Autociência
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
ALUNO:
Eu gostaria de saber qual é a diferença entre autociência e autoconhecimento? Desculpa se for uma pergunta boba, professor. Eu pensei: "Não vou perguntar isso. É tão básico!". Mas é uma dúvida sincera.
PROFESSOR:
Não tem pergunta boba. Aliás, em geral, as perguntas mais fundamentais são bobas.
Tipo as perguntas que as crianças fazem:
O que é a vida?
O que é o tempo?
Por que o espaço é vazio?
Perguntas sobre o óbvio parecem bobas.
Muitas pessoas têm essa mesma dúvida que você, mas não têm coragem de perguntar.
Que bom que você perguntou!
Nunca se preocupe se uma pergunta é boba. Apenas expresse sua dúvida. Isso é o que importa. Esse é o papel do aluno. O resto fica por conta do professor.
Vamos conversar. Conversando a gente se entende.
E não tem pressa.
O importante é a gente aprofundar.
Vamos começar observando a palavra “autociência”.
Se você digitar a palavra "autociência" no Google, ele vai te apresentar uma lista de conteúdos da 1ficina e só da 1ficina. A palavra "autociência" leva o Google sempre para o site da 1ficina. Por quê?
Porque a palavra "autociência" não existia até o momento em que eu a inventei. Eu inventei a palavra "autociência" para explicar o trabalho da 1ficina. É uma palavra que não existe no dicionário e, devido ao Google, agora existe na internet.
Essa é uma coisa importante de observar.
E não estou falando isso para dizer "eu sou o cara que inventou a palavra autociência". Não é por isso.
Precisamos de palavras para nos referirmos às coisas e às ideias. Sem palavras não tem comunicação verbal. E não existia uma palavra para se referir à autociência.
Essa é a primeira observação importante.
A segunda é que não é uma palavra à toa.
Eu não joguei um punhado de letras para cima, elas caíram, então construí a palavra autociência com a posição das letras caídas no chão.
Não foi assim que inventei a palavra autociência.
A palavra "autociência" contém dois termos: "auto" e "ciência".
É muito importante observar isso também.
Ela não é autorama, nem automóvel.
Ela é autociência.
É muito importante observar que tem a palavra "ciência" na palavra "autociência".
Então, sendo que a palavra autociência contém a palavra "ciência", eu te pergunto:
Qual é o seu entendimento sobre ciência?
O que a palavra "ciência" significa para você?
Quando você diz "ciência", está se referindo a quê?
Quando você escuta a palavra "ciência", que entendimento você tem sobre o que está escutando?
ALUNO:
Autociência é uma pesquisa minha. Eu me pesquiso e me descubro.
PROFESSOR:
Atenção! Tem um detalhe aí que você deixou passar batido e que é fundamental.
Eu dei um passo para trás.
Antes de conversarmos sobre autociência, eu estou propondo conversar sobre ciência.
Tem duas coisas: a ciência e a autociência.
Quando eu inventei a palavra "autociência", eu usei a palavra "ciência". E o que eu estou propondo é dar um passo para trás e conversar um pouco sobre ciência.
Minha pergunta para você, neste momento, é para entender seu entendimento sobre ciência e não autociência. Vamos esquecer a autociência por um momento e investigar o que é ciência.
Quando você pensa em ciência, o que você pensa?
Qual é a sua definição de ciência?
Qual é seu entendimento de ciência?
A pergunta é para você me dizer o seu entendimento sobre ciência. O que significa ciência para você?
Depois vamos para a autociência.
ALUNO:
Entendi. Eu penso em tabela periódica, em fotossíntese, em velocidade, em medição de velocidade versus tempo.
Ciência, para mim, é tudo que a gente estuda fora da gente, como faz no colégio, na faculdade.
Ciência é pesquisar sobre um determinado assunto.
E outra coisa que eu lembrei: a ciência é para conhecer o mundo fora da gente. Eu acho que tudo o que é fora da gente, que a gente pesquisa, estuda e descobre, é ciência.
E essa ciência pode vir a se tornar conhecimento.
PROFESSOR:
Muito bem! Agora, vou te fazer uma pergunta fundamental na questão, lembrando sempre que não tem resposta certa; tem a sua resposta, da forma como você entende. A ideia é que a gente vá conversando e se esclarecendo. O lucro que podemos ter aqui é o esclarecimento.
Isso aqui não é vestibular — "Ah, eu tenho que acertar para passar no vestibular". Esquece isso. Não é vestibular. Aqui visamos o esclarecimento. Se chegarmos ao esclarecimento, aí ganhamos. É isso que importa.
Então, não tem problema errar a resposta. Não é vestibular. Não se preocupe com isso. Ocupe-se em ser sincero na sua resposta.
Para aprofundarmos mais, pergunto:
Existe ciência sem cientista?
Pode existir ciência sem cientista?
Sim ou não? E por quê?
Se sim, por que sim?
Se não, por que não?
ALUNO:
Não existe ciência sem cientista.
Por quê?
Porque é o cientista que dá vida à ciência.
É ele que descobre, que analisa, que pesquisa.
Não existe ciência sem cientista, assim como não existe observação sem observador.
É isso?
PROFESSOR:
Sim, é isso!
