Democracia Universal
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Democracia não é uma forma de governo, é uma forma de aprendizagem. Democracia são todos aprendendo o que é melhor para todos através do erro de todos. Democracia é uma escola. Esse livro é a matrícula.
Procure algum instante em seu viver que não seja convivência.
Consegue encontrar algum?
Subir é você convivendo com a escada.
Dirigir é você convivendo com o carro.
Respirar é você convivendo com o ar.
Comer é você convivendo com a comida.
Pensar é você convivendo com os pensamentos.
Sentir é você convivendo com as emoções.
Trabalhar é você convivendo com o cliente.
Namorar é você convivendo com o namorado.
Conversar é você convivendo com o interlocutor.
Guerrear é você convivendo com o inimigo.
Você não consegue encontrar nenhum instante em seu viver que não seja convivência, porque você não vive, você convive.
Retire o outro do seu viver e que viver sobra para você viver? Nenhum.
Viver é você (um) convivendo com o outro (um).
Seja para onde você for, perto ou longe, você estará convivendo com o outro.
Esteja você no ambiente em que estiver, sólido, líquido ou gasoso, você estará convivendo com o outro.
Seja quando for, hoje ou amanhã, você estará convivendo com o outro.
Até para se isolar do outro você precisa estar convivendo com o outro, senão, você vai se isolar de quem?
Não tem como fugir da convivência.
Viver é conviver.
Não existe independência, o que existe é autonomia.
Você confunde independência com autonomia.
Quando você diz que é um indivíduo independente, o que está querendo dizer é que você é um indivíduo com autonomia.
Independência é a suposição de uma parte separada do todo, que não participa do todo.
Isso é um equívoco.
Uma parte só é parte porque participa do todo.
Parte é pedaço do todo.
Se é parte, não está separado do todo.
Se é parte, não é independente do todo.
Se é parte, participa do todo.
Autonomia é a liberdade particular de gerir a própria experiência através do arbítrio.
Autonomia significa que você é parte do todo, mas é uma parte que tem liberdade de gerir a própria experiência através do arbítrio.
Não existe independência, o que existe é interdependência.
O que é interdependência?
Interdependência é o estado existencial onde todas as partes do todo interferem em todas as partes do todo através do arbítrio.
Simplificando:
Você afeta os outros e os outros afetam você.
Você é um ser.
Os outros são todos os seres do universo.
Todos significa: sem exceção.
Então, a interferência dos outros em você não se restringe apenas a interferência dos outros seres humanos, mas de todos os seres do universo.
Claro que você não percebe que está em constante interdependência com todos os seres do universo.
Mas está.
Agora e sempre.
Democracia universal é a forma como o universo funciona.
Que forma é essa?
TODOS PODEM TUDO.
Livre arbítrio para todos.
Assim como você é livre para optar, e ninguém pode retirar sua liberdade de optar, o mesmo ocorre para todos os seres do universo.
Você está, agora e sempre, optando junto com todos os seres do universo.
Então, nenhuma circunstância resulta só do seu arbítrio, resulta do arbítrio momentâneo de todos os seres do universo, resulta do arbítrio coletivo.
Só existe jogo onde existe imprevisibilidade.
Pense em qualquer jogo que você conhece e observe que ele é baseado na imprevisibilidade.
Mas onde está a imprevisibilidade de um jogo se todo jogo é um conjunto de regras fixas?
Pegando o xadrez como exemplo, as pedras brancas não ficam pretas e as pretas não ficam brancas, isso é previsível.
O quadriculado não muda, isso é previsível.
Como as peças se deslocam também não muda, também é previsível.
Se tudo em um jogo de xadrez é previsível, cadê a imprevisibilidade?
A imprevisibilidade transcende as regras do jogo.
Como assim?
Imagine que você decida jogar xadrez sozinho.
O que irá acontecer?
De um lado você mexe as peças pretas, do outro lado você mexe as peças brancas.
Quem irá ganhar o jogo?
Ninguém, o jogo ficará empatado.
Por quê?
Porque sendo que seu adversário é você mesmo, você consegue prever as jogadas de ambos os lados.
O que isso significa?
Que a imprevisibilidade de todo jogo está no arbítrio do jogador.
O mesmo acontece com a vida.
As regras do jogo são fixas e previsíveis.
Todo dia os seres humanos acordam e continuam sendo humanos, exatamente como foram ontem e como serão amanhã.
