Assassino Social
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você já foi acusado de matar alguém?
Provavelmente não. Você ainda é réu primário.
Mas e se assassinato não for apenas físico?
Com clareza e exemplificação, esse livro revela como a violência opera em dimensões que raramente reconhecemos — e como cada um de nós participa dela, todos os dias, sem perceber.
O resultado é um espelho: desconfortável, preciso, esclarecedor.
E difícil de ignorar.
Na prática da autociência: comporte-se como um filósofo.
Não como um aluno.
Qual a diferença?
O professor explica uma coisa para o aluno e o aluno entende apenas a coisa explicada. O professor explica uma coisa para um filósofo e o filósofo entende vinte coisas a mais do que o explicado.
Vá além da explicação.
A explicação sobre as três fases da convivência, no livro Ctrl Alt Outro, é a base de toda a convivência humana. Pense como um filósofo — como um amante da sabedoria — e você descobrirá desdobramentos em cada aspecto da convivência.
No livro, deixei esses desdobramentos por sua conta. Mas sei que você ainda é mais aluno do que filósofo. Então, neste livro, faremos esse caminho juntos.
O primeiro tipo de sociedade que explico no livro Ctrl Alt Outro é a sociedade da aniquilação. Você pode pensar: "Isso não tem nada a ver comigo. Nunca matei ninguém. Só alguns mosquitos. Algumas baratas. E nem foram tantas assim!".
Veremos.
Assista os vídeos a seguir.
Tanto no vídeo das crianças como no dos adultos — parece ou não parece um bang-bang? Só que ao invés de revólveres, estão usando a boca, o verbo, o discurso. Ao invés de balas, estão disparando verdades. E cada um tentando matar a verdade do outro.
Como está explicado no livro Quatrolência: violência não é apenas física. Assassinato também não é apenas físico — é quaternário: intelectual, afetivo, sensorial e físico.
Quando você tenta matar a verdade do outro, você também está executando um assassinato. Também está perpetuando a sociedade da aniquilação.
Cada indivíduo tem seu próprio dicionário mental, sua própria definição das coisas, suas próprias verdades.
O fato de você pensar diferente do outro não significa que suas verdades são as únicas verdades do universo.
Assassinato intelectual é a tentativa de matar as verdades alheias para que as suas prevaleçam.
O universo é democrático — tudo pode. Então por que as verdades dos outros não podem, mesmo que você as considere equivocadas?
Quando uma verdade é equivocada, equivocada ela é. Qual a necessidade de eliminá-la?
Doutrinação é assassinato intelectual.
Esclarecer é diferente de doutrinar. Esclarecer é expor. Doutrinar é impor.
Os garotos no vídeo não estão esclarecendo — estão impondo. Os deputados também. E você? Olhe para sua convivência com familiares, colegas, conhecidos. Vocês esclarecem uns aos outros — ou doutrinam? Expõem — ou impõem?
Eis a sociedade da aniquilação acontecendo na dimensão intelectual.
E quando a aniquilação intelectual não funciona, o que vem a seguir?
A sociedade do controle.
Ameaça, mentira, suborno e punição. O que for preciso para obrigar o outro a pensar igual você.
Agora vamos analisar o funcionamento da estratégia da aniquilação e do controle na dimensão afetiva — ou seja, em relação à atribuição de valor.
Esses dois vídeos mostram um comportamento conhecido como insulto. O que é o insulto? É a tentativa de assassinar o valor de algo ou alguém. É a estratégia de pisar no outro para ficar por cima. Você rebaixa, despreza, menospreza, fala mal — tudo na tentativa de matar o valor do outro.
Insulto é assassinato afetivo.
Opinar é diferente de insultar. Opinar é fazer uma análise pessoal de valor. Insultar é a tentativa de obrigar o outro a ter o mesmo critério de valor que você, como se o seu critério fosse absoluto.
As pessoas nos vídeos não estão apenas opinando — estão impondo seus valores como se fossem absolutos.
E você? Olhe para sua convivência com familiares, colegas, conhecidos. Vocês trocam opiniões com respeito — ou buscam impor seus valores uns aos outros?
Eis a sociedade da aniquilação acontecendo na dimensão afetiva.
E quando a aniquilação afetiva não funciona, o que vem a seguir?
Sociedade do controle.
Chantagem emocional, cancelamento, censura.
O que for preciso para obrigar o outro a atribuir valor igual a você.
