Autociência
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Jardim do Éden
Alguém te ensina autoconhecimento e você acredita.
Mas acreditar não é saber — é autoconhecimento emprestado.
E pode ser equivocado.
Existe outra maneira de você se conhecer — direta e própria.
Chama-se autociência.
Nossa jornada começa onde tudo começa: no útero.
A primeira pergunta é:
— O que você precisa saber dentro do útero?
A resposta é nada.
Dentro do útero, você precisa saber tanto quanto um repolho.
O repolho não sabe nada. E os nutrientes chegam até ele.
Dentro do útero é o Jardim do Éden.
Você é expulso do paraíso — sai do útero.
A segunda pergunta é: fora do útero, o que você precisa saber?
A resposta é tudo.
E por quê?
Porque fora do útero, você precisa saber para sobreviver.
Dentro do útero, saber ou não saber é irrelevante — você sobrevive do mesmo jeito.
Fora do útero, se você não souber, você morre.
Fora do útero, você precisa saber que tem cinco dedos, e para que servem. Que tem orelhas. Que tem boca. Que tem nariz. Etc.
Saber é imprescindível.
Não existe opção B.
Para continuar vivo, só existe a opção A: saber.
Ou você sabe, ou você morre.
Fora do útero, você precisa saber para sobreviver. Saber é capital. É fundamental. É vital. Logo, você precisa adquirir conhecimento.
E como você faz isso? Quem te ensina?
Ninguém. Você aprende sozinho, fazendo experiências — igual um cientista.
Você coloca as coisas na boca para aprender sobre o gosto. Aperta para aprender sobre o tato. Fica em pé para aprender equilíbrio e andar. Etc.
Ninguém te ensina nada.
Você aprende por conta própria, seguindo sua curiosidade.
Tanto que, quando você chega na escola para ter aula de português, você já fala português. Pois aprendeu sozinho ouvindo sons.
Aprendizagem sem ensino
Aprendizagem sem ensino não é a única forma de aprender.
Existe também aprendizagem com ensino.
Escolas são locais específicos para isso. Você vai à escola para ser ensinado. Ler livros, estudar, ter aulas, é aprendizagem com ensino.
Através da aprendizagem com ensino, você não produz conhecimento próprio — produz conhecimento emprestado.
Professor, livros, escolas te dão conhecimento emprestado.
Quando você estuda sobre a Torre de Pisa, está recebendo conhecimento emprestado. Para ter conhecimento próprio, você precisaria pegar um avião e ir até a Itália. Se você apenas acessa a internet, vê as fotos, isso é conhecimento emprestado.
Conhecimento próprio é conhecimento que você sabe — tem ciência.
Conhecimento emprestado é conhecimento que você não sabe. Não tem ciência. Tem apenas a informação — e só lhe resta acreditar.
Conhecimento emprestado é crença.
E acreditar não é saber.
Saber é ciência. Acreditar não é ciência.
Eis o nó da mexerica.
Sendo que crença é conhecimento que você acredita, precisamos saber o que é acreditar.
Acreditar é dar crédito.
Que crédito você pode dar a uma crença?
Verdadeiro ou falso.
Mas é você que dá crédito. Crença — em si — não é nem verdadeira nem falsa, é crença.
"Elvis Presley é lindo" — é uma crença.
Pode ser verdadeira ou falsa.
"Corinthians é o melhor time do Brasil" — é uma crença.
Pode ser verdadeira ou falsa.
“Homem é tudo igual” — é uma crença.
Pode ser verdadeira ou falsa.
"Manga com leite mata" — é uma crença.
Pode ser verdadeira ou falsa.
"Investir em Bitcoin é bom negócio" — é uma crença.
Pode ser verdadeira ou falsa.
Verdadeiro e falso depende da sua assinatura, do crédito que você dá a um crença. Quando você assina embaixo, se torna verdadeira. Se não assina, se torna falsa.
Como descobrir se uma crença é verdadeira ou falsa?
Verificando.
E como verificar?
Através da observação.
Você está em casa procurando a chave do carro.
Você pergunta:
— Cadê a chave?
Alguém responde:
— Está na segunda gaveta da penteadeira.
O que a pessoa te deu, a chave?
