Albert Einstein, o professor mais excêntrico e adorado do campus, entra na sala de aula. Seu cabelo, tão indomável como seu gênio, parece ter travado uma guerra contra a lei da gravidade. Há, contudo, algo diferente em seu ânimo. Uma paz incomum deu lugar a sua habitual energia frenética. Com a precisão de um ritual familiar, ele se dirige à caixa de madeira gasta que guarda o giz. Pega um pedaço e, com um movimento lento, volta-se para a lousa manchada por anos de equações e teorias.
A ponta do giz toca a superfície áspera. Inicia o processo de escrita. A primeira letra — um "M" maiúsculo — surge na lousa. O burburinho usual da turma — a conversa, a curiosidade — se impõe. Os alunos observam, silenciosos, tentando decifrar o que o seu excêntrico mentor estaria prestes a lhes comunicar de forma tão cerimoniosa.
Linha após linha, a frase se desenha. Ouve-se apenas o arrastar do giz. A mensagem branca na lousa verde é tão inesperada que paralisa o pensamento. Todos os olhos, antes dispersos e sonolentos, estão fixos na caligrafia firme do professor. Nenhuma voz se levanta, mas a sala vibra com uma pergunta não dita, um coro silencioso de perplexidade: "Por que o professor Albert está dizendo isso? O que de tão grave pode ter acontecido para levá-lo a tal declaração pública?"
Albert termina a escrita e coloca o giz de volta na caixa de madeira. Na lousa, em letras grandes e inequívocas, está escrito:
"Me desculpem, eu errei!"
O minuto que se segue é uma eternidade. O professor Albert Einstein, o farol de intelecto inquestionável, o homem cujas teorias eram tratadas como verdades absolutas, acabara de admitir um erro de forma pública e solene. A gravidade do momento é palpável. Finalmente, a estagnação é quebrada. Um aluno na primeira fila levanta a mão hesitante, mas compelido pela necessidade de entendimento.
— O que aconteceu, professor?
Albert apoia a mão na mesa e diz aos alunos:
— Eu errei! Todos nossos antecessores erraram também. E não há vergonha nenhuma nisso, absolutamente nenhuma, pois errar é o caminho da ciência. O conhecimento científico avança através do reconhecimento do erro. Chegou a hora de avançarmos, e para isso, um erro fundamental da ciência, que tem nos aprisionado por séculos, precisa ser corrigido de uma vez por todas.
Assim como todos vocês estão acreditando agora, e como a comunidade científica global ainda crê, eu também acreditei piamente, durante toda a minha vida, no materialismo. Eu não sabia de fato o que era matéria — ninguém sabe, apenas operamos com o conceito. Sabia do conceito, dominava as equações da física, e sabia, claro, que essas equações funcionavam perfeitamente para explicar muita coisa e, principalmente, para produzir tecnologia.
Albert faz uma pausa.
— Só que, para mim, "funciona" não é suficiente. Sou alérgico a dogmas, mesmo que sejam dogmas científicos. Sempre senti que faltava uma peça, algo que tornasse o quadro completo, algo que não fosse uma mera descrição matemática.
Albert leva o olhar para o horizonte invisível, como se revivesse o momento de sua epifania.
— Então, ontem, de forma brutal e inegável, percebi algo que ignorei completamente durante toda a minha vida, algo que estava escancarado na minha frente, em cada equação, em cada experimento, mas que o dogma materialista me impedia de ver.
— O que aconteceu, professor? — pergunta um aluno.
Albert conta o ocorrido aos alunos:
— Eu estava no laboratório de física da Suíça, fazendo um experimento com o acelerador de partículas. Tubos de aço serpenteando por quilômetros, repletos de magnetos supercondutores. O chefe do laboratório ligou o acelerador. Um zumbido grave inundou o ambiente e os átomos começaram a se deslocar pelo cano de aço rumo à colisão. Era a busca pela partícula fundamental, a essência última da matéria. A contagem regressiva ecoava na sala, medida em frações de segundo. Sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... Kabuuuuum!
— O laboratório explodiu? Houve algum acidente? — pergunta um aluno.