Mas as decisões que cada um toma no jogo não fazem parte das regras do jogo, fazem parte do ato de jogar que é o ato de decidir (arbítrio).
O arbítrio do jogador é a vida do jogo.
Sem arbítrio não há jogo, só há regras.
Pense, por exemplo, que só existem sete notas musicais no jogo da música.
Agora pense em quantas músicas diferentes existem feitas com as mesmas sete notas.
De onde vem tanta diversidade e riqueza musical?
Vem do arbítrio dos jogadores (músicos).
Contudo, entretanto, todavia e porém, não falta guru espiritualista e ignorante para espalhar o equívoco de que você não tem arbítrio.
Escolha deles acreditar nesse equívoco, mas não precisa ser escolha sua.
Tudo pode.
Interlocutor: Como assim, tudo pode?
Exatamente assim como é.
Interlocutor: Tudo tudo tudo mesmo?
Tudo mesmo! Tudo, tudo, tudo.
Interlocutor: Violência pode???
Pode! Tudo pode! Se não pudesse, seria impossível.
Interlocutor: Roubar, mentir, estuprar, matar, torturar, pode????
Pode! Tudo pode!
Interlocutor: Socooooooorro! Deus nos ajude!!!!!
Não tem deusoutro para ajudar: nós somos deus.
Interlocutor: Somos deus usando muito mal o arbítrio.
Exato. Ignoramos como usar bem, então, usamos mal.
Interlocutor: Como usar bem?
Com autoconhecimento.
Interlocutor: Como adquirir autoconhecimento?
Praticando autociência.
Interlocutor: Por que você iguala viver bem com realização do desejo?
Essa interpretação está equivocada. O que explico é que para viver bem você deve viver em acordo com seu desejo. Outra coisa é que você só tem um desejo. Então, para você entender a explicação sobre viver em acordo com o desejo, primeiro você deve entender que único desejo é esse.
Interlocutor: Que único desejo é esse?
Auto-realização. Você deseja ser você. Só isso. Sempre isso. Nada além disso.
Interlocutor: Mas eu já sou eu!
Sim, mas você não vive sendo você, você vive sendo outro. Chamo isso de outroísmo.
Interlocutor: Sofrimento é quando vivo outroísta?
Exato! Você precisa experimentar algo que lhe alerte para o outroísmo, esse algo são as emoções desagradáveis (sofrimento).
Interlocutor: Tenho muitos desejos, mas meu objetivo é sempre satisfação. Só que satisfação sempre acaba. Volto a ficar insatisfeito. Como resolver isso?
Entendendo que isso não tem solução. Que é assim mesmo. Fome não tem cura. Quando você entende que fome não tem cura, você desiste de tentar chegar no fim da viagem e direciona seus esforços para viajar bem. Viver bem inclui lidar bem com a insatisfação.
Interlocutor: Qual é a diferença entre viver em acordo com o desejo e satisfazer o desejo?
Primeiro me diga: por que você quer satisfação?
Interlocutor: Quero satisfação porque é agradável.
Agradável = bom, então, você quer o bom.
Interlocutor: Isso, quero o bom!
Agora já dá para responder sua pergunta. Viver em acordo com o desejo é viver em acordo com o que é bom para você. Satisfazer o desejo é ter uma experiência boa, que começa e termina.
Interlocutor: Estou aguardando o ônibus atrasado. Esse atraso tem como consequência a perda de um compromisso importante. Finalmente surge o ônibus. Faço sinal. Mas o motorista não para. E ainda passa numa poça e joga água em mim. Fico molhado e sujo de barro. Nessa circunstância, como posso viver em acordo com o que é bom para mim?
Optando por isso. Viver em ou sem acordo com o que é bom para você só depende de você optar.
Interlocutor: No caso do ônibus, optei pelo bom, mas experimentei o ruim.
As circunstâncias não se desdobram apenas do seu arbítrio, se desdobram do arbítrio coletivo.
Interlocutor: Então, viver em acordo com meu desejo não garante a realização do meu desejo?
Sim! Isso mesmo!
Interlocutor: Qual a relação entre outroísmo e sofrimento?
(01) Você experimenta emoções desagradáveis quando o arbítrio coletivo lhe desfavorece. Você sente raiva, por exemplo.
(02) Você experimentando emoções desagradáveis é você sofrendo.
(03) Você tem duas opções:
VIVER AUTOÍSTA / JOGO DA LIBERDADE: Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, usar seu arbítrio para influir nas circunstâncias a favor do que é bom para você.
