A Verdade Sobre A Verdade
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
O tema da verdade é polêmico. Gera discordância. Às vezes, hostilidade.
O objetivo deste livro é mostrar que a polêmica vem de um equívoco — a confusão entre três tipos de verdades distintas.
Quando surge a distinção, a briga acaba. Não porque todo mundo passa a concordar, mas porque entendem porque discordam.
No dia 7 de dezembro de 2024 aconteceu o primeiro encontro nacional dos 1ficineiros. Para celebrar, produzi uma palestra inédita.
Este livro é a reprodução dessa palestra.
Verdade é cognoscível.
Cognoscível significa: conhecido.
Essa é a primeira obviedade sobre a verdade.
Qualquer coisa incognoscível não pode ser afirmada nem negada.
Logo, não pode ser verdade nem mentira.
Atenção: não estou dizendo que o incognoscível não existe. Estou dizendo que ele não pode ser afirmado nem negado — pois é incognoscível.
Realidade é tudo que você experimenta.
Essa é a definição empírica e autocientífica da realidade.
Tudo do verbo tudo mesmo. Sem exceção.
E sendo que tudo que você experimenta é o cognoscitivo: verdade é realidade.
Essa é a segunda obviedade sobre a verdade.
Realidade é multimídia. Logo, verdade é multimídia.
Essa é a terceira obviedade sobre a verdade.
*** Se você desconhece a natureza multimídia da realidade, leia o livro Realidade Multimídia antes de continuar.
Que número é esse? Seis ou nove?
Olhando do ponto de vista do pé peludo: seis. Do pé calçado: nove.
Então qual é a verdade?
Ambas.
Verdade é o cognoscível. O cognoscível é o objeto observado. O observado depende do observador. Não existe conhecimento sem conhecedor.
Para o observador de pés peludos, o observado é seis. Para o observador de pés calçados, o observado é nove. Seis e nove são igualmente verdade — porque verdade é relativa ao observador.
Essa é a quarta obviedade sobre a verdade.
Para que dois observadores tivessem a mesma verdade, seria preciso que fossem o mesmo observador. Mas se fossem o mesmo observador, não seriam dois, seriam um.
— Isso é um problemaço! — você pensa. O universo é feito de infinitos observadores, cada um no seu próprio ponto de vista. São infinitas verdades! Qual é a verdade, afinal? Não pode ser tudo verdade!
Por que não?
Por que só o seu ponto de vista tem que ser a única forma de observação? Por que a sua verdade tem que prevalecer? Por que a verdade do outro precisa ser excluída?
Por que precisa ser seis ou nove?
Por que não: seis e nove?
Na ilustração acima: a verdade objetiva existe por conta própria, independente de qualquer observação. As verdades subjetivas são relativas a cada observador. Essa é a lógica científica da verdade.
As ilustrações abaixo expressam a mesma lógica com outro objeto. O cilindro é a verdade objetiva. As sombras são as verdades subjetivas. Em outras palavras: o cilindro é o objeto real. As sombras são os objetos mentais.
Tudo lindo. Tudo maravilhoso. Amplamente aceito pela comunidade científica. Ensinado nas escolas e universidades do mundo inteiro. Tudo muito tudo.
Porém, há um erro fundamental na lógica científica.
Um erro crasso. Ululante. Impossível de engolir, porque é o fundamento do materialismo, e tudo deriva dele. Porque se cai o materialismo, cai tudo.
Que erro é esse? O que está errado nessa ilustração?
O filósofo George Berkeley propôs um famoso experimento mental: "Se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, ela fez barulho?" A resposta da ciência é sim. Tanto a árvore quanto o som da queda são verdades objetivas, independentes de qualquer observador.
Mas ao responder sim, a ciência está fazendo muito mais do que responder uma pergunta. Está afirmando que a realidade objetiva existe independente da observação. Que o observado existe independente do observador.
Esse é o erro.
As ilustrações abaixo mostram graficamente o erro da lógica científica:
Não existe objeto externo. Não tem nada do lado de fora. Não existe sequer lado de fora — nem lado de dentro. "Dentro e fora" são conceitos geométricos derivados da lógica científica.