Não. Te deu uma crença.
Essa afirmação pode ser verdadeira ou falsa.
Você vai até a penteadeira, abre a gaveta, observa.
A chave não está lá.
Você descobriu que aquela crença é falsa.
Você fala:
— Não está na segunda gaveta.
A pessoa faz outra afirmação:
— Ah, então está na minha bolsa.
A pessoa te deu uma nova crença.
Você vai até a bolsa, abre, fuça, e encontra a chave.
Essa crença se provou verdadeira.
A pessoa estava equivocada na primeira afirmação.
Equívoco é isso: acreditar que uma afirmação é verdadeira quando, na verdade, é falsa.
Sair do equívoco é cair na real — cair do cavalo.
Isso é ruim? Não. É ótimo.
Viver equivocado é viver mal.
Qual é o nome acadêmico do método de verificação?
Ciência.
A ciência surgiu na experiência humana porque antes dela não existia verificação — só existia acreditação.
As pessoas acreditavam e não faziam verificação.
Por exemplo. Durante muito tempo, por questões religiosas, as pessoas acreditavam que a Terra era o centro do universo. Era um equívoco — mas era tido como verdade.
O geocentrismo seguiu sendo afirmado como verdade até que começaram a surgir pessoas dispostas a fazer a verificação. Essas pessoas fizeram experimentos e ficou evidente que era a Terra que girava em torno do Sol.
A ciência surgiu como método de verificação.
Antes da ciência, só existia a acreditação. Se estava escrito no livro, era verdade. E se alguém quisesse verificar? Ia para a fogueira. Não tinha espaço para verificação.
Ou você acreditava, ou ia para a fogueira.
Muitos cientistas foram para a fogueira. Eram chamados de bruxos, de heréticos.
Galileu Galilei, para não ir para a fogueira, teve que escrever uma carta ao Vaticano negando o heliocentrismo.
A ciência é oposta à acreditação.
Você não precisa acreditar. Você verifica, e vê se uma teoria é verdadeira ou falsa. Esse é o método científico.
E qual é o método da acreditação?
Método nenhum. Eu te falo, e você acredita.
— Então, acreditar não tem lugar no mundo?
Tem. Mas não para verificar a veracidade. Não serve pra isso.
Uma coisa é acreditar.
Outra coisa é verificar.
Para verificar, o único caminho é o método científico.
Antes, a pergunta era sobre algo externo, como a chave do carro.
Agora é sobre você.
Como verificar uma afirmação sobre você?
Alguém fala: você é um espírito.
Isso é uma afirmação. Pode ser verdadeira ou falsa.
Pelo caminho da acreditação, você acredita.
Mas isso não te ajuda a viver bem — assim como não ajuda acreditar que a chave está na segunda gaveta.
Você pode ir por outro caminho.
— Não quero acreditar. Eu quero saber. Se for verdade que sou um espírito, quero saber que é verdade. Se for mentira, quero saber que é mentira. Não quero ficar na crença.
Muito justo!
Mas para verificar você deve usar o método científico e essa informação não é sobre algo externo. É sobre você.
E agora?
É aí que começa a autociência.
Para verificar uma teoria sobre algo externo, você precisa praticar observação — ciência.
Para verificar uma teoria sobre você, você precisa praticar a auto-observação — autociência.
Observação produz conhecimento.
Auto-observação produz autoconhecimento.
Não adianta ficar lendo livros.
Você não está nos livros. Você está em você.
Por isso aconselho: queime os livros e leia-se.
E o que é se ler?
É praticar a auto-observação.
É você olhar para você.
Se você pratica auto-observação, entende tudo o que está nos Vedas, no Alcorão, na literatura de Kardec.
Tudo. Sem precisar ler.
Pare de comprar água engarrafada na beira do rio.
Vai direto à fonte.
Acumular informação sobre autoconhecimento não é autoconhecimento de fato, é autoconhecimento emprestado.
É como andar em uma rua e, toda vez que vê uma placa, colocá-la nas costas. Até que as suas costas estão tão pesadas que você cai, exausto, frustrado.
Você passa a vida carregando placas.
Nunca vê para onde elas apontavam.
Só acredita. Não sabe.
Fica só na crença.
Até quando? E por que?