Bicho não se preocupa. Planta não se preocupa. Pedra não se preocupa. Mas você, ser humano, raça superior, criatura mais inteligente do planeta, tem uma única ocupação: a preocupação. E por que? Com o que você se preocupa tanto? Você pelo menos sabe o que é se preocupar?
Se preocupar é se ocupar virtualmente, ou seja, pensar. É por isso que bichos, plantas e pedras não se preocupam com nada, eles não possuem a capacidade de pensar. A capacidade de pensar explica a diferença entre você e um pé de alface, mas ainda não explica porque você se preocupa, não explica o motivo. A todo instante você está pensando. Com que propósito? Qual é a finalidade? Pra que você pensa?
Você pensa para analisar e entender. Entender é fundamental para agir. Se você não for capaz de entender a diferença entre uma xícara e um penico, por exemplo, vai acabar bebendo xixi. Mas e daí? Qual é o problema de beber xixi? O problema é que você não quer beber xixi. Tem coisas que você quer e tem coisas que você não quer. Agora começa a ficar claro porque você se preocupa tanto.
De alguma forma sua preocupação está ligada com o que você quer e não quer. De que forma? Sua preocupação está ligada com o que você quer e não quer experimentar no futuro. Sim, tem coisas que você quer e tem coisas que você não quer experimentar no futuro. Mas e daí? Por que se preocupar? Porque seu próximo futuro será o resultado da opção que você fizer agora, e o próximo será o resultado da opção que você fizer agora, e assim por diante.
Entendeu agora porque você se preocupa tanto? Seu futuro depende do seu arbítrio. Você sabe que se você optar mal, você acabará experimentando um futuro indesejado (que não quer). Sendo que optar é algo que você faz ininterruptamente, você vive ininterruptamente preocupado. Eis o xis da preocupação: optar. Você vive preocupado porque tem arbítrio.
Se você não tivesse arbítrio, você não viveria preocupado mesmo pensando, pois sem arbítrio você seria incapaz de determinar seu futuro. Entendendo isso, fica fácil de entender também porque a primeira questão que você e todo ser humano deve investigar e descobrir é se existe destino. Existe destino? Sim ou não?
Por que essa é a primeira questão? Porque se existe destino, não existe arbítrio. E se não existe arbítrio, para que se preocupar com o futuro? De que adianta? Não adianta nada. É absolutamente inútil. E mais! Se existe destino, como você pode ser feliz se não tem arbítrio para optar pelo que quer e não quer? E pior ainda! Se existe destino, como você pode sair do sofrimento se não tem arbítrio para sair do sofrimento? Então, é fundamental que você descubra se existe ou não existe destino.
A questão do arbítrio foi uma das primeiras questões que investiguei quando comecei a praticar autociência. Eu precisava descobrir se existia destino ou não. Se existia destino, não existia arbítrio, então, eu viveria exatamente como estava destinado a viver, com ou sem autoconhecimento. Pratiquei autociência e ficou óbvio que sim, eu tinha arbítrio. Mas se eu tinha arbítrio, então, não existia destino. Mas se não existia destino, então, porque eu experimentava sofrimento?
Duas perguntas explodiram dentro de mim:
Se não existe destino, por que existe sofrimento?
Se existe destino, então estou destinado ao sofrimento?
Continuei praticando autociência em busca do entendimento da razão de ser do sofrimento e ficou óbvio tudo que explico nesse livro e em outros livros da 1ficina. Devido à mentalidade materialista, entendia destino e arbítrio de uma forma equivocada. Espero que a leitura desse livro lhe esclareça sobre seu destino e como realizá-lo.
Sim, existe destino. Se não existisse destino, não existiria certo e errado, bem e mal, etc. Sim, existe arbítrio também. Se não existisse arbítrio, não existiria a possibilidade de você optar pelo que é certo ou errado, bem ou mal, etc. Entendido isso, surge a pergunta: como pode existir destino e arbítrio simultaneamente?
