Dilema Do Objetivo
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você não acessa o desejo diretamente. Precisa que ele apareça em alguma forma consciente.
Essa forma consciente é o significado — bem, bom, caro e vero.
Só que esses quatro significados também não são acessados diretamente. Eles se tornam conscientes através dos significantes— através dos objetos.
Por isso você confunde objeto com objetivo.
Eis o dilema do objetivo.
Antes de iniciar a leitura:
Um grupo de cinco homens está em um bar onde também se encontra um grupo de cinco mulheres. Todos os homens desejam a mesma mulher — compartilham do mesmo objetivo.
John Nash observa a cena e percebe algo que os outros ainda não viram:
Se cada um se mover em direção ao que deseja, a ação de cada um inviabiliza a realização do desejo dos outros.
Resultado: todos perdem.
Mas se nenhum agir — se todos recuarem — o objetivo também não se realiza.
Resultado: todos perdem também.
Agir: fracasso.
Não agir: fracasso.
O que fazer?
Eis o dilema nessa cena.
A solução de Nash é estratégica.
Ao observar o dilema, ele propõe:
— Mudem de desejo.
Se todos desejam a mesma mulher — e isso inviabiliza a realização do desejo individual — logo, a saída é mudar de desejo.
Cada um deve desejar uma mulher diferente.
Ninguém compete com ninguém.
Todos realizam seus desejos.
Genial. Funciona.
Mas o motivo pelo qual funciona não é o que Nash pensou.
Não é a mudança de desejo.
Objetivo e desejo são sinônimos — tal como seis e meia dúzia. Palavras diferentes, contextos diferentes — jogos e psicologia — mas apontando para a mesma coisa.
Dito isso, vamos entender a solução de Nash.
A solução de Nash não é mudança de objetivo — é mudança de objeto.
Os cinco homens pararam de querer a mesma mulher e passaram a querer mulheres diferentes.
O objetivo — sexo — nunca mudou.
O que mudou foi o objeto.
Desejo é objetivo.
Objetivo é constante — permanece igual durante todo o jogo.
Pense num jogo de xadrez.
O enxadrista tem dezesseis peças. Cada peça é um objeto diferente. Mas o objetivo é um só — e não muda nunca. Quando o enxadrista troca de peça, não está trocando de objetivo. Está trocando de objeto.
Agora imagine que esse enxadrista decida jogar o jogo inteiro usando apenas um peão. Vai ficar difícil. Não porque o objetivo mudou. Mas porque ele se limitou a um único objeto para realizar o objetivo.
O problema do grupo masculino no bar não era objetivo comum. Era objeto comum.
Cinco homens. Um objeto. Resultado inevitável: colisão.
A solução de Nash foi ampliar o repertório de objetos — e a realização de todos os desejos individuais se tornaram possíveis.
Repetindo:
Objetivo e desejo são sinônimos — tal como seis e meia dúzia. Palavras diferentes, contextos diferentes — jogos e psicologia — mas apontando para a mesma coisa.
Dito isso, vamos entender por que você confunde objeto com objetivo.
O motivo é simples: desejo é existencial.
O que você experimenta e chama de desejo não é desejo em si — é desejo humanizado. O desejo original, bruto, não é humano.
Pense num arquivo de fotografia no computador.
O arquivo existe. Mas você não consegue ver o que está dentro dele sem transformá-lo em imagem na tela. O conteúdo bruto do arquivo e a imagem na tela são a mesma coisa — mas numa forma que você consegue ver.
Com o desejo é igual.
Você não acessa o desejo diretamente. Precisa que ele apareça em alguma forma humanizada. Essa forma humanizada é o significado — bem, bom, caro e vero.
Só que esses quatro significados também não são acessados diretamente. Eles se tornam conscientes através dos significantes— através dos objetos.
Por isso você confunde objeto com objetivo.
Eis o dilema do objetivo.
Todo ser é semente.
O desejo de toda semente é um só: autorrealização.
A semente de jabuticaba não deseja ser azaleia. Não deseja ser mostarda. Não deseja ser outra coisa. Deseja, com toda a força interna que uma semente tem, se transformar em pé de jabuticaba. A semente de azaleia deseja se transformar em pé de azaleia. A semente de mostarda deseja se transformar em pé de mostarda.
