Bird
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Assista o filme antes de ler o texto.
Assistimos a duas horas inteiras de um filme hollywoodiano perfeitamente montado, e trinta segundos depois de os créditos subirem, puff! Tudo é esquecido antes mesmo da gente levantar do sofá.
E há pequenos pedaços de filme — três minutos à toa na tela — que grudam na memória feito apelido de infância e que se recusa obstinadamente a morrer.
Encravam na carne e ali permanecem, vivos, pulsando no escuro da memória por trinta, cinquenta anos. E de repente aquilo volta, no meio de uma tarde qualquer de domingo ou numa conversa aleatória com um amigo.
A memória escolhe por um critério mudo e terrível. Não quer saber de enredo comprido, de duas horas de projeção. Ela pesca no escuro o instante exato em que a vida do sujeito na tela resvalou na nossa própria vida.
Ela guarda o que fere. O que corta a pele do cotidiano e atinge a matéria humana que somos por dentro: o medo cru, o pudor, a culpa sem perdão, o abandono irremediável.
Uma cena poderosa jamais é uma mera sucessão de eventos: é um nó na garganta bem amarrado. Ela toma aquilo que nos habita de modo silencioso, a culpa, o abandono, a solidão, a vergonha, e joga tudo na nossa cara em forma de imagem.
Mesmo que nunca tenhamos vivido aquilo, reconhecemos a nossa própria substância. Uma despedida na estação vira todas as despedidas que já doeram no peito. Uma criança desamparada resume todos os abandonos do mundo. A gente olha e pensa, com um aperto no peito: eu conheço isso aí.
Por isso a cena se torna maior que o filme, maior que o enredo, maior que a própria razão. A gente nem sabe explicar por que dói tanto, mas sabe: a imagem ficou cravada.
Quando isso ocorre, o filme deixa de ser uma história e se transforma num divã. A tela não está mais entretendo, está declarando uma verdade: "Isto é você." .
E o pior é que a cena não acaba quando o filme termina, ela passa a morar dentro de nós, como um órgão a mais. Mas não um órgão sadio. Um doente. Que dói e perturba.
As cenas que traumatizam assim, não são aquelas com vilões clássicos de capa preta. Diante do malfeitor evidente, o homem de bem se ajeita na poltrona, aliviado, e dorme em paz com sua consciência. O diabo é quando a cena não mostra monstro algum — mostra apenas uma pessoa comum. Um pobre coitado que, por fraqueza, covardia ou simples necessidade, comete exatamente o erro que nós mesmos cometeríamos se a corda apertasse um pouco mais. Aí a tela vira espelho, e ninguém gosta de se ver de perto demais.
Esse é o caso da cena do passarinho do filme A Girl Named Sooner, que tanta gente viu na infância, numa tarde qualquer de chuva diante da televisão.
Passaram-se quarenta anos e todo mundo repete a mesma confissão, com o mesmo assombro de quem viu um fantasma: "eu nunca mais consegui esquecer aquela cena".
Não esqueceram porque o filme não acabou quando subiram os letreiros. Porque a cena do passarinho toca no osso da subserviência humana. E fica ali, doendo baixinho, mostrando com a crueza dos fatos aquilo que a gente prefere não admitir, mas que reconhece num relance: a triste fraqueza da pessoa que se anula para caber na vontade do outro.
Aquele é o melhor caminho de volta da escola de todos.
Sooner leva a corda de pular debaixo do braço, e Sally elogia dizendo que a acha linda de verdade. Muito mais bonita que a de Jean, afirma ela:
— A de Jean é apenas um pedaço de varal velho.
Ao chegarem à casa, Sooner corre pela calçada e entra disparada, gritando que vai trazer Bird para fora.
Já está no meio da escada quando Elizabeth aparece da cozinha:
— Ei, que tal dar um alô quando chegar em casa?
— Tem umas crianças comigo lá fora — responde Sooner, sem fôlego. — Elas querem ver o Bird. — E sobe o resto dos degraus correndo. Quando desce, com Bird pousado no ombro, Elizabeth continua no pé da escada.
— Depois que você mostrar o Bird — diz ela —, traga as crianças para dentro. Os biscoitos já vão estar prontos até lá.
Sooner mal a escuta. Passa correndo rumo à saída para não arriscar que aquelas crianças vão embora.
— Parece só um corvo velho! — zomba Paul.