O problema com essa pergunta é que ela está baseada em um entendimento equivocado do que é destino. Pense em um jogo. Jogar é fazer escolhas para atingir um objetivo. Toda vez que você está jogando um jogo, você opta para atingir o objetivo do jogo. Seu arbítrio tem sempre essa única e mesma motivação, intenção, propósito, destino. Esse é o primeiro esclarecimento que resolve o conflito entre destino e arbítrio. Destino é objetivo. Então, destino e arbítrio não são opostos, são complementares.
O segundo esclarecimento é que destino não é algo que você está destinado a FAZER, destino é algo que você está destinado a SER. E que algo é esse? Qual é seu destino? O que você está destinado a ser? Aqui está o xis da questão que resolve seu destino: você está destinado a ser você (autorrealização). Esse é o destino de todos os seres.
Autorrealização é o jogo que todos os seres do universo estão jogando agora e sempre. Todo ser é predestinado a ser o que é. Todo ser se destina a si mesmo. Todo ser se destina à realização de si. Todo ser se destina à autorrealização. O destino da Mônica é ser Mônica. O destino do Cebolinha é ser Cebolinha. O destino da Magali é ser Magali.
Claro que a Mônica sendo Mônica, fará coisas de Mônica. O fazer se desdobra do ser. Mas o destino da Mônica não é fazer algo, como por exemplo, arremessar um coelho da Terra até a Lua. O destino da Mônica é ser Mônica. No que a autorrealização da Mônica vai resultar para a Mônica, em termos de acontecimento, é o que ela vai descobrir conforme for se autorrealizando.
Uma boa maneira de pensar em autorrealização é pensar que você é uma semente de si mesmo. Semente é você potencial. Você vivendo é você sendo você, realizando seu potencial, se autorrealizando. Então, conforme você vai vivendo, você vai experimentando e descobrindo o que você é.
Você já é o fim da viagem. Você já é seu destino. Você já é você assim como uma semente já é a árvore. Só que você não sabe que tipo de árvore você é. Se você soubesse, não tinha brincadeira de descobrir. Você brinca de autorrealização para descobrir passo a passo.
É por isso que algumas tradições filosóficas dizem que você já é o que será. Você já é seu futuro porque a árvore de amanhã já está na semente de hoje. Mas a semente é árvore em potencial. Brotar e crescer é a árvore se autorrealizando. O mesmo com você em seu processo de autorrealização. Eis aí explicado o sentido da vida: ser.
Agora vou explicar algo que causa muita confusão. Você sabe que você é você e que não tem como deixar de ser você. Isso é óbvio! Então, autorrealização deve ser uma grande besteira, pois você é você, inevitavelmente.
Aí tem uma sutileza. Sim, você é você, inevitavelmente, não tem outro jeito. Mas o fato de você ser você, não significa que você ESTÁ SENDO VOCÊ. Você é SER. Viver é ESTAR. Viver é você optando entre estar sendo ou não estar sendo você. Você pode viver sendo você, mas também pode viver não sendo você. Ou seja, você pode errar seu destino e viver fora dele. Como? Vivendo outroísta.
Vou trocar a palavra "destino" por outra palavra para explicitar a relação do outroísmo com o destino. Brincar de autorrealização é como fazer uma prova sobre si mesmo. Toda prova tem gabarito. É por causa do gabarito que uma prova tem certo e errado.
Seu destino é seu gabarito. É o que é certo para você. Outroísmo é a opção errada que coloca você à prova. Por que errada? Porque quando você opta pelo outroísmo você está se obrigando a viver igual ao outro, de acordo com o gabarito do outro.
O outro tem um gabarito diferente de você (destino diferente) e vice-versa. Então, outroísmo é a opção errada. A prova disso é que não funciona, é ruim, faz você viver igual semente de abacate tentando ser laranjeira.
Seu gabarito é sua singularidade. Seu gabarito é o que faz você único, diferente dos outros. A brincadeira é a mesma: autorrealização. Mas cada um tem um gabarito impar. Meu gabarito é de Ferrari. Seu gabarito é de Magali. O gabarito da Mônica é de Mônica. O gabarito do Cebolinha é de Cebolinha. O gabarito de Jesus é de Jesus. E não funciona, por exemplo, o Cebolinha tentar ser Jesus, nem Jesus tentar ser o Cebolinha. Tentar é possível. Mas é impossível conseguir.
