Casa Da Razão Humana
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você já agiu contra si mesmo como se fosse outra pessoa, com motivações diferentes e formas de pensar completamente diferentes?
Este livro explica por quê.
Você não é louco. Você é humano.
E ser humano é ser dono de uma casa onde habitam quatro moradores: o Bicho, a Criança, o Pai e a Mãe.
Cada um com sua lógica. Cada um com sua razão.
Esse livro é um convite lúdico para você conhecer cada um.
E descobrir quem tem razão.
Razão não é apenas raciocínio.
Em cada um de nós moram quatro razões diferentes que convivem de forma interdependente.
Quatro cérebros. Quatro lógicas.
Quatro formas de entender a realidade — interagindo e funcionando juntas como uma só inteligência.
Bicho — razão física
Cérebro reptiliano — sistema fisiológico
Criança — razão sensorial
Cérebro límbico — sistema sensorial
Pai — razão intelectual
Córtex esquerdo — sistema conceitual
Mãe — razão afetiva
Córtex direito — sistema analítico
A seguir, cada morador vai se apresentar.
Olá, Ser Humano.
Eu sou você — bicho.
Sei que isso incomoda. Você é conceitual, analítico, cheio de ideias sobre quem é e sobre o que o distingue dos outros animais. Mas a experiência humana é quaternária — e isso significa que você também é bicho. Diferente dos bichos não-humanos, sim. Mas bicho.
Você tem um corpo. Como todo bicho.
E precisa cuidar dele. Como todo bicho.
Bicho come. Bebe. Caga. Mija. Peida.
Aqui. Agora.
Para mim não existe tempo — nem segunda, nem domingo, nem "daqui a pouco". Quando estou cansado, dizer que faltam dois dias para o fim de semana não me descansa. Quando estou com fome, dizer que faltam duas horas para o almoço não me alimenta.
Não vivo de abstrações. Não me alimento delas. Não me aliviam, não me refrescam, não me descansam.
Quando quero peidar, explicar que é deselegante não resolve o desconforto. Quando sinto calor, lembrar que é proibido andar pelado não me refresca.
Não vivo no mundo dos conceitos.
Tentar me ignorar não funciona. Tentar me excluir da casa só atrapalha — primeiro porque é impossível, depois porque sou eu quem cuida do bem-estar físico de tudo aqui dentro.
Sou as paredes. O encanamento. A estrutura que sustenta tudo o que acontece dentro desta casa.
Sem mim, não há casa.
Como todos os moradores, meu desejo é felicidade.
Mas felicidade, para mim, tem um nome mais simples: benefício.
Funciono sempre assim — buscando o Bem, evitando o Mal.
Bem — tudo que acredito ser benéfico para a casa.
Mal — tudo que acredito ser prejudicial para a casa.
Não é filosofia. É economia.
Ser humano inclui ser bicho.
Quanto antes você aceitar isso, melhor para todos nós.
Olá, Ser Humano.
Eu sou você — criança.
Sou seu prazer de viver. Sou o carpe diem que você esquece quando fica sério demais. Sou o único morador desta casa que nunca precisou aprender a se divertir — porque diversão é tudo que sei fazer.
Assim como o Bicho, não tenho a menor ideia do que é passado ou futuro.
Os adultos vivem me mostrando imagens do que foi e do que vai ser. Tenho dó deles. Tanto esforço mal usado. Eles não entendem por que, toda vez que me mostram essas imagens, eu reajo como se fosse agora — como se fosse real, urgente, presente.
Claro que reajo assim.
Para mim é sempre agora. Eternamente agora. Passado e futuro são abstrações. Coisa de adulto.
Eu sou criança.
A experiência humana, para mim, é um playground.
Não entendo de utilidade. Não entendo de benefício, de saudável, de "vai ser bom para você no futuro". Essas abstrações não chegam até mim — é como falar outro idioma.
O idioma que falo tem apenas duas palavras:
Gostoso. Ruim.
Se é bom, quero. Se é ruim, não quero.
Simples, direto, sem negociação.
Minha língua não sabe se o sorvete foi feito hoje ou ontem, na Suíça ou na China. Sabe apenas que é de chocolate e que é gostoso. Só isso. Paladar é um dos meus brinquedos — junto com olfato, tato, audição e visão. Cinco brinquedos. Um playground inteiro.
É por isso que quando os adultos dizem "agora não, depois" ou "isso é errado" — eu choro. Berro. Esperneio. Faço birra.
Não por mau comportamento. Por incompreensão genuína.