VIVER OUTROÍSTA / JOGO DO CONTROLE: Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, tentar controlar o arbítrio do outro.
(04) Optar pelo JOGO DO CONTROLE é tentar proibir a democracia.
(05) É impossível proibir a democracia.
(06) Sendo impossível, quanto mais você persiste, mais você fracassa.
(07) Quanto mais você fracassa, mais você sofre.
(08) Então, optar pelo JOGO DO CONTROLE é perpetuar o sofrimento.
Interlocutor: Mesmo optando pelo JOGO DA LIBERDADE, ainda assim pode acontecer do arbítrio coletivo não me favorecer e gerar sofrimento. Então, qual é a diferença entre optar pelo JOGO DA LIBERDADE ou JOGO DO CONTROLE?
A diferença é que no JOGO DA LIBERDADE você lida bem com o seu sofrimento e com as circunstâncias (vive bem), no JOGO DO CONTROLE você lida mal com o sofrimento e com as circunstâncias (vive mal).
Interlocutor: É possível jogar o jogo da liberdade e ainda assim não conseguir o que quero?
Claro! Aliás, se o seu objetivo for conseguir o que quer ao invés de viver bem, você deve jogar o jogo do controle e não o jogo da liberdade.
O jogo da liberdade vai dificultar você conseguir o que quer.
Jogo da liberdade não é para você conseguir o que quer, jogo da liberdade é para você viver bem e conviver bem.
O que não exclui você conseguir o que quer.
Interlocutor: Então, posso viver a vida inteira sem conseguir o que quero?
Sim, correto.
Interlocutor: E ainda assim viver bem?
Sim, correto.
Imagine uma eleição.
Milhares de pessoas votam.
Qual é o resultado?
Interlocutor: A somatória dos votos.
Exato. Isso significa que o resultado de uma eleição não depende só do voto de um eleitor depende do voto de todos.
O que você chama de "vida" é igual uma eleição, depende do arbítrio (voto) de todos os viventes. Para que você pudesse ter vida boa, sempre, garantidamente, a vida teria que ser resultado único e exclusivo do seu arbítrio.
Seu arbítrio teria que ser absoluto e se sobrepor ao arbítrio de todos os seres do universo.
Mas não é assim que a vida funciona.
A vida não é uma ditadura, a vida é uma democracia.
Por isso não existe vida boa.
Você é incapaz de controlar o arbítrio (voto) dos outros.
Interlocutor: Por que você diz que não existe injustiça?
Para existir injustiça precisaria existir acaso (aleatoriedade). Mas não existe. Realidade é estado atual determinado pelo arbítrio.
Interlocutor: As circunstâncias da vida são aleatórias, não?
São imprevisíveis e não aleatórias.
Se vamos tirar par-ou-ímpar, o resultado é imprevisível — pois eu não sei quantos dedos você vai colocar e você não sabe quantos dedos eu vou colocar – mas não é aleatório, pois o resultado é consequência do nosso arbítrio.
Interlocutor: Não sei se entendi. Pode explicar melhor.
Eu e você tiramos par ou ímpar. Eu ganho. Por que ganhei e você perdeu?
Interlocutor: Foi sorte sua.
Não, eu ganhei porque escolhi par e escolhi colocar um dedo. Você perdeu porque escolheu ímpar e escolheu colocar um dedo também.
Minha escolha, somada a sua, determinou minha vitória. Se você tivesse feito escolhas diferentes, você teria ganho e eu perdido.
Entendeu?
Realidade não é produto do acaso, é produto do arbítrio.
Interlocutor: Mas eu não sei o que meu oponente vai escolher antes de fazer minha escolha, eu escolho no escuro, em estado de ignorância.
E vice-versa! Seu oponente também não sabe o que você vai escolher, também escolhe no escuro. Criação de realidade é cocriação no escuro.
O arbítrio de cada um determina o resultado e um não sabe qual é a escolha do outro.
Interlocutor: É o desconhecimento de todos os arbítrios que cria a aparência de acaso?
Exatamente!
Você é um ser universal e está jogando par ou ímpar com o universo inteiro.
Nada é por acaso.
Cada instante de realidade que você experimenta é determinado pelo arbítrio de todos os seres do universo. Sabe quantos seres tem no universo?
Interlocutor: Não! Infinitos?
