Árvore Invisível
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Em breve
Ninguém vivo se lembrava do sol.
Havia a palavra, ainda. Os velhos diziam sol às crianças, as crianças repetiam sol umas às outras, mas era moeda sem lastro — um som que ninguém podia trocar por coisa nenhuma. Como nomear uma cor que nunca se viu.
Diziam que era redondo.
Diziam que era quente.
Diziam que fazia a semente inchar na terra e arrebentar em folha.
As crianças ouviam e olhavam para cima. E para cima só havia a copa: vasta, negra, sem fim, um teto de galhos sobre a cidade inteira, o campo inteiro, o mundo inteiro até onde os pés ousavam ir.
A árvore estava sobre tudo.
Era mais velha que a memória e mais larga que a vontade de medir.
Seu tronco erguia-se no centro do mundo como uma torre que ninguém edificou. E dele saíam os galhos, e dos galhos a folhagem sem conta, e da folhagem a sombra. A sombra que não era paisagem: era o clima, o teto, a condição.
Debaixo dela os homens nasciam pálidos e morriam pálidos. A terra era úmida e fria e não dava trigo. Nada brotava na sombra. O que se comia era o que se raspava do chão mole: cogumelo e raiz amarga. E comia-se pouco. E comia-se triste.
Mas os homens não sabiam que estavam tristes. Não se pode sentir falta do que nunca se teve. Sabiam apenas que a vida pesava, que os ombros doíam, que havia dentro do peito um frio que fogueira nenhuma alcançava. Um frio de dentro.
Todos apontavam para o mesmo culpado. Erguiam os olhos para a copa negra e sentiam, cada um em seu peito mudo, que a culpa de tudo era dela.
Por isso todos os homens tinham um machado.
Era a primeira coisa que se ganhava ao nascer e a última que se largava ao morrer.
Amolava-se à noite, empunhava-se de manhã. E todos marchavam até o centro do mundo, onde o tronco esperava, e ali batiam.
Golpeavam juntos e golpeavam sozinhos. Golpeavam com raiva, que era a força dos jovens, e golpeavam com método, que era a paciência dos velhos.
O som dos machados era o som do mundo: um trovão feito de mil pancadas, do primeiro clarão cinzento da manhã até o breu. Batiam no tronco a vida inteira. Batiam onde os pais tinham batido e onde os avós tinham batido antes dos pais.
E o tronco não cedia.
Era duro de um modo que ofendia.
O fio ricocheteava na casca como em pedra, e o que sobrava, no fim do dia, era uma marca do tamanho de um nada. No dia seguinte a marca tinha fechado. A árvore se curava mais rápido do que mil homens conseguiam feri-la.
Cada geração entregava à seguinte um tronco intacto e um povo mais curvado. E a seguinte pegava os machados e recomeçava.
Não havia mais nada a fazer senão aquilo. Bater no tronco era a própria forma de estar vivo. Nasciam para isso, e para isso morriam.
Havia uma coisa que ninguém dizia, mas todos cumpriam.
Batia-se à vista de todos.
O golpe era público. O homem que golpeava com mais fúria era admirado, e o que golpeava com mais constância era respeitado, e as mães mostravam aos filhos os que golpeavam bem, dizendo:
— Seja como aquele.
Bater na árvore era uma honra. Rendia aplausos.
Por isso ninguém jamais parou para perguntar se batiam no lugar certo. No meio do trovão e da honra, a pergunta simplesmente não passava pela cabeça de um homem que estava sendo olhado e admirado.
Foi um homem cansado quem o encontrou. E encontrou porque parou.
Havia largado o machado — coisa que não se fazia, coisa que dava vergonha — e afastara-se do centro, para longe do trovão e para longe dos olhos, com aquela vergonha de quem abandona a luta que todos louvam.
Deitou a cara na terra fria, só para não ver mais a copa, só para descansar o braço.
E foi ali, com o rosto rente ao chão, que viu. A um palmo dos olhos, remexendo o barro, um bicho de couro duro e focinho comprido subia do fundo da terra.
O tatu trazia nas garras a cor do que vivia embaixo. E os olhos pequenos não tinham o cansaço dos olhos de cima, porque nunca haviam olhado para a copa. O tatu não conhecia a sombra por cima. Conhecia a árvore por baixo.