Tem uma cena no filme Matrix que trata do dilema do destino. É a cena da ponte. Neo está dentro de um táxi, o tempo urge, então, lhe dão um ultimato: "Ou dá ou desce!". Neo abre a porta do táxi e está prestes a sair. Trinity segura sua mão e lhe diz: "Não faça isso, Neo, você já conhece essa rua e sei que não quer mais caminhar por ela".
No final, você deve optar pela uniformidade (todos no mesmo gabarito) ou pela universalidade (cada um no seu gabarito). A cena final mostra a opção pela universalidade. Neo pega o telefone e fala algo assim para Matrix: "Eu despertei e vou seguir meu próprio gabarito, vou viver meu destino. Não sei onde meu destino vai me levar, mas eu vou e pronto! Se isso te incomoda: problema seu!".
Quando você decide viver seu destino, você não sabe para onde você está indo. Embora você saiba emocionalmente que deve ir por aqui ou por ali, você não sabe para onde seu destino vai te levar em termos de circunstâncias. Você sabe que está em autorrealização. Você sente isso porque você se sente encaixado em si. Mas você não sabe para onde o próximo passo vai te levar.
Essa é a graça da brincadeira de autorrealização humana. Quando você opta por viver seu destino, você não está optando por chegar num futuro determinado. É justamente o oposto. Você está se atirando no desconhecido. Você está se permitindo ser árvore da sua própria semente e dar seus próprios frutos, seja lá que árvore ou frutos forem. Optar por viver seu destino é uma entrega absoluta a si mesmo.
Caminhar pelo próprio destino é caminhar por um caminho que não existe, mas que você faz existir. É pisar em um chão que não tem, mas que surge debaixo do seu pé quando você pisa em si. Uniformidade é caminhar pelo conhecido. A uniformidade te mostra o chão que você deve pisar. "Olhe que chão bonito! Pise aqui!" Você pisa. "Venha ser médico, pise aqui!" Você pisa.
Caminhar pelo conhecido é mais fácil e cômodo. Você já sabe onde a rua vai dar. Viver o próprio destino é pular no desconhecido. "O que tem no fundo do desconhecido?" Pula e vê. “Não pulo não! Prefiro viver na uniformidade". É uma opção. Faz parte da brincadeira. Mas quando você decide viver sendo você, quando decide pular no desconhecido, o que acontece é que você cai no seu colo. O que tem no fundo do desconhecido é você mesmo. Mais de você. Mais autoconhecimento.
Como viver em acordo com o próprio gabarito? Vou explicar isso usando uma analogia. Imagine que você decide se dar um destino e realizá-lo. Então, você se desdobra em dois: um desdobramento de você que propõe o destino, e outro desdobramento de você que deve realizar o destino. Feito isso, um diz para o outro: "Fiat batata quente". Ou seja: "Faça-se a batata quente".
Pronto! Começou a brincadeira. Você está no quarto. Como o lugar de batata é na cozinha, você sai do quarto e vai para cozinha. Abre a geladeira. Abre a gaveta dos legumes. Pega uma batata. Abre o armário. Pega uma panela. Coloca água na panela. Coloca a batata dentro da água. Liga o fogo. Coloca a panela no fogo. Aguarda um pouco. A água começa a ferver. Pronto! Batata quente. Está consumado o destino.
Muito legal brincar de destino consciente. Você repete a brincadeira com outros destinos. Você diz para si mesmo: "Fiat sorvete". E você realiza esse destino indo na sorveteria. Você diz para si mesmo: "Fiat novela". E você realiza esse destino ligando a televisão. Você diz para si mesmo: "Fiat dentes limpos". E você realiza esse destino escovando os dentes. E assim por diante.
Como funciona a brincadeira de destino inconsciente? O começo é igual. Você se desdobra em dois: um desdobramento de você que propõe o destino, e outro desdobramento de você que deve realizar o destino. Só que, nessa nova brincadeira, um diz para o outro: "Fiat destino". Ou seja: "Faça-se o destino".