O objeto externo que a lógica científica supõe existir independente da observação é exatamente isso: suposição.
O erro da lógica científica é um erro de pressuposição.
Funciona assim:
— Se estou vendo a sombra de um objeto, logo, existe um objeto real causando essa sombra.
Essa é a suposição. Não é um fato.
A lógica científica é platônica.
A primeira dificuldade de sair desse erro:
Não tem como provar que o objeto externo não existe através da própria lógica científica, porque é ela que o cria pela pressuposição.
A segunda dificuldade:
Não tem como provar que o objeto externo não existe através da observação.
O porquê disso é a 5ª obviedade sobre a verdade.
Explico no próximo capítulo.
O motivo pelo qual é impossível provar através da observação que o objeto externo não existe é simples: não existe observação.
Sei que essa afirmação é de cair o cu da bunda. Sei que vai contra tudo que você acredita. Sei que parece irracional, absurda e coisa de maluco. Sei disso tudo porque já estive onde você está: preso na lógica científica.
O fato é que não existe observação.
Se você se der ao trabalho de investigar o que chama de "observação", vai descobrir que ela não existe — é um equívoco.
Observação também é uma pressuposição científica. E é uma pressuposição equivocada.
Para sair desse equívoco, basta usar o método científico tendo por objeto de estudo a própria observação. Ou seja: observar a observação.
Não é preciso microscópio. Não é preciso acelerador de partículas. Não é preciso nenhuma tecnologia. Basta ser humano e decidir fazer isso.
— E por que ninguém faz?
Ninguém faz porque ninguém faz. Parece piada, mas é simples assim. Se seus antecessores fizessem, você faria. Como não fizeram, você nem imagina a possibilidade.
Eu fiz e descobri o que qualquer ser humano pode descobrir se fizer também.
E o que foi que descobri?
Explico no próximo capítulo.
O motivo pelo qual não existe observação é porque o observado não é uma entidade separada da observação, é imanente a ela.
Observação é um conceito materialista baseado na pressuposição de objeto externo. Se de fato existisse objeto externo, existiria observação. Mas objeto externo é apenas uma pressuposição. E é uma pressuposição equivocada.
Assim como não existe separação entre a imagem na tela e a tela, o que existe é imanência — também não existe separação entre observado e observação.
Observado e observação são dois aspectos da mesma entidade: você-ser.
Observado é você-ser se observando através de uma interface humana.
Olhe para um objeto. Qualquer objeto. Qual é a distância entre sua observação e o objeto? Nenhuma. Zero. A ideia de separação só surge quando você visualiza seu corpo e o espaço entre ele e o objeto. Mas ao fazer isso, você esquece que seu corpo também é um objeto sendo observado — não é a observação.
A visão é o sentido que mais mantém você preso à mentalidade científica.
Para escapar dessa armadilha, faça um experimento com o tato. Feche os olhos e segure um objeto. Pergunte-se: qual é a linha que separa o tato do objeto?
Nenhuma.
O objeto que você está segurando não é externo nem feito de matéria — é um objeto mental feito de tato. A experiência de dureza, somada ao hábito da lógica científica, faz você supor um objeto. Mas se o tato fosse desligado, o objeto desapareceria. E sua mão também.
Observação é auto-observação.
Essa é a quinta obviedade sobre a verdade.
Essa é a verdade impossível de engolir.
Os seres humanos — principalmente os cientistas — acreditam que, através de microscópios e lunetas, estão observando o que existe do lado de fora.
Não estão. Nunca estiveram. Jamais estarão.
O que você e todos os seres humanos observam e nomeiam — cadeira, pedra, estrela, célula, flor, elefante, banana, asteroide — é uma das três mídias da verdade acontecendo em cada um. É a verdade objetiva.
Como disse no início: a verdade é multimídia.
Tudo que expliquei até aqui foi para ajudá-lo a perceber a mídia da verdade objetiva. Caso não tenha conseguido, outros livros da 1ficina explicam com mais detalhe.
Sigo agora para as outras duas mídias da verdade.
Toda mágica funciona baseada em suposições equivocadas.
No truque do coelho na cartola, o mágico primeiro lhe mostra a cartola vazia. Você vê. Então, quando ele a coloca sobre a mesa, você supõe que continua vazia.
