Queda Do Rei Absoluto
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Há um tempo antes do tempo em que você é o rei absoluto.
Tudo o mais é súdito.
Existe para servir você.
Você não escolhe isso.
É apenas como a brincadeira começa.
Um banquete montado e você no centro da mesa.
Você é sujeito.
O resto é objeto.
E assim tem início a história da sua queda.
Sua história começa antes do primeiro capítulo.
Muito antes.
Quando ainda mora numa casa de água.
Uma casa espessa, morna, que abraça sua pele como um cobertor que nunca precisa ser puxado de volta.
Você empurra a perna e ela cede. Estica o braço e seu movimento é recebido como onda no oceano, sem resistência, sem susto.
Você nunca bate numa parede.
Nunca tropeça.
Nunca cai.
O mundo tem o formato exato do seu corpo.
Você não conhece o peso. Não conhece o vento. Não conhece a secura.
Seus pulmões dormem como janelas ainda fechadas.
Um tambor sustenta o mundo.
Tum.
Tum.
Tum.
Nunca se atrasa.
Nunca corre.
Às vezes outro som atravessa aquela água.
Grave. Longo. Macio.
Você não entende de onde vem. Também não precisa entender. É como a chuva para quem nasce dentro do mar.
Quando sua boca faz um movimento que ainda nem é fome, o alimento já chega, pelo fio que prende seu ventre ao próprio mundo.
O alimento chega antes da fome.
O complemento chega antes da falta.
Você nunca pede.
Nunca espera.
Nunca imagina que as coisas possam demorar.
Você não conhece o amanhã.
Não precisa descobrir onde sua pele termina.
Onde o resto começa.
A água, o calor, o alimento e você parecem costurados pela mesma linha.
Nada falta. Tudo basta.
Você vive num eterno consentimento.
Nunca ouviu um “não”.
Sua ignorância é sua bênção.
Você é Adão desnudo.
Antes do fruto.
Antes de abrir os olhos.
Antes da vergonha.
Você habita o paraíso.
Mas não sabe disso.
Nem que está prestes a ser expulso dele.
Um dia, a água aperta.
Não é de repente.
Primeiro, ela deixa de balançar como antes.
Depois, começa a empurrar você.
Devagar.
Sem descanso.
Como uma maré teimosa.
Você estica as pernas procurando o espaço de sempre.
Encontra menos.
Vira o corpo.
A água, que sempre cedeu, agora faz parede.
Pela primeira vez, o mundo não dança no mesmo passo que você.
Seu mundo começa a esvaziar.
Seu corpo é conduzido por uma força que não pede licença.
Você não escolhe.
É levado.
Não há onde se agarrar.
A casa de água não tem paredes.
Sua cabeça é o estorvo.
Retardando o fim.
E o começo.
Então…
O calor escorre da sua pele.
E um frio morde seu corpo inteiro.
Você encontra o ar pela primeira vez.
É invisível.
Mas toca.
Entra pelas narinas.
Arranha o peito.
Seus pulmões se abrem assustados.
Você fica cheio por dentro.
Dói.
E você grita.
Não porque saiba gritar.
Mas porque perdeu.
Não porque saiba o que é perder.
Mas porque sente.
Ou melhor.
Porque não sente mais.
A água sumiu.
O tambor fica distante.
Como se tivesse pernas.
E estivesse fugindo.
Tum.
um.
m.
Surge uma substância estranha.
Um rio transparente que atravessa as pálpebras.
Depois vêm as mãos.
Secas. Quentes. Firmes.
Tocando suas costas.
Segurando sua cabeça.
Envolvendo seu corpo.
Não é água.
Não é ventre.
Mas há, no côncavo das mãos, alguma coisa de casa.
Um cheiro chega saudoso.
Quente. Doce. Aquoso.
Retirando a casa de água da gaveta da memória.
Só que dessa vez, a casa não é casa.
É um travesseiro.
Acomodando seu rosto.
Você volta a ouvir o tambor.
Volume médio.
Como música através da parede.
Tum.
Tum.
Tum.
Você aquieta o choro.
Seu corpo afrouxa.
O mundo voltou.
Diferente, mas com o mesmo quente.
E você adormece.
Agora há dias.
Você não sabe que eles existem.
Mas seu corpo sabe.
Dorme.
Acorda.
Dorme outra vez.
Entre um sono e outro, o mundo acontece.
Quando o vazio aparece na barriga, sua boca se abre sozinha.
O ar se rasga com seu choro.
Pouco depois, o leite escorre quente entre seus lábios.
Você não conhece o caminho da satisfação. Nem imagina que possa haver um. Sabe apenas que a fome nunca fica presente por muito tempo.
Quando o frio toca sua pele, um tecido envolve seu corpo.
Quando o tecido não basta, vêm braços.
Largos. Macios. E fortes.
Braços que sempre antecedem o cheiro e o calor.
Chegada que afrouxa seu corpo.
Bem devagar.
Os dedos, antes fechados como pequenas conchas, se abrem um a um.