O desdobramento de você que recebe o destino, fica sem chão. Não entende nada. Como realizar um destino desconhecido? É impossível. O desdobramento de você que recebe o destino não sabe por onde começar. Então, percebendo sua angústia, o desdobramento de você que está propondo o destino, lhe diz: "Calma! Vai dar tudo certo! Confie em mim! Você vai conseguir realizar o destino mesmo não sabendo qual é. Começa, que assim que você começar, você vai entender como conseguir".
Você decide começar. Você está no quarto e decide ir para o banheiro. Quando você chega no banheiro: choque! Você sai do banheiro e volta para o quarto. O choque para. Você volta para o banheiro: choque, choque, choque. Você sai do banheiro de novo. Você vai para a cozinha. Na hora que você chega na cozinha é bom demais. A cozinha é o paraíso. Nunca você se sentiu tão bem em um lugar como você está se sentindo na cozinha. A cozinha é a felicidade!
Você abre a copeira na cozinha: choque. Você fecha a copeira. Você decide abrir a geladeira. Estar na cozinha e abrir a geladeira é o paraíso do paraíso! Daí você abre a porta do freezer dentro da geladeira: choque. Você fecha. Você pega o leite: choque. Você larga o leite. Você pega o queijo: choque. Você larga o queijo. Você abre a gaveta de legumes. Ah, que beleza! Você pega o tomate: choque. Você larga o tomate. Você pega a couve-flor: choque. Você larga a couve-flor. Você pega a batata. Que felicidade!
Na cozinha segurando uma batata é tudo de bom. Você pega um coador de café: choque. Você solta o coador de café. Você pega uma panela. Ah, panela, que alegria! Você coloca água dentro da panela. Bom demais. Você decide beber a água da panela: choque. Você decide colocar a batata dentro da água. Delícia! Muito, muito, muito bom! Eis o sentido da vida: colocar a batata dentro da panela com água. Você decide colocar a panela em cima do fogão. Sensacional. Agora sim é felicidade de verdade. Você decide ligar o fogo e esquentar a água. A batata esquenta. Nirvana e paraíso juntos! Tudo de bom.
Pronto! Batata quente. Está consumado o destino. Você realizou o que devia realizar como na primeira brincadeira, mas em absoluta ignorância. Sem saber o que estava fazendo. Apenas tentando acertar e levando choque.
A experiência humana é uma brincadeira de DESTINO INCONSCIENTE. A batata quente é você. Seu destino é: "Fiat você!". Traduzindo: "Seja você”. Só que você não diz para você o que você é. Você diz: "Começa que vai dar tudo certo! Você vai entender". É claro que você fica perdido: "Quem queu sô? Dondeu vim? Prondeu vô?". Essa brincadeira é de DESTINO INCONSCIENTE, então, você deve viver sendo você sem saber quem você é. Esse é o tamanho do desafio que você está enfrentando.
Ser humano é brincar de DESTINO INCONSCIENTE. Seu desafio a cada instante é viver sendo você sem saber quem você é. Não é nada fácil. É dificílimo. É extremo. É desafio para mestres, pois mesmo quando você leva choque, você não está descobrindo o que você é, mas o que você não é. Você abandona aquela opção e vai para outra. Mas a próxima opção pode dar choque também. Você vai realizando seu destino não por acerto, mas por erro. Você realiza seu destino por falta de opção. Você vai errando tanto que não sobra outra opção senão viver em acordo com seu destino, mesmo sem saber que destino é esse.
Finalmente o sofrimento começa a fazer sentido. Você faz uma opção e experimenta a opção escolhida. Sofrimento é quando a opção escolhida está em desacordo com seu destino. Ou seja, a função do sofrimento não é apenas causar desconforto, mas possibilitar que você aprenda com ele. Sofrimento é uma lição de autoconhecimento.
Sofrimento é caneta vermelha, é o xis de errado. Sofrimento é você se ensinando o que é certo para você através da experiência do que é errado para você. Viver é você brincando de tentativa e aprendizagem. Sua unicidade é seu destino. Sofrimento é o jeito que você tem para ficar consciente de que não está vivendo em acordo com seu destino.