Aqui não é vestibular, mas você acertou!
Agora, vamos aprofundar mais nessa obviedade, porque ela tem coisas para nos contar.
Vamos olhar para ela e ver o que ela tem a dizer.
PROFESSOR:
Fazendo uma analogia do cientista com o músico, podemos entender que não existe música sem músico. A música é produzida pelo músico.
Vamos pensar no músico como um pianista. Se o pianista não tocar o piano, não tem música.
Sem o pianista, tem o piano ali, mas não tem música.
E sem o cientista, não tem o quê?
Se o pianista produz música, o que o cientista produz?
Essa é a próxima questão a ser investigada.
ALUNO:
O pianista produz música e o cientista produz ciência.
PROFESSOR:
Está correto: o cientista produz ciência.
Só que essa é a maneira coloquial de falar. E ela deixa a questão obscura, ela não esclarece.
Para esclarecer, precisamos usar uma palavra melhor para explicar o que o cientista produz.
Em vez de dizer que o cientista produz ciência, a gente pode dizer que ele produz conhecimento.
O músico produz música; o cientista produz conhecimento.
O conhecimento é o produto.
Dito isso, podemos aprofundar mais a questão. Podemos investigar como o cientista produz o conhecimento.
PROFESSOR:
O músico produz música.
Mas como?
Ele usa um instrumento.
No caso do pianista, ele usa o piano.
Tem um instrumento, o piano, entre a música e o pianista.
E o cientista?
Como o cientista produz o conhecimento?
Se o pianista usa o piano para produzir música, o que o cientista usa para produzir conhecimento?
ALUNO:
Essa é difícil, hein, professor?
Estou aqui faz horas tentando descobrir que instrumento o cientista utiliza para produzir conhecimento.
Acredito que o instrumento do cientista para produzir conhecimento é o método que ele utiliza.
PROFESSOR:
O método faz parte.
Quando o pianista vai produzir a música, ele não aperta as teclas do piano aleatoriamente, ele usa um método musical. Então, o método existe, sim, mas o instrumento que o músico usa não é o método; o instrumento, é o piano.
A pergunta é: qual é o instrumento que o cientista usa para produzir conhecimento?
ALUNO:
Posso pensar até que horas?
PROFESSOR:
Pode pensar a noite inteira. Amanhã cedo você me dá uma resposta.
ALUNO:
O que está pegando para mim é o tal do instrumento.
Instrumento é coisa física: a faca que passa manteiga no pão é um instrumento; o piano, que produz música, é um instrumento. Agora, o instrumento do cientista para produzir conhecimento, eu fico pensando, é a observação.
Mas observação não é uma coisa palpável.
PROFESSOR:
Muito bem! Está no caminho. Vou te fazer uma pergunta para deixar mais claro o que você começou a observar.
Vamos fazer uma imagem.
Imagine um cientista que está produzindo conhecimento. De repente, desligamos os cinco sentidos desse cientista. Desligamos a visão dele, depois desligamos o tato, o paladar, o olfato, a audição…
Desligamos tudo.
Tem um cientista lá, o corpo do cientista existe, mas ele não tem mais os cinco sentidos.
Esse cientista consegue produzir conhecimento?
Sim ou não?
E por quê?
ALUNO:
Eureka! O instrumento é o cientista.
PROFESSOR:
Na trave!
Precisamos determinar quem é o cientista, né? Se determinarmos que o cientista é o corpo, vamos ver de uma maneira. Se determinarmos que o cientista é quem está usando o corpo, vamos ver de outra.
Na sua resposta, você está assumindo que o cientista é o usuário do corpo. E não o corpo.
Então, existe um cientista, que não é o corpo, e ele usa o corpo para produzir conhecimento.
Funciona; é uma maneira de ver.
Só que podemos determinar que o cientista é o corpo.
Se determinarmos isso, o que o cientista está usando para produzir conhecimento são os cinco sentidos.
Então, muda a resposta:
O instrumento que o cientista usa para produzir o conhecimento são os cinco sentidos.
Por isso eu falei em desligar os sentidos.
Se você desliga os cinco sentidos do cientista — a visão, o tato, o paladar, o olfato, e a audição —, ele não tem como produzir conhecimento.
Por que não?
Porque, sem os cinco sentidos, o cientista não tem como produzir conhecimento. Assim como sem piano, o pianista não tem como produzir música.
Está claro isso?
ALUNO:
Sim. O instrumento são os cinco sentidos.
PROFESSOR:
Agora a pergunta é: por que, se tirarmos os cinco sentidos, o cientista não consegue produzir conhecimento?
ALUNO:
Porque desligando os cinco sentidos, a gente não manda estímulos para o cérebro.
PROFESSOR:
Exato!
Você olha para a árvore e vê a copa, vê a cor, vê que ela tem tronco, que tem raiz.
Você aperta a árvore e percebe que ela é dura, que é feita de madeira.
Você cheira a árvore, sente o cheiro dela, e tal.
Isso é você, cientista, conhecedor, conhecendo a árvore, produzindo conhecimento sobre a árvore.
A árvore é o objeto do seu conhecimento; ela é o conhecido.
Então, há você, o conhecedor, e há o objeto que você está conhecendo.
Sujeito e objeto.
