Aluno Vivo
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Não existe vida. Sua vida é sua escola. Tudo que você experimenta tem sempre o mesmo propósito: servir de objeto de estudo para você se conhecer. Você está o tempo todo tendo aulas sobre o que é ser humano. Por isso, quando você acredita que está vivendo uma vida, você está matando aula. E quando mata aula, você é um aluno morto. Despertar da consciência é sua ressuscitação.
Durante muito tempo você recebeu explicações de que não é só humano.
Muitas escolas, religiões, tradições espirituais, mestres e gurus te explicaram isso. Linguagens diferentes, mesmo apontamento: você não é só humano.
Te explicaram que você é um espírito, que você tem um eu superior, que você é atman, que você é uma centelha divina, que você tem uma alma metafísica. Você ouviu, decorou, acreditou.
Até aqui você estava na espiritualidade teórica.
Até aqui sua prática de autoconhecimento foi acreditar.
Até aqui sua espiritualidade foi emprestada.
Você não sabe de si por si — apenas acredita nas explicações que recebeu. E mesmo que sejam explicações corretas, para você são teorias. Não é autoconhecimento de fato, prático, empírico.
E mais. Espírito para você é imaginação.
Você imagina que você-espírito é um eu luminoso que vive no além. Ou um fantasma dentro do seu corpo. Ou outra imaginação qualquer.
Mas é imaginação. Não é autoconsciência.
Você diz que é um espírito, um ser, uma alma, uma consciência, uma mônada. Mas não sabe o que é isso que diz ser.
Você apenas acredita. Você é crente.
Você é igual uma pessoa comprando água engarrafada na beira do rio.
Ao invés de ir direto em si e beber autoconhecimento da própria fonte, vai no outro e compra espiritualidade engarrafada.
E todo dia tem uma garrafa com rótulo diferente para você comprar.
Quando o rótulo religioso para de vender, mudam para espiritual. Você compra mais espiritualidade engarrafada. Quando o rótulo espiritual para de vender, mudam para quântico. Você compra mais espiritualidade engarrafada.
Autociência é o fim da espiritualidade teórica.
Início da empírica.
No começo da sua jornada espiritual, você sente como se estivesse viajando de BMW por uma estrada luxuosa, de mão dupla, com três pistas e super sinalizada.
Depois de algum tempo, a estrada de três pistas fica só com duas. As placas começam a diminuir.
Passado mais um tempo, a estrada de pista dupla se transforma em uma rodovia de pista única. As sinalizações diminuem mais ainda.
Passado mais um tempo, o asfalto se transforma em terra. Não dá mais para seguir de BMW — você precisa de um fusca. As sinalizações são mínimas.
Passado mais um tempo, a estrada de terra se transforma em uma trilha estreita no mato. As sinalizações são raras. Nem carro passa na trilha. Você precisa ir a cavalo.
Por fim, a trilha acaba na beira de uma floresta densa e escura.
Não tem mais sinalização. Não tem mais carro, nem cavalo.
Só você e seus pés, no mais absoluto desconhecido.
Espiritualidade teórica é essa estrada luxuosa e sinalizada que te leva até a beira do desconhecido absoluto.
Esse desconhecido é a espiritualidade empírica.
Autociência é o fim da estrada.
Se você deixar a espiritualidade teórica para trás e praticar autociência, cada passo que der será de espiritualidade empírica.
Você pode sair da espiritualidade teórica e entrar na espiritualidade empírica. Você pode saber de si por si, sem linguagem, sem teoria.
Afinal, você não é uma teoria.
Para entrar na espiritualidade empírica é simples: basta você se tornar um praticante de autociência.
Autociência é para quem quer sair da espiritualidade teórica e despertar a consciência. Para quem quer trocar o acreditar pelo saber.
Através da auto-observação.
Custa sua decisão de praticar auto-observação.
Fica em todo lugar que você estiver.
Auto-observação é uma prática que acontece em paralelo com sua vida, o tempo todo. Não precisa de um tempo reservado.
Auto-observação é igual enxergar. Você não reserva um tempo para enxergar — você enxerga em paralelo com tudo que faz.
Seja lá o que você estiver fazendo, em paralelo, faça auto-observação também.
De manhã, ao invés de apenas se levantar da cama, ir ao banheiro, sentar na privada e cagar. Se levante da cama, vá ao banheiro, sente na privada e cague em auto-observação.
Ao invés de apenas trocar de roupa, troque de roupa em auto-observação.
Ao invés de apenas passar o dia no escritório, passe o dia no escritório em auto-observação.
Ao invés de apenas viver, assista sua vida enquanto está vivendo.
Esteja presente no seu presente.