Mas logo em seguida Sooner faz Bird bater as asas, e eles podem ver o branco e o vermelho por baixo.
Bird desce pelo braço dela, do jeito que sempre faz, pula no chão e começa a bicar a terra.
— Tem certeza de que ele não sai voando? — pergunta James.
— Tenho — confirma Sooner, toda orgulhosa.
— Aposto que voa se levar um susto — duvida Sally.
— Voa nada — garante Sooner.
De repente, James avança correndo contra Bird, mas a ave apenas arrepia as asas e dá um saltinho para o lado.
Sooner dá uma risadinha:
— Viu só?
Rindo e gritando, todos começam a dar investidas contra Bird. Mas ele apenas pula de um lado para o outro, escapando do caminho deles.
— Ele não tá com medo — conclui Sally. — Ele acha que é brincadeira, por isso não voa.
Ela joga os cabelos compridos sobre o rosto e inclina o tronco para ver até onde as pontas chegam perto do chão.
— Ei, achei uma moeda de cinco centavos! — avisa Phyllis, revirando o bolso. — Vamos até a loja do Telfer comprar tiras de alcaçuz. Eu adoro alcaçuz!
Sooner não tem nenhuma moeda. Eles vão acabar indo embora, e ela terá que dizer a Elizabeth que as visitas não ficaram para os biscoitos.
— Ele tá com medo sim — insiste ela. — Vou deixar ele com mais medo ainda para vocês verem.
Ela corre até a entrada da garagem da casa vizinha, apressada para que não partam antes de assistir, e volta com uma pedra de cascalho.
Atira a pedra para cair perto de Bird.
Como Bird continua sem voar, Samuel diz:
— Deixa eu tentar! — E vai até o cascalho, pega um punhado de pedras e começa a atirar contra Bird.
E aí todos começam a fazer o mesmo. Todos dão risadas e pulam no mesmo lugar, e ninguém mais fala em ir embora buscar os doces de alcaçuz.
E Sooner sabe muito bem que Bird não vai voar porque não consegue, então ela pega mais pedras e atira também.
A pontaria deles vai ficando cada vez melhor, porque Bird está ficando cansado.
Mas, embora bata as asas em desespero e dê pequenos saltos no ar de vez em quando, ele não voa.
E em vez de atirar uma pedrinha de cada vez, primeiro os meninos e depois as meninas passam a arremessar punhados inteiros de cascalho contra a ave.
Bird agacha-se no chão, tentando encolher a cabeça para dentro do corpo, arrepia todas as penas e fecha os olhos.
— Caramba! — admira-se Phyllis. — Esse bicho é durão mesmo!
— Você tem muita sorte, Sooner! — comenta Sally.
— Pássaro doido, — caçoa Samuel — não voa de jeito nenhum!
Aquilo é emocionante e apavorante ao mesmo tempo.
Embora uma sensação estranha e amarga esteja começando a se formar dentro de si, com todos eles encurralando Bird e atirando com cada vez mais força, Sooner continua atirando também.
Todos eles fizeram o caminho da escola com ela, estão todos rindo e brincando na casa dela, e a cada dia ela sonha que façam isso; e agora estão ali e não vão mais embora.
Pequenas nuvens de poeira levantam-se das penas de Bird a cada pedrada que o atinge. Ele tenta levantar do chão para escapar, mas as crianças usam os pés para cercá-lo, obrigando-o a recuar aos tropeços.
Ele abre o bico, mas não emite som algum.
“Voa, Bird!, suplica Sooner por dentro. Por favor, voa! Voa, por favor!” Ela implora em silêncio enquanto atira as pedras e dá risadas, doendo por dentro com uma vontade desesperada de que aquelas pedras estivessem acertando o seu próprio corpo, e não o dele.
O animal derrapa de peito no chão ao tentar correr. Penas quebradas e esfiapadas, perdendo a cor como pólen solto no ar, começam a se desprender de suas asas.
Os risos forçados de Sooner soam cada vez mais agudos aos seus próprios ouvidos, ela pula para cima e para baixo num ritmo febril, suas pernas parecem bambas e dormentes, e o fôlego trava em sua garganta.
Bird corre em círculos.
De repente, ele estaca, estica todo o pescoço para o alto, seus olhinhos pretos parecendo fitar diretamente os de Sooner.
E então ele tomba de lado e permanece imóvel.
— Sooner! — A voz de Elizabeth vem da varanda, rasgando aquele silêncio medonho. — O que vocês estão fazendo aí?
