Já reparou que há palavra para tudo o que existe e até para o que não existe — como no caso de “nada”? Por que isso? Para que tanto nome? Simples: porque, sem palavras, não há comunicação. Esse é o resumo da criação do termo “outroísmo”. Mas, antes de explicar o que ele significa, vamos entender o superpoder que existe por trás do ato de dar nome aos bois.
Pense comigo: as palavras criam a realidade ou a realidade existe independentemente delas? Quem nasceu primeiro, o mundo ou o dicionário? Com certeza, a realidade existe antes das palavras que a explicam. A realidade vem primeiro; o dicionário surge depois.
Mas algo interessante acontece quando as palavras dizem respeito a coisas que não são físicas. Quando se nomeia uma experiência abstrata — o calor, por exemplo —, cria-se um conceito. Como o conceito, por meio da nomeação e da definição, confere concretude ao abstrato, tem-se a falsa impressão de que ele cria a própria experiência.
Quer um exemplo? Desde que o mundo é mundo, quando uma maçã se solta da macieira, vai direto para o chão. As maçãs sempre caíram. Mas aí veio um homem chamado Isaac Newton, olhou para aquilo, coçou a cabeça e disse: "Vou chamar isso de gravidade". A força da gravidade já era uma realidade desde sempre, mas, depois que Newton lhe deu um nome, ficou bem mais fácil conversar sobre o assunto.
Mais um exemplo: a febre. O corpo humano sempre se aqueceu para combater infecções. Nenhuma novidade nisso. O sintoma existia antes da medicina. Alguém foi lá, batizou-o de "febre" e pronto: facilitou a vida de todos na hora de pedir um remédio.
Dar nome aos bois e criar conceitos é o feijão com arroz da ciência. A 1ficina é uma escola de autociência. Então, nos primeiros livros que escrevi, precisei apontar para certos aspectos da experiência humana para os quais ainda não havia termos no dicionário. Como não existiam, tive que inventá-los.
"Outroísmo" é um desses termos. Mas essa não foi minha primeira opção. A primeira foi “outrocentrismo”. Usei essa palavra durante algum tempo, mas logo a substituí por “outroísmo”, por ser menor e traçar um paralelo com "egoísmo". Em suma: o neologismo é meu, mas o comportamento ao qual ele se refere pertence à própria natureza humana.
Você passou a vida inteira ouvindo que ser egoísta é o seu maior defeito, não foi? Pois vim aqui para lhe dar um choque de realidade e libertá-lo dessa culpa equivocada de uma vez por todas. A verdade nua e crua é que egoísmo não é problema. O problema é acreditar que o egoísmo é um problema.
Deixe-me explicar uma coisa simples: você é egoísta. E sabe o que mais? Não há a menor escapatória. Egoísmo é inevitável. Nem você, nem eu, nem o seu cachorro, nem a samambaia, nem a cadeira, nem as paredes da sua sala de jantar conseguem deixar de ser egoístas. Egoísmo é natural e universal. Todo ser é egoísta por natureza.
O que é o egoísmo se tirarmos o peso do julgamento? É simplesmente o ato de cuidar de si. O sol cuida de si. A samambaia cuida de si. A abelha cuida de si. A célula cuida de si. Todos os seres do universo são egoístas, porque o universo só sabe cuidar de si e só se importa consigo. O universo é o egoísmo absoluto. Todos os seres são o universo, então, o egoísmo de cada ser é o egoísmo universal.
Quando você tenta não ser egoísta, adivinha? Está apenas sendo egoísta nessa tentativa. É um beco sem saída. Não há como fugir da inevitabilidade, da naturalidade e da universalidade do egoísmo.
Só que, por causa do significado pejorativo associado à palavra, o egoísmo recebe uma culpa que não lhe pertence. Isso não resolve nada; apenas cria um problemão onde nunca existiu nenhum. Foi por isso que inventei a palavra “outroísmo”: para resolver um problema que não existe de fato, mas apenas na cabeça de quem acredita que o egoísmo seja um problema.
Santo Antão e o Diabo vão almoçar juntos. O restaurante é um purgatório onde o tempo não passa, escorre pelos azulejos junto com a