Quem olhar para você de fora vai ver você vivendo sua vida e só isso. Mas você estará fazendo mais do que isso: estará assistindo sua vida. Assistindo o que está fazendo, o que está pensando, o que está sentindo enquanto faz.
Isso é praticar autociência.
Isso é ser um autocientista.
Quanto mais você pratica auto-observação, mais desperta a consciência, mais produz autoconhecimento empírico.
Você se conhece não porque leu, não porque alguém disse, não porque te explicaram. Você se conhece porque está se vendo, se constatando, se evidenciando.
Praticar autociência é viver se assistindo.
Quando você se observa em seu aspecto existencial, descobre que é um espírito. Mas descobre por si e em si.
Auto-observação existencial deixa evidente que você é um espírito.
Ninguém mais consegue te enganar com conversinha sobre espírito, pois você sabe o que é um espírito. Espírito é o que você é. Simples assim.
Quando você se observa em seu aspecto psicológico, descobre tudo sobre a natureza humana. Descobre o funcionamento do desejo, do pensamento, das emoções.
Ninguém mais consegue te enganar com conversinha de psicologia e aconselhamento. Você sabe como funciona a natureza humana.
Você olha e vê. É óbvio para você.
Quando você se observa em seu aspecto pessoal, descobre tudo sobre sua personalidade.
Descobre seus valores. Descobre por que certas coisas te irritam e outras te alegram. Descobre o que acha importante e o que acha irrelevante.
Descobre suas crenças. Descobre quais são verdadeiras e quais são falsas. Quais te ajudam e quais te atrapalham.
Quando falo para você se colocar na posição de aluno, não é apenas aluno da 1ficina, é aluno da vida. Mas também não é aluno da vida — é aluno da sua vida.
Sua vida é sua escola particular de autoconhecimento.
Tudo que você é e vivencia tem sempre o mesmo propósito: servir de objeto de estudo para produção de autoconhecimento.
Tudo do verbo tudo mesmo.
Tudo do verbo sem exceção.
Em momento algum da sua vida você esteve, estava ou estará vivendo uma vida. Você está ininterruptamente tendo aulas sobre o que é ser humano fulano.
Só isso. Nada além disso.
Por isso, quando você vive sua vida acreditando que está apenas vivendo uma vida, você está matando aula. E quando você mata aula, você é um aluno morto.
Por isso as experiências se repetem.
Você mata a primeira aula, vem a segunda, a terceira, a milésima — quantas forem necessárias para que você produza autoconhecimento.
O melhor é ser um aluno vivo.
Você vive a vida igual um aluno morto, mas em auto-observação, aproveitando cada experiência com seu verdadeiro propósito: objeto de estudo para produção de autoconhecimento.
"Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
Forjei essa frase para deixar óbvia a fonte do problema e da solução.
A fonte do problema é a ignorância.
A fonte da solução é o despertar da consciência.
Você vive mal porque ignora o que é ser humano fulano. Conforme desperta, vai vivendo cada vez melhor. E para despertar, basta praticar auto-observação.
É simples assim.
Não tem segredo.
E por incrível que pareça, esse é o problema.
"Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
Você acredita que é simples demais para ser verdade.
Você pensa:
— Não pode ser simples assim! E os boletos! E os filhos rebeldes! E a esposa chata! E o marido safado! E as tretas de família! E minha hemorroida! E o trabalho escravo! E os políticos corruptos! E o ladrão pulando o muro! E o buraco na camada de ozônio! E escambau! E a porra toda! Como que o despertar da consciência vai resolver a porra toda?
Em parte você está correto.
Despertar da consciência não resolve nada disso.
Quem resolve tudo isso é você.
Mas como você pode resolver qualquer coisa de olho fechado, em absoluto estado de ignorância?
Não pode.
Por isso é fundamental que você primeiro abra os olhos.
Viver é optar. É impossível fazer boas opções de olhos fechados.
Para viver mal, ignorância basta. Para viver bem, só com autoconhecimento.
"Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
Sim, é simples assim.
E se você duvida, coloque isso à prova. Pratique autociência, desperte a consciência e verifique se tudo se resolve ou não.
Se não resolver, você não terá perdido nada. Praticar autociência não gasta seu tempo, nem seu dinheiro.
Quando você é aluno morto, acredita que o objetivo da vida é ter experiências.
Quando você é aluno vivo, descobre que as experiências vividas são o meio para adquirir autoconhecimento e fazer escolhas cada vez melhores.
Claro que sem experiência não tem autoconhecimento. Mas as experiências são o meio para o fim, não o fim.
Quando você é aluno morto, você pensa assim:
— Ah, não fui para Cancún, perdi minha vida!
Não. Você perdeu sua vida se foi para Cancún (ou ficou em casa) e durante essa experiência não praticou auto-observação.