Também não sei, mas só no planeta terra são 8 bilhões de seres humanos e os seres humanos não são os únicos seres do universo.
Interlocutor: Vixi! São muitos seres!
E você só tem como saber do seu arbítrio e só pode controlar seu arbítrio, não tem como saber e controlar o arbítrio dos outros.
Interlocutor: Então, já perdi!
Não, porque os outros também não tem como saber e controlar seu arbítrio.
Interlocutor: E o que eu faço?
Faça sua escolha.
O que você quer? Par ou ímpar?
Azul, verde, vermelho ou amarelo?
Pedra, tesoura ou papel?
Cara ou coroa?
Amor ou ódio?
Bem viver ou mal viver?
Autoísmo ou outroísmo?
Opte pelo que deseja.
Interlocutor: E depois?
Experimente o resultado.
Interlocutor: E se eu perder? Se eu optar por amor e o resultado for ódio.
Escolha novamente.
Opte novamente pelo que deseja.
Interlocutor: Entendi.
— Capitão, capitão, acorda!
— O que foi?
— Tem um navio vindo em nossa direção.
— Diga para o navio desviar.
— Já dissemos e ele não desviou.
— Vou dizer eu mesmo!
O capitão vai até a torre de comando:
— Atenção, navio desconhecido, desvie 20 graus estibordo, imediatamente!
— Desvie você 20 graus estibordo, imediatamente! — diz a resposta.
Não acredito! Pensa o capitão irritado e envia outra mensagem:
— Aqui é Horácio Alcântara Neves Pimentel, primeiro capitão da Marinha Real. Ordeno que desvie 20 graus estibordo, imediatamente.
— Aqui sou eu e desvie você 20 graus estibordo.
Que palhaço! Somos um navio de guerra! Podemos explodi-lo! Pensa o capitão e envia uma mensagem final:
— Aqui é do navio de guerra Missouri Flagship, patente OBTLA56. Ordeno pela última vez. Desvie 20 graus estibordo imediatamente ou vamos disparar um míssil contra seu navio.
Chega a resposta:
— Aqui é do farol.
Democracia não é uma forma de governo, é uma forma de aprendizagem.
A bola de basquete não aprende a cair dentro da cesta porque a bola não erra a cesta, quem erra a cesta é o arremessador.
Democracia é arremesso coletivo.
Democracia são todos aprendendo o que é melhor para todos através do erro de todos.
Democracia é a escola da interdependência.
Claro que nessa escola, os alunos lúcidos pagam a conta dos equívocos dos alunos ignorantes, mas sendo lúcidos, sabem que se aprendizagem custa caro, mais caro é continuar na ignorância.
Interlocutor: O arbítrio do outro atrapalha minha vida. Como fica isso?
Seu arbítrio também atrapalha a vida do outro. Empatou! Por que você pode atrapalhar a vida dos outros e os outros não podem atrapalhar a sua? Por que você teria esse privilégio? E quem lhe daria esse privilégio?
Democracia universal significa direitos iguais. Você tem o direito de interferir na vida do outro e vice versa. A qualidade dessa interferência depende do nível de autoconhecimento.
Se você quer oferecer uma boa interferência, desperte a consciência e produza autoconhecimento. Se quer receber boa interferência, ajude o outro a despertar a consciência e produzir autoconhecimento.
Interlocutor: E por que mesmo fazendo tudo certo dá tudo errado?
Tem uma história famosa no futebol sobre isso.
O técnico da seleção brasileira, num jogo de copa do mundo contra a Rússia, explicou para o jogador Garrincha tudo que ele deveria fazer para seleção brasileira marcar um gol no time da Rússia.
— Você pega a bola na lateral, dribla os russos que vierem para marcação, chega até a linha de fundo e cruza a bola para dentro da área que é gol".
Garrincha ouviu as instruções e perguntou ao técnico:
— E você combinou isso com os russos?
Você precisa fazer sua parte, senão, nada acontece. Você precisa colocar em prática uma estratégia de realização do seu desejo.
Só que os russos também querem ganhar o jogo, ou seja, os outros também estão fazendo opções a favor dos seus interesses. Por isso, mesmo você fazendo tudo certo, pode dar errado. É a democracia universal em curso.
Se Jean-Paul Sartre tivesse entendido isso, ao invés de dizer "o inferno são os outros", teria dito "o inferno é a democracia".