— O laboratório não! — responde Albert — O que explodiu foi a minha cabeça! Naquele instante exato da colisão, entendi que o materialismo é um equívoco. É um equívoco muito convincente e persistente, mas é um equívoco.
Albert faz uma pausa.
— Porém, quando olhei ao meu redor, vi meus colegas cientistas comemorando efusivamente o resultado do experimento. Eles estavam fascinados com os dados coletados nos detectores. A análise das trilhas de energia e o momento angular levou-os à conclusão que a matéria era feita de sub-partículas ainda menores do que esperavam, que prontamente batizaram de pósitrons.
— Sensacional, não, professor!? — exclama um aluno.
— Que nada! Pósitron é o mesmo equívoco de sempre, validado por novos gráficos e estatísticas. Por isso, quando vi a comemoração deles, a euforia, comecei a dar gargalhadas incontroláveis.
Albert faz outra pausa.
— Era uma risada que vinha da profunda ironia da situação. Eles me perguntaram por que estava rindo tanto. Tentei explicar, mas a conclusão imediata e unânime foi que eu havia ficado louco. Propus um experimento de percepção, algo simples. Foi aí que eles tiveram a convicção definitiva de que eu havia enlouquecido. A ciência, afinal, não tolera verdades que não venham de um tubo de ensaio.
— Por que riu dos pósitrons, professor? — pergunta um aluno.
— Por que nós, físicos, somos cegos, em um quarto escuro, procurando um gato preto que não está lá! — diz Albert rindo novamente.
— Por que não, professor? Jamais vamos descobrir a partícula fundamental? — pergunta outro aluno.
— Porque não tem fora! — diz Albert, com a voz carregada de uma convicção que ia além das equações.
Albert faz uma pausa para observar a reação dos alunos.
— Tudo isso que vocês estão vendo, aqui agora e sempre, essa sala de aula, a cidade, o planeta, o universo inteiro, não está do lado de fora. A suposição de externalidade é um equívoco.
Um silêncio tenso paira na sala, enquanto os alunos tentam processar a implicação radical de suas palavras. O universo, tal como o conheciam, estava sendo virado do avesso.
— Como não está do lado de fora, professor! Onde está então? — pergunta outro aluno, olhando para os livros na estante e buscando um anteparo onde apoiar a realidade.
Albert dirige-se aos alunos, pronto para compartilhar não apenas uma descoberta científica, mas um episódio pessoal e significativo da sua vida. Os olhos azuis e profundos se perdem em alguma memória distante. Ele começa seu testemunho:
— Passei minha vida inteira tentando entender a natureza da realidade. Quando era criança, na quietude da noite, me deitava na grama do quintal de casa e ficava olhando para cima. Ficava maravilhado com tudo que via. Infinitas estrelas brilhando feito diamantes no espaço escuro, cada uma contando um pedacinho da história do universo.
Um sorriso melancólico toca seus lábios, ele continua:
— Meu corpo todo tremia, não de frio, mas de avassalador sentimento de pequenez. Era o infinitamente pequeno olhando para o infinitamente grande. Como pode haver tanto espaço para um pequenino ponto?
Albert endireita o corpo, bebe um gole de água e continua:
— Ontem, durante a execução do experimento no acelerador de partículas, lembrei disso e tive uma epifania que me fez enxergar o ponto exato onde está o erro do materialismo.
Um aluno, fascinado e impaciente, interrompeu o professor:
— Grato por compartilhar esse episódio da sua história, professor. E se você, que é o maior físico de nosso tempo, reconhece um erro de tamanha magnitude, a curiosidade nos consome. Por favor, nos diga, qual é o ponto onde o materialismo está errado?
Albert anda pela sala ajeitando os óculos de aro grosso.
— O ponto é que não tem ponto! — diz Albert, com um sorriso que parece desafiar todas as leis da física que ele mesmo ajudou a estabelecer.
— Não tem ponto? — exclamou um aluno no fundo, com uma incredulidade quase cômica.
— Tem, mas não tem! — continuou Albert — Esse é o ponto onde reside o equívoco do materialismo. Tem o ponto, só que o ponto não é um ponto no espaço, igual expliquei na teoria da relatividade, é outro tipo de ponto. Tão óbvio, tão ridiculamente evidente, que todos nós, eu incluso, ignoramos por décadas!