Seu sistema emocional é um GPS. Quando você faz uma opção em desacordo com seu gabarito, seu sistema emocional te explica isso. Só que ao invés do seu sistema emocional te explicar isso repetindo uma frase, ele lhe diz: choque, choque, choque. Ou seja: sofrimento, sofrimento, sofrimento.
Se você não tivesse um sistema emocional para lhe ajudar a viver em acordo com seu destino, daí a brincadeira de autorrealização não seria difícil, seria impossível! Você não iria conseguir jamais viver em acordo com seu destino porque você não teria nenhuma referência sobre ele.
A brincadeira de autorrealização é difícil, mas para não ser impossível, o jeito é seguir as mensagens do GPS do destino, ou seja, as mensagens do seu sistema emocional. São dois tipos de mensagens: sofrimento e felicidade. Felicidade significa que sua opção está em acordo com seu destino. Sofrimento é o oposto. Significa que sua opção está em desacordo com seu destino.
Essa é a grande EUreka! Felicidade não é objetivo, apenas indica se você está ou não vivendo em acordo com seu objetivo, ou seja, vivendo em acordo com seu destino (ser você). Seu sistema emocional, quer esteja te enviando sofrimento, quer esteja te enviando felicidade, em ambos os casos, é um GPS que está trabalhando para que você possa viver em acordo com seu destino.
Só que GPS não dirige o carro. Esse é o problema. Por mais que seu sistema emocional lhe ajude a viver em acordo com seu destino, cabe a você decidir seguir ou não as indicações do seu sistema emocional. Seu sistema emocional é seu sistema de navegação, é o GPS do seu destino. Você só tem ele para viver de acordo com seu gabarito, assim como o cego só tem a bengala.
Ninguém além do seu sistema emocional é capaz de confirmar se você está ou não vivendo em acordo com seu destino. É impossível. Só você experimenta o sabor emocional das suas opções, então, como o outro pode saber o que é bom para você? Não pode! Por isso o outro não tem como saber do seu destino. Nem você mesmo tem acesso direto ao seu próprio destino.
Então, para viver em acordo com seu destino, você precisa de um GPS infalível, que te garanta com 100% de certeza, que está vivendo em acordo com seu destino. Esse GPS infalível é seu sistema emocional.
Quem é você para confiar em si? Quem é você para confiar em seu sentimento, sensibilidade, autoridade e juízo!? Que absurdo! Pirou? Para viver bem, você precisa do aval do Dalai Lama, do Buda, de Jesus, do Papa, do Xamă Pena Branca, do Einstein, do Stephen Hawking, da NASA, do Freud, do Jung, do Allan Kardec, do teorema de Pitágoras, do Guru da Baba Azul e, principalmente, do Elvisleno, o camelô, filho do Elvis Presley com o John Lennon, que vende relógio suíço na rua 25 de Março, em São Paulo.
Quer algo em que confiar? Confie no horóscopo, na propaganda política, no facebook, na previsão das cartomantes, nos comerciais de margarina, na novela das oito que começa às nove, nos filmes do Chuck Norris e nas revistas de fofocas. Confie em qualquer coisa. Só não cometa a insanidade de confiar em si mesmo. Jamais! Quem avisa amigo é! Confie em mim.
Quando Ringo percebeu que seu coração pulsava feito bumbo de rock, redirecionou todas as suas finanças para comprar discos. Virou um dos frequentadores mais assíduos do sebo do bairro — aquele tipo de lugar onde o pó das prateleiras faz parte da melodia das músicas. De tanto ir ao sebo, acabou arranjando um emprego lá e virando parte do inventário.
Vocação é assim: não chega como salário, vem disfarçada de troco. Ser pago para ouvir música foi o paraíso. Ringo estava sentado no colo da sua vocação. Mas o mundo tem suas próprias urgências, e a ambição — esse animal insaciável — morde até os anjos. Como tantos de nós, Ringo também trocou o que fazia sentido pelo que pagava boletos. Aceitou uma oferta de emprego que prometia o dobro do salário do sebo.