As pernas esticam.
A respiração faz coral com o tambor.
Então o sono chega.
Não como alguém que entra.
Como uma maré que sobe.
1.8 — Súdito
Às vezes, antes de dormir, você abre os olhos.
Tudo é borrado.
Luzes.
Sombras.
Manchas coloridas.
No meio delas, uma mancha aparece muitas vezes.
E há uma coincidência quando aparece.
Junto com ela vem o cheiro.
Depois o calor.
Depois o leite.
Depois o tambor.
Sempre nessa ordem.
Como a noite visitando o céu.
Como o sol abrindo o dia.
Acontecem.
Acontecem.
Acontecem.
Infalivelmente.
Cumprindo a função dos dias:
Cuidar de você — menino rei.
Que ainda não caiu do trono.
E acredita que basta chorar.
Para o mundo obedecer.
Feito súdito.
Por algum motivo, um dia, o mundo demora.
É só isso. Nada mais.
E, ainda assim, suficiente para mudar tudo.
O vazio nasce na barriga como sempre.
Uma pontinha.
Depois outra.
Até virar um aperto que encolhe o corpo inteiro.
Você abre a boca.
O choro sai forte, molhado, cheio da urgência.
Você espera.
Nada.
O cheiro não vem .
O calor não vem .
A mão não vem .
Pela primeira vez, o choro não traz satisfação, só traz eco.
Você chora mais alto.
Como quem toca a campainha com mais força.
A insatisfação continua.
Seu rosto esquenta.
As mãos pequenas se fecham.
As pernas chutam o ar.
O peito sente pressa.
Tudo em você chama pelo mundo.
Mas, pela primeira vez, o mundo parece ter vontade própria.
Cada segundo de espera cai sobre seu corpo como gotas escavando uma pedra.
Plic.
Plic.
Plic.
Então: passos.
Cheiro. Calor. Outro.
Tum.
Tum.
Tum.
Sua respiração se acalma.
A boca encontra o leite.
O nó na barriga se desfaz.
Seu corpo volta a descansar.
Tudo parece como antes.
Mas não é.
Uma coisa muito pequena mudou.
Antes, o choro e a satisfação eram uma coisa só.
Agora existe um espaço.
Você pode chamar e o mundo não responder.
Você não entende isso com a cabeça.
Entende com a barriga vazia.
Com os pulmões cansados de chorar.
Nasce a espera.
Um espaço por onde, passo a passo, sairá sua onipotência e entrará a vontade do outro.
Hoje seus dedos encontram um brilho.
Está bem perto.
Você estica o braço.
Mais um pouquinho.
Os dedos quase alcançam.
Quase.
Você se inclina.
A barriga faz força.
Os joelhos empurram a manta.
Mais um instante.
Agora sim.
Seus dedos tocam.
É frio.
Liso.
Você sorri.
Fecha a mão.
Quer conhecer melhor aquela coisa que cintila.
Ela começa a subir.
Mas, antes que chegue até você...
A mão grande aparece.
Segura seu braço.
Abre seus dedos um por um.
Devagar.
Como quem descasca uma fruta.
O brilho escapa da sua palma.
A mão grande o coloca de volta onde estava.
Você olha.
Não entende.
Estica o braço outra vez.
Agora vai conseguir.
Os dedos alcançam o brilho novamente.
Antes que você o segure...
A mão grande retorna.
Reabre seus dedos.
Afasta o brilho.
Você para.
Olha para sua própria mão.
Abre.
Fecha.
Ela continua funcionando.
Olha para a mão grande.
Ela continua ali.
Olha para o brilho.
Ele também continua.
Mas está longe.
Longe da sua mão.
Longe da sua vontade.
Você tenta uma terceira vez.
Agora mais rápido.
Quase consegue.
A mão grande chega outra vez.
Segura seus dedos.
Afasta o brilho.
Depois oferece outras coisas.
Um chocalho.
Um mordedor macio.
Você empurra os presentes para o lado.
Quer o brilho.
Só o brilho.
Seu corpo inteiro aponta naquela direção.
As mãos.
Os olhos.
A barriga.
O peito.
Tudo em você segue o mesmo caminho.
Mas o brilho não vem.
Você reclama.
Chora.
Estica os braços.
A mão grande acaricia sua cabeça.
Afaga seus cabelos.
Mas continua dizendo não.
Mesmo sem dizer uma única palavra.
Você quer.
Mas não tem.
Você não entende.
Nunca precisou entender.
Até hoje, querer e ter era o mesmo verbo.
Agora eles se separam.
Querer não basta.
Não mais.
Algo impede você de ter.
Algo firme.
Pela primeira vez, existe um bloqueio.
Uma fronteira.
Ela não é feita de pedra.
Nem de madeira.
Nem de ferro.
Ela é feita de outro.
E de não.
Você está sentado no chão.
Blocos de madeira estão ao seu redor.
Sua mão empurra um deles.
De repente, um som quebra o ar em dois.
