Apocalip-se
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você não é uma pessoa, é um aluno. Você não está vivendo, está tendo aulas. Viver não é viver, é aprender. Bem vindo ao fim do mundo. Esse livro é o primeiro passo. Boa leitura. Apocalip-se.
Apocalipse não é o fim do mundo. É o fim da ignorância.
A palavra apocalipse significa descoberta.
Apocalipse é você descobrindo o que é ser humano.
E se tornando mestre nisso.
Para aprender história, você vai para uma escola. Para entender o que é humano, você não vai para uma escola:
— Você se transforma na escola.
Claro que se transformar em humano sem saber o que é humano é como entrar em um labirinto de olhos fechados — você só dá cabeçadas nas paredes.
Mas se você já soubesse tudo que descobre e aprende ao entrar na escola humana, o ano letivo terminaria antes mesmo de começar.
O entendimento de que ser humano é uma escola viva implica várias mudanças de entendimento.
A principal: você não é SÓ humano, é um SER humano.
Você é um SER que está sendo humano.
Assim como é preciso existir a televisão para o filme ter onde acontecer, também é preciso existir você — ser — para poder ser humano.
Você é primeiramente um ser, e por isso pode ser, secundariamente, um ser humano.
Se você não fosse ser, como poderia ser humano?
Não poderia.
Essa lógica é simples e fácil de entender.
O desafio é que você se chama de SER humano, mas se entende como SÓ humano.
É comum pessoas de culturas espiritualistas virem conversar comigo. É muito comum também, durante estas conversas, me perguntarem se acredito em espírito.
Digo que não.
Surge um mal-estar na conversa.
Primeiro deixo o mal-estar fazer seu trabalho.
Depois explico:
— Não acredito em espírito porque, para mim, é evidente — não é crença.
O ânimo espiritualista volta.
Daí me perguntam:
— O que é espírito?
Respondo, olhando no olho da pessoa:
— Espírito é você.
A pessoa trava.
Impressionante.
A pessoa já leu todos os livros, sabe tudo sobre a vida dos espíritos, todas as fofocas — mas não sabe de si por si.
— Como assim, espírito sou eu? Explica melhor!
Entendo a dificuldade.
O que somos é mais perto do que perto.
Por isso o oráculo aconselha: conhece a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.
Acreditar em espírito não é a solução para o despertar espiritual. É o problema.
É o que bloqueia.
Espírito é você. E você não é uma crença.
Para ter um despertar espiritual, seja um cientista.
Não um crente.
Cada ser está onde se coloca.
Você está sendo humano porque é um ser interessado em descobrir o que é ser humano.
Seres interessados em descobrir o que é ser animal estão sendo animais.
Seres interessados em descobrir o que é ser vegetal estão sendo vegetais.
Seres interessados em descobrir o que é ser mineral estão sendo minerais.
E assim por diante.
Cada ser está onde se coloca.
Um dos grandes desafios de ser humano é que você ignora que está sendo humano por opção.
Por causa disso, surge em você a lógica do vitimismo.
Uma revolta que grita:
— Eu não pedi para nascer!
Dentro dessa lógica, tudo que você experimenta, seja o que for, é injusto por princípio.
A ignorância é fundamental para a descoberta.
Você precisa acreditar que é vítima para se descobrir responsável. Você precisa acreditar que é SÓ humano para se descobrir SER humano.
Quando você está sofrendo, surge uma voz dentro de você que diz que o culpado pelo seu sofrimento é o outro.
Esse outro pode ter muitos nomes.
Pai, mãe, família, sociedade, vizinho, motorista do carro da frente, patrão, funcionário, entregador de pizza, samambaia, açúcar, vírus, deus, diabo, destino, vida, etc.
— Tadinho de mim! Pobre injustiçado sou eu! — diz o pensamento. E você acredita nele.
Esse é o problema.
Essa voz é a mentalidade vitimista.
Acreditar nessa mentalidade é o que te impede de viver bem.
O truque é simples.
Para viver bem você precisa descobrir o que está te fazendo viver mal — a causa do seu sofrimento.
Mas quando você acredita que o culpado pelo seu sofrimento é o outro, de que adianta autoconhecimento?
Por isso, o primeiro passo para praticar autociência é duvidar do vitimismo.
— Ops! Será que talvez, taaaaal veeeez... o culpado pelo meu sofrimento sou eu? Será que talvez, taaaaal veeeez... esse sofrimento está acontecendo por minha causa e não por causa do outro?
Sua mentalidade vitimista sofrerá uma rachadura. E essa rachadura jamais irá se fechar, só irá aumentar.
Até se transformar em uma obviedade:
— Se sou culpado pelo meu sofrimento, então também sou culpado pela minha felicidade!
Fim do vitimismo.
