Altura, Largura E Absurdidade
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Sabe quando um mágico faz um truque e parece que ele está tirando um coelho de dentro da cartola. Você também está iludido por um truque mental que faz você acreditar que o mundo existe mesmo quando você não está olhando para ele. Esse truque se chama: materialismo. Só que você nem sabe disso. Até porque, se soubesse, não estaria iludido. Esse livro explica o truque do materialismo fazendo uma analogia com a realidade virtual. Boa leitura!
Cidade não tem noite, sois eletrônicos acendem com o timer e o espetáculo da escuridão, mesmo presente, fica invisível. Sempre morei na cidade. Quase sempre. Tempo suficiente para que minhas retinas se esquecessem que são duas luas.
Certa vez, enjoado da Avenida Paulista, fui morar em um sítio. Lá, quando ficava noite, ficava noite. E tanto, que no quarto onde dormia, não fazia diferença estar de olhos abertos ou fechados. Muitas vezes, acordava antes do sol, da memória e até de mim mesmo para ficar olhando o breu.
Impressionante como o quarto encarnava no espaço com a luz do dia. Surgia a porta bege, a janela de ferro e o armário Marabraz. Quanto mais luz, maior era meu estado catatônico. Altura! Largura! Profundidade! De onde vem isso? Não estavam aqui agorinha mesmo! Pensei que fosse o único louco no mundo percebendo o absurdo do espaço, até que ouvi uma música do Raul Seixas: "Quando eu despertei, minha mobília me olhava, me julgava, me condenava...".
Raul também via o absurdo. Ele também percebia que as coisas não eram apenas coisas, mas presenças estranhas que surgiam do nada quando a luz as tocava. A mobília dele não era apenas madeira e tecido, era um tribunal que o julgava por sua incapacidade de ver além da forma. Raul cantava. E eu já não era o único louco no mundo querendo acordar o mundo para o absurdo que o mundo é.
Você perdeu completamente a capacidade de perceber quão extraordinário é o ordinário, quão maravilhoso é o trivial. Você acha normal que a realidade seja tridimensional, dura, colorida, quente, fria, aromática, etc. Você acha normal que existam objetos. Você acha normal que os objetos estejam rodeados de espaço. Você acha normal o espaço ser vazio.
Acooooorda! Não tem nada de normal nisso! A realidade é um absurdo. Altura, largura e profundidade! Onde já se viu isso? Que maluquice é essa? Que delírio é esse? Todos os aspectos da realidade são um completo absurdo. Não tem lógica. Só que você se acostumou com o absurdo. Você não vê mais o absurdo.
Você bebe água e não percebe o absurdo líquido descendo pela sua garganta. Você faz yoga, aprende todos os pranayamas, mas não percebe o absurdo que é respirar. Você senta em posição de flor de lótus, passa 10 horas olhando para parede, mas não entra em êxtase com o absurdo que é se sentir dentro de um corpo olhando para uma parede.
Você mastiga uma dúzia de cogumelos alucinógenos, mas não percebe a viagem que é ter dentes, mastigar e sentir sabor. Você não percebe mais quão extraordinário é o ordinário. Você vive como um zumbi. Por isso que você busca experiências espirituais e transcendentais. Seu adormecimento é tão profundo que você precisa transformá-lo no pesadelo da busca pelo extraordinário para conseguir acordar.
Tremendo equívoco! Quer atingir a iluminação? Grátis e imediata? Sem blablablá? Sem trelelelê? Sem precisar ficar sentado em posição de flor de lótus? É simples! Sai correndo e dá uma cabeçada bem forte na parede. Sinta o absurdo da dureza. Sinta o absurdo da dor. E pronto! Está iluminado! Bem-vindo ao mundo real!
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, ela fez barulho? Essa é uma questão existencial muito famosa. Outra maneira de formular a mesma pergunta, é assim: o mundo existe quando você não está olhando para ele? Você acredita que sim. Mas a resposta é não. Mas para que você possa entender porque o mundo não existe quando você não está olhando para ele, primeiro você precisa despertar para o motivo pelo qual você acredita justamente no oposto.
