A serpente do Gênesis não se limitou a duas vítimas. Após fraturar a inocência de Adão e Eva, submergiu no poço que latejava no coração do Éden, dissolvendo a própria carne e veneno na fonte que alimentava o mundo.
Toda a água ficou envenenada.
Sem perceberem, os habitantes — bichos e plantas — começaram a beber o líquido contaminado. Mas não morriam: enlouqueciam!
Irrompeu uma epidemia ontológica.
O urubu dilacerava a garganta mimetizando o miado; a roseira, em espasmos de agonia vegetal, abortava tentativas de parir mangas; o gato estilhaçava a natureza em latidos fúteis; a vaca, estática sob o abismo celeste, ficava tonta pelo desejo impossível de voar; a grama insurgia-se contra o próprio verde, implorando pelo azul; peixes saltavam para o sufoco dos galhos altos; aranhas fustigavam os fios tecendo um mel estéril; o camelo, desafiando a física e a lógica, esmagava a própria carne na obsessão de passar pelo buraco de uma agulha.
A criação inteira adoeceu da mais perniciosa das loucuras: ser qualquer outra coisa, exceto o que era.
Havia, contudo, no epicentro desse hospício, uma anomalia. Um ser singular, cujo nome coincidia com o pronome: Você.
Você habitava o território soberano de si e bebia exclusivamente da própria fonte.
Mas os habitantes do Éden, cuja sanidade havia sido revogada pela intoxicação, não toleraram aquela doentia sanidade. Ao testemunharem a coerência de seus passos e a nitidez de seu olhar, aquelas tresloucadas criaturas diagnosticaram essa lucidez como a pior das demências. Concluíram, por unanimidade, que Você estava louco e que deveria ser eliminado.
Encurralado pela bizarrice, para sobreviver, Você caminhou até o poço do jardim e bebeu da água envenenada.
E foi assim que Você se esqueceu de si e começou a viver na loucura de tentar ser Outro.