Batismo De Caim
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Uma briga de domingo sobre a mesma coisa de sempre que quase termina em soco entre dois irmãos. Caim mergulha na dor e acaba descobrindo a causa invisível da violência. Quando Caim emerge, a briga com o irmão continua exatamente onde parou. Mas ele, não. Um conto de realidade fantástica sobre a violência quaternária.
A briga, como sempre, começa com cara de conversa.
Caim está na sala com o irmão, Abel, um domingo qualquer, e o assunto que ninguém deveria ter tocado — política, religião, não importa qual, todos servem igualmente de estopim — sobe à mesa como fumaça anunciando incêndio.
— Isso é tolice — diz Abel, num tom que já nasce afiado.
— Tolice é acreditar no que você acredita — Caim devolve, no mesmo tom, porque golpe pede golpe, e ele já não lembra mais quem começou a subir a voz primeiro.
Em poucos minutos, a conversa não é mais sobre assunto nenhum. É sobre quem está certo. Depois é sobre quem sempre foi assim, teimoso, cabeça-dura, incapaz de admitir quando está errado.
Abel traz à mesa uma rixa antiga, algo que Caim fez ou deixou de fazer, anos atrás, guardado feito munição para o dia certo.
Caim revida com outra, mais funda, sobre o casamento de Abel, sobre o pai que ele mal visita.
— Pelo menos eu tenho caráter — diz Abel, com desprezo na voz, o tipo de desprezo que só nasce entre quem se conhece bem demais para saber onde dói mais.
— Caráter? Desde quando isso é caráter? — Caim cospe de volta, e sente, no mesmo instante, o prazer amargo de ter acertado, e o gosto ruim de ter descido tão baixo.
A briga já não é sobre nada.
É sobre humilhar primeiro, antes de ser humilhado.
É sobre lembrar em voz alta cada fracasso do outro, cada vergonha guardada, cada machucado antigo.
Tudo jogado na cara com a sofreguidão de quem só quer, agora, ver o outro menor.
Caim se levanta.
Abel se levanta também.
O empurrão de Abel vem antes de qualquer decisão consciente. Um empurrão no peito, seco.
Caim devolve, com mais força do que precisava.
Os dois ficam ali, a uma faísca de distância, o corpo inteiro tremendo, os punhos já fechados.
É a cunhada, entrando na sala, que interrompe o soco iminente.
Caim sai da sala e vai ao banheiro.
Caim fecha a porta do banheiro.
O peito bate forte.
As mãos estão tremendo.
Lembra do pai, décadas atrás, batendo o punho na mesa porque ele, ainda menino, tinha escolhido um caminho diferente do que lhe fora traçado.
Lembra da primeira namorada. O jeito como discutiam sobre tudo até a exaustão, cada um tentando vencer o outro, nunca entender o outro.
Lembra do amigo de infância que se afastou depois de uma discussão sobre um time de futebol. Um time, só isso. E ainda assim os dois trocaram xingamentos que levaram anos para cicatrizar, se é que cicatrizaram de verdade.
Lembra da última reunião de trabalho, o colega insistindo, com um sorriso fino, que a ideia de Caim era tola, ruim, um erro. E o gosto de humilhação pública na boca do estômago.
Lembra da tela do celular. Dos comentários que via todos os dias, estranhos destruindo estranhos por uma frase, por uma opinião, por menos que isso. Lembra como ele mesmo, tantas vezes, digitou respostas agressivas.
Cada lembrança abre outra atrás de si, como gaveta dentro de gaveta, e Caim sente o chão da própria vida ruir devagar, porque percebe, pela primeira vez com essa clareza, que nunca existiu um único vínculo livre da violência.
Pai e filho. Irmão e irmão. Amante e amante. Amigo e amigo. Estranho e estranho. Todos, sempre, um tentando vencer o outro.
Se isso é o normal, pensa Caim — então o que é a vida?
A pergunta o esvazia por dentro.
Caim olha para o espelho do banheiro.
Vê um semblante pesado, raivoso, cinzento. Um semblante que reúne o peso da ignorância e da dor de ser humano.
Repara numa ruga funda na testa que não lembra de ter visto ali antes. Ou talvez sempre tenha estado, e só agora reparou.
Seu estado de nervo, sua angústia, seu desalento, são extremos.
Do outro lado da porta, ainda ouve a voz de Abel, mais baixa agora, e a da cunhada tentando apaziguar. Um murmúrio abafado que não chega a formar palavra, só tensão.
Água quente sempre lhe fez bem. Desde criança, quando a mãe o banhava na bacia funda da cozinha, cantando baixinho, e ele sentia o corpo inteiro amolecer, como se a tensão escorresse ralo abaixo junto com a água suja.
Então, numa tentativa de repetir a mágica da infância, Caim entra na banheira de roupa, se deita e abre a torneira.