Conhecedor e conhecido.
A árvore é o conhecido, é a coisa que você está conhecendo quando está usando os sentidos.
Por isso, se desligar os sentidos, é impossível produzir conhecimento. Você não tem acesso ao objeto, ao observado, a não ser através dos sentidos.
Você falou certo. Falou de impulsos levados ao cérebro. Estou dizendo a mesma coisa de outra maneira.
Sem os cinco sentidos, você não acessa nada. Não tem como conhecer nada. Você, observador, precisa dos cinco sentidos para observar os objetos: a árvore, a água, a pedra, a cebola, a cadeira, os astros, o que for.
Está claro isso?
ALUNO:
Sim, professor, está óbvio ululante!
PROFESSOR:
Muito bem!
Pode botar mais cartucho na espingarda, porque lá vem outra pergunta:
Basta ter sentidos?
Os cinco sentidos são suficientes para produzir conhecimento?
Lembre-se de que o cientista aqui, o conhecedor, é você. Então, pense em si mesmo para responder:
Basta eu ter cinco sentidos para conhecer, para produzir conhecimento?
Sim ou não?
E por quê?
ALUNO:
Não, não basta.
A informação tem que ser processada em algum lugar, que é o cérebro, a mente.
PROFESSOR:
Muito bem.
Observar não é suficiente para produzir conhecimento.
Se fosse, os homens das cavernas teriam olhado para o mundo e produzido todo o conhecimento que temos hoje em dia. Mas isso não aconteceu.
Se fosse, o neném saía do útero, abria os olhos, e já saberia tudo. Todo o conhecimento viria ao neném ao nascer. Mas não. Isso também não acontece.
Então, é evidente que, para produzir conhecimento, não basta observar. É preciso processar o que está sendo enviado pelos sentidos. É exatamente o que você falou: os sentidos trazem a informação e essa informação precisa ser processada pelo cérebro.
Observar com os cinco sentidos é um processo. Mas, para produzir conhecimento, é preciso que o cérebro execute um segundo processo: a decodificação.
Então, o conhecimento é produzido através de dois processos:
1) Observação (com os sentidos)
2) Decodificação (com o cérebro)
Esses dois processos precisam acontecer simultaneamente.
Primeiro vem a observação e, quase ao mesmo tempo, a decodificação. Aí o conhecimento vai sendo produzido.
Isso é a prática da ciência. Ciência é um processo feito de dois processos cognitivos simultâneos acontecendo no cientista.
PROFESSOR:
O pianista produz a música. A música é o produto. E como o pianista produz esse produto? Tocando o piano.
O cientista, o conhecedor, você, produz conhecimento. O conhecimento é produto.
Pergunto:
É um produto do quê? O que você faz que, ao fazer, produz conhecimento? Isso é que não estava claro, não estava explícito. E agora está.
Você observa e decodifica.
Isso é o tempo todo.
Ninguém precisa ir ao laboratório para produzir conhecimento. Todo ser humano é um cientista 24 horas por dia produzindo conhecimento. A prova disso é que todo ser humano está a todo instante experimentando conhecimento, pois está a todo instante produzindo conhecimento.
Mas como isso acontece?
Caminhamos até aqui para entender isso.
Você está a todo instante produzindo conhecimento através da observação e da decodificação.
A todo instante seus cinco sentidos estão funcionando, produzindo informação sensorial. E a todo instante essas informações estão sendo processadas e se transformando em conhecimento.
É muito importante entender isso:
Conhecimento é produto.
Quem produz o conhecimento é o cientista, o observador, o conhecedor: você.
E você produz esse conhecimento através de dois processos que acontecem de forma tão instantânea, tão simultânea, que você nem percebe que são dois.
Mas são dois.
Primeiro, a observação sensorial; e, logo na sequência, você decodifica essa informação que os sentidos estão enviando.
Assim vai sendo produzido o conhecimento.
Conhecimento é um produto.
Está claro isso?
ALUNO:
Está claríssimo.
PROFESSOR:
Muito bem.
Depois de tudo o que foi explicado aqui:
Ciência e conhecimento são a mesma coisa?
Sim ou não? E por quê?
ALUNO:
Pensei, pensei, pensei.
Sim, ciência e conhecimento são a mesma coisa.
PROFESSOR:
Ciência não é conhecimento.
Você está equivocado.
Vamos entender pensando no pianista.
O pianista toca o piano para produzir a música. Tocar o piano é o que produz a música, não é?
Pode ter o pianista e o piano, mas, se o pianista não tocar o piano, não vai produzir nenhuma música. É o ato, a prática, a ação de tocar o piano que produz a música.
A música é o produto.
A ciência é a mesma coisa: é uma prática.
O conhecimento é morto. Ele não é uma prática, um ato, uma ação. É o produto de uma ação.
Qual ação? O que você executa que tem como produto o conhecimento?
A resposta é: ciência.
A ciência é uma prática. Ela não é uma coisa morta; é uma coisa viva. É um exercício, uma ação, um processo.
São duas ações simultâneas: observar e decodificar.
Isso é ciência.
O que todas as pessoas fazem quando estão produzindo conhecimento é praticar isso: observar e decodificar.
Então, ciência e conhecimento são a mesma coisa?