Sua noção de existência é baseada no que você vê com os olhos. - Sim, tem os outros sentidos também. Estou focando na visão para simplificar a explicação. Você vê a cadeira, então, a cadeira existe. Você vê o gato, então, o gato existe. Você vê a árvore, então, a árvore existe. Você vê o sol, então, o sol existe. Você vê o mundo, então, o mundo existe. E, claro, você olha para você e vê um corpo, então, você é um corpo que existe. Sendo assim, baseado no que seus olhos estão te mostrando, você vive acreditando que é um corpo material vendo um mundo externo e material com os olhos.
Por favor, não se sinta o aluno mais burro da classe por viver iludido pelo truque do materialismo. 100% dos seres humanos vivem iludidos igual você. E os que já saíram do equívoco são a minoria e tiveram que pisar exatamente nas mesmas pedras pontudas que você está pisando, atravessar o mesmo deserto, para conseguirem despertar.
Não é vergonha nenhuma viver iludido pelo truque do materialismo, é o mais comum e quase inevitável. Mas você não precisa ficar iludido. Você pode sair com facilidade. O que vou te explicar a seguir é uma analogia para que você aplique na sua experiência humana e perceba o truque acontecendo na prática.
Você se vê como sendo um corpo, mas isso não significa que você é um corpo, significa apenas que é assim que você se vê. E é assim devido à ilusão perceptiva do materialismo. Esse é o primeiro ponto a ser entendido.
O segundo ponto é que ser é nada. Você é um ser, você existe, mas existência não é espaço cheio, existência é espaço vazio. Espaço cheio é tudo que você vê. Você, observador do cheio, é um vazio, um nada. Eu sei que parece um absurdo pensar que o observador do cheio é o vazio, mas é assim e logo deixará de ser um absurdo para você.
Vamos ao passo principal para você entender o truque do materialismo. Recapitulando, baseado no que seus olhos estão te mostrando, você vive acreditando que é um corpo material vendo um mundo externo e material com os olhos. Mas você é um SER imaterial interagindo com outros SERES imateriais através de uma interface humana que faz você se ver como um corpo humano vendo um mundo externo e material com os olhos.
Sua experiência do mundo não é sensorial, é virtual. E qual é a diferença? A diferença é que experiência sensorial significa que você tem olhos materiais e está enxergando um mundo externo material através deles. Experiência virtual significa que você não tem perna, nem braços, nem cabeça, nem olhos nem nada. Significa que você é um SER imaterial olhando para uma tela de realidade virtual produzida pela interface humana e se vendo como um corpo humano em um mundo externo e material através dos olhos.
Resumindo:
1) Seus olhos são tão virtuais como o mundo que você está vendo.
2) Ver não é um processo sensorial, é um processo existencial. Por isso que o mundo não existe quando você não está olhando para ele. Ver o mundo não é enxergar o mundo, é renderizar o mundo.
Quando você mexe a cabeça para olhar para direita, você não está mexendo a cabeça, você está dando um comando para interface renderizar o mundo a direita. Quando você mexe a cabeça para esquerda, o mesmo acontece. E quando você tenta olhar para você, a interface renderiza um corpo com pernas, braços, tronco e cabeça. Se você passar um bisturi no seu corpo, a interface irá renderizar todos os órgãos e assim por diante. Por isso você acredita que está vendo um mundo externo e material com os olhos.
Sendo assim, vamos agora dar um fim a pergunta que gerou tanta polêmica e confusão: Por que o mundo não existe quando você não está olhando para ele?
Porque você não tem olhos para ver o mundo.
Porque ver o mundo não é enxergar o mundo, é renderizar o mundo.
Logo, sem renderização, sem mundo.
Um corpo é um corpo porque tem dimensão. Se não tiver dimensão, não é um corpo. O materialismo supõe que as dimensões dos objetos estão nos objetos. Só que é óbvio que altura, largura e profundidade é uma criação mental. É óbvio se você investigar, se não investigar, você vai viver sob a suposição de que é uma característica que vem de fora para dentro.