Assim que o calor da água chega na altura dos ombros, ele desliga a torneira e começa um sutil relaxamento.
Para aumentar a sensação de calor, ele imerge o corpo inteiro — pés, pernas, tronco, braços e cabeça.
Debaixo d'água, Caim está em paz — ou melhor, em pausa. O tempo para. A tagarelice do pensamento para. E sua mente se transforma em um ouvido. Uma voz surge como se tivesse atendido uma ligação telefônica.
Olá Caim! Não tenho muito tempo. Então, não vou gastar nossa conversa com questões técnicas do que está acontecendo.
Você já ouviu falar em telepatia? É quase isso. A diferença é que essa telepatia específica não é um diálogo entre dois seres, é um diálogo entre dois tempos.
Essa voz que está ouvindo é você conversando com o seu próprio passado.
Sei que você me escuta como se eu fosse alguém de fora, separado. Não é bem assim. Mas tudo bem pensar assim por enquanto.
Quem sou eu?
Por mais estranho que possa parecer, eu sou você, antes de você ser humano. Do seu ponto de vista, sou passado. Do meu, você é o futuro.
Enfim.
Sou o que você — e todo ser humano — já foi um dia.
Sou a semente. Você é a árvore.
Sou alfa. Você é ômega.
Entre o alfa e ômega existe um alfabeto inteiro.
Uma história.
É essa história que vou te contar.
Não é fácil entrar num cinema no meio da sessão e entender o filme. Nada na tela faz sentido sem o que veio antes.
É assim que vocês vivem.
Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou?
Essas perguntas acompanham todo ser humano, justamente porque vocês são o resultado de uma história que começou antes do antes. Antes do próprio tempo.
A ignorância da causa deixa a consequência sem sentido. Principalmente quando a consequência é uma dor tão aleatória e cruel quanto a que te trouxe até aqui.
Mas a dor não é aleatória. Nem cruel. É algo que surge no meio do processo que te transformou em ser humano.
A dor sempre aparece, em algum ponto, na jornada de autorrealização de qualquer ser do universo. Não seria diferente com vocês.
Sua história começa em mim.
Começa quando você ainda não era você. Era eu.
A dualidade do seu pensamento é o maior obstáculo para entender o que você era no começo. Antes do antes. Antes de eu me transformar em você.
As palavras não ajudam. Atrapalham.
Vou forçá-las além da lógica dual.
Tudo começou num estado existencial em que não havia separação mensurável entre um ser e outro. Não havia linha dividindo: aqui termino eu, aqui começa você.
Era como se cada ser fosse ondas em um mesmo oceano.
Havia individualidade.
Mas não era exatamente um e outro: era zero e zoutro.
O universo ainda não era universo.
Era zeroverso.
Essa coletividade de zeros sentiu vontade de habitar espaços independentes. Cada um com um lugar só seu. O zero teve vontade de ser um.
Só que era apenas vontade. Ainda não existia espaço algum. Não existia lá nem cá, tudo era uma coisa só, misturada.
Então, passo a passo, fomos realizando algo que, muito depois, veio a ser chamado de corpo.
Éramos entes abstratos, feitos apenas de vontade, que foram ganhando concretude e se transformando em corpos com fronteira.
Imagine um pintor diante de uma tela em branco.
No começo, nossos corpos eram apenas borrões sobre a tela. Aos poucos, esses borrões foram virando chão, céu, plantas, animais, objetos, pessoas.
E o zeroverso foi se transformando em universo.
As fronteiras entre nós, seres, foram ficando cada vez mais definidas, mais visíveis.
E quando se tornaram completamente definidas, surgiu, dentro de cada um, uma espécie de alarme: um aviso de que a própria fronteira estava sendo invadida por outro.
Esse alarme é o que vocês chamam de dor.
Quando um corpo invadia o outro, o alarme tocava.
O ser sentia dor.
E, imediatamente, se afastava para desligar o alarme.
Esse processo ganhou o nome de reflexo.
Ao primeiro sinal de dor, mesmo sem pensar, o corpo se afastava ou se contraía sozinho.
Seu corpo ainda executa o reflexo hoje.
Caim lembra da mão pequena, ainda menino, tocando o fogão quente pela primeira vez, e recuando antes de decidir recuar.
Por muito tempo, os seres conviveram só na base do reflexo, cuidando para não invadir o espaço um do outro.
Isso bastava, porque, naquele tempo, os seres eram feitos apenas de forma, tipo quadrados, triângulos, losangos, círculos, etc.
Até que nasceu, em alguns de nós — não em todos — uma vontade nova.
E foi aí que tudo mudou de novo.
Decidimos dividir nossa vontade em quatro: necessidades, prazeres, valores, verdades.
Como luz prismada em cores.