O mestre deixa uma tarefa para seu discípulo antes de viajar:
— Sabe aquela pedra enorme que fica atrás da casa? Quero que você acorde cedo e empurre-a o dia inteiro. Faça chuva ou faça sol, nunca pare de empurrá-la. Empurre-a com toda sua força e toda a sua vontade.
No dia seguinte, o discípulo acordou cedo e começou a empurrar a pedra.
Só que a pedra era muito grande e não se movia.
No dia seguinte, empurrou mais forte.
Nada da pedra se mover.
No dia seguinte, empurrou mais forte ainda.
Todo dia o discípulo empurrava a pedra com mais força, só que a pedra não se movia.
Depois de passar três anos empurrando uma pedra que não se movia e sem notícias do seu mestre, o discípulo concluiu que seu esforço havia sido em vão e desistiu da tarefa.
No dia seguinte, o mestre voltou de viagem.
Já era quase meio dia e o discípulo ainda estava dormindo.
O mestre acordou o discípulo e questionou:
— Esqueceu da tarefa? Por que não está empurrando a pedra como lhe pedi?
O discípulo respondeu:
— Passei três anos empurrando aquela pedra, de manhã até de noite, com todas as minhas forças, cada vez mais forte, só que a pedra não se moveu um milímetro sequer. Por isso, desisti.
O mestre disse ao discípulo:
— Você entendeu errado a tarefa. Eu não pedi para que você movesse a pedra, pedi para que a empurrasse. Olhe para você! Seus braços estão fortes e musculosos. Suas costas estão largas. Suas mãos estão curtidas. Suas pernas se tornaram firmes. Tudo isso porque você se exercitou empurrando a pedra. De que vale mover uma pedra? Não vale nada! Mas você se desenvolveu, se superou e se auto-realizou. Isso sim é valioso.
Essa metáfora ilustra um equívoco que você vem cometendo desde sempre. Você tem gratidão pelas portas abertas, por tudo de bom e por tudo que deu certo na sua vida, mas tem mágoa das portas fechadas, de tudo de ruim e de tudo que deu errado.
Deveria ser o contrário.
Portas abertas é vida boa, vida sem ruim, sem infortúnio, sem problemas.
Vida boa só serve para criar pessoas preguiçosas, tolas e mimadas. Pessoas incapazes de resolver problemas, incapazes de lidar bem com frustrações, infortúnios, rejeições, contrariedades e mosquitos. Pessoas incapazes de viver bem quando a vida está ruim.
Vida boa não te faz levantar e andar, pelo contrário, te mantém engatinhando no chão feito neném. É o ruim que te faz ficar bom.
Maestria não é um produto de portas abertas, é produto de portas fechadas.
Basta você olhar para qualquer competência sua e verá que é fruto de portas fechadas.
Porta aberta te fecha, porta fechada te abre.
Demora um tempo para você entender isso.
E, enquanto não entende, vive na lamúria e na mágoa, reclamando das portas fechadas e das pedras no meio do caminho. Acreditando que portas fechadas são castigo, azar, etc.
Quando você entende que portas fechadas são uma benção: fim da mágoa.
Você cai de joelhos arrependido da sua ignorância e acende velas de gratidão para cada uma das portas que lhe foram fechadas.
Nesse dia, finalmente, a porta do bem viver se abre para você.
Se você quer mudar o outro: sua esposa, seu marido, seus filhos, seu pai, sua mãe, seus amigos, seus inimigos, o vizinho, sua sociedade, etc.
Meu conselho é que desista.
Você está numa missão impossível.
Você vai morrer tentando sem jamais conseguir.
Se fosse possível mudar o outro, o outro não seria outro, seria você.
Se você quer mudar sua realidade, resolver seus problemas, realizar suas capacidades, melhorar suas habilidades e comportamentos, mas está fracassando, troque o ponto final pela vírgula e acrescente a palavra "ainda". Eu não consegui, ainda.
Não existe fracasso, tudo é aprendizagem.
Fracasso é o laboratório do êxito.
Tente! Teime! Insista! Persista!
Tente outra vez!
De novo!
O impossível não é maior que seu poder de inventar outra opção.
Ou você consegue, ou você aprende.
Os órgãos começaram uma discussão sobre qual deles era o mais importante no corpo humano. Cada órgão dava suas razões para ser o mais importante.
— Eu sou o mais importante! — determinou o cérebro. — Eu sou aquele que pensa em tudo e comanda todos os outros!
O coração tratou de reivindicar o primeiro lugar em importância.