Não. São coisas distintas.
Estão ligadas, mas são distintas.
Ciência é o processo, a prática que, executada, produz conhecimento.
Conhecimento é produto.
Ficou claro?
ALUNO:
Sim, ficou claro.
ALUNO:
Mas como eu decodifico?
PROFESSOR:
Boa pergunta!
Tem uma coisa aí que você não percebeu. E a maioria das pessoas não percebe. A prática da ciência é automática.
Você está observando e decodificando sempre, mas não percebe. Se você conseguisse parar de observar e decodificar, ia perceber que é cientista no automático.
Dá para fazer uma analogia com um gravador ligado, por exemplo. Só que o gravador desliga. Quando você desliga o gravador, ele para de gravar. E você é um gravador que não desliga. Essa coisa de não conseguir desligar o gravador é a ciência, que você não consegue desligar. Você não consegue desligar os cinco sentidos e a decodificação.
Quando eu falei lá atrás "imagine que eu desligasse seus cinco sentidos", era um exercício de imaginação, uma ficção; pois é impossível. Você não consegue desligar os seus cinco sentidos. Se conseguisse, perceberia que está o tempo todo executando a ciência no automático.
Observar e decodificar são dois processos, que você não percebe que está executando o tempo todo porque são automáticos, mas está. E isso é a ciência.
Esclareceu?
ALUNO:
Esclareceu, sim.
PROFESSOR:
O ponto-chave é entender a diferença entre fábrica e produto.
Por exemplo: você compra um sapato. O sapato é o produto. Quem fez o sapato? A fábrica de sapatos.
É preciso entender essa divisão: fábrica e produto, que é a divisão entre causa e efeito.
Sem a causa, não há o efeito.
Sem a fábrica, não há o produto.
Conhecimento é produto.
Conhecimento é sapato.
Se é sapato, tem uma fábrica.
Cadê essa fábrica?
Esse é o problema.
Você não vê a fábrica; você só vê o produto.
Por isso não entende o que é ciência.
Ciência é a fábrica do conhecimento. Se não houver a fábrica do conhecimento, como haveria conhecimento?
Mas do que é feita essa fábrica?
Essa fábrica é feita de observação e decodificação.
E quando eu faço isso?
O tempo todo.
E quando eu paro de fazer isso?
Nunca.
Você está o tempo todo fazendo.
"Então estou o tempo todo produzindo conhecimento?"
Exatamente. Você não está conhecendo as coisas — as portas, as cadeiras — o tempo todo?
Esclareceu?
Se esclareceu, me diga com as suas palavras: ciência e conhecimento são a mesma coisa?
Sim ou não? E por quê?
PROFESSOR:
Você achou que tinha feito a pergunta mais básica, né?
Você fez. Mas o problema é que a pergunta mais básica é a mais difícil, a mais cabeluda.
No rol dos estudos humanos, isso que estamos conversando, se chama epistemologia.
É esse xingamento aí mesmo.
O que é a epistemologia?
O que faz a epistemologia?
É você tomar conhecimento do conhecimento; entender o que é conhecimento.
🎬Assistir: O que é Epistemologia?
Assiste esse vídeo.
Eu peguei o vídeo mais básico que encontrei no YouTube, o menorzinho, de dois minutos. Ele explica um pouquinho do que é epistemologia.
Por isso você está com dificuldade. Sua pergunta é uma pergunta de epistemologia.
Por isso é embaçado. Os filósofos estão há mil anos tentando entender o que é o conhecimento.
PROFESSOR:
Próxima pergunta: a visão acontece no olho?
ALUNO:
Sim, acontece.
PROFESSOR:
Esse é o equívoco.
Se você tivesse olho, mas não houvesse processos de decodificação acontecendo no cérebro, você não teria visão.
Você não percebe, mas, quando está olhando para a cadeira e vendo a cadeira — vou usar a explicação da física —, os estímulos visuais estão chegando ao seu cérebro; a visão está acontecendo. Só que esses estímulos são decodificados. Essa decodificação é que cria a visão.
Se os estímulos não forem decodificados, você não vê a cadeira. Você está vendo a cadeira porque estão acontecendo duas coisas: o estímulo visual está chegando e sendo decodificado em cor, forma, altura, largura, profundidade.
Se não houvesse essa decodificação, você não enxergava nada.
Não adianta ter olho para ver. Precisa ter um cérebro processando a informação simultaneamente à chegada dela.
Os vídeos a seguir ilustram isso.
🎬Assistir: O Mundo Dentro Da Cabeça
🎬Assistir: Caverna Da Visão
🎬Assistir: Construções Mentais
PROFESSOR:
Olhe para uma cadeira.
Enquanto está olhando para cadeira, pergunte-se:
O que é ciência e o que é conhecimento nisso aqui?
Você está olhando para a cadeira, certo? Está olhando e vendo a cadeira, enxergando a cadeira. Aí me diga: qual é a parte que é o conhecimento e qual é a parte que é a ciência?
ALUNO:
A ciência é olhar para a cadeira.
Conhecimento é saber para que serve essa cadeira: serve para sentar, para descansar, para dormir, etc.
PROFESSOR:
Isso aí é a memória.
Memória é conhecimento acumulado. Nós estamos falando do conhecimento, e não do conhecimento acumulado.