A semente humana não é diferente.
Seu objetivo fundamental — seu desejo primário, anterior a qualquer forma, anterior a qualquer objeto — é se transformar em pé de você.
Pé de si mesmo.
Todo ser deseja. Mas nem todo ser sabe que deseja.
A semente de jabuticaba não sabe que quer ser jabuticabeira. Não lida com o desejo de forma consciente — apenas o cumpre inconscientemente.
A experiência humana é diferente.
Você é um ser consciente. E por isso que pode saber do seu desejo — não apenas cumpri-lo no escuro, mas senti-lo, reconhecê-lo e segui-lo.
Isso acontece através dos objetos.
É por isso que você deseja certos objetos e repudia outros.
Não é acaso.
Os objetos que você deseja são desejáveis porque representam seu objetivo primário — porque apontam, de alguma forma, para a direção da sua autorrealização.
Os objetos que repudia são pela razão oposta.
Apontam para a autonegação.
Você não consegue ver seu próprio rosto diretamente.
Precisa de um espelho.
Com seu desejo primário é igual.
Você não consegue acessá-lo diretamente — não há como olhar para dentro e ver o desejo bruto, sem mediação. Você também precisa de um espelho.
Esse espelho é o objeto.
É através dos objetos — e só através deles — que você pode conhecer seu desejo.
Os objetos entram na sua história para lhe contar histórias.
Não sobre eles. Sobre você.
Objetos, em si mesmos, não são desejáveis nem indesejáveis. Uma maçã não é desejável. Um emprego não é desejável. Uma pessoa não é desejável. O que você deseja neles — o que te atrai ou te repele — é reflexo do seu desejo projetado na superfície do espelho.
Você não deseja objetos. Você deseja o que você vê neles. E o que você vê neles, é o que VOCÊ — particularmente — vê neles. Outras pessoas veem outras coisas no mesmo objeto.
Então, como todo espelho, o que você vê nos objetos lhe conta sobre você.
É assim que funciona a função espelho. E por isso você deve observá-la acontecendo. É através dela que você produz autoconhecimento.
Pense numa pessoa que você ama muito.
Agora imagine que, sem que você saiba, essa pessoa é substituída por um clone — aparência idêntica, comportamento idêntico, memórias idênticas. Tudo igual.
Você continuaria amando esse clone?
Claro que sim.
Mas por quê — se o clone não é a pessoa, e seu amor é pela pessoa?
Porque seu amor nunca é pela pessoa.
Nunca é pelo outro. Sempre é pela felicidade que você experimenta em si durante a convivência com o outro.
O que você busca no outro nunca está no outro. Está em você. É produzido por você, para você, através da interação com o outro.
Quando o outro te beija, você experimenta felicidade. Mas essa felicidade não saiu da boca do outro e entrou na sua. Foi produzida inteiramente dentro de você — pelo seu sistema emocional, em resposta ao estímulo.
Você precisa do outro como estímulo. Mas o que você ama não é o outro.
A prova disso é simples: se o outro começar a te estimular sofrimento — você imediatamente para de amá-lo e começa a odiá-lo.
O outro não mudou. Mudou o que ele produz em você.
Mas não se preocupe que, por ficar consciente disso, deixará de amar quem ama.
É impossível, porque você nunca amou.
Você não compra coisas. Compra significados.
Produto é objeto — substantivo, coisa, matéria. Significado é adjetivo associado ao objeto. E o que você deseja nunca está na coisa. Está no significado que a coisa carrega. Por isso, tão logo você percebe que a coisa que comprou é apenas o que é — uma coisa — você perde o interesse.
Ver coisa como coisa retira da coisa o que nunca esteve nela: o significado.
O sorriso encantador não está no creme dental. A beleza não está no vestido, nem no sapato, nem nos cosméticos. O orgasmo não está na lingerie, nem no chocolate. A festa não está dentro da lata de cerveja. O sucesso e a masculinidade não estão no cigarro. A família feliz não está no pote de margarina. A juventude não está na garrafa de Coca-Cola. O American Dream não está no Big Mac.
E não para por aí.