Você deu o primeiro passo para se tornar um praticante de autociência e começar a viver bem.
Autoconhecimento é uma jornada do ponto A até o ponto B, mas não é uma jornada de deslocamento. Você não viaja de carro — é uma jornada consciencial. O ponto A é a ignorância sobre o que é ser humano. O ponto B é o estado desperto.
Eis o problema.
Você já é um ser humano. Então acredita que já sabe. Tem convicção — tanta, que até dá conselhos. Só que não sabe. Pensa que sabe. Se soubesse mesmo, não viveria mal.
Viver mal é a prova de que você não sabe o que é ser humano.
Mas é pior. Além de não saber, você não sabe que não sabe. Você ignora que ignora. E como pensa que sabe, conclui: "Por que vou me dar ao trabalho de descobrir o que já sei?".
Assim seu autoconhecimento termina antes de começar.
Você é um aluno que acredita que é professor.
Eu chamo isso de ignorância Phd.
O problema da ignorância Phd é o mesmo de acreditar que sabe pilotar um avião quando, de fato, ignora. Acidente garantido!
É por isso que você vive mal: impossível viver bem em estado de ignorância.
E como sair da ignorância Phd?
O primeiro passo é admiti-la.
Teve uma época que frequentei um trabalho espiritualista. Eram palestras com grupos pequenos, entre 20 e 30 pessoas. O professor tinha o hábito de me chamar de sábio.
Por um lado, achava o máximo. "Até que enfim alguém me reconheceu!", pensava. Mas quando a esmola é demais, o santo desconfia. Comecei a ficar desconfiado.
O professor continuou me chamando de sábio. Sábio pra lá, sábio pra cá.
Às vezes, alguém fazia uma pergunta e ele encaminhava a pergunta para mim: “O que você acha, sábio?”. Eu papagaiava um monte de conceitos filosóficos, psicológicos e espiritualistas.
Muito tempo depois, fui acompanhar esse professor em outra palestra. Nesse dia, tinha uma pessoa do tipo sabe-tudo na plateia. De repente, o professor começou a chamar essa pessoa de sábio. Lembrei dele fazendo o mesmo comigo e a ficha caiu!
Quando o professor me chamava de sábio, não estava elogiando minha sabedoria. Estava apontando minha ignorância Phd.
Eu não sabia: pensava que sabia.
Entendeu, sábio leitor?
Um homem culto precisava atravessar um rio.
O único jeito era de balsa.
Ele pegou a balsa e começou a conversar com o balseiro:
— Balseiro, você sabe matemática?
— Não!
— Ah, então você perdeu metade da sua vida!
— Você sabe história grega?
— Não! — respondeu o balseiro.
— Ah, então você perdeu metade da sua vida!
— Balseiro, você sabe química?
— Não! — respondeu o balseiro.
— Ah, então você perdeu metade da sua vida!
— Balseiro, você sabe literatura portuguesa?
— Não! — respondeu o balseiro.
— Ah, então você perdeu metade da sua vida!
No meio da viagem a balsa rachou e começou a encher de água. O balseiro perguntou ao homem culto:
— O senhor sabe nadar?
— Não! — respondeu o homem.
— Ah, então você perdeu sua vida inteira!
O barco afundando é o apocalipse. É o tira-teima. É a hora de você avaliar se entendeu o que era fundamental entender com as experiências que teve: o que é ser humano.
O homem culto é sua ignorância PhD — que sabe tudo de tudo, menos o que mais importa: saber de si.
Por isso, o apocalipse é o fim da vida humana.
O apocalipse deixa evidente se você sabe mesmo o que é ser humano, ou se você só tem cultura e teoria.
Imagine que terminou o ano escolar e você resolveu fazer uma avaliação do seu nível de entendimento das matérias.
Você conversa consigo mesmo:
— O que entendi de química?
— Não entendi nada.
— O que entendi de geografia?
— Não entendi nada.
— O que entendi de história?
— Não entendi nada.
— O que entendi de matemática?
— Não entendi nada.
— Então, não entendi nenhuma matéria?
— Não, pois você não assistiu às aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo, se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.
Vamos transpor essa conversa para você sendo humano.
— O que entendi das emoções?
— Não entendi nada.
— O que entendi do pensamento?
— Não entendi nada.
— O que entendi do desejo?
— Não entendi nada.
— O que entendi de ser humano?
— Não entendi nada.
— Não entendi o que é ser humano?
— Não, pois não assisti às aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo, se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.
O que você está fazendo quando mata aula?
Você está matando o aluno em você.
Que tipo de aluno você é quando mata o aluno em você?
Você é um aluno morto.
É por isso que no dia do julgamento final são julgados os vivos e os mortos.
Julgamento final não é você sendo condenado ao inferno ou abençoado com o paraíso. É você conversando com sua consciência, analisando, avaliando e julgando se você é um aluno vivo ou um aluno morto.