Só que, pasme, o novo emprego não era para vender carros, nem apólices de seguro ou hambúrgueres artesanais. Ringo foi parar, com uma ironia quase didática, atrás do balcão de uma loja de instrumentos musicais.
Certa tarde, em que a loja estava vazia e o relógio parecia bocejar, um vendedor chamado Paul, num gesto de puro tédio, plugou uma guitarra e começou a tocar os primeiros acordes de um rock de Chuck Berry.
Impulsionado pelo instinto, Ringo sentou-se atrás de um kit de bateria e tentou acompanhar a música. E conseguiu! Com uma facilidade assustadora, quase insolente. Brincou com o chimbal, com o bumbo, inventou viradas e preencheu os vazios do tempo com a autoridade de quem nasceu ouvindo metrônomo. As mãos sabiam, os pés sabiam, o corpo inteiro conhecia o ritmo. Tocar bateria não era novidade: era seu idioma nativo.
Quando o último prato parou de vibrar e o silêncio retornou, houve um intervalo de espanto — desses que cabem em uma vida inteira. Paul enunciou o óbvio:
— Ringo, você é baterista!
Quando a vocação chega, ela não bate à porta — arromba. Após ter se escutado tocando bateria pela primeira vez como se fosse a milésima, Ringo entendeu que poderia ganhar dinheiro fazendo qualquer coisa, mas não poderia mais alegar ignorância. Sua vocação estava ali: revelada, escancarada, escorrendo pela testa junto com o suor.
O sinal se fez presente e ficou tatuado feito cicatriz. E cicatrizes, como se sabe, não são feitas para serem devolvidas.
O coração não convence a razão de uma vez, numa bocada só, feito criança comendo bolacha. O coração come a razão pelas bordas, feito sol derretendo geleiras. O coração é irracional, mas não é burro, sabe que a razão tem dúvidas, que precisa ver para crer.
O coração faz o simples. Fica ao lado do razão feito o mais fiel dos amigos. E sendo livre, permite que a razão o prenda na coleira. A razão acredita que se tornou proprietária do coração, mas acabou de assinar o inquilinato.
A razão leva o coração para passear. Ele segue a razão até que a mão e a coleira se tornem um braço só. De repente, o coração puxa a razão também. Um pouco hoje. Outro pouco amanhã. Até a coleira mudar de nome e começar a se chamar confiança. Até que o guia troque de lugar com o guiado. Até a razão confiar mais no coração que nos próprios olhos. Até que o coração seja os olhos da razão.
Pronto! A razão está completamente convencida e rendida. O coração sempre teve, tem e terá razão.
Seu equívoco está bem explícito na sua pergunta. Você disse: "Acho que meu GPS está ME CONDUZINDO errado". Você está transferindo para o GPS a responsabilidade por dirigir o carro (conduzir). O responsável por dirigir o carro é o motorista e não o GPS. Sofrimento é só uma informação emocional, não tem arbítrio. Quem tem arbítrio é você. Então, mesmo que seu GPS lhe avise que você está fora do seu destino e deve mudar de direção, você é livre para continuar indo para o lado errado. Seu GPS não tem como evitar isso.
A prática aperfeiçoa o usuário do GPS e não o próprio, é isso?Exatamente! Seu sistema emocional funciona como funciona e isso não se altera. Quanto mais você praticar autociência, mais você se aperfeiçoa na competência de USUÁRIO do seu sistema emocional (GPS).
Como destino é ser se a única coisa que tem para fazer é fazer?Ser é a causa do seu fazer. Fazer é efeito do seu estado de ser. Quando você se permite viver sendo você, esse estado de ser gera um fazer autoísta. Quando você se proíbe viver sendo você, esse estado de ser gera um fazer outroísta.
Como mudar o sofrimento?Sofrimento não é para você mudar, é para você usar. Sofrimento é seu sistema emocional te alertando que você está vivendo em desacordo com seu destino. Use seu sofrimento para voltar a viver em acordo. Quando voltar, seu sofrimento irá sumir, mas não porque você mudou seu sofrimento, mas porque mudou a si.