— Ah, não consegui ficar rico, perdi minha vida!
Você perdeu sua vida se ficou rico (ou continuou pobre) e durante essa experiência não praticou auto-observação.
Que outra vida você tem além da vida que está vivendo?
E sendo que sua vida é uma escola, se você não está aproveitando para autoconhecimento — seja qual vida for — daí, sim, você está perdendo sua vida.
O toque do atabaque decretou o início da gira.
A noite estava fresca e a casa estava cheia.
Durante a manhã, eu havia feito uma palestra de psicologia ali. Agora, no mesmo salão, haviam sete terapeutas de pés descalços, uns pitando, outros tomando tafé e todos fazendo conversadô.
Fui passando de um por um, quando cheguei no último, estava chorando litros.
— Pó chorá, fiu! — o preto velho me disse.
— Acho que não aguento mais! — respondi.
— Recebeu muitos presentes, né, fiu?
— Vários, todos diferentes e estranhamente idênticos.
— Ixo! O fiu entendeu bem, com o coração. Agora vamo fazê conversadô pra clareá na cachola.
Assim que parei de chorar, o preto velho me perguntou:
— Fiu, ucê pensa aí e me diz: qual é o momento mais importante da sua vida?
Fui até a memória zero e voltei escaneando minha vida. Eram milhões de momentos pulando na minha cabeça, inclusive este agora.
— Ops! O momento mais importante da minha vida é esse agora, — eu respondi — pois não tem outro momento para se viver.
— Ixo memo, fiu! Num tem oto, né? Até nois que já morreu só pode vivê agora.
O preto velho me fez outra pergunta:
— Fiu, ucê pensa aí e me diz: qual é a pessoa mais importante da sua vida?
Pensei nas pessoas do meu relacionamento: pai, mãe, esposa, amigos. Depois, pensei que todas as pessoas são uma só: Deus. E respondi:
— Deus! A pessoa mais importante da minha vida é Deus.
O preto velho riu gostoso e disse:
— Eta gira boa, né fiu? Ucê tá vendo até Deus aqui! Eê… Não é ixo, fiu, tô falando de gente memo.
Voltei para ideia da lista dos meus relacionamentos:
— Pai, mãe, esposa, amigos…
— Não, não, não — respondeu o preto velho.
— Quem, então?
— Presta atenção, fiu, qual é o momento mais importante da sua vida?
— Agora.
— Ucê tá com seu pai, mãe, esposa, ou amigos agora?
— Não, estou conversando com você.
— Ixo, fiu, então, se eu não for a pessoa mais importante da sua vida, ucê tá perdendo sua vida, pois sua vida agora é fazê conversadô cum eu.
Eram pauladas duras e certeiras, embora executadas com carinho.
— Fiu, tem mais uma pergunta prucê.
— Claro, pode fazer.
— Ucê pensa aí e me diz: qual é a coisa mais importante que ucê pode fazê na sua vida?
— Posso ajudar os outros, plantar árvores, escrever livros…
— E quando ucê vai fazê essas coisas?
— Quando estiver fazendo.
— Ixo! E o que ucê tá fazendo agora?
— Conversando com você.
— Então, qual é a coisa mais importante da sua vida, que ucê pode fazer no momento mais importante da sua vida, com a pessoa mais importante da sua vida?
— Conversar com você!
— Ixo, fiu, entendeu o que importa na vida?
— Entendi. Mas e o resto?
— O resto tá no xeu livo.
— Que livro? O Foda-se?
— Ixo! Foda-xe!
Tem um exercício que faço com os alunos que se chama celular mágico.
É assim: você ganhou um celular mágico que é capaz de enviar uma mensagem para todos os celulares do mundo. Mas é só uma mensagem. Após enviar, esse celular desaparece. Qual é sua mensagem?
Cada aluno responde uma coisa diferente.
Uns são prolixos, outros são concisos.
O objetivo dessa pergunta é descobrir qual é o melhor conselho que você poderia dar a um ser humano — e consequentemente a si mesmo.
Hoje, através desse livro, vou enviar minha mensagem pelo celular mágico.
Atenção você que está me ouvindo. Não desperdice sua vida.
Seja um aluno vivo. Seja qual for sua vida, viva em auto-observação.
Confie no mantra da ressurreição.
"Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
Invista toda sua força e foco no despertar da consciência.
Conforme você for despertando, tudo se resolverá facilmente.
E para despertar, basta você viver em auto-observação.
Só isso. Simples assim.
Não precisa de dinheiro. Não vai roubar seu tempo. Não vai te impedir de fazer nada. Não vai te prejudicar de forma alguma.
Só vai te deixar mais consciente, apto a fazer melhores escolhas e viver melhor.
Câmbio final. Puft