
Na época, achei que isso fosse adoração.
Agora percebo que era medo.
Com o tempo, o mesmo triunfo, que antes tinha sabor de mel, começou a salgar a boca.
O mesmo sal das minhas refeições silenciosas, feitas em uma mesa que era um deserto de marfim.
As risadas se apagavam quando eu entrava.
Os conselheiros concordavam antes mesmo de me ouvir.
Minhas esposas deitavam-se com a coroa, nunca com o homem que a usava.
Meus filhos eram abutres espreitando meu lugar, jamais meu afeto.
Só então compreendi: o cume da pirâmide era mais árido e vazio que o deserto que o cercava.
Certa noite, incapaz de dormir, caminhei sozinho pelos corredores do topo da pirâmide.
As tochas eram chagas de luz na escuridão.
As estátuas, sempre tão parecidas comigo, me observavam sem dizer nada.
Os guardas abaixavam a cabeça ao me ver passar.
O silêncio pesava como um bloco de pedra.
Era como caminhar por um túmulo construído antes da própria morte.
E eu era, ao mesmo tempo, o morto e o visitante.
Mandei chamar o bobo da corte.
Era o único homem que ainda conservava a audácia de ser sincero comigo.
Quando entrou, perguntei:
— Por que ninguém vem conversar comigo?
O bobo não respondeu imediatamente.
Olhou para o salão.
Veio até a frente do trono.
Se sentou no ar como se ali existisse uma cadeira que só ele conseguia ver.
Cruzou as pernas.
Sorriu para mim, como só os bobos sabem sorrir para as autoridades.
Então, respondeu:
— Porque não existe cadeira ao lado do trono, Majestade.
Eu não ri.
Nem naquele instante, nem nos anos que se seguiram.
Creio que morri ali.
O resto foi apenas espera.
Quando a espera acabou, me encontraram morto no trono.
Os sacerdotes entoaram salmos.
Os soldados marcharam.
Os nobres discursaram.
Os camponeses que pisei a vida inteira — sem sequer saber os nomes — carregaram meu sarcófago nos ombros.
Lágrimas encomendadas banharam meu cadáver.
Nunca, em vida, recebi tantas visitas.
Foi a primeira vez que o Egito inteiro fez questão de me ver.
Mas eu já não podia conversar com ninguém.
Que ironia amarga.
Pisei em todos para não ser pisado por ninguém e terminei debaixo da terra, onde o passo de cada homem e o casco de cada cavalo caminham sobre mim.
Na pedra do meu sarcófago, entalharam o título pelo qual a história há de me lembrar:
— O Grande Faraó.
Faltou uma letra.
E sobrou lisonja na mão de quem a talhou.
Fui só um homem.
E um homem só.