O homem, por dizer alguma coisa, falou da sua desgraça. Falou do tronco que não cede, dos machados que se gastam, das gerações que batem e morrem. Falou como quem não espera resposta. O que responderia um bicho?
E o bicho, que passara a existência cavando, disse a coisa simples que só sabe quem anda por baixo da terra:
— A árvore não vive do tronco.
O homem ficou muito quieto.
A voz viera de baixo, do chão, daquele focinho no barro. Um bicho falava. A única explicação que lhe ocorreu, e que o sossegou, foi que enfim havia enlouquecido de cansaço, e que aquilo era coisa da própria cabeça.
— Devo estar delirando de tanto que bati no tronco — sussurrou o homem para si mesmo.
O tatu ouviu. Não se ofendeu, nem tratou de se provar. Respondeu:
— Posso muito bem ser um delírio teu. Mas não percas tempo com isso. Não é o mensageiro que importa, é a mensagem. Delírio ou não, ouve o que vou dizer. Depois comprovas com a tua mão. Ela vai te mostrar a verdade.
Aquela conversa até poderia ser loucura da cabeça do homem, mas era uma loucura que fazia sentido. E podia ser verificada.
— Diz então — disse o homem, dando o benefício da dúvida ao tatu.
O tatu explicou:
— Existe uma árvore visível, acima da terra. Vocês conhecem bem. Mas existe também uma árvore invisível, abaixo da terra.
— Tem duas árvores em uma? — indagou o homem. O tatu continuou:
— Sim. E a árvore visível sobrevive da invisível, assim como a cachoeira sobrevive do rio. Por isso o trabalho de vocês tem sido em vão. Golpeia o tronco da árvore visível por mil anos e ela não cai. Elimina a árvore invisível e a árvore visível cai sozinha.
O homem ficou espantado e intrigado com a lógica da explicação. Mas ele só conhecia a árvore visível. Então, questionou o tatu:
— Onde está a tal árvore invisível?
O tatu respondeu:
— Corre por baixo das casas. De cada casa. Está embaixo do teu próprio chão, no escuro, onde só tu podes descer. Cada homem tem, bem debaixo de onde dorme, a sua parte da árvore invisível.
O homem se ergueu num salto, inquieto, e disse ao tatu:
— Se é verdade, então todos precisam saber. Vou levar a notícia a todos, formamos um mutirão e derrubamos essa árvore invisível juntos.
— Calma — respondeu o tatu. — Primeiro comprovas que não sou um delírio teu, e que o que digo é verdade. Desce ao teu porão e verifica.
— Tens razão — disse o homem. — Depois espalho a notícia.
O tatu deu um último conselho:
— Podes tentar. Mas ao bater na porta do teu vizinho, descobrirás que isso que estou te dizendo não entra pelo ouvido, entra pela exaustão. Nenhum homem é capaz de ver a árvore invisível enquanto está de pé no meio da praça, com o machado na mão, batendo na árvore visível e sendo aplaudido por isso.
— Quando conseguem ver, então? — perguntou o homem.
O tatu respondeu:
— Quando já largaram o machado e caíram exaustos e desiludidos como tu, com a cara no barro. Eu não sou o único tatu. Debaixo de cada casa há um tatu que sabe o mesmo que eu. Cada homem, quando cansar de bater, há de encontrar o seu.
E o tatu virou o focinho para a terra e sumiu.
O homem voltou para casa e foi verificar duas coisas: se o tatu dissera a verdade, e se ele próprio ainda tinha juízo.
Afastou a cama, arrancou as tábuas do assoalho e encontrou a terra da própria casa. Correndo por ela, a árvore invisível.
Ela era feita de infinitas raízes que enroscavam sob os alicerces como cordas. Ele puxava uma e via que dela partiam dez mais finas. E das finas, dez fios de cabelo. E assim até onde o olho já não separava a raiz da terra.
Pegou uma nas mãos e puxou. Resistiu, e afinal cedeu com um estalo miúdo.
Estava comprovado.
O tatu podia ter sido um delírio do cansaço, mas o buraco embaixo da cama não era, e as raízes que enchiam o buraco não eram, e o estalo na mão não era.
A verificação revelou, como o bicho dissera, a existência da árvore invisível.
Entusiasmado pela descoberta, o homem fez o que foi aconselhado a não fazer: foi contar aos outros homens sobre a árvore invisível.
