Cemitério De Unicórnios
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Existe uma linha que separa as coisas. Aqui a água. Aqui o óleo. O mesmo para o autoconhecimento. Tem uma linha que separa autociência de tudo que se intitula autoconhecimento, mas não é. Essa linha precisa ser traçada. Esse livro é o traço. Feito com a metáfora dos unicórnios. Ao longo da leitura você vai entender por quê.
No final de 2025 programei uma palestra de abertura para o segundo encontro dos 1ficineiros — o 1FICINAC.
Essa palestra se chamou Viajantes da Maionese.
Fiz uma gravação, mas por problemas técnicos, ficou inaudível.
Só que ficou na minha cabeça.
E, recentemente, lembrei dela.
Esse livro é a recuperação da palestra Viajantes da Maionese, mas usando outra metáfora: o cemitério de unicórnios.
Vou definir usando uma terminologia própria. Não porque outras estejam erradas — mas porque sigo uma linha lógica, e essa linha pede um vocabulário fora do comum.
Ignorância é zero conhecimento.
Você está no ponto A: zero conhecimento. Quer chegar ao ponto B: diferente de zero.
Como se atravessa essa distância?
Produzindo conhecimento.
Você está em zero. Produz algum conhecimento.
Já não está mais em zero.
Como produzir conhecimento?
Existem dois métodos geradores de conhecimento. Só dois. O primeiro é a ciência do óbvio. Podemos chamá-lo de observação.
O segundo quase ninguém nomeia.
É aqui que a gente cai do unicórnio.
É a ciência do ópio.
No que consiste a ciência do ópio?
Na imaginação.
— Ferrari, eu produzo conhecimento através da imaginação?
Claro que produz. Aliás, é o que você mais faz.
Exemplo: você está em zero conhecimento e pergunta:
— Onde está a chave?
Eu respondo:
– Na gaveta.
Você saiu do zero.
Mas como você saiu do zero e chegou em "a chave está na gaveta"?
Através da imaginação. Você imaginou a chave na gaveta. Produziu um conhecimento. Você não está conhecendo de fato, vendo a chave — mas está conhecendo teoricamente — imaginando.
Ópio é um trocadilho com óbvio.
Ciência do óbvio: observação.
Ciência do ópio: imaginação.
O ópio entorpece. Faz você ver coisas que não estão lá — só na imaginação.
Imaginar é viajar na maionese.
Ciência do ópio.
Qual é o sabor de uma bala?
Pela ciência do ópio — a imaginação — a resposta é uva. Ou caramelo. Ou morango. Ou jaca. Ou melancia. Infinitas respostas.
Você pode até imaginar que a bala é de sabonete.
Pela ciência do óbvio — a observação — a resposta é: não sei.
Não sei, porque a bala não está na sua boca.
É por isso que os cientistas dizem que são humildes e os dogmáticos são arrogantes. A humildade da ciência é dizer "não sei". Não porque não exista resposta. Mas porque, sem observação, não há conhecimento de fato.
Você coloca a bala na boca. Sente o sabor de uva. Aí você sabe: é bala de uva. Antes disso — bala de uva é teoria. Suposição. Imaginação.
A observação comprova ou desmente a imaginação.
Por que o cachorro entra na igreja?
Pela ciência do ópio:
Porque Mercúrio está retrógrado.
Para mijar na batina do padre.
Para beber água benta.
Para se confessar de uma cachorrada.
Porque é um cão pastor.
Teorias, hipóteses, viagens na maionese.
Pela ciência do óbvio:
Porque a porta está aberta.
Ah, mas isso é óbvio.
Justamente.
Ciência do óbvio.
A imaginação é luxuosa, requintada.
A observação é sem graça.
Sendo que existem dois métodos geradores de conhecimento, existem dois tipos de saber. Os dois tipos são:
Saber por observação — óbvio.
Saber por imaginação — crença.
O cachorro entra na igreja porque Mercúrio está retrógrado.
Isso é crença.
O cachorro entra na igreja porque a porta estava aberta.
Isso é óbvio.
Aqui está a água de um lado, o óleo do outro.
Crença e óbvio são saberes conhecidos através de metodologias diferentes.
Qual é o sabor da bala?
Pela imaginação: uva, caramelo, morango.
Pela observação: não sei.
Meu conhecimento factual sobre a bala é zero — porque a bala não está na minha boca. Qualquer coisa que eu afirme sobre ela é crença.
A embalagem é verde, então deve ser de hortelã.
Pode ser. Mas isso é imaginação. É teoria.
De fato, não sei.
Você pode imaginar um milhão de coisas sobre a bala. Pode acreditar em tudo que imaginar — mas, sem experimentar, não sabe o sabor verdadeiro.
Acreditar não é saber.
Sem esse discernimento é impossível sair da ignorância.
Equívoco é quando você dá crédito de verdadeiro ao falso.
A bala é de uva, mas como a embalagem é verde, você imagina e acredita que é sabor de limão. Você está equivocado.
Esse é o problema da ciência do ópio — produz equívocos.