Elizabeth desce os degraus correndo e se debruça sobre Bird.
As outras crianças apenas ficam paradas, deixando o cascalho escorrer de mansinho por entre os dedos para trás das costas.
Ninguém mais dá risada.
Elizabeth pega Bird nas mãos e vira-se de frente para Sooner.
— Ele está morto — diz ela. — Que tipo de criança é você, para matar o seu próprio bicho de estimação?
Sooner ergue os olhos para Elizabeth, estarrecida. “Morto? O Bird, morto?”.
Ao ouvir os passos das crianças correndo para longe dali, um tremor incontrolável brota das profundezas de seu peito.
— Vá para o seu quarto — ordena Elizabeth.
Sooner olha para Bird, jazendo tão inerte sobre as palmas estendidas das mãos de Elizabeth, e de repente dá-se conta de que suas bochechas já estão banhadas em lágrimas faz muito tempo.
Ela estende os braços em direção a Bird. Tem os punhos cheios de cascalho.
Ela abre as mãos, observando as pedras caírem na grama até que suas mãos fiquem vazias.
Então ela entra na casa.
Da janela de seu quarto, consegue ver os fundos, ver Elizabeth levar Bird até um ponto sob a cerejeira-brava e cavar um buraco com sua pazinha de jardim.
Ao acomodar Bird na cova, Sooner a vê afagar a cabeça da ave com o dedo, e Sooner deseja poder fazer o mesmo.
Mas suas mãos se encheram daquele cascalho, e é o cascalho que o matou.
Tremendo tanto que os dentes batem, Sooner observa Elizabeth cobrir Bird com terra.
Está frio lá embaixo para o Bird, pensa ela, debaixo daquela árvore e tudo o mais.
Tem um detalhe na cena do passarinho, relatado por várias pessoas que a assistiram décadas atrás, que é mais perturbador do que a cena em si: Sooner chora enquanto continua jogando pedras.
O ato de Sooner não é crueldade gratuita. É alguém que sabe, no exato momento em que está fazendo, que aquilo está errado, e mesmo assim continua fazendo, porque parar significaria arriscar perder todo o apreço e pertencimento que tinha acabado de conquistar.
É por isso que essa cena assombra tanta gente por tantos anos. Não existe um monstro nessa cena. Existe uma menina tentando sobreviver socialmente. Não é crueldade que essa cena retrata, é autonegação.
Poucas pessoas já apedrejaram um passarinho de verdade. Mas quase todo mundo, em algum momento da vida, já apedrejou algum aspecto pessoal — uma opinião, um gosto, uma vontade, uma parte de si mesmo — só para não correr o risco de ficar de fora do grupo.
A cena do apedrejamento incomoda porque ela não fala de um caso isolado e bizarro. Ela fala de uma decisão recorrente e cotidiana: autonegação. Só que levada ao extremo visual para que a plateia não consiga desviar o olhar dela. Para que um pequeno ato revele uma grande tragédia.
Entre todos os gêneros que a humanidade inventou para contar histórias, poucos têm o poder de permanência da tragédia.
Ela nasceu há mais de dois mil e quinhentos anos, nos palcos da Grécia Antiga, e continua sendo, até hoje, a forma mais eficiente de fazer uma plateia sentir na própria pele algo que não viveu.
O motivo é simples de enunciar e difícil de esquecer: a tragédia não conta a história de um monstro. Conta a história de uma pessoa comum, com uma falha comum, que cai por causa dessa falha.
O erro nasce de dentro. É essa origem interna que faz a plateia se reconhecer no personagem, em vez de apenas assistir a ele de uma distância confortável.
É por isso que a tragédia dói de um jeito diferente das outras histórias tristes. Uma história triste pode ser sobre algo que aconteceu a alguém. Uma tragédia é sobre algo que alguém fez — ou deixou de fazer — e que o conduziu, passo a passo, até o próprio fim. A plateia não observa de fora: reconhece, em cada passo da queda, um erro que ela mesma já deu, ou que teme dar.
Esse reconhecimento tem um nome, dado ainda pelos gregos: catarse. É a purgação emocional que acontece quando vivemos, por procuração, um sofrimento que tememos viver de verdade. É um terror ao perceber que a dor do personagem poderia ser a nossa, ou que é a nossa.