Foi de porta em porta.
Toc. Toc. Toc.
Falou do tatu.
Falou das raízes embaixo de cada casa.
Falou e falou e falou.
Blá. Blá. Blá.
Os vizinhos ouviram. Uns com riso, outros com pena. E voltaram todos, no dia seguinte, a bater com o machado no tronco da árvore visível.
Um homem que larga o machado e vem falar de bicho e de buraco embaixo da cama não traz notícia, traz prova de que enlouqueceu.
A palavra do homem escorreu de cada um como água escorre da pedra. Ninguém desceu ao próprio porão por tê-lo escutado.
O tatu tinha razão.
Aquilo não entrava pelo ouvido.
O homem parou de falar e desceu de vez.
Desceu sem ferramenta nenhuma, porque ali nenhuma servia. O machado não cabia. E mesmo uma lâmina era demais e inapropriada. Só a ponta dos dedos, tateando no escuro, sabia separar a raiz do resto e achar, na raiz, o ponto de romper.
Ajoelhou-se e começou a arrancar as raízes.
Com as unhas.
Uma de cada vez.
Era um trabalho sem glória. Ninguém o via. Não havia o trovão dos machados, não havia os outros ao lado, não havia aplausos, não havia sequer uma lasca clara para dizer que o trabalho estava sendo executado.
Ali embaixo era só ele: o joelho no barro, a unha em carne viva, e o fio de raiz que resistia e afinal se partia com um estalo miúdo.
Arrancava uma raiz e procurava a próxima às cegas, com os dedos.
Havia sempre uma próxima.
E o pior: as antigas se regeneravam. Uma que ele arrancasse pela manhã, à noite tinha mandado um fio novo, pálido, tenro, procurando de volta o alicerce.
Descer ao porão não era tarefa que se cumprisse e fim. Era vigília.
Todo dia ele descia. Todo dia arrancava as novas e as que voltavam. Não era trabalho que se media pela conclusão, media-se pela repetição. Ele subia para casa sem poder dizer terminei. Podendo dizer, no máximo: trabalhei.
Com o tempo, ele começou a sentir as raízes enfraquecendo.
O que o homem não sabia, nem podia saber, é que já não era o único a enfraquecê-las. Os outros homens, cada um deles, e cada vez mais, também estavam descendo calados aos próprios porões e fazendo o mesmo trabalho.
Não porque alguém os tivesse convencido. Ninguém conseguia convencer ninguém, como alertou o tatu. Quem convencia era sempre a fadiga.
Cada homem batia no tronco a vida inteira, até que um dia o braço não aguentava mais e a honra já não valia a pena. Era o começo da virada.
Primeiro largava o machado.
Depois se afastava com vergonha.
Depois encostava a cara na terra fria só para descansar.
Por fim, a um palmo dos olhos, cada derrotado encontrava o seu tatu.
Todos se julgavam loucos no começo. Mas todos, depois de arrancar o assoalho, se atiravam na terra e começavam a arrancar as raízes.
Ninguém percebeu a árvore visível se inclinando.
Cada homem, no fundo do seu porão, sabia apenas do seu quinhão de árvore invisível: as raízes que rareavam, a terra que aos poucos as devolvia mais fracas, mais raras, mais fáceis.
Cada um pensava fazer um trabalho seu, particular, quase secreto.
Nenhum sabia que embaixo de toda casa outro joelho afundava no mesmo barro, outra unha aniquilava a mesma árvore invisível em estalos miúdos.
Cada um certo de ser o único.
E a árvore visível, que se sustentava sobre o mundo inteiro justamente porque sobrevivia da árvore invisível debaixo da terra, foi ficando sem onde se agarrar.
Perdeu o chão de uma casa.
Depois de uma rua.
Depois de um bairro inteiro.
E por fim, o chão do mundo.
Não de uma vez.
Raiz a raiz, porão a porão, no silêncio de mil homens ajoelhados que não combinaram nada e não sabiam uns dos outros.
Até que um dia…
O mesmo tronco duro que resistiu a mil gerações de machados, permanecendo intacto e invicto, inclinou-se além do que podia.
Não havia mais o invisível segurando o visível.
A lei natural fez seu trabalho.
E a árvore caiu.
Terminado mais um dia de trabalho, os homens subiram. Mas já era noite, e a sombra ocultava tudo. Então, mesmo com a árvore já caída, e a vitória alcançada, ninguém percebeu o que havia acontecido. Foram dormir como em qualquer outra noite.