Você está olhando para a cadeira agora e está conhecendo a cadeira agora. Só que você memoriza seu fluxo de conhecimento. Daí confunde o conhecimento com o conhecimento acumulado, que é a memória.
PROFESSOR:
Olhe para a cadeira.
Está vendo essa cadeira?
Ela é conhecimento. Ela é um produto. E quem está produzindo essa cadeira que você está vendo?
A ciência.
"Que ciência, Professor?"
O sentido da visão mais a decodificação do que o sentido da visão está enviando.
Isso é a ciência.
"Ah, mas isso eu não vejo. Eu vejo a cadeira."
Exatamente!
Você vê a cadeira, mas não vê o processo que está possibilitando que você veja a cadeira.
Isso é invisível, porque é um processo cognitivo, que envolve o sentido da visão mais a decodificação do que o sentido da visão está enviando.
Você olha para a cadeira.
A cadeira que você vê é ciência ou é conhecimento?
É conhecimento.
Tanto é que, se você desligasse a ciência — ou seja, desligasse os sentidos; se fechasse os olhos, por exemplo —, pararia de ver a cadeira. Por quê? Porque interrompeu a visão. E, ao interromper a visão, não há nada o que decodificar. Então, você não vê nada. Não há conhecimento.
Tudo o que você está vendo (agora e sempre) é conhecimento. Tudo aquilo de que você tem consciência é conhecimento. É produto. E quem está fabricando esse conhecimento? O seu funcionamento cognitivo — que, trocando seis por meia dúzia, podemos chamar de ciência.
Então, cadê a ciência?
Está por trás de tudo o que você vê, ouve e cheira.
Tudo que é conhecido.
Esclareceu?
Preciso que você me explique, com as suas palavras, a diferença entre ciência e conhecimento. Uma vez que isso estiver claro para você, aí sim eu posso responder à sua pergunta original: se autociência e autoconhecimento são a mesma coisa.
ALUNO:
Ciência é a fábrica, é o processo. O processo vem antes. E o produto é o conhecimento.
PROFESSOR:
Sim, se isso está claro para você, como você disse, então bateu o martelo e fechou o caixão.
Agora, vou fazer uma afirmação.
Depois, a partir dela, vou te fazer uma pergunta.
Depois, através dessa pergunta, vamos concluir esse penúltimo passo do entendimento.
Ficou claro que ciência é um processo e conhecimento é o produto desse processo. Ciência é a fábrica e conhecimento é o produto da ciência. Muito bem.
A afirmação é a seguinte:
Ciência e autociência são quase a mesma coisa.
Ciência é um processo, é uma prática.
Autociência também é um processo, também é uma prática.
São quase a mesma coisa, mas não exatamente. Há um pequeno diferencial que faz com que a ciência seja diferente da autociência, que não seja exatamente o mesmo processo, a mesma prática. Há algo na prática da autociência que a diferencia da ciência.
Que algo é esse?
O que diferencia a prática da autociência da prática da ciência?
Esse é o nosso penúltimo passo.
ALUNO:
Não sei.
PROFESSOR:
A ciência é a fábrica do conhecimento. É o processo através do qual se produz conhecimento. Autociência também é um processo de conhecer. Então, nesse sentido, ciência e autociência são iguais. Não há diferença nenhuma.
Mas, então, por que duas palavras?
Por que ciência e autociência?
Por que a 1ficina não usa só a palavra "ciência"?
O diferencial é uma sutileza.
É o objeto do conhecimento.
Na ciência, o seu foco, o objeto que você vai conhecer, é o outro. Você vai estudar a planta, o bicho, os elementos químicos, os planetas, a gravidade. Vai estudar tudo o que não é você, para ficar consciente dessas coisas. Isso é o que a ciência faz: ela tem como objeto de estudo o outro.
E o que é a autociência?
É quando o cientista aplica a ciência sobre si. Em vez de conhecer o outro, o cientista vai conhecer a si mesmo.
O cientista é o conhecedor. É quando o conhecedor vai conhecer o conhecedor. Isso é a ciência sobre si.
Por isso se chama autociência.
Essa é a diferença.
Ciência e autociência são a mesma coisa como processo de conhecer. Mas, na ciência, você vai conhecer o outro, os objetos externos — pedras, cadeira, e tal. E, na autociência, você vai conhecer a si mesmo.
Finalizando, então:
Autociência e autoconhecimento são a mesma coisa?
Não.
Por que não?
Porque autociência é a fábrica. Autoconhecimento é o produto. É através da prática da autociência que você produz o autoconhecimento. Sem a prática, não há o resultado da prática: o autoconhecimento.
Pronto! Pergunta respondida.
ALUNO:
O que me deixa em dúvida é o seguinte: como você sempre explica, há o autoconhecimento espiritual (existencial), o autoconhecimento humano (psicológico) e o autoconhecimento pessoal.
É a mesma prática para produzir os três?
PROFESSOR:
Para te conduzir aqui, para você ter clareza — e todos também —, vou começar dando um passo para trás e depois a gente avança. E esse passo para trás é a seguinte pergunta:
Como se pratica a autociência?