— O mais importante sou eu! — disse o coração. — Eu que bombeio o sangue para todos.
— Cala a boca, coração! — Os rins se manifestaram e falaram em uníssono. — Você não sabe o que está falando! Somos nós que filtramos o sangue que você bombeia. Se não fosse por nós, você e o cérebro estavam lascados.
— Calma lá! — disse o intestino — Se não fosse por mim, quem iria eliminar aquilo que não serve para o corpo? O mais importante sou eu!
Então, o cu se manifestou:
— Eu sou o mais importante!
A gargalhada foi geral.
O cérebro foi o primeiro a sacanear...
— Tá maluco? — disse o cérebro — Você só faz merda!
Todos riram.
O cu ficou invocado com a humilhação e se fechou de um jeito que não passava nem agulha. Nada de dentro para fora e nada de fora para dentro.
No primeiro dia, ninguém sentiu nada com a greve do cu.
No segundo dia, o cérebro já não parava de pensar no que fazer.
No terceiro dia, o intestino começou a entrar em colapso por causa da superlotação.
No quarto dia, o coração começou a disparar.
No quinto dia, o corpo foi ficando amarelo e os órgãos, um a um, foram entrando em pane. E o cu ali, fechadinho.
No sexto dia, já estavam todos implorando para o cu abrir só um pouquinho.
O intestino chorava compulsivamente, o coração começou a sentir os efeitos da pressão, o cérebro entrou em paranoia, as pernas já não obedeciam, até que alguém gritou:
— Ok, cu, você também é importante! Agora alivia!
O cu se abriu.
E todos entenderam a interdependência.
🎬 Assistir: Trecho do filme Ponto de Mutação
Transcrição:
Político: — Você está dizendo que a economia não funciona porque os economistas usam conceitos ultrapassados da física clássica?
Cientista: — Estou dizendo que a forma como pensamos o mundo está descompassada da realidade biológica e ecológica. Veja a ideia de crescimento econômico ilimitado. Nenhum sistema vivo cresce indefinidamente sem destruir o ambiente ao seu redor ou a si mesmo. Na biologia, crescimento descontrolado e sem limites tem um nome: câncer.
Político: — Mas a economia precisa crescer. Sem crescimento, as empresas quebram, o desemprego sobe, a sociedade entra em colapso.
Cientista: — Isso porque a economia foi construída sobre uma premissa anti-sistêmica: extrair recursos finitos, produzir, consumir e descartar resíduos, tratando o planeta como se fosse uma fonte inesgotável e uma lata de lixo sem fundo.
Cientista: — A natureza funciona de maneira completamente diferente. Ela é organizada em redes. Isso é o que chamamos de teia da vida. Nela, não existe lixo: o resíduo de um organismo é o alimento de outro. Tudo é reciclado em ciclos fechados de matéria e energia. Há uma interdependência essencial onde a parte só existe em relação ao todo.
Artista: — O problema é que nós nos acostumamos a olhar as árvores isoladas e esquecemos que a floresta é um único organismo vivo.
Cientista: — Exatamente, Thomas. Desde Descartes e Newton, passamos a ver o mundo como partes independentes ao invés de interdependentes. Mas o mundo é uma teia complexa de relações. Quando você puxa um fio aqui, tudo o mais vibra em outro lugar.
Cientista: — A crise ecológica, a pobreza, os problemas de saúde pública e os impasses econômicos não são problemas isolados, são manifestações diferentes de uma mesma crise fundamental de percepção. Enquanto tentarmos resolver problemas sistêmicos e interdependentes com pensamento de partículas independentes, continuaremos criando mais desastres do que soluções.
A cientista arremessa uma pedra na água.
Cientista: — Eu poderia usar as equações de Newton para calcular e explicar cada movimento desse arremesso, desde a curva balística até as ondulações na água.
Cientista: — Veja bem, esse foi um feito tão impressionante para a época que o sistema matemático de Newton se consolidou imediatamente como a teoria correta da realidade, as leis definitivas da natureza. O sonho de Descartes de um mundo como uma máquina perfeita tornava-se agora um fato estabelecido. Isso trouxe consigo uma infinidade de benefícios para as pessoas. Elas puderam realizar coisas que nunca tinham sido capazes de fazer antes. Foi algo irresistível. E, naturalmente, as noções antigas do mundo como um organismo vivo foram varridas para longe.