Não está. O mágico, muito habilidoso, já colocou o coelho lá sem você perceber. Quando o retira, parece mágica — porque você supôs um equívoco. Com o objeto externo é a mesma coisa. Uma suposição equivocada faz você acreditar que ele existe.
Se a verdade objetiva fosse como na ilustração abaixo — onde A é diferente de B — seria fácil perceber que não existe objeto externo. Você ouviria descrições diferentes e concluiria: a verdade objetiva é particular e mental.
Porém, o que acontece é o oposto.
Quando você conversa com os outros sobre os objetos, não há divergência — há concordância. Onde você enxerga uma bola, todos enxergam uma bola. Onde você não consegue atravessar porque tem uma parede, ninguém consegue atravessar porque tem uma parede.
E aí está a mágica.
Sendo você um ser humano que pensa e acredita, imediatamente supõe que existe uma bola e uma parede do lado de fora — tal como na ilustração abaixo:
Essa mesma mágica acontece quando você joga videogame em rede.
Você está na sua casa, olhando para a tela do seu computador. Todos os outros jogadores estão em outros lugares do mundo, olhando para a tela de outros computadores. Todos estão vendo o carro. E todos precisam ver o carro, senão fica impossível jogar.
Porém, ninguém comete o equívoco de acreditar que existe um carro lá fora, além do monitor. Por quê? Porque todos sabem como o videogame funciona.
E por que o ser humano não faz o mesmo com a verdade objetiva? Porque o ser humano ignora o que é ser humano. Não tem autoconhecimento.
Uma das mídias da verdade é a verdade objetiva. Verdade objetiva é sua percepção sensorial — a realidade criada pelos sentidos.
Sua visão do Elvis Presley, por exemplo.
Sendo a verdade multimídia, a mentira — que é a negação da verdade — também é multimídia. A negação da verdade objetiva é a mentira objetiva.
Quando você está vendo o Elvis Presley e diz que está vendo a Madonna. Quando está vendo uma panela com gordura e diz que está vendo um carro.
Mentira objetiva é negar o que você percebe.
Outra mídia da verdade é a verdade simulada. Verdade simulada é sua imaginação — a realidade criada pela imaginação.
Sua imaginação do Elvis Presley, por exemplo.
Sendo a verdade multimídia, a mentira — que é a negação da verdade — também é multimídia. A negação da verdade simulada é a mentira simulada.
Quando está pensando no Elvis Presley e diz que está pensando na Madonna. Quando está imaginando uma panela com gordura e diz que está imaginando um carro.
Mentira simulada é negar o que você imagina.
Outra mídia da verdade é a verdade significativa. Verdade significativa é sua crença — a realidade criada pela sua adjetivação.
Sua adjetivação do Elvis Presley, por exemplo: "Elvis Presley é lindo."
Sendo a verdade multimídia, a mentira — que é a negação da verdade — também é multimídia. A negação da verdade significativa é a mentira significativa.
Quando acredita que "Elvis Presley é lindo" e diz que "Elvis Presley é feio". Quando acredita que a panela está suja e diz que está limpa.
Mentira significativa é negar o que você acredita.
Mentira é a negação da verdade. E equívoco? Equívoco é sinônimo de mentira?
Sua tendência é responder que não. E se você responder "não", está correto. Mas não basta. Você precisa responder: por que não?
Olhe para a parede à sua frente. Vamos supor que seja verde. Eu te pergunto:
— Qual é a cor da parede?
Se você responder que a parede é vermelha, você está mentindo. Por quê? Porque você sabe que a parede é verde. Está olhando para ela.
Agora, imagine que tem uma pessoa cega do seu lado e eu faço a mesma pergunta. Se ela responder que a parede é vermelha, está mentindo?
Não.
Mentira é a negação da verdade. Para mentir, você primeiro precisa estar consciente da verdade — para depois negá-la.
A pessoa cega é incapaz dessa primeira etapa. Logo, é incapaz de mentir.
O que a pessoa cega está fazendo? Está acreditando no que você disse. Não está mentindo. Está equivocada. Quem está mentindo é você que sabe que a parede é verde.
A pessoa cega não é mentirosa. É ignorante.
