Santo Antão e o Diabo vão almoçar juntos. O restaurante é um purgatório onde o tempo não passa, escorre pelos azulejos junto com a gordura hidrogenada. O garçom, um anjo caído, deposita entre eles uma travessa com dois bifes — um anatomicamente mais generoso que o outro.
O Diabo não hesita. Sem qualquer freio moral, estica o tridente e espeta o pedaço maior, puxando-o para o próprio prato com a naturalidade de quem cumpre as leis de Deus.
Santo Antão fecha a cara e reage:
— Você é incorrigível. Sempre egoísta!
O Diabo, cansado de comer o pão que ele mesmo amassou, e perito em lidar com a santidade humana, ergue os olhos e pergunta:
— Por que o julgamento, Antão?
— Você pegou o bife maior sem a menor cerimônia — acusa o santo.
O Diabo esboça um sorriso fino, quase pedagógico:
— Cerimônia não é coisa de diabo, Antão, é coisa de santo.
Depois, com uma humildade de deixar Francisco de Assis envergonhado, devolve o bife maior à travessa e faz um gesto magnânimo:
— Por favor, faça as honras. Pegue você primeiro.
Santo Antão faz o sinal da cruz, arruma a auréola luminosa sobre a cabeça e pega o bife menor.
O Diabo volta a pegar o bife maior e comenta:
— Olhe para os nossos pratos, meu amigo. Estou com o bife maior, exatamente como decidi desde o início; você continua com o bife menor, exatamente como sua vaidade exigia. Cadê meu pecado, Antão? Por que me chamou de egoísta?
Moral da história:
Santo Antão também queria pegar o bife maior, apenas fingiu santidade. Você faz o mesmo com tudo na vida, também quer o que é melhor para você. Claro! E não existe pecado nisso, pois é impossível não ser egoísta.
Altruísmo e abnegação são farsas. Você pode ser um egoísta franco, responsável, aberto ao diálogo e disposto a encontrar meios para conciliar os desejos. Ou você pode ser um egoísta hipócrita, vitimista e manipulador, que reclama e condena os outros por serem o que você é, mas finge que não, como Santo Antão.
São duas opções sobre a mesa. Dois jeitos de viver.
Qual você escolhe?