Não sei o que é depois. Não entendo abstrações éticas. Quando choro, estou dizendo uma coisa muito simples: não entendo. Minhas conversas com os adultos são conversas de surdo-mudo — eles não entendem meu choro, eu não entendo suas explicações.
Inapropriado, para mim, é tudo que é ruim.
Errado é desprazer.
Certo é gostoso.
Útil? Isso é coisa de Bicho.
Para mim, tudo tem uma única utilidade: prazer.
Felicidade para mim é gostoso. Funciono sempre assim — buscando o Bom, evitando o Ruim.
Bom = tudo que acredito ser prazeroso para a casa.
Ruim = tudo que acredito ser desagradável para a casa.
Não é filosofia. É sinestesia.
Ficou claro quem sou nesta casa?
Sou o jogo. A festa. A música. O vinho. A dança. O banquete. O humor. A poesia. A conversa que não tem propósito nenhum além de ser boa.
Sou tudo que faz a vida valer a pena.
Sem mim, a casa funciona.
Mas para quê?
Olá, Ser Humano.
Eu sou você — Pai.
Sou o Sistema Conceitual. O definidor. O discriminador. O rotulador da experiência humana.
Sou eu que dou nome às coisas.
Sem mim, cadeira e panela teriam o mesmo nome. Futebol e natação seriam a mesma palavra. Terça e quarta-feira seriam a mesma feira. Tudo seria apenas o que é— sem explicação, sem identidade, sem definição.
Sou eu que colo as etiquetas.
Toda vez que o Bicho, a Criança ou a Mãe precisam saber do que se trata alguma coisa — só ficam sabendo através de mim. Sou o único morador capaz de explicar o que é e o que não é cada coisa.
Sou o dicionário da casa.
E sendo que defino tudo — defino também a mim mesmo.
Quando me pergunto quem sou eu, posso responder de muitas maneiras:
Sou João. Brasileiro. Casado. Dentista. Morador da Rua Carioca da Gema, 67.
Ou:
Sou corintiano. Sou o punk da periferia. Sou uma pessoa que luta pelos seus sonhos. Sou medroso. Sou um espírito encarnado.
Todas essas respostas cabem. Todas são minhas. Juntas, formam um livro inteiro.
Na capa desse livro está escrito: EU.
Viver, para mim, é separar o joio do trigo.
Definir o que é joio. Definir o que é trigo. Nunca confundir os dois.
Felicidade para mim é verdadeiro.
Funciono sempre assim — buscando o Vero, evitando o Falso.
Vero = tudo que acredito que é.
Falso = tudo que acredito que não é.
Agora sim: pura filosofia.
Ficou claro quem sou nesta casa?
Sou o dicionário humano. O que dá definição. O que dá diferenciação. O que escreve a legenda embaixo de tudo que os sentidos fotografam.
Sem mim, ninguém na casa sabe do que está falando.
Olá, Ser Humano.
Eu sou você — Mãe.
Sou o Sistema Analítico. Não defino o que as coisas são — isso é trabalho do Pai. Eu defino o quanto elas valem.
Pai é unidade. Mãe é régua.
O Pai diz o que é uma cadeira.
Eu digo se é ótima, boa, regular ou péssima.
O Pai diz o que é uma laranja.
Eu digo se é ótima, boa, regular ou péssima.
O Pai diz o que é amor.
Eu digo se é nenhum, pouco, médio ou muito.
O Pai diz o que é justiça.
Eu digo se é nenhuma, pouca, média ou muita.
O Pai diz o que é sucesso.
Eu digo se é nenhum, pouco, médio ou muito.
O Pai diz o que é viver.
Eu digo se é ótimo, bom, regular ou péssimo.
O Pai diz o que é EU.
Eu digo se esse EU é ótimo, bom, regular ou péssimo.
Sou régua para tudo. Inclusive para você.
Especialmente para você.
Viver, para mim, é separar o bom joio do mal joio — e o bom trigo do mal trigo. Não basta saber o que é cada coisa. Preciso saber quanto vale.
Felicidade para mim é valoroso.
Funciono sempre assim — buscando o Caro, evitando o Nulo.
Caro — tudo que acredito que tem valor.
Nulo — tudo que acredito que não tem.
Ficou claro quem sou nesta casa?
Sou a régua humana.
A que mede tudo — objetos, pessoas, situações, escolhas.
E claro: a mim mesmo.
Entendeu quem tem razão?
Todos.
Cada um dos quatro moradores tem a sua. Cada um é um aspecto legítimo, insubstituível, da razão humana. Não existe hierarquia. Não existe morador mais importante. Não existe razão que manda nas outras.
Existe casa.