Seu corpo se arrepia.
Você vira o rosto na direção do outro.
O que vê te paralisa mais do que o clarão e o som.
O outro também se assustou.
Também se arrepiou.
Os olhos dele se arregalaram como os seus.
A respiração travou igual.
O espanto — dele e seu — vira pergunta.
— Por quê?
A pergunta percorre seu corpo fazendo nascer um novo sujeito.
Se o outro se assusta com o som.
Como você.
Então, o outro ouve como ele?
O ursinho nunca foi ele.
Você já berrou.
Já jogou o ursinho no chão.
Com força.
O ursinho nunca escutou.
Como ele.
Nunca enxergou.
Como ele.
Nunca reagiu.
Como ele.
O ursinho nunca foi ele.
Esse outro é diferente.
Ele é ele.
Como você.
Como ele.
Como você.
Surge a espada mais afiada.
Que racha de vez o seu trono.
— Se eu sou rei…
— O outro é outro.
— Mas o outro é ele…
— Também é eu…
— Outro-eu.
— Então, para ele…
— O outro sou eu.
Treeeec.
Racha a onisciência.
Tibum.
Cai o rei absoluto.
A chuva amansa.
O outro respira devagar.
Sorri.
Pega você.
Cheiro do outro.
Calor do outro.
Colo do outro.
Tum.
Tum.
Tum.
Igual.
Mas diferente.
Pela primeira vez, vocês são dois.
Você acorda chorando.
Mas hoje o choro já não chega sozinho.
Encontra o outro no meio do caminho.
Ele entra rápido.
Olha para você.
E diz algo antes mesmo de te pegar:
— Está com fome?
Seu corpo é levado.
O peito chega.
Tum.
Tum.
Tum.
Você bebe.
Mas alguma coisa não encaixa.
Não era isso.
Embora o outro pareça satisfeito com o que fez.
Você sente um desencaixe nascer.
Um descompasso.
Entre o que você sente.
E o que dizem que você sente.
Algo seu fica fora do olhar dele.
E algo dele fica fora do seu.
Você chora de novo.
De novo.
De novo.
Por centenas de novos motivos.
O outro pergunta sempre a mesma coisa:
— Está com fome?
— Está com fome?
— Está com fome?
Com a repetição, fica claro.
O outro só tem acesso ao seu choro.
Nunca ao seu dentro.
A cor da sua dor.
O outro chuta.
É um palpite.
E, muitas vezes, errado.
Sem intenção.
Sem culpa.
Por cegueira.
Ele não vê seu dentro.
O pensamento se move.
— Se o outro erra meu dentro…
— Não vê meu dentro.
— Por isso desencaixa.
— São duas caixas.
Plim.
Surge o reino interior.
Tibum.
Cai o rei absoluto.
Você tem um dentro.
Que o outro não vê.
O outro tem outro dentro.
Que você não vê.
Dois dentros.
Dois reinos.
Invisíveis.
Acenando um para o outro.
Por fora.
Sem nunca se verem.
Você nasce acreditando que é rei absoluto.
Todo mundo nasce assim.
Acreditando que é sujeito único, cercado de objetos: travesseiro, ursinho, mamadeira, chocalho, mãe. Pensa, sem saber que pensa, que o mundo é um palco montado só para você, e que tudo o mais é cenário, coadjuvante, súdito a seu serviço.
E então vem as quatro quedas.
Quatro ensinamentos empíricos, mas muito eloquentes.
Cada uma tirando um pedaço do seu trono.
A primeira queda te diz:
— Você não é onipresente. O outro existe, inteiro, integral, com individualidade própria, além da fronteira da sua existência.
A segunda queda te diz:
— Você não é onipotente. O outro também quer, também deseja, também tem vontade própria, além da fronteira da sua vontade.
A terceira queda te diz:
— Você não é onisciente. O outro também é sujeito. Também vê, ouve, cheira, saboreia e sente. E no filme do outro, você quem é cenário.
E, por fim, a quarta queda te diz:
— Você não acessa o outro. Assim como você tem um dentro que o outro não vê, o outro também tem um dentro que você não vê. Vocês são duas caixas fechadas, lado a lado, acenando uma para a outra através da janela da suposição.
Essas quatro quedas começam no berço. Mas não terminam ali.
Voltam. As mesmas quatro.
Uma e outra vez.
Sempre que seu reino encontra outro reino.
Toda vez que o outro resiste ao seu reinado absoluto.
E cada resistência tira um novo pedaço do trono.
Chame trono de absolutismo.
Chame a queda dele de despertar da alteridade.
Você não decidiu sentar no trono, mas pode decidir cair dele.
Ou não. A decisão é sua.
São duas opções:
Você pode passar o resto da vida tentando reconquistar o trono vertical perdido, tentando dobrar o mundo à força de vontade, de cima para baixo — ou pode aprender, devagar, a ser um rei ao lado de outros reis, na convivência horizontal.
A segunda opção se chama: despertar da universalidade.