A todo instante você tenta viver a vida.
Você fracassa repetidamente, mas persiste obstinadamente.
E não entende por que fracassa.
O motivo é simples.
Você não consegue viver a vida porque não existe vida.
O que existe é aula — brincadeira de descobrir o que é ser humano. O que existe é atividade de autociência.
Casamento, maternidade, profissão, medo de ladrão, medo da morte, solidão, raiva, decepção amorosa, festa, trabalho, férias, coçar o nariz, fazer xixi, comer pizza, etc.
Tudo que você faz e experimenta é você brincando de descobrir o que é ser humano.
Você tem medo de ser um espermatozoide.
É por isso que você devora assuntos espiritualistas e está sempre em busca do próximo.
Você está em guerra contra Carl Sagan e sua máxima de que você é feito de poeira de estrelas.
A frase é bonita, mas só serve para ampliar sua angústia em escala astronômica.
Esse seu conflito se chama materialismo.
Nas palavras de Darwin, é a teoria de que você é um espermatozoide em evolução.
O problema é que tudo que evolui, involui.
Tudo que nasce, morre.
E você não quer morrer. Ninguém quer morrer.
Mas você não tem outra opção.
Você é um espermatozoide que, quanto mais corre, mais se aproxima do cemitério.
Mesmo que você seja um espermatozoide resignado como Jesus, ou sábio e compassivo como Buda, ou famoso como Michael Jackson, ou rico e poderoso como Júlio César, você não deixa de ter o mesmo destino de todos os espermatozoides.
Se Carl Sagan e Darwin estão certos, seu fracasso é só questão de tempo.
É angustiante isso.
Como solução, você busca o extremo oposto: teorias espiritualistas, metafísicas, etc.
— Poeira de estrelas seu cu, Carl Sagan! Eu sou espírito! Sou sopa quântica! Sou consciência cósmica!
Só que teoria não resolve.
Por mais forte que seja sua crença em uma teoria, você sabe que é teoria.
Então a angústia persiste.
E persistirá.
Até você sair do equívoco do materialismo.
Viver não é uma atividade biológica, é uma atividade pedagógica.
Por isso, desista da pergunta:
— Por que isso está acontecendo comigo?
Essa resposta é simples: isso está acontecendo com você para que você produza autoconhecimento.
O problema é que você ainda não entendeu isso. Você ainda acredita que está vivendo uma vida.
Daí, em vez de produzir autoconhecimento, você produz vitimismo — e não avança para a próxima fase do jogo.
Para subir de nível, você deve mudar de pergunta.
Seja lá o que aconteceu ou estiver acontecendo, pergunte-se:
— O que isso está me ensinando sobre ser humano e sobre minha pessoa?
Essa pergunta, sim, direciona você para o verdadeiro propósito do que você está experimentando:
Autoconhecimento.
Viagem tem dois sentidos: ida e volta. A experiência humana é semelhante — ou você está subindo no cavalo, ou está caindo do cavalo.
Subir é adormecer na ignorância de si.
Cair é cair em si — e despertar para o que é ser humano.
Subir no cavalo é tão fundamental quanto cair.
Não dá para colocar a queda na frente da subida. Primeiro é preciso esconder o tesouro, para depois brincar de caça ao tesouro.
Quanto mais você pratica autociência, mais cai do cavalo.
Quanto mais cai, mais desperta.
Entregue. Confie. Aceite. Agradeça.
A viagem do despertar é a volta dos que não foram.
Caia do cavalo e celebre seu fracasso!
Vida espiritual é essa vida humana que você nega na busca de outra.
Não tem outra.
Você é um ser humano.
Ser é espírito, humano é seu estado de espírito atual.
Você é um espírito humanizado.
Quando você nega sua humanidade, está matando exatamente a vida espiritual que busca.
Por isso nunca a encontra.
Não é negando sua vida humana que você amplia sua vida espiritual. Pelo contrário: é sendo humano ao máximo.
Você está na rodoviária do futuro.
Momento de decisão.
Você está decidindo em que ônibus entrar, que viagem fazer, que realidade quer experimentar — ou parar de experimentar.
Muitas pessoas queridas vão entrar em ônibus diferentes do seu. Rodoviária é momento de encontros e despedidas.
Não tem ônibus certo nem errado. Cada ônibus faz uma viagem diferente. E só cada um sabe o que é melhor para si.
Tem seres que desejam continuar na ignorância.
Tem seres que desejam ampliar seu estado de ignorância.
Há um propósito positivo nisso — é uma espécie de estratégia kamikaze, não muito diferente da que você usou para chegar até aqui.
Faça sua opção.
Honre a opção do outro.
Cada um no seu processo e todos no nosso.