Começou como coisa de nenê.
Uma facilidade moderna.
O bebê estava com fome? Bi-bi.
Queria colo? Fon-fom.
Os pais agradeceram a praticidade das buzinas.
Ninguém imaginava que ali, entre um chocalho e uma mamadeira, estava sendo assinado o fim de todas as línguas.
Logo o negócio escalou.
Apareceram versões para crianças maiores.
Depois para idosos.
Depois as versões executivas, em titânio escovado, para reuniões de diretoria.
Por fim, para qualquer pessoa que descobrisse que apertar uma buzina era mais fácil do que falar.
E, num piscar de olhos, abrir a boca para articular uma vogal tornou-se algo tão cafona quanto usar pochete ou escrever cartas à mão.
Falar virou coisa de dinossauro.
No começo, era um charme.
Um toque para dar bom dia, outro para agradecer, dois para pedir licença, coisa fina. Parecia apenas uma novidade inofensiva.
Mas novidades crescem.
Ninguém se contentou com o básico.
Buzinar virou vício.
As conversas viraram brigas de trânsito. As interações sociais viraram um engarrafamento na Marginal Pinheiros. Um buzinava "estou certo", o outro retrucava com "estou mais", e o assunto morria atropelado pelo som de caminhão de lixo dando ré.
A lógica? Esquece. O que mandava era a potência.
O volume tomou o lugar dos argumentos. A verdade virou uma questão de decibéis. Foi decretada a democracia do tímpano estourado.
As vitrines se encheram de nomes pomposos. Buzinas que prometiam transformar qualquer um em autoridade máxima.
Mega Vox — Fale mais alto que qualquer argumento.
Imperial X — Estar certo não basta. É preciso ser ouvido.
Absoluta — O silêncio é para os derrotados.
Os lançamentos provocavam filas que dobravam quarteirões.
O espírito natalino foi substituído pela obsessão por decibéis.
Crianças deixaram de pedir brinquedos.
Adultos deixaram de pedir relógios.
Idosos deixaram de pedir chinelos.
Até o Papai Noel abandonou o trenó e começou a voar de trio-elétrico.
Durante algum tempo, aquilo pareceu resolver o problema.
Mas problemas também crescem.
Logo todos possuíam buzinas igualmente poderosas.
E a disputa recomeçou.
As empresas, sempre espertas, desenvolveram buzinas que faziam o corpo tremer, que causavam vertigem, e algumas que prometiam até dor física em qualquer um que ousasse discordar.
Os argumentos ficaram menores. As buzinas, maiores.
O cotidiano virou um engarrafamento existencial.
Um pai buzinava para o filho comer o jiló; o filho respondia com uma frequência que fazia a dentadura do velho vibrar.
Um vizinho buzinava por causa de uma festa. O outro respondia com uma buzina mais alta que pedia silêncio.
O "eu te amo" virou um som de navio petroleiro, e as brigas de casal pareciam o teste de sirene de usina nuclear.
As campanhas eleitorais deixaram de apresentar propostas. Vencia o candidato cuja buzina fosse capaz de causar labirintite nos adversários.
A vida virou um inferno sonoro.
As pessoas passaram a dormir em quartos com isolamento acústico. Os hospitais dobraram a espessura das janelas. Os arquitetos passaram a vender apartamentos pelo índice de isolamento, não pela vista.
Ninguém mais via passarinho, nem ouvia cigarra.
Quando lançaram a "Titan Prime", capaz de atingir cento e cinquenta decibéis, o negócio degringolou.
O governo tentou estabelecer limites.
As campanhas diziam:
— Buzine com responsabilidade.
Claro que ninguém ouviu a propaganda.
Os cientistas berraram — literalmente — avisando sobre a perda irreversível da audição coletiva.
Ninguém ouviu também.
O clímax veio na virada do ano.
A humanidade, entupida de espumante, decidiu celebrar da única forma que sabia. À meia-noite, bilhões de buzinas "Titan Prime" soaram em uníssono. Foi um estrondo magnífico, absoluto, uma nota única que abraçou o planeta.
Foi também a última nota escutada.
Ficaram todos surdos.