Crenças equivocadas desregulam meu GPS?Não! Seu GPS é infalível e incorruptível.
Destino consciente se torna inconsciente devido os entraves no caminho?Não! Apenas é assim que a brincadeira funciona. A brincadeira de ser humano é uma brincadeira de destino inconsciente, assim como brincar de cabra-cega é uma brincadeira em que você fecha os olhos. Se você abrir os olhos na brincadeira de cabra-cega, não tem brincadeira de cabra-cega. Se você estiver consciente do seu destino, não tem brincadeira de destino inconsciente.
É o bem e o mal que determinam a existência do destino?Não determinam, deixam explicito. Seu destino é ser você (autorrealização). Bem é sinal de autorealização. Mal é sinal de autonegação.
Entendi o GPS do destino. E agora?Agora vem o último passo: render-se ao próprio destino.
Eu devo deixar a vida me levar?Que vida? Não existe vida para te levar! E mesmo que você decida viver optando pelo que os outros dizem para você optar, ainda assim, é você optando por isso, então, é você mesmo se levando.
O motorista pode ser surdo e não ouvir o GPS?Surdo não, pois é impossível deixar de experimentar emoções, mas o motorista pode estar numa conversa de surdo-mudo com o GPS. O sistema emocional fala uma coisa e o motorista entende outra. Isso é o que mais acontece. O motivo disso acontecer é falta de autoconhecimento psicológico. Para adquirir autoconhecimento psicológico e entender as mensagens do GPS, é preciso estudar a natureza das emoções. É preciso entender o que é raiva e para que serve, o que é ódio e para que serve, o que é amor e para que serve, o que é medo e para que serve, etc.
Por que fazer não importa para realizar o destino?Fazer é apenas significante. Você faz uma casa. Objetivamente falando, é só isso que você fez, uma casa. O que esse fazer significa não está no fazer em si, está na sua relação com esse fazer. Fazer uma casa pode estar EM acordo ou SEM acordo com sua unicidade. Se fazer a casa está em acordo, então, representa você realizando seu destino. Outra coisa, é que fazer é desdobramento do ser. Fazer é você (ser) se manifestando. Então, quando você está sendo você, seu fazer é você realizando seu destino, seja que fazer for. Você não precisa fazer algo para o qual está destinado, basta você ser você e seu fazer, seja qual for, será você realizando seu destino: ser você.
Por que não sei qual é minha vocação?Porque é impossível saber sabendo, só é possível saber sentindo. Vocação significa voz, chamado. Sua vocação é ser você. Seguir sua vocação é seguir a voz interior que chama você para ser você. Você foi ensinado a fazer o oposto. Você acorda deprimido, se sentindo péssimo, mas quando alguém te pergunta como você está, você responde: "está tudo bem". Seus educadores não lhe educaram para seguir seu coração, eles lhe educaram para se encaixar no gabarito da normalidade. O resultado disso, é que você perdeu a habilidade de seguir seu coração. Vocação não se encontra, vocação se vive. E para viver sua vocação, o único jeito é fazendo o racional se render ao irracional (sentimento).
Qual é a utilidade de planejar o futuro?Planejar o futuro é fundamental para você realizar uma realidade. Você não precisa de GPS para realizar um futuro conhecido, seu GPS é uma ferramenta para você brincar de realizar um futuro desconhecido (autorrealização). Se o seu planejamento de estar participando dessa conversa não corresponder com seu destino, quanto mais você realiza esse plano mais você se afasta de si.
Saber o que quero é importante para usar bem o GPS?Você quer ser você. Você quer autorrealização. Então, não é você que explica ao seu GPS o que você quer, é seu GPS que explica para você. Se você soubesse o que você quer, brincar de autorrealização não seria uma brincadeira de destino inconsciente.
Se tenho um destino, então, tem um script?Script é a ideia de ações que você está destinado a fazer. Script é um equívoco. Você não tem um script de ações a serem feitas, você é um ser destinado a autorrealização. Destino é ser. Fazer é desdobramento do ser.