O mesmo mecanismo psicológico opera nos produtos ideológicos.
O reino dos céus não está no cristianismo. A iluminação não está no budismo. A verdade não está no espiritismo. O bem-estar não está na yoga. A igualdade social não está no comunismo. A liberdade não está no capitalismo.
Consumo é você usando uma coisa — dinheiro — para comprar outra coisa. Mas a coisa que você realmente quer não é a coisa: é o significado.
Entender isso transforma seu consumismo numa aula de autoconhecimento.
Cada coisa que você deseja é uma pista sobre você.
Quando você era criança e olhava no espelho, acreditava que a imagem estava no espelho. Demorou um tempo até entender que não estava.
Você fazia careta — a imagem imitava.
Levantava a mão — a imagem imitava.
Mostrava a língua — a imagem imitava.
Até que a relação entre sua ação e a reação da imagem te ensinou: o que você vê no espelho é reflexo seu. Não está no espelho. Está em você.
Você saiu do equívoco.
Há um outro equívoco de espelhamento que você comete mesmo sendo adulto — e do qual não consegue sair: acreditar que o que você pensa e sente em relação ao que está vendo está no que você está vendo.
— Como assim? Claro que está!
Se estivesse, todas as pessoas pensariam e sentiriam o mesmo que você.
As dancinhas do TikTok. Tem gente que adora. Tem gente que detesta. As dancinhas são boas ou ruins? Certas ou erradas? Nem uma coisa nem outra. As dancinhas são as dancinhas.
O bom e o ruim, o certo e o errado, não saem da tela do celular e atingem você, é o contrário, saem de você e ficam refletidos na tela.
Agora vamos à pergunta de um milhão de dólares: por que você conseguiu sair do equívoco do espelho físico, mas não consegue sair do equívoco do celular?
Porque o celular não é um espelho físico. É um espelho psicológico. O celular não reflete seu rosto. Reflete seus pensamentos. Seus valores. Seus medos. Seus desejos.
A função espelho dos objetos não refletem seu corpo, reflete seu desejo e sua personalidade. Por isso é muito mais difícil de perceber.
Mas não é impossível.
Praticando autociência você fica consciente sobre o que é significante e o que é significado. O que surge na tela do celular é significante — sem nenhum significado próprio. O significado que você vê nele é reflexo seu.
Me mostre seu histórico do Instagram e te direi quem você é.
De agora em diante, quando estiver rolando a tela, além de olhar para ela — olhe para quem está olhando. Olhe para o que você está pensando. Para o que está sentindo. Para o que te atrai e o que te repele.
Ao ficar consciente disso, o espelhamento não desaparece. O espelhamento continua — sempre continuará. O que desaparece é a ignorância dele.
E com o fim da ignorância, seu celular ganhará uma nova função:
Professor de autoconhecimento.
A forma como você se relaciona com um objeto não depende apenas do objeto. Depende de como seu desejo se relaciona com ele.
Quando a natureza de um objeto é Imagem e Semelhança com seu desejo — você deseja o objeto. Sente atração. O objeto te chama.
Quando a natureza de um objeto é Imagem Sem Semelhança com seu desejo — você repudia o objeto. Sente repulsa. O objeto te afasta.
Isso é a lei da atração.
Macaco deseja banana — não deseja terra.
Minhoca deseja terra — não deseja banana.
Banana e terra são apenas objetos. Neutros. Sem valor próprio. É o desejo do macaco e da minhoca que os tornam atraentes ou repelentes.
Luiz deseja ser político — não deseja ser jogador de futebol.
Edson deseja ser jogador de futebol — não deseja ser político.
Política e futebol são apenas objetos. Neutros. Sem valor próprio. É o desejo de Luiz e de Edson que os tornam atraentes ou repelentes.
O objeto nunca é o problema.
Nem a solução.
O objeto é apenas o espelho onde você vê sua mentalidade e seu desejo.
Confundir objeto com objetivo gera muito mal viver. E a confusão se manifesta sempre da mesma forma, em dois movimentos opostos que produzem o mesmo resultado.
Quando você ignora a função espelho dos objetos:
Prende os objetos desejados
E vive preso a eles.