Saímos do contato com uma história trágica diferente de como entramos, porque ela não nos mostrou um mundo estranho, nos mostrou o nosso, só que sem as defesas que usamos todo dia para não olhar de frente.
É por isso que uma tragédia bem contada nunca envelhece. Ela não depende da época, do figurino, da tecnologia, da língua em que foi escrita. Depende só de uma coisa, que nunca muda: o ser humano.
A Girl Named Sooner é uma tragédia. Não apenas no sentido solto da palavra, mas também no sentido dramatúrgico, com todos os elementos que o gênero exige desde a Grécia Antiga.
Sooner é a protagonista trágica clássica, só que sem coroa.
Ela não cai de um trono, mas cai de um lugar igualmente alto para uma criança: o lugar de alguém capaz de amar sem condição nenhuma, mesmo depois de uma infância inteira sem receber esse amor de volta. É essa capacidade rara que a torna, aos olhos de quem assiste, grande o suficiente para que sua queda importe.
Sooner carrega, como todo protagonista trágico, uma falha que já existia antes da história começar: o medo de ficar sozinha.
Não é maldade, é ferida antiga. E é justamente por não ser maldade que a queda dela comove. Uma erro causada por uma fraqueza compreensível, toca todo mundo, porque todo mundo reconhece essa fraqueza em si.
E há, na cena, o elemento mais devastador da estrutura trágica: o reconhecimento tardio que os gregos chamavam de anagnórisis.
Sooner vive esse reconhecimento duas vezes. Primeiro ainda em cena, quando as lágrimas já escorrem, mas a mão continua buscando mais pedras: o instante exato em que ela sabe e mesmo assim continua.
Depois, sozinha, diante do poleiro vazio, quando finalmente confessa em voz alta o que já sabia por dentro: que fez aquilo tentando fazer amizade.
A história de Sooner é uma tragédia clássica e também específica sobre o outroísmo submisso. Sooner não cai por ambição, nem por orgulho, nem por vingança, como tantos heróis trágicos clássicos. Ela cai porque nega a própria unicidade para ser aceita.
O passarinho, que era a única parte da vida dela genuinamente sua, é sacrificado justamente no altar da aprovação alheia. Essa é a marca exata do outroísmo submisso: a autonegação como queda.
Outroísmo submisso é uma tragédia e a cena do passarinho é a prova mais nua disso que existe.
Toda tragédia exige uma queda que nasce de dentro, de uma falha no personagem, e não de um acidente externo. E é exatamente assim que a autonegação funciona: ninguém é obrigado, por uma força de fora, a fingir gostar do que não gosta, a concordar com o que discorda, a esconder o que considera importante para caber melhor no espaço que os outros oferecem.
A queda do outroísta submisso nasce da mesma falha que fez Sooner pegar a primeira pedra: o medo da rejeição.
Toda tragédia exige também que a queda avance de um jeito quase invisível enquanto acontece, e só fique nítida quando vista de longe.
É assim que a autonegação se instala na vida real. Ninguém acorda um dia e decide se apagar inteiramente num único gesto.
A autonegação avança pedra por pedra: uma opinião engolida aqui, uma vontade escondida ali, um "sim" dito querendo dizer "não". Cada pedrinha pequena demais, sozinha, para parecer grave. É só no conjunto, olhado de longe, que a distância percorrida aparece do mesmo jeito que só depois de morto o passarinho revela o tamanho do que aconteceu.
E toda tragédia exige o reconhecimento tardio. A verdade que chega junto com a perda, não antes dela.
É isso que o livro Antes de Partir, o arrependimento mais comum entre quem está prestes a morrer não é nenhuma grande ambição não realizada. É não ter tido coragem de viver fiel a si mesmo.
É o mesmo anagnórisis de Sooner diante do poleiro vazio, só que sem roteiro, sem câmera, e geralmente sem tempo de fazer diferente.
Essa é a tragédia do outroísmo submisso: ele não precisa de um vilão. Basta uma pessoa comum, com medo comum, fazendo o que quase todo mundo já fez em alguma escala: trocar um pedaço genuíno de si mesma pela sensação, quase sempre passageira, de ser aceito.
O poleiro fica vazio de qualquer jeito.
A única pergunta que resta é: quando cada um vai perceber isso?
Enquanto ainda há tempo de parar de jogar pedras, ou só depois, sozinho, passando a mão sobre o que já não está mais lá.
Quando a tragédia do outroísmo submisso já estiver consumada.