Político: — Então qual é o problema com Newton?
Cientista: — Enquanto você continuar enxergando as coisas através dessa velha lente cartesiana e newtoniana, você vai deixar de compreender o que o mundo realmente é. Você, nós, todos precisamos de uma nova visão de mundo, e precisamos de uma ciência mais abrangente e inclusiva para nos respaldar. Há uma nova teoria despontando agora, que reúne todos os conceitos ecológicos que estivemos debatendo em uma única estrutura científica e coerente. Nós a chamamos de teoria dos sistemas vivos.
Político: — Sistemas vivos?
Cientista: — Todos os organismos vivos, assim como sistemas sociais e ecossistemas. Essa teoria nos ajudaria a ter uma compreensão muito mais sólida sobre as ciências que lidam com a vida.
Politico: — Essas são todas ideias suas ou outras pessoas também compartilham delas? Quero dizer, isso já foi aplicado na ciência em algum lugar?
Cientista: — Será que eu sou uma lunática? Tudo bem, senador. Isso é ciência de verdade. E muitos cientistas, inclusive alguns ganhadores do Prêmio Nobel, vêm trabalhando nessas ideias. Prigogine, Bateson, Maturana, apenas para citar alguns. Sim, é ciência. Mas de um tipo novo. Em vez de se concentrar nos blocos fundamentais independentes, a visão sistêmica se concentra nos princípios de organização. Em vez de coisas isoladas, ela olha para o sistema como um todo interdependente.
Político: — Como é possível pensar de maneira prática dessa forma holística? É isso que eu não consigo ver. Você pode contemplá-las, pode olhá-las, como diz o Thomas. Mas se você quiser fazer algo, se quiser entrar em detalhes específicos, por definição, você não precisa isolar?
Cientista: — Um cartesiano olharia para uma árvore e a veria isoladamente. E daí ele nunca entenderia de verdade a essência da árvore. Um pensador sistêmico olharia para a árvore e veria a troca sazonal entre árvore e terra, terra e céu. Veria o ciclo anual, que é, na verdade, uma grande respiração que a Terra dá por meio de suas florestas, fornecendo oxigênio para nós. Um sopro de vida, ligando a terra ao céu, a nós, e ao universo.
Cientista: — Um pensador sistêmico olharia para uma árvore e enxergaria a vida da árvore apenas em relação à vida de toda a floresta. Veria a árvore como um habitat para os pássaros, um lar para os insetos.
Cientista: — Se você olhar para uma árvore tentando compreendê-la como algo isolado, você ficará perplexo com os milhões de frutos que ela produz ao longo da vida, já que apenas uma ou duas árvores irão nascer desses frutos. Agora, se você olhar para a árvore e a enxergar como membro de um sistema vivo muito maior, essa abundância de frutos fará sentido, porque centenas e centenas de animais e pássaros da floresta sobreviverão graças a eles.
Cientista: — Interdependência.
Cientista: — E a árvore também não consegue sobreviver sozinha. Para extrair água do solo, ela precisa do fungo que cresce na ponta de cada raiz. E o fungo precisa da raiz para sobreviver, e a raiz precisa do fungo. Se um morre, o outro também morre.
Cientista: — E existem milhões de relações como essa no nosso mundo, cada uma dependendo da outra para viver. A teoria dos sistemas reconhece essa teia de relações como a essência de todos os seres vivos. Apenas os desinformados chamariam tal noção de ingênua ou romântica, porque essa dependência que todos nós compartilhamos é um fato científico.
Político: — Uma teia de relações.
Cientista: — Sim. Mas desta vez, é a própria teia da vida.
Nasci em um grupo chamado família. Tive vários grupos de amigos. Estudei em grupos escolares. Participei de grupos musicais, grupos de teatro, grupos de internet, times de futebol, equipes de trabalho, etc. E se não bastasse isso, há 20 anos coordeno grupos de autoconhecimento.
Minha experiência com grupos é vasta.
E sendo estudioso do comportamento humano, depois de sofrer muito com a convivência humana, um dia descobri qual é a origem da má convivência em grupos.
O motivo é tão óbvio, mas tão óbvio, que não acreditei que demorei tanto tempo para percebê-lo.
A causa da má convivência nos grupos é que grupos não são grupos.
Junte 10 pessoas dentro de uma sala. Você formou um grupo? Tem um grupo dentro da sala?
Não! Tem 10 pessoas dentro de uma sala.
Só isso!