Tenta mudar os objetos indesejados
E vive preso a eles.
Dois movimentos. Uma prisão.
Quando você está consciente da função espelho dos objetos:
Liberta os objetos desejados.
E vive livre com eles.
Permite os objetos indesejados.
E vive livre com eles também.
Dois movimentos. Uma liberdade.
Quando Pedro Fala De João
"Quando Pedro fala de João, sei mais de Pedro do que de João."
Esse meme clássico descreve, sem saber, a função espelho.
Quando você olha para uma laranja e entende que é uma fruta chamada laranja — não é você, conscientemente, que está atribuindo esse significado. É seu sistema de crenças fazendo isso por você, automaticamente, antes mesmo que você perceba.
As pessoas, coisas e acontecimentos não têm o significado que você atribui. Têm o significado que sua mentalidade atribui.
Significado não é uma escolha consciente. É uma atribuição mental automática sobre a realidade objetiva. Acontece antes de você pensar. Chega pronta.
Por isso, quando Pedro fala de João — o que você ouve não é João. É o sistema de crenças de Pedro falando de João.
O mesmo acontece quando você fala de qualquer coisa — o que você revela não é a coisa. É a sua mentalidade sobre a coisa.
Praticar auto-observação psicológica e pessoal é olhar para pessoas, objetos e eventos, consciente de que o significado que você está vendo não está lá fora.
Está em você.
No diálogo Hípias Maior, de Platão, Sócrates pergunta ao seu interlocutor:
— O que é o belo?
O diálogo termina sem resposta objetiva. Por quê? Porque beleza é significado. E significado é sempre pessoal, relativo, particular. Nunca objetivo.
Por mais estranho que pareça: não existe beleza no mundo. Só existe mundo.
Uma flor não é bela. Uma flor é uma flor. O canto do rouxinol não é bonito. O canto do rouxinol é o canto do rouxinol.
Os significados que você vê constantemente no mundo não estão no mundo — são projeções da sua mentalidade.
Pegue o celular. Ligue a câmera.
Tudo que você consegue fotografar está no mundo. É significante. Tudo que não consegue fotografar está dentro da sua cabeça. É significado.
Você considera Elvis Presley bonito?
Tente fotografar a beleza do Elvis. Impossível. Você só conseguirá fotografar o Elvis — porque beleza é significado, não significante.
Você considera errado roubar?
Tente fotografar o errado. Impossível. Você só conseguirá fotografar pessoas roubando — porque errado é significado, não significante.
Você considera chocolate gostoso?
Tente fotografar o gostoso. Impossível. Você só conseguirá fotografar o chocolate — porque gostoso é significado, não significante.
É por isso que pessoas diferentes têm significados diferentes no mesmo objeto. O significado não está no objeto. Está dentro da cabeça de cada um.
Entendido isso — tem mais uma camada. O significado que você projeta no mundo está intimamente ligado à cultura em que você foi criado.
Uma vaca, por exemplo.
Para um indiano: religião.
Para um brasileiro: churrasco.
Qual é o significado certo?
Nenhum.
Vaca não é religião. Vaca não é churrasco. Vaca é vaca.
Significado é projeção — cultural, pessoal, mental.
Projetar o significado da cultura em que você foi criado é natural. Inevitável. Não tem nenhum mal nisso. O mal viver começa quando você ignora que é projeção.
Quando você acredita que o significado que está projetando está objetivamente no mundo — e que portanto todas as pessoas deveriam ver o mesmo que você. O outro comete o mesmo equívoco do lado dele. Resultado: mal viver. Conversa de surdo-mudo.
O filme Silêncio mostra isso com precisão.
Para os portugueses — criados numa cultura cristã — a cruz é sagrada. Para os japoneses — criados numa cultura budista — a cruz é um problema.
A cruz é sagrada ou problema?
Nem uma coisa nem outra. A cruz é cruz.
Tente fotografar o sagrado e o problema na cruz.
Impossível. Você só conseguirá fotografar uma cruz — porque sagrado e problema são significados, não significantes.
Para descobrir seu objetivo espelhado no objeto, use o abridor de objetos.
Onde vende?
Lugar nenhum. Vem de fábrica.