Foi só na manhã seguinte, ao perceberem uma luz estranha atravessando a janela, que, atônitos, se deram conta do que haviam realizado.
Cada um julgara ter feito um trabalho pequeno e próprio, escondido debaixo da cama, certo de ser o único louco do mundo.
Agora estavam todos ali, na rua clara, com o mesmo barro nos joelhos e a mesma terra debaixo das unhas. Todos rindo e chorando ao ver aquilo que os velhos chamavam de sol. Uma coisa redonda, quente, que fazia a semente inchar.
Ninguém viu o outro trabalhar. E, no entanto, ali estava o sol incidindo sobre tudo e todos, porque cada um cuidou do seu chão.
O narcisismo não mora onde todos o procuram.
Não está no grande e no visível. O que se ergue lá em cima, imenso e visível, só se sustenta porque é alimentado embaixo, no que ninguém vê.
O narcisismo que se vê no mundo é o tronco.
— Como o ser humano é vaidoso.
— Somos tão arrogantes.
— O homem acredita que é o centro do universo.
Blá. Blá. Blá.
Contra esse tronco a humanidade inteira empunha o machado. Faz sermão, faz diagnóstico, condena, busca corrigir. E golpeia à vista de todos, porque golpear o narcisismo teórico e alheio também rende honra.
Só que o tronco não cede, porque não é na teoria e nem no outro que o narcisismo está enterrado e vive. Ele vive da árvore invisível que é a mentalidade de cada um.
Vive das raízes. E as raízes são pequenas.
As raízes são o micronarcisismo. São as ocorrências minúsculas, incessantes, quase imperceptíveis, que você executa o dia inteiro sem dar por elas.
A história que você conta aumentando o seu quinhão. O elogio que te incha e a crítica que te murcha, porque o seu valor está pendurado no olho alheio. O julgamento veloz que passa pela sua cabeça antes mesmo de você cumprimentar alguém.
Nenhum deles aparece. Nenhum deles é dito.
E é por isso que sustentam tudo.
O micronarcisismo não acontece na praça. Acontece no porão.
E o porão é a sua cabeça.
O trabalho de mudar o mundo não é lá fora, no espaço entre as pessoas, onde o outro pode ver e aplaudir sua dedicação. É dentro da cabeça, no escuro, sem testemunha, onde o narcisismo opera mesmo quando você está sozinho, mesmo nos porões do pensamento. Sobretudo nos porões do pensamento.
E lá embaixo, nos porões, o machado não serve.
Não há espaço para o ato heroico e a mudança por decreto:
— Não sou mais narcisista.
Isso não funciona.
O que serve, no escuro do próprio interior, é o trabalho solitário, silencioso e meticuloso da auto-observação e da auto-análise.
É preciso flagrar o micronarcisismo no instante em que ele brota. Reconhecê-lo, nomeá-lo, e romper o fio. Um de cada vez.
Isso é um trabalho feito à unha.
Sem glória, sem plateia, sem aplauso, e sem fim, porque as raízes do micronarcisismo rebrotam, e por isso a atenção é uma vigília, não uma vitória.
Você nunca vai poder dizer:
— Terminei.
Vai poder dizer, no máximo:
— Trabalhei.
E aqui está a última coisa que a fábula guarda para o fim.
Você pratica auto-observação e auto-análise sozinho. Padece do seu narcisismo, certo de estar fazendo uma coisa pequena, particular, só sua.
Mas o narcisismo humano não é só seu. É a sombra sob a qual a humanidade inteira nasce e adoece, a mesma copa sobre todos. E ela se sustenta porque está agarrada, ao mesmo tempo, ao chão de cada cabeça.
Então, quando cada um desce ao seu porão e faz o trabalho de se libertar do seu micronarcisismo, o macronarcisismo tomba sozinho por falta do que o sustente.
Ninguém derruba o narcisismo do mundo.
Cada um arranca o seu.
E é a soma silenciosa desse trabalho invisível, feito por gente que nunca combinou nada, que nem sabe uma da outra, que faz a sombra do mal viver ceder e o sol do bem viver, enfim, voltar a brilhar sobre todos.
O porão é seu. A unha é sua.
Mas a luz, quando vem, é de todos.