Um aluno, com a testa franzida, faz um pedido a Albert:
— Por favor, professor, repete novamente!
Albert ri amistosamente.
— Na infância, quando me deitava no chão e ficava olhando as estrelas no espaço, acreditava que era um ponto contido no espaço, tal como todos os corpos celestes.
— É assim mesmo, professor, não? — diz um aluno, expressando a convicção de todos ali.
— Ah, é o senso comum, não é? — responde Albert — Parece que é assim. É quase impossível perceber que não é assim, mas eu lhes digo, com a convicção de quem finalmente acordou de um sono dogmático: não é assim.
— Como é então, professor? Qual é esse ponto que tem, mas não tem? — disse um aluno com a voz cheia de expectativa.
Albert dirige-se aos alunos:
— Por mais incrível que possa parecer — começa ele, gesticulando com as mãos como se estivesse moldando o espaço — todas as estrelas que vemos, todos os aglomerados, as supernovas, as galáxias que se perdem no infinito... sim, toda a vastidão do universo, com seus bilhões de anos-luz de diâmetro, está contida dentro de um ponto.
Um aluno, hesitando entre a admiração e a incredulidade, ergue a mão e diz:
— Me desculpe, professor, mas essa afirmação contradiz tudo que aprendemos sobre geometria e o cosmos. Por definição, um ponto é um ente geométrico adimensional. Não possui altura, nem largura, nem comprimento. Como, então, toda a vastidão do universo pode estar contida dentro de algo que, por definição, é adimensional?
Albert Einstein, cujo nome é sinônimo de genialidade, apenas sorri com a leveza de quem já esperava a pergunta.
— Ah, meu jovem! Uma excelente observação! Uma mente que questiona é uma mente que se recusa a aceitar dogmas, e isso me agrada profundamente — responde Albert.
Albert faz uma pausa. Para que possam não apenas entender, mas comprovar, vou lhes propor um experimento tal como propus ontem aos meus colegas cientistas no laboratório. Que tal? Quem aceitar levanta a mão.
Sem hesitar, um por um, todos os alunos levantam a mão.
— Vamos sair da sala e ir até o campo de futebol — diz Albert.
Os alunos acham estranho o convite para deixar o ambiente formal da sala de aula, mas se levantam e começam a sair. A curiosidade supera o protocolo. Ao chegarem ao gramado, a noite se revela agradável.
— Por favor, deitem-se de costas no chão, olhando para cima — Albert os instrui, sua voz é um sussurro em harmonia com a quietude da noite.
O convite é inusitado, quase infantil, mas eles o seguem sem hesitar. Os alunos se deitam, tal como Albert, de costas para o chão. O tapete de grama amortece o peso da cabeça e do corpo, e o perfume terroso do solo os rodeia. Naquela posição, despojados de suas mesas e livros, o mundo ao redor se dissolve, e resta apenas a imensidão acima. O olhar, livre, atravessa o espaço escuro, tocando as estrelas, uma por uma. É uma experiência de profunda contemplação.
— Estão vendo as estrelas? — pergunta o professor Albert, quebrando o silêncio com uma voz que parecia vir do próprio universo.
— Sim, professor, estamos — respondem os alunos.
— O que são e onde estão? — pergunta Albert.
— São corpos celestes no espaço — respondem os alunos, repetindo a lição básica da cosmologia.
— Eis o erro do materialismo! Tudo que estão vendo não está contido no espaço, está contido em um ponto.
Um dos alunos, mais audacioso e cético, contesta:
— Você já falou isso, professor, e não faz sentido. Por definição, um ponto é um ente geométrico adimensional (sem altura, largura ou comprimento). Pergunto novamente, e creio que pergunto em nome de todos: como pode toda a vastidão do universo estar contida em um ponto adimensional?
— É isso que vocês estão prestes a descobrir — responde Albert — O erro do materialismo não é um erro de física, nem de matemática, é um erro de fundamento científico. Vamos prosseguir no experimento e isso ficará claro como a luz das estrelas.
Não pensem!