O abridor de objetos é a pergunta: para quê?
Quanto mais você se indaga usando o abridor de objetos, mais se aproxima do verdadeiro objetivo.
Veja como funciona na prática.
Seu desejo: jogar futebol.
Para que desejo jogar futebol?
Para fazer exercício físico.
Para que desejo fazer exercício físico?
Para cuidar da saúde.
Para que desejo cuidar da saúde?
Para ter bem-estar.
Pronto.
Objetivo encontrado: bem-estar.
Agora você não precisa mais ficar preso ao objeto "futebol". Pode realizar seu objetivo de bem-estar através de infinitos outros objetos.
Mas cada caso é um caso. Vamos imaginar outra pessoa abrindo o mesmo objeto.
Para que desejo jogar futebol?
Para encontrar meus amigos.
Para que desejo encontrar amigos?
Para conversar.
Para que desejo conversar?
Para socializar.
Para que desejo socializar?
Para me sentir querido.
Pronto.
Objetivo encontrado: valor — afeto.
Mesmo objeto. Outro objetivo.
Toda vez que você usa o abridor de objetos, chega inevitavelmente nos mesmos quatro destinos. Os quatro desejos descritos no livro Quatrix — bem, bom, caro e vero.
Mantenha-se consciente da função espelho.
Procure se lembrar que o significado que você vê no mundo não está no mundo. Está em você.
Sucesso nos seus quatro objetivos.
Narciso saiu da beira do lago, subiu a montanha e veio ao meu encontro.
Ele não era o primeiro. Antes dele, havia outros.
Vinham com os joelhos cheios de terra, os olhos queimados pela luz das cidades, e se sentavam diante de mim.
Eu era. Eu sou. Eu serei.
Estava aqui antes de todos eles chegarem. Antes de decidirem que sou o lugar certo para um homem se encontrar. Eu estava aqui. Úmida, antiga, sem função além de ser o que sou.
Mas nenhum deles me viu.
O primeiro que veio, trazia o pai nas costas. Não literalmente. Trazia-o na rigidez dos ombros, na mandíbula fechada, no silêncio que não era silêncio, mas um velho argumento interrompido há vinte anos e nunca resolvido. Sentou-se em lótus, os olhos abertos na minha direção, e passou três semanas olhando para o pai.
Eu estava ali. Ele não.
O segundo trazia uma mulher. Reconheci pela forma como ele franzia os lábios, o modo como os dedos tocavam o joelho em intervalos regulares e a respiração pesada. Por horas ele a visitou, ali, olhando para mim. Discutiu com ela. Perdoou. Voltou a acusar. Perdoou de novo.
Eu estava ali. Ele não.
Vieram muitos assim.
Traziam guerras, dívidas, filhos, vergonhas antigas. Traziam a memória das tardes de domingo na casa da mãe e o cheiro de feijão. Traziam os vizinhos. A cidade inteira. O barulho do mercado, a fumaça das chaminés, o riso das crianças que eles foram um dia. Sentavam e viajavam. Eu era uma máquina do tempo, que às vezes os levava de volta ao passado e outras vezes ao futuro. Dentro de mim, iam e voltavam, sem sair do lugar.
Eu era a tela em branco sobre a qual projetavam a vida que acreditavam ter deixado do lado de fora. Mesmo vazia, estava sempre cheia. Mesmo minúscula, continha mundos inteiros. Tantos quantos eram trazidos para dentro de mim.
Então, veio Narciso.
Ele também entrou acreditando estar despido das praças, das vozes, dos olhos que o seguiam nas cidades como dívidas não pagas. Também acreditando que bastava entrar dentro de uma caverna para que o mundo ficasse do lado de fora.
Seu mundo, porém, entrou com ele. Nas solas dos sapatos gastos pela correria da cidade. No cheiro educado de perfume espalhado pela camisa.
Cada figura que Narciso projetava nas paredes era uma prova do quanto o mundo havia entrado nele assim como ele havia entrado em mim.
Os dias não têm nome dentro de mim. O sol alcança em certo ângulo até a metade, mas não se sabe se é domingo ou dia útil, se passou uma semana ou um mês. O tempo do calendário pára. E no lugar dele, fica um tempo estranho, espesso como o oceano, que não anda para frente nem para trás, mas aprofunda.