Assim como já tínhamos realizado a primeira fronteira — o corpo — começamos a realizar uma segunda: a humanidade.
Para isso, criamos quatro corpos internos dentro do corpo externo, como as matrioskas — as bonecas russas, uma guardada dentro da outra.
O corpo físico continuou sendo a fronteira visível, a que separava um ser do outro a olho nu. Mas dentro dele, de forma invisível, nasceram quatro corpos invisíveis, que ninguém mais podia sentir, além do próprio habitante.
Com o tempo, todos nós já tínhamos os quatro corpos humanos formados por completo. Cada ser passou a ter suas próprias necessidades, prazeres, valores e verdades.
E foi assim que cada um de nós virou algo muito parecido com o que vocês são hoje: um ser humano.
Diferente por fora.
Diferente por dentro.
Mas também foi aí que começou o problema da violência.
A voz de Alfa muda de ritmo.
Evitar a invasão física era simples.
Os corpos físicos eram visíveis. Assim que um se aproximava do outro, o calor e o tato já denunciavam o contato. E, se preciso, o alarme da dor disparava, e o reflexo dos dois corpos entrava em ação, evitando a violência.
Mas nada disso funcionava quando a invasão acontecia nos corpos internos.
Primeiro, porque não eram visíveis e isso tornava quase impossível respeitar fronteiras que ninguém conseguia ver. Depois, porque não eram invadidos por avanço físico algum. Eram invadidos pela imposição da vontade.
Deixa eu te dar uma imagem.
Era considerado violência quando um ser enfiava o dedo no olho do outro. O dedo era visível. O olho era visível. O avanço de um sobre o espaço do outro era, sem dúvida, invasão.
Mas a imposição de vontade saía de um e entrava no outro de forma completamente invisível, já que as duas vontades estavam escondidas dentro dos respectivos corpos.
Esse problema começou há muito tempo. Mas acontece até hoje.
Suponha que minha vontade seja dançar, porque isso me dá prazer. Eu olho para você e começo a impor essa vontade sobre você.
Só que você odeia dançar. Seu corpo de prazer é diferente do meu. Seu prazer é a leitura.
Eu não tenho como saber disso. Só você pode conhecer os seus corpos internos.
Então, quanto mais insisto em te convencer a dançar, mais violento eu sou com o seu corpo de prazer — sem nunca saber que estou sendo.
O mesmo vale para os outros três corpos.
Não há intenção.
Não há maldade.
Mas há violência.
Por ignorância.
Caim lembra de Abel. Da voz subindo. Dos dois tentando, sem perceber, empurrar um dentro do outro algo que nenhum dos dois tinha pedido para receber.
Alfa continua:
Assim como o corpo físico ganhou seu alarme — a dor — os quatro corpos internos também ganharam o seu. Só que, em vez de uma única dor, o alarme se dividiu em quatro, um para cada corpo.
Quando a invasão era no corpo das necessidades, o alarme soava como uma corneta barulhenta, irritante — o que vocês hoje chamam de raiva.
Caim lembra de um dia que um amigo quebrou sua bicicleta.
Quando a invasão era no corpo dos prazeres, o alarme soava como uma corneta desafinada, arrastada — o que vocês hoje chamam de tristeza.
Caim lembra quando Abel escondeu seu brinquedo preferido.
Quando a invasão era no corpo dos valores, o alarme soava como uma corneta fúnebre, molhada — o que vocês hoje chamam de mágoa.
Caim lembra de um amigo de infância rindo da sua coleção de selos.
Quando a invasão era no corpo das verdades, o alarme soava como uma corneta aterrorizante — o que vocês hoje chamam de ânsia.
Caim lembra de todas as brigas políticas com Abel.
O reflexo seguiu funcionando do mesmo jeito de sempre. Assim que qualquer um dos quatro alarmes tocava, o corpo invadido se afastava automaticamente do corpo que o invadia.
Só que, dessa vez, algo novo nasceu na convivência.
O reflexo, tão natural e compreensível para quem o sentia por dentro, era estranho e incompreensível para quem via de fora. Era estranho ver alguém se afastando, sem motivo aparente, sem explicação nenhuma.
O outro nunca via que aquele afastamento era só um reflexo.
E não tinha como ver.
A voz de Alfa baixa de intensidade.
Foi assim que nasceu o que vocês chamam de "males da modernidade".
Devagar. Mas assim.
Para não incomodar o outro com o próprio reflexo de invasão aos corpos internos, muitos de nós começamos a domesticá-lo. Camuflá-lo. Fingir que não ouvíamos o alarme que, na verdade, não parava de tocar.
Caim sente essa explicação cortá-lo como lâmina fina. Lembra de cada vez que baixou a cabeça na mesa de domingo, de cada discordância que engoliu junto com a comida, sem nunca dizer em voz alta.