Todas as características dos objetos são construídas dentro do observador, pelo sistema de decodificação do observador. Está vendo o peixe nadando no monitor do seu computador. Achar que o mundo é externo, com altura, largura, profundidade, é achar que a internet está enviando peixe para o seu computador.
Você sabe que não é assim. A internet emite impulso, que é decodificado pelo computador, e daí surge no monitor o peixe com altura, largura e profundidade, nadando num aquário cheio de água. Mas no cabo da internet não está vindo peixe, não está vindo aquário, não está vindo água.
Considere que essa realidade que você está experimentando é um sonho. Não estou falando para você imaginar nada. Olhe para a realidade que está experimentando agora tal como se apresenta, apenas considere que é um sonho e não uma realidade física. Se é um sonho, você não é de fato um corpo contido no espaço, você é um sonhador sonhando que é um corpo contido no espaço.
Mas se você é um sonhador, cadê você? Pegue o dedo do seu corpo dentro do sonho e aponte para o sonhador. Percebe que embora você, sonhador, esteja em todo lugar, você não está em lugar nenhum? Percebe que embora você, sonhador, seja o único que existe de fato, você não existe dentro do sonho?
Por mais incrível que possa parecer, o que lhe impede de despertar a consciência é que você é incapaz de considerar que essa realidade que você está experimentando agora e sempre é um sonho. Desde que você nasceu você foi ensinado a acreditar que essa realidade que você está experimentando agora e sempre é física, feita de matéria física, assim como seu corpo.
Você foi ensinado a acreditar que esse corpo possui um cérebro físico e que esse cérebro produz uma coisa misteriosa chamada consciência. Você foi ensinado que os cinco sentidos é um tipo de consciência chamado cognição e que é através deles que você percebe o mundo material contido no espaço. Só que isso é um equívoco. Essa realidade que você está experimentando agora e sempre é um sonho. Não é feita de matéria, é feita de experiência de materialidade.
Claro que essa experiência de materialidade, após anos de repetição, é bastante convincente em te convencer sobre um equívoco chamado materialismo. Que equívoco é esse? É o equívoco de igualar experiência com existência. Por isso você diz que cadeira existe, que árvore existe, que estrelas existem, etc.
O que você pode afirmar com certeza absoluta sobre tudo que diz que existe? Esqueça o que aprendeu. Esqueça o que lhe disseram os professores, os sábios, os cientistas, os filósofos, etc. O que você pode afirmar inegavelmente sobre tudo que diz que existe? Você pode afirmar que é uma experiência. O que são cadeiras, árvores e estrelas para você, senão experiências que você chama de cadeiras, árvores e estrelas?
O que é seu corpo para você, senão uma experiência que você chama de corpo? Eu sei que você tem medo de despertar a consciência e ficar sem corpo. Mas você nunca teve corpo e nem por isso deixou de ter. Seu corpo, assim como todo objeto material, sempre foi e sempre será uma experiência de fisicalidade.
A única coisa que muda com o despertar da consciência é que você para de acreditar no equívoco do materialismo. Você continua tendo a experiência de ser um corpo sentado em uma cadeira pegando um copo e bebendo água. Você apenas vivencia tudo isso sem o equívoco do materialismo.
Um objeto tem altura, largura e profundidade porque existe, ou existe porque tem altura, largura e profundidade? Todos os capítulos deste livro foram produzidos para lhe ajudar a ficar consciente que os objetos parecem existir fisicamente porque você tem experiência de dimensão (altura, largura e profundidade) e não porque os objetos são corpos físicos no espaço.
Sendo que seu corpo é um objeto, o mesmo vale para ele. No final das contas, ficará consciente que você não tem cinco sentidos, mas cinco tipos de experiências sensoriais. E também, para que você fique consciente que você não é um corpo contido no espaço, você é um ser adimensional tendo uma experiência de que você é um corpo contido no espaço. Se você ainda não ficou consciente da virtualidade da realidade e do equívoco do materialismo, releia esse livro quantas vezes precisar, até despertar a consciência.