E na profundidade, Narciso encontrou multidões.
Fui paciente. Sou pedra. Paciência é minha natureza mais bruta.
Observei Narciso me observando até os dias perderem os nomes.
O homem que está entre outros homens sempre tem para onde fugir. Mas o homem diante de uma parede não tem saída. Cada vez que Narciso me olhava, mesmo não me vendo, eu estava aqui. Óbvia. Imóvel. A mesma.
Gradativamente, Narciso aprendeu com isso. Não porque ensinei, mas porque a pedra não cede. Aprendeu que o homem que foge do mundo para se conhecer carrega o mundo como a tartaruga carrega a concha.
Foi então que reconheci algo diferente em Narciso. Não na postura. Era igual, lótus, coluna, olhos abertos. Não na respiração. Era a mesma de sempre, lenta, deliberada, o esforço visível de quem tenta transformar o corpo num instrumento. O que era diferente estava em outra coisa. Uma qualidade de visão que eu não sabia nomear até então porque nunca a havia encontrado nele.
Narciso olhava para mim.
Não para o pai. Não para a mulher perdida. Não para a cidade, a guerra, a vergonha.
Para mim.
Ao perceber isso, cheguei até a ficar tímida. Me senti nua.
Narciso retirou de mim o que em mim nunca esteve: o mundo, as pessoas, as filosofias, os afetos e os desafetos. Passei a existir para Narciso como existo para os pássaros que se abrigam em mim durante a chuva.
Foi uma sensação estranha ser vista pela primeira vez.
Narciso veio aprender com meu vazio, e aprendeu.
Foi difícil. Nada requer maior discernimento do que ficar de frente ao espelho e se tornar capaz de enxergar o espelho em si, além do espelhamento. Mas finalmente Narciso aprendeu a me ver sem se ver em mim.
E nesse dia, após ter passado seis horas inteiras apenas comigo, Narciso levantou-se. Não havia mais nada que eu pudesse lhe dar que ele não pudesse agora encontrar em qualquer lugar.
Olhou para mim pela última vez. Sem gratidão. Com o olhar de quem reconhece um igual. Pedra olhando para homem olhando para pedra.
Narciso saiu de mim.
Desceu a montanha em processo de destilação. Feito água de chuva batendo em cada pedra até chegar na planície.
Voltou ao mundo do qual os homens nunca saem — por serem homens — e no qual as pedras nunca entram — por serem pedras.
Eu fiquei. Como sempre fico. Aberta para o próximo homem que subirá a montanha e entrará em mim acreditando que deixou o mundo do lado de fora.
Vou recebê-lo da mesma forma. Vazia. Em silêncio.
Esperando o momento em que, após me encarar durante meses, me veja pela primeira vez, pelo que sou, um buraco na pedra, e nada mais.
Os discípulos levam o velho mestre para o restaurante. A ideia é simples: testar aquela sabedoria que o tempo poliu.
Está tudo combinado.
Sob o teto baixo do restaurante, o garçom, cúmplice, serve sopa a todos os discípulos — mas nunca ao mestre.
Os pratos fumegam, as colheres tilintam, e o velho permanece ali, silencioso, observando o vapor subir das tigelas alheias.
Pratos limpos, palitos de dente em ação, todos prontos para irem embora. O mestre levanta o braço e chama o garçom. Com uma voz serena, de pura constatação, diz ao homem do avental:
— Meu filho, aqui não caiu nem um pingo de sopa.
O garçom, cumprindo sua parte no teatro, responde com desdém:
— Afff! Está caduco, velhote! Lhe servi sopa três vezes!
Há um silêncio na mesa, daqueles de entortar colher na Matrix. O mestre dá um sorriso de canto de boca, ajeita o guardanapo e, com a calma da Oráculo fazendo biscoito, responde:
— Puxa vida, é verdade. Memória fraca. Coisa da idade. Mas a sopa está tão deliciosa que vou aceitar ser servido uma quarta vez.
Você prefere ter razão ou tomar sopa?
Foca na sopa.
Foca na autorrealização.
Prefira ser feliz.