Porque estamos falando que a autociência produz autoconhecimento. Mas como a autociência produz o autoconhecimento? Ela é um processo, uma prática. Como é essa prática?
Estou dando esse passo para trás para não haver erro de entendimento, para ficar claro.
Vou fazer de novo uma analogia com a ciência.
Na ciência, eu uso os cinco sentidos para produzir conhecimento.
Vou estudar uma árvore; quero produzir conhecimento sobre ela. Fico olhando para a árvore: estou usando a visão. Cheiro a árvore: estou usando o olfato. Dou uma lambida na árvore: estou usando o paladar. Aperto a árvore: estou usando o tato.
Agora, vamos para a autociência.
Como eu faço para produzir o autoconhecimento?
Vou usar os cinco sentidos, igual na ciência?
Vou me lamber?
Vou me cheirar?
Vou ficar olhando para o meu dedão?
Como eu executo a produção do autoconhecimento?
É também através dos cinco sentidos?
Sim ou não? E por quê?
ALUNO:
A minha resposta é que não, não é igual. Na autociência nós ficamos assistindo, constatando, estudando, evidenciando, entendendo as experiências internas: emoções, pensamentos, desejos, etc. E, com isso, eu produzo o autoconhecimento. Então, é diferente da ciência, que usa os cinco sentidos.
Aqui vou usar essa presença, que vai estar vendo cada experiência, cada vivência, cada emoção, cada pensamento, cada desejo, tudo o que estiver acontecendo.
PROFESSOR:
Olha só que interessante: faltam palavras.
Essa é uma área muito nova para o ser humano. Embora sejamos humanos há muito tempo, não temos palavras para descrever coisas fundamentais que fazem parte da nossa experiência de ser humano.
Não é com os cinco sentidos, mas a gente precisa de um sentido para executar a autociência. Algum sentido de percepção. Que sentido é esse?
Às vezes eu o chamo de sexto sentido.
Na neurociência, salvo engano, recebe o nome de metacognição.
Mas, simplificando, podemos chamar esse sentido que usamos para olhar para nós mesmos, para o ser humano fulano que somos, de auto-observação.
O sentido da auto-observação.
É através da auto-observação que vamos produzir autoconhecimento.
A observação, que a gente faz com os cinco sentidos, produz conhecimento — da árvore, das coisas. A auto-observação produz autoconhecimento.
Está claro isso?
ALUNO:
Está claro, sim.
PROFESSOR:
Para entrar na sua questão específica, vamos entrar nela através de outra pergunta.
A gente está praticando a auto-observação e observando o pensamento: observando o que está pensando, o que está se passando na nossa cabeça.
Essa é uma prática de auto-observação: você fica observando o seu pensamento.
Só que você também está tendo emoções. E começa a observar as suas emoções: para de observar os pensamentos e vai observar as emoções.
Claro que você alterna de um para o outro muito rápido. É tão rápido que não percebemos que estamos alternando, mas alternamos — do pensamento para a emoção, depois de volta para o pensamento, e tal.
Quando você está observando o seu pensamento, você está praticando a auto-observação. E, quando está observando as suas emoções, também está praticando a auto-observação. Nesse sentido, está executando a mesma prática, a auto-observação.
Só que não é exatamente a mesma prática. Há alguma coisa diferente aí, que muda de uma prática para a outra.
O que muda?
O que é igual, já sabemos: é a auto-observação.
Mas uma coisa muda de uma prática para a outra. E a minha pergunta para você é:
O que muda?
O que é diferente nessas duas práticas?
ALUNO:
Eu fiquei testando aqui agora e não sei o que essas duas práticas têm de diferente.
Fiquei aqui em auto-observação, observando o meu pensamento — no caso, o pensamento de tentar responder à pergunta que você fez: o que há de diferente entre a auto-observação do pensamento e a auto-observação das emoções.
Depois de ficar observando o meu pensamento, tentando responder, fui olhar a emoção e me pareceu igual. Não consegui capturar o que há de diferente.
PROFESSOR:
O que há de diferente é o objeto da sua auto-observação.
Mesmo no pensamento isso acontece. Você pode, por exemplo, estar observando os pensamentos de responder à minha pergunta. Aí você muda de objeto. Sai do objeto "pensamentos a respeito da conversa com o professor" e vai para o objeto "pensamentos a respeito de cuidar do almoço". Ou pensamentos a respeito do que vou fazer nas minhas férias. Ou pensamentos a respeito da minha família. Ou pensamentos sobre o clima, o calor.
Percebe?
Você pula de um objeto para outro.
Você muda de objeto.
Então, a auto-observação tem foco.
Vamos fazer de novo uma analogia com a ciência.
Você entra numa floresta. Há árvores para todo lado, um mundaréu de árvores. Não dá para estudar 30 árvores ao mesmo tempo. Precisa de foco. Precisa definir o objeto de estudo. "Vou estudar esta árvore".
Você pode estudar 30 árvores, mas uma de cada vez. Estuda uma árvore, depois outra, depois outra, depois outra. É preciso foco para a produção do conhecimento.
E do autoconhecimento também.
Então, o que muda é o objeto.
Quando você foca, define aquele objeto.