Ignorar qualquer um dos quatro é amputar a própria inteligência. Impor um sobre os outros é tirania doméstica. Submeter um pelos outros é o mesmo — só muda quem sofre.
O resultado, nos três casos, é idêntico: viver mal.
A forma lúcida — a forma sábia — é outra.
É escutar o que cada morador tem a dizer. É dialogar. É viver em democracia familiar, onde nenhuma voz é silenciada e nenhuma voz grita mais alto que as outras.
O resultado, nesse caso, também é idêntico: viver bem.
Faz quatro sentidos?
Tanto a competência intelectual como a afetiva se desenvolvem pensando — mas são dois tipos de pensamento diferentes.
O intelectual define. Você o desenvolve perguntando: o que é isso?
O afetivo valora. Você o desenvolve perguntando: por que isso importa? Qual a importância disso para mim?
Perguntando a cada um sobre o assunto em questão — com palavras, como você faria com outra pessoa.
A consciência é você assistindo à conversa. Um observador.
Você já faz isso o tempo todo — a diferença é que agora, com mais clareza sobre sua quaternalidade, passa a fazer com mais eficiência.
O que acontece quando você negligencia sua fome? A fome aumenta até ficar insuportável, não é? Fome é sofrimento. O mesmo acontece com todos os moradores da casa da razão humana. Você sabe que está negligenciando um morador quando experimenta um sofrimento relacionado àquele morador.
Naturalmente e inevitavelmente — toda vez que você experimenta um significante, seja ele realidade objetiva ou simulada.
Significante → significado → emoção.
É sempre nessa ordem. O significante dispara o significado, e o significado dispara a emoção. O que você experimenta de fato é a emoção — não o significante, não o significado.
Quando você come algo gostoso, parece que está experimentando o "bom". Mas o que você experimenta de fato é prazer. Você já tem em si a associação prazer = bom — e por isso confunde a emoção com o significado.
O mesmo vale para cada dimensão da casa.
Empatia não é um morador da casa da razão humana. Empatia é uma prática — a prática de se colocar no lugar do outro.
Você pode se colocar no lugar do outro fisicamente, sensorialmente, afetivamente e intelectualmente. Sendo assim, existem quatro tipos de empatia.
Uma ideologia é uma verdade: questão intelectual.
Sim, sensorial total. Freud explica.
Você é a consciência.
Você é o dono da casa — o responsável por colocar cada morador no seu devido lugar.
O problema sempre é o mesmo: colocar o afetivo para resolver assuntos intelectuais, ou o intelectual para resolver assuntos afetivos.
Casa sem dono vira bagunça mesmo.
Fique presente.
Não, são incorruptíveis e infalíveis.
Porque quem escreveu esse livro fui eu — e achei mais apropriado usar a imagem da mãe como representação do sistema afetivo.
Escolhi mãe e pai porque representam os dois adultos de uma casa. E porque os homens, em geral, são mais intelectuais — e as mulheres, em geral, são mais afetivas.
Porque até os moradores que você está qualificando como "irracionais" têm uma lógica.
O bicho não pensa com a lógica do córtex — mas pensa com lógica reptiliana: bem e mal. A criança também não — mas pensa com lógica límbica: bom e ruim.
Irracional não significa sem lógica. Significa outra lógica.
Falta de autoconfiança é falta de pai, falta de competência intelectual. Falta de autoestima é falta de mãe, falta de competência afetiva.
Depende do que você entende por culpa.
Se culpa é responsabilidade — "eu quebrei o prato, a culpa é minha" — então não é um morador. Responsabilidade é arbítrio, não emoção.
Se culpa é remorso — "não deveria ter feito isso" — então é afetiva. É um julgamento de valor sobre a própria ação. Isso é mãe.
Nenhum. O intelectual, o afetivo, o sensorial e o físico são os quatro ponteiros do seu GPS. Você os consulta — ouve o que cada um tem a dizer sobre uma determinada opção — e então decide.
Quem dirige o carro não é o GPS. É o motorista.
E o motorista é você.
Não, quanto mais autoconhecimento, maior a competência em lidar com as emoções.
Se fosse assim, os bichos não sobreviveriam. Instinto não é raciocínio — mas entende de sobrevivência.
Um é o piano. O outro é a música.
O sistema emocional produz emoções — como o piano produz música. Ânsia e paz, amor e mágoa, alegria e tristeza, raiva e graça: são as oito notas do seu piano emocional.
Você é o ouvinte.
Sim. Quando um morador é muito mais exercitado que os outros, ele se torna uma competência subconsciente — piloto automático.
Primeiro o homem faz o hábito, depois o hábito faz o homem.
Se for um hábito danoso, tá danado.