Mentira é negação da verdade. Equívoco é ignorância da verdade.
O equívoco é sincero. A negação é manipuladora.
A mentira é impossível de ser praticada entre ignorantes. Cada cego pode acreditar em uma mentira diferente e tentar convencer os outros da cor da parede. Mas nenhum estará mentindo — porque nenhum é capaz de ver a verdadeira cor.
Entendido isso, fica fácil entender a diferença entre óbvio e verdade.
Óbvio é cognição. Verdade é o cognoscível.
Óbvio é ver. Verdade é verde.
Óbvio é saber. Verdade é o sabido.
Óbvio é consciência da verdade e, consequentemente, consciência da mentira.
Essa é a sexta obviedade sobre a verdade.
Chegamos à pergunta que não quer calar.
A panela está suja ou limpa? Qual é a verdade?
Essa pergunta é a causa de todos os conflitos, guerras e tretas humanas.
O vídeo abaixo mostra um exemplo dessa briga.
Dois garotos se acham donos da verdade. Veja o que acontece:
É vaca ou é boi? Qual é a verdade?
A verdade significativa depende do sistema de crenças de cada um.
Um garoto foi ensinado que bicho com chifre é vaca. O outro foi ensinado que bicho com chifre é boi. São duas verdades significativas diferentes.
A verdade são ambas.
Duas verdades: vaca e boi.
A panela está suja ou limpa? Qual é a verdade?
A verdade significativa depende do sistema de crenças de cada um.
Você acredita que panela com gordura é suja. O outro acredita que panela com gordura é limpa. São duas verdades significativas diferentes.
A verdade são ambas.
Duas verdades: suja e limpa.
Pratos não flutuam no ar. Para um prato permanecer no ar, precisa de apoio. A vareta é o apoio. O mesmo acontece com a mentira — também não flutua, também precisa de apoio.
E qual é o apoio da mentira?
Fico com vontade de parar o texto aqui.
É muito importante que você encontre a resposta de forma autônoma.
Seja corajoso. Confie em si.
Pare de ler e só volte depois que encontrar a resposta em si e por si.
Espero que tenha aceitado o conselho.
Independente disso, vou prosseguir.
O apoio da mentira é o arbítrio.
Não tem como um prato se manter no ar sem a vareta. Não tem como a mentira se manter no lugar da verdade sem sua decisão de continuar acreditando nela.
Pense em uma mentira sua. Como ela se mantém? Não é exatamente pela sua opção de continuar mentindo? Se você decidir parar, o que acontece? Sua mentira cai e se espatifa no chão, feito um prato.
— É impossível viver sem mentiras — você pensa — Imagina se eu falar tudo que penso e sinto para meus familiares e amigos. Será o fim da família e não vai sobrar nenhum amigo!
Você está no seu direito de pensar assim. Mentir é seu grande privilégio humano. Só o ser humano tem a possibilidade de falsear a verdade. Sua defesa da mentira é a defesa desse privilégio. Porém, se equilibrar pratos é estressante, muito pior é sustentar mentiras.
Vá até um hospital. Olhe para as pessoas adoentadas — com câncer, gastrite, úlcera, hérnia, diabetes, infarto. Como você acha que foram parar lá? Deixando a verdade fluir, ou se desgastando dia e noite para ocultá-la?
Todo mundo mente porque todo mundo mente.
Somos mentirosos — essa é a grande verdade.
Esse é o acordo tácito sobre o qual nossa convivência está alicerçada. Sonhamos com o dia em que não mais precisaremos sustentar mentiras, mas não temos coragem de dar o primeiro passo. Ninguém tem. E segue em pé, firme e forte, o que todos gostariam de ver ruir.
Quer viver bem? Pare de sustentar suas mentiras.
Quer colaborar para melhorar a convivência humana e diminuir o número de doentes?
Pare de apoiar as mentiras alheias e coletivas.
Quando você desperta a consciência para a natureza multimídia da verdade, entende como é tola, desnecessária e nociva a briga pela verdade.
É o fim da briga.
Mas para despertar essa consciência, não basta ler este livro. Ler ajuda. Mas o principal livro que você deve ler — e reler — é você mesmo.
Leia-se!