Você foca naquela árvore e estuda aquela árvore. Daí pode aproveitar e aprofundar. Por exemplo: "Vou estudar a árvore X". O seu foco está nela. Você olha a copa. Aí aprofunda: "Agora vou estudar a casca da árvore". Percebe? Você aprofundou o seu foco. Não mudou de objeto no sentido de mudar de árvore, mas mudou da árvore inteira para a casca. Depois: "Já estudei a casca; agora vou estudar as folhas".
A mesma coisa acontece na prática da autociência. Você foca em um pensamento, depois foca em outro.
Você é veterano e conhece a prática do Diário da Consciência. A prática do Diário da Consciência é pontual por conta disso. Você define um ponto, um foco, um caso, e faz aquele estudo de caso. Se não botar o foco e definir o objeto, você tem tudo à disposição e não estuda nada, porque não consegue se conscientizar de nada.
Se olhar tudo ao mesmo tempo, é como se fosse glaucoma: não enxerga nada. Vê tudo e não enxerga nada.
Então, o que muda é o objeto que você está auto-observando, o objeto que você define para auto-observar.
Se definir "vou observar o meu pensamento", você passa a observar o seu pensamento.
E você define isso através do próprio direcionamento da sua auto-observação. Se direcionar a sua auto-observação para o pensamento, vai observar o pensamento. Se direcioná-la para as emoções, vai observar as emoções.
E aí pode aprofundar cada vez mais numa coisa ou noutra.
Por exemplo: "Vou estudar o pensamento — especificamente, o meu pensamento a respeito do assunto X". E, dentro do assunto X, há 20 coisas: você vai estudar especificamente esta, depois aquela, e vai aprofundando.
Ou então: "Vou estudar as minhas emoções". Aí você foca nas emoções. "Vou estudar a raiva, especificamente." "Vou estudar a raiva que eu tenho da coisa X."
Está entendendo?
O que muda na prática da auto-observação é o objeto de estudo. É o foco que você está dando.
E é preciso ter foco para estudar, para produzir o autoconhecimento. Senão, não produz.
Acho que ficou claro, mas não tenho como saber antes de você me responder. Então, me diga se ficou claro.
E, se não ficou, pode perguntar.
ALUNO:
Ficou claro que é preciso foco: focar no pensamento de A a Z, ou na emoção de A a Z. É preciso ter foco, porque assim é possível produzir autoconhecimento. Sem foco, como você falou, é como se fosse um glaucoma: não há como enxergar e, enxergando, produzir autoconhecimento.
Mas e os três tipos de autoconhecimento?
PROFESSOR:
Primeiro, vamos definir que a auto-observação não se altera: é sempre a mesma prática para a produção de autoconhecimento.
Porém, mudamos o objeto da nossa auto-observação.
E agora chegamos à questão que você perguntou.
Temos três tipos de autoconhecimento: o existencial, o psicológico e o pessoal.
Se são três tipos diferentes, acontece alguma coisa na auto-observação que faz com que a gente produza esses três tipos diferentes de autoconhecimento.
E a minha pergunta é: o que acontece?
O que acontece na auto-observação para que ela tenha como produto três autoconhecimentos diferentes — o existencial, o psicológico e o pessoal?
ALUNO:
O que muda é o que você falou: o foco. O objeto da auto-observação.
PROFESSOR:
Exatamente.
O que muda é o foco. O objeto da auto-observação.
São três objetos diferentes.
Quais são os três?
ALUNO:
Então, essa é a minha pergunta.
Não sei a resposta.
PROFESSOR:
Vou deixar a auto-observação existencial por último.
Vamos começar pelo psicológico, que você chamou de humano.
Você é um ser humano fulano.
O humano é o psicológico.
Há um funcionamento psicológico que é humano.
O que significa dizer que ele é humano? Que funciona igual para todos os seres humanos. Igual ao Windows do computador. Todos os computadores — ou a maioria deles — funcionam com um sistema operacional chamado Windows. E esse Windows é igual em todos os computadores. É isso que possibilita que um computador se comunique com outro: eles falam a mesma língua, usam o mesmo fundamento operacional. E é isso que possibilita que você interaja de forma humana com outros seres humanos: você usa o mesmo sistema operacional que eles, que na 1ficina recebe o nome de natureza humana.
Então, você tem um funcionamento psicológico humano, e todos os seres humanos também têm. Quando você está observando o seu funcionamento psicológico, está produzindo autoconhecimento psicológico. Só que, quando você observa o seu funcionamento psicológico, ele está acontecendo com um conteúdo específico, pessoal, seu.
Exemplo: você vai observar a raiva acontecendo. A raiva que você observa é humana. Ela tem um funcionamento emocional igual para todos os seres humanos; funciona tal como as emoções funcionam em todos os seres humanos.
Só que a raiva que você está observando, embora seja igual para todos, é a sua raiva em relação a um determinado conteúdo, a uma determinada pessoa, a uma determinada situação. Essas características particulares e pessoais da sua raiva já são um objeto pessoal. É você estudando a sua raiva.
Então, a auto-observação pessoal e a auto-observação psicológica acontecem ao mesmo tempo. Porque, quando você está estudando a sua raiva, está estudando a sua raiva pessoal. Só que a raiva é do funcionamento humano, é da natureza humana. Então, quando você entende o funcionamento da sua raiva, vem de brinde entender a natureza de todos os seres humanos com as suas raivas.