Esse comportamento é o que vocês chamam de má vontade.
Nossas vontades eram diferentes. Mas, para continuarmos perto de quem amávamos, um ser passou a se curvar à vontade do outro.
Foi daí que vieram a depressão, o pânico, o estresse — e tudo o mais que carrega esse mesmo nome de família.
A agressividade surgiu como o outro lado do mesmo mecanismo de defesa.
Atacar por precaução — porque a melhor defesa é o ataque.
Não nos tornamos agressivos por desejo de atacar. Nos tornamos agressivos por necessidade de nos defender.
Caim lembra do empurrão que deu em Abel antes mesmo de decidir dar — a vontade de humilhar primeiro, só para não ser humilhado depois.
Mais uma vez, preciso te dizer: isso foi acontecendo aos poucos, devagar, ao longo de um tempo tão grande que não cabe em nenhum dos seus calendários.
Alfa faz uma longa pausa.
E foi assim que, gradativamente, nós — seres vazios, feitos apenas de vontade — fomos nos transformando em vocês.
Seres humanos.
E foi assim que nasceu a violência.
Alfa faz outra longa pausa.
Agora vou encerrar esta comunicação.
Espero que saber do passado te ajude a viver melhor no presente.
Espero mesmo.
Afinal — você sou eu.
Caim emerge da água.
Não sabe quanto tempo se passou — pode ter sido um instante, pode ter sido uma vida inteira dobrada dentro de um instante. Não importa.
Algo mudou. Ele mudou.
Lembra de Abel. Da voz subindo, o empurrão, a vontade de humilhar antes de ser humilhado. E, pela primeira vez, não vê ali uma briga. Vê quatro corpos invisíveis colidindo no escuro. Tentando defender uma fronteira que o outro nunca conseguiu enxergar.
Lembra do pai, da namorada, do amigo, do colega, dos comentários na rede social. Sente, em cada lembrança, o mesmo padrão se repetir, claro agora, como se alguém tivesse finalmente acendido a luz num quarto onde ele tropeçava havia anos.
Ninguém queria ferir. Todos estavam apenas impondo a própria vontade sobre corpos que não conseguiam ver. E sendo, ao mesmo tempo, invadidos por vontades que também não conseguiam enxergar.
Caim se levanta.
Sai do banheiro.
E vai pingando até a sala.
Abel está sentado no mesmo lugar, com o celular na mão, quando Caim volta para sala. O rosto ainda fechado, os olhos ainda duros da briga.
— O que aconteceu? Tomou banho de roupa? — pergunta Abel, olhando de esguelha, sem largar o celular, em tom de quem só quer que o domingo termine antes que a briga recomece.
Caim fica parado por um instante, sentindo o antigo reflexo pedir passagem — a vontade de revidar, de justificar, de provar de novo o que já tentou provar antes.
Mas dessa vez, segura.
— Me escuta, Abel — diz Caim.
Abel franze a testa, desconfiado. Caim sabe o que aquela desconfiança pesa — anos de conversas que começaram bem e terminaram em gritaria, o histórico inteiro pesando contra qualquer tentativa nova.
— Já brigamos o suficiente por hoje — diz Abel, os olhos ainda na tela.
— Não é briga. — A voz de Caim treme, mas ele continua. — Preciso te dizer uma coisa, e se você sair agora, não sei quando vou ter coragem de novo.
Abel para de mexer no celular. Não olha para Caim ainda, mas escuta.
— Pode dizer, estou ouvindo.
A frase é uma porta entreaberta, prestes a fechar.
Caim entra.
— Sei que passei a vida te corrigindo — diz Caim. — Sua profissão, seu jeito de criar os filhos, até o time que você torce. Sempre com a desculpa de que era pelo seu bem. Nunca foi. Era porque eu não sabia lidar com você sendo diferente de mim.
Abel levanta os olhos, finalmente, o rosto sem a dureza de antes — mas sem confiança nenhuma também.
— Isso é bonito de dizer agora — diz Abel — depois de décadas.
— Eu sei. — Caim não se defende dessa. — E não vim aqui pedir que você esqueça décadas numa conversa. Só vim dizer que, quando você fala que eu não tenho caráter, não é uma frase. É uma faca. Corta minha alma e o apreço que tenho por você.
Abel olha para Caim. Um ainda pingando água no tapete, o outro com o celular esquecido na mão, admitindo, pela primeira vez, suas feridas.
Abel clica no aplicativo de delivery.
— Vamos pedir pizza? — diz.
Não é muito. Mas Caim entende, com a mesma clareza da água, que às vezes "vamos pedir pizza" é a frase mais amorosa que existe.
Caim e Abel não são mais dois corpos: são oito.
Oito fronteiras invisíveis aprendendo, pela primeira vez, a se anunciar antes de invadir.