Um grupo de pessoas não são um grupo, são apenas um amontoado de pessoas.
Esse é o problema de todo grupo, só tem nome de grupo, não tem comportamento de grupo.
Para deixar o problema dos grupos mais visível ainda, vamos aumentar o número de pessoas e a sala.
Junte 8 bilhões de seres humanos dentro de um planeta.
Você formou um grupo?
Temos uma coletividade?
Não! Temos 8 bilhões de seres famintos, individualistas, ignorantes, lutando a guerra do todos contra todos.
Quando um jogador faz um gol, acreditamos que quem fez o gol foi só aquele jogador. Foi fulano que chutou a bola, então, foi fulano que fez o gol.
Mas como a bola chegou até fulano?
Foi fulano que jogou o jogo inteiro sozinho até aquele momento de fazer o gol?
Claro que não!
Fulano fez a parte dele no jogo. E fez muito bem feito, marcou o gol. Mas nenhum jogador faz tudo sozinho em um time.
Tudo em um time é um trabalho de equipe.
Para bola chegar no pé do fulano e ele fazer o gol, é preciso todo um trabalho de equipe. Todos os jogadores do time precisam trabalhar conjuntamente e com o mesmo objetivo.
O mesmo acontece com todo e qualquer trabalho coletivo.
Participar de um trabalho coletivo é como ser jogador de um time. Seu comportamento não depende só de você, depende simultaneamente de você e de todos os integrantes do trabalho.
Pense no seu corpo e nos órgãos.
Seu coração, por exemplo, pode bombear o sangue sozinho?
Sim e não.
Sim, porque essa é a função do coração. E não, porque não é o coração que conduz o sangue até o coração, são as veias. E não são as veias que produzem o sangue, é a medula óssea.
E assim por diante.
Nenhum órgão no corpo consegue fazer o trabalho do coração.
Isso é individualidade.
Cada órgão tem uma natureza, uma função, uma singularidade.
Mas o coração não consegue fazer seu próprio trabalho individual sem que todos os órgãos façam também e simultaneamente o trabalho individual deles.
Isso é individualidade com cooperação, trabalho coletivo.
Em um trabalho coletivo, a individualidade é fundamental para o benefício de todos, quanto melhor cada participante executa sua participação, melhor para todos.
Mas o individualismo é prejudicial para todos.
Imagine que o coração decidisse bombear sangue de segunda a sexta e dormir no sábado e no domingo. O que aconteceria no primeiro final de semana após essa decisão? O corpo inteiro morreria. E o coração? Morreria junto.
Individualismo é a crença de que você é independente.
Isso é um equívoco.
Você é um indivíduo e tem autonomia, mas sendo que você faz parte, então, não é independente, é participante de um coletivo, integrante de um todo interdependente.
Em uma coletividade a qualidade da sua manifestação depende da qualidade da manifestação coletiva e a qualidade da manifestação coletiva depende da qualidade da sua manifestação.
Todos ganham com a individualidade de todos, mas todos perdem com o individualismo de cada um.
Essa é a diferença entre um time e um amontado de indivíduos.
No individualismo, cada um se pergunta: "O que todos pode fazer para me beneficiar?". Em um time, que é um trabalho coletivo, cada indivíduo se pergunta: "O que eu posso fazer para beneficiar todos?".
No individualismo, a convivência é cada um por si — que resulta na guerra do todos contra todos. Em um time, a convive é um por todos e todos por um. Cada indivíduo faz sua parte, no máximo da sua excelência, resultando no benefício de todos, inclusive de si próprio.
No individualismo, somos um amontoado de eus.
Um time é nóis.
Para terminar, deixo você, leitor, com as palavras do treinador Tony D'amato, no filme Um Domingo Qualquer: "Eu não posso obrigar você a colaborar. Você tem que olhar dentro dos olhos de quem está do seu lado e ver um homem que vai se sacrificar pelo time, porque ele sabe que quando chegar a hora, você fará o mesmo. Isso é um time. Então, ou saramos como um time, ou morreremos como indivíduos".
Eram quatro pessoas:
Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém.
Havia um trabalho a ser feito.
Todo Mundo tinha esperança que Alguém faria.
Qualquer Um podia fazer.
Mas Ninguém fez.
Todo mundo ficou esperando Qualquer Um fazer.
Terminou Todo Mundo culpando Alguém porque Ninguém fez o que Qualquer Um podia ter feito.