Albert, teimosamente, e para desgosto dos alunos, repete o mesmo questionamento:
— Estão vendo as estrelas? — pergunta ele novamente.
— Sim, professor, estamos — respondem os alunos, já com um leve tom de impaciência.
— O que são e onde estão? — pergunta Albert.
— Já respondemos, professor, são corpos celestes no espaço — diz um dos alunos, impaciente, mas com respeito.
— Eis o erro do materialismo! — diz Albert, com a mesma ênfase de antes. — Tudo que estão vendo não está contido no espaço, está contido em um ponto.
Um aluno replica:
— Me desculpe mais uma vez, professor, mas desse jeito vamos passar a noite inteira rodando em círculos. Você fazendo a mesma pergunta e a gente dando a mesma resposta.
Albert percebe que já instigou suficientemente a inteligência dos seus alunos e chegou a hora de revelar o equívoco.
— Permaneçam observando as estrelas — diz Albert — Vou explicar como toda a vastidão do universo está contida dentro de um ponto. Minha explicação, contudo, não será lógica, será científica. Vou apontar para o ponto. Não pensem a respeito do que vou dizer, apenas olhem para o ponto que estarei apontando e fiquem nele.
Albert faz uma pausa.
— Estão prontos para dar fim ao erro do materialismo?
— Sim, professor, estamos! — respondem os alunos, com grande expectativa.
Albert, com dicção clara e firme, dá início ao esclarecimento:
— Toda a vastidão do universo está contida no seu ponto de vista.
A afirmação, digna de um golaço, ecoa pelo campo de futebol em um silêncio mais eloquente que qualquer grito de torcida.
— Por favor, não pensem a respeito disso — diz Albert, tentando manter os alunos no mais absoluto empirismo — apenas continuem observando que é isso. Toda essa imensidão que vocês estão vendo está contida no seu ponto de vista. Percebam essa obviedade!
Albert faz uma pausa.
— Contudo, nesse exato momento, o pensamento em vocês está dizendo que não, que as estrelas estão contidas no espaço.
Surgem algumas risadas de concordância, um reconhecimento coletivo da lógica materialista se rebelando contra a afirmação de Albert.
— Sem o seu ponto de vista — continua Albert — as estrelas não têm onde estar. O que o pensamento não vê, e jamais verá, pois é incapaz de ver, só é capaz de pensar sobre o visto, é que o espaço não é o espaço (externo e imaterial), o espaço é seu ponto de vista (imanente). Tudo que você está vendo está dentro do seu ponto de vista.
Albert fica em silêncio, deixando a observação fazer o trabalho de conscientização e retirada do equívoco.
— O erro do materialismo é o espaço! — diz Albert — Não existe espaço como uma entidade externa e imaterial. A física, erroneamente, chama a consciência de espaço, e com isso, inverte a noção de existência e retira a consciência da ciência, o que, de fato é impossível e contraditório, pois ciência é, em essência, ficar consciente. Como ficar consciente do que quer que seja sem consciência?
A goleada do experimento de Albert sobre o materialismo é maior que o universo. Mas o campo de futebol e a torcida de alunos permanecem em silêncio, absorvendo a magnitude e simplicidade do experimento. Albert continua narrando o jogo:
— Cada um de vocês, olhe para o próprio corpo. Braços, pernas, troncos. Se quiser, pode passar um bisturi pela barriga e olhar para os órgãos. Pode abrir o crânio e observar cada dobra do cérebro. Ainda assim, note que seu corpo também não está contido no espaço, que também está dentro do seu ponto de vista.
Albert faz mais uma pausa.
— Agora, se perguntem: se tudo que estou vendo, meu corpo, o campo, as estrelas, está dentro do meu ponto de vista, onde está meu ponto de vista?
Albert faz outra pausa.
— Vocês não precisam responder, apenas permaneçam conscientes do ponto de vista, vou responder por vocês: sou eu! A única coisa que existe não é uma coisa. Eu não sou um ponto no espaço, sou o espaço. Eu não sou só humano, sou um ser humano. Eu não nasci, nem vou morrer, eu existo. Não estou contido na realidade, a realidade acontece em mim.