Continuando na análise da estratégia da aniquilação e do controle na dimensão afetiva, assista os dois vídeos a seguir:
Esses vídeos descrevem um comportamento conhecido como maledicência. O que é a maledicência? É a tentativa de assassinar o valor de algo ou alguém perante um terceiro.
Você rebaixa, despreza, fala mal do outro para alguém — tudo na tentativa de matar o valor do outro dentro desse terceiro.
Tem uma frase popular que diz: "Quando Pedro fala de João, sei mais de Pedro do que de João."
O que isso quer dizer?
Que a maledicência é um tiro no pé.
Quando você faz maledicência de João, quem está te ouvindo sabe mais de você do que de João — porque você está expondo o seu próprio sistema de valores.
Avaliar é diferente de depreciar.
Avaliar é fazer uma análise pessoal de valor.
Depreciar é a tentativa de obrigar o outro a usar o mesmo critério de valor que você, como se o seu critério fosse absoluto.
As pessoas nos vídeos não estão apenas avaliando — estão impondo seus valores como se fossem absolutos.
E você? Como você cuida dos seus desafetos? Trata diretamente com eles — ou usa a maledicência, falando mal de um para os outros?
Eis a sociedade da aniquilação acontecendo na dimensão afetiva.
E quando a aniquilação afetiva não funciona, o que vem a seguir?
Sociedade do controle.
Fofoca, maledicência.
O que for preciso para obrigar o outro a atribuir valor igual a você.
O vídeo abaixo propõe uma excelente reflexão sobre o tema:
Filme Dúvida (dublado) - Maledicência - Fofoca - Inveja
Agora vamos analisar o funcionamento da estratégia da aniquilação e do controle na dimensão sensorial. A dimensão sensorial diz respeito à atribuição de prazer. O que é prazeroso para você pode ser desprazeroso para o outro — e vice-versa.
Vamos supor que você goste de música calma. Não por isso você precisa aniquilar a música barulhenta. O universo tem espaço para tudo.
Tudo pode.
Pode música calma e pode música barulhenta.
Vamos supor que você goste de heterossexualidade. Não por isso você precisa aniquilar a homossexualidade. O universo tem espaço para tudo.
Tudo pode.
Pode heterossexualidade e pode homossexualidade.
E você? Como você lida com os diferentes gostos na sua convivência? Respeita — ou tenta fazer com que todos gostem do que você gosta?
Eis a sociedade da aniquilação acontecendo na dimensão sensorial.
E quando a aniquilação sensorial não funciona, o que vem a seguir?
Sociedade do controle.
Bullying.
O que for preciso para obrigar o outro a gostar igual a você.
Agora vamos analisar o funcionamento da estratégia da aniquilação e do controle na dimensão física. A dimensão física diz respeito à atribuição de bem-estar — e também de certo e errado. O que faz bem para você pode fazer mal para o outro. O jeito certo para você pode ser errado para o outro.
Vamos supor que açúcar faz mal para você. Não por isso você precisa assassinar o consumo de açúcar. Consumir açúcar pode. Não consumir também pode.
Vamos supor que o melhor jeito de lavar a louça para você é lavar primeiro os pratos e depois os talheres. Não por isso todos têm que seguir o mesmo jeito. Outras pessoas podem achar melhor lavar os talheres primeiro.
E você? Como você lida com os diferentes jeitos e critérios de bem-estar na sua convivência? Respeita — ou tenta fazer com que apenas o seu jeito exista?
Eis a sociedade da aniquilação acontecendo na dimensão física.
E quando a aniquilação física não funciona, o que vem a seguir?
Sociedade do controle.
Castigo, penalidade.
O que for preciso para obrigar o outro a agir igual a você.
Eram quatro pessoas:
Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém.
Havia um trabalho a ser feito.
Todo Mundo tinha esperança que Alguém faria.
Qualquer Um podia fazer.
Mas Ninguém fez.
Todo mundo ficou esperando Qualquer Um fazer.
Terminou Todo Mundo culpando Alguém porque Ninguém fez o que Qualquer Um podia ter feito.
Mais uma vez aconselho você a se comportar como um filósofo e não como um aluno.
O que acabei de fazer aqui foi dar apenas algumas pinceladas sobre como o ser humano usa a estratégia da aniquilação e do controle nas quatro dimensões humanas: intelectual, afetiva, sensorial e física.
Continue praticando autociência.
Muito mais lhe será revelado.