Quando estamos estudando o funcionamento da psicologia humana — quando a 1ficina começa a explicar o funcionamento do desejo, do outroísmo e de tudo o mais que acontece dentro de você psicologicamente —, você olha para você, pratica a auto-observação olhando para a sua característica pessoal. Porque não tem como olhar para o funcionamento da raiva no outro. Você não tem esse acesso. Só consegue observar a sua raiva. Se formos estudar o funcionamento da crença, você olha para a sua crença.
Você estuda sempre a sua característica pessoal. Só que daí faz uma abstração.
Você abstrai.
Você diz assim: "A minha raiva funciona assim. A minha crença funciona assim. E isso é pessoal, meu. Porém, é humano". Então, de alguma forma, com um conteúdo diferente, os outros seres humanos fazem a mesma coisa.
Eles têm um processo emocional igual ao meu, com conteúdos diferentes. Só isso muda.
Igual ao computador: o cara que está usando o Windows para mexer num texto está usando com o conteúdo X — um texto sobre a migração dos patos no verão. E o cara que está usando o Windows para mexer num texto sobre a crise do petróleo está usando a mesma coisa. É o mesmo uso, só que com conteúdo diferente.
A auto-observação psicológica e a pessoal caminham juntas. A distinção é só pedagógica. Não há como praticar a auto-observação psicológica a não ser voltada para a sua característica pessoal, o seu conteúdo pessoal. Só que aí você abstrai o funcionamento psicológico humano do seu caso pessoal, com o seu conteúdo pessoal.
Então, o que muda do objeto da auto-observação psicológica para o da auto-observação pessoal?
Na auto-observação pessoal, você põe o foco no seu conteúdo, porque isso é completamente pessoal: o seu conteúdo é seu, é da sua pessoa. E, na auto-observação psicológica, você põe o foco na estrutura do seu funcionamento psicológico, independentemente do conteúdo que ele está carregando.
Claro que ele sempre vai estar trabalhando um conteúdo, que é pessoal. Mas o seu foco não é entender o conteúdo, e sim a estrutura do funcionamento psicológico.
Ficou claro?
ALUNO:
Ah, tá. Então é a mesma coisa?
A gente separa só para fins pedagógicos.
PROFESSOR:
Exatamente.
Vamos fazer uma analogia aqui só para ilustrar ainda mais e ajudar no entendimento.
Imagine que você vai estudar o futebol do Neymar.
Você fica olhando o Neymar: como ele chuta a bola, como corre, como cabeceia, etc.
O que você está estudando? Uma coisa particular, que é o jeito como o Neymar joga futebol. Só que, seja o Neymar jogando futebol, seja, sei lá, o Messi, os dois estão jogando futebol. O Neymar chuta e cabeceia assim; o Messi chuta e cabeceia assado. Mas chutar e cabecear é do futebol.
Então, na hora em que você está estudando, produzindo o seu autoconhecimento pessoal, está automaticamente fazendo o psicológico também.
Como eu — professor da 1ficina, que escrevi os livros de autoconhecimento psicológico — cheguei nisso? Observando a psicologia dos outros? Não. Impossível. Eu não tenho acesso à psique dos outros; só tenho a minha. Eu me debrucei sobre a minha. Pratiquei a auto-observação do meu funcionamento psicológico e daí abstraí.
Quando você lê os livros de psicologia da 1ficina, o que há lá? Uma abstração que fiz a partir da auto-observação pessoal da minha psique. Porque não adianta nada eu falar do meu conteúdo; não vai servir para ninguém. Mas, se eu fizer essa abstração e falar da psique humana em si, serve para qualquer ser humano.
Ficou claro?
ALUNO:
Sim.
PROFESSOR:
Muito bem, então vamos ao caviar. O suprassumo do autoconhecimento: o autoconhecimento existencial, também conhecido como iluminação, despertar espiritual, etc.
O objeto da auto-observação pessoal e psicológica é o funcionamento psicológico e o conteúdo pessoal de cada um. E o autoconhecimento existencial? Qual é o objeto da auto-observação que produz o autoconhecimento existencial?
O que deve ser observado para se produzir autoconhecimento existencial?
Devemos observar a própria auto-observação.
A produção do autoconhecimento existencial tem como objeto de auto-observação a própria auto-observação.
Auto-observação existencial é observar a observação.
Quando você está observando a observação — quando o objeto da sua auto-observação é a própria auto-observação —, você está produzindo o autoconhecimento existencial.
E que autoconhecimento existencial é esse?
"Eu existo."
Por isso eu falo que iluminação é a coisa mais ridícula que há. Se você praticar o autoconhecimento psicológico, vai ficar consciente de uma enormidade de coisas: o funcionamento da raiva, do medo, da preguiça, da inveja, e tralalá, e tralalá. É muita coisa. Muito autoconhecimento psicológico que você vai produzir. No pessoal também.
No caso do autoconhecimento existencial, você pratica, fica consciente de que é consciência e acabou. Fim do assunto. Não há mais o que saber. Terminou.
Então, a auto-observação existencial tem como objeto a própria auto-observação. Simples assim.
Ficou claro?
ALUNO:
Sim. E eu te agradeço.