Faz você dar crédito de verdadeiro ao falso.
E qual é o problema disso?
Você vive mal.
Você não sabe como nasceu.
Zero conhecimento.
Alguém te conta: foi uma cegonha que te trouxe.
Você cresce acreditando na imaginação da cegonha. Dando crédito de verdadeiro a uma suposição falsa.
Um dia quer ser pai: o que faz?
Sai pelo mundo procurando cegonhas.
Vai dar certo?
Não, porque não foi assim que funciona.
E tem mais: você nunca vai entender para que servem seus órgãos sexuais
A crença na cegonha é clássica.
Assim como Papai Noel.
Assim como unicórnios.
A gente entrega essas imaginações para as crianças.
E elas começam a acreditar.
Você acredita em algo falso como se fosse verdadeiro.
Como sair desse equívoco?
Como matar unicórnios?
Verificando a crença.
Vou usar um exemplo meu.
Eu tinha uma crença: manga com leite mata.
Alguém me passou isso na infância, e eu imaginava — convulsão, hospital, médicos abrindo meu intestino para retirar a manga de lá de dentro.
Nunca misturei manga com leite.
Até a juventude, quando contei isso para alguém que deu risada na minha cara. Era um unicórnio. Gordo, gigante.
Como matei esse unicórnio?
Através da verificação.
Como verifiquei?
Fazendo e bebendo uma vitamina de manga com leite.
Se eu morresse, a crença era verdadeira.
Se não morresse, era falsa.
Não morri.
Esse é o ponto xis.
Você não se liberta de uma crença equivocada usando imaginação.
Não adianta trocar uma crença por outra.
— Como eu nasci? — você questiona.
— A cegonha que te trouxe — dizem seus pais.
Passado um tempo, assim como aconteceu comigo, alguém ri na sua cara e diz que não foi a cegonha, você nasceu dentro de uma melancia.
Você troca a crença da cegonha pela crença da melancia.
Tempos depois, alguém diz: não foi a melancia, você serenou prata no campo do alecrim dourado e brotou como um alecrim que nasceu sem ser semeado.
Você troca de novo.
E nunca sai do mundo das crenças.
A crença não tem como te mostrar o que é verdadeiro e o que é falso.
Não é essa a função da imaginação.
É como tentar sentir cheiro com a orelha.
O nariz sente cheiro. A orelha ouve som. São órgãos diferentes para funções diferentes.
A imaginação tem seu lugar — criar histórias, comunicar.
Só não serve para dizer o que é verdadeiro e o que é falso.
O único método capaz de te mostrar isso é a ciência.
A ciência é feita de observação.
Esse é o ponto xis.
Você não se liberta de uma crença equivocada usando o mesmo método que está te mantendo prisioneiro dela: a imaginação.
Não adianta trocar uma crença por outra.
— Como eu nasci? — você questiona.
— A cegonha que te trouxe — dizem seus pais.
Passado um tempo, alguém ri na sua cara e diz:
— Não foi a cegonha, você nasceu dentro de uma melancia.
Você troca a crença da cegonha pela crença da melancia.
Tempos depois, alguém diz:
— Não foi a melancia, você brotou de um pé de alecrim dourado.
Você troca de crença de novo, e de novo, e de novo.
E nunca sai do mundo das crenças.
A imaginação não tem como te mostrar o que é verdadeiro e o que é falso.
Não é essa a função da imaginação.
É como tentar sentir cheiro com a orelha. O nariz sente cheiro. A orelha ouve som. São órgãos diferentes para funções diferentes.
A imaginação tem seu lugar — criar histórias, possibilitar a comunicação.
Mas não serve para dizer o que é verdadeiro e o que é falso.
O único método capaz de te mostrar isso é a ciência.
E ciência é observação.
É preciso passar a régua.
Separar o mundo da crença do mundo da ciência. Separa a ciência do ópio da ciência do óbvio. Separar imaginação e observação.
Tudo que digo é óbvio — não é crença.
Por exemplo.
Quando digo que você é um espírito, estou descrevendo a minha natureza existencial, que é igual a sua. Não estou imaginando. Só que você, em vez de olhar para a sua própria natureza existencial e verificá-la, prefere imaginar uma pomba branca ou um fantasma dentro do seu corpo.
A imaginação não leva ao conhecimento. Leva ao delírio.
Faz você viajar na maionese.
E te mantém preso dentro do pote.
Recapitulando:
Como matar um unicórnio?
Usando o método da verificação.
Como verificar?
Observação. Ciência.
Mas quando a crença é sobre você?
Simples.
Para saber da manga com leite — ciência.
Para saber de você — autociência.
Em outras palavras:
Para saber da manga com leite — observação.
Para saber de você — autoobservação.
Depois de tudo que foi explicado:
O que é autociência?
É para onde você leva suas crenças para verificar se são verdadeiras ou falsas.
E, sendo falsas, mata e enterra.
Ou seja: é o cemitério dos unicórnios.
E o que é um praticante de autociência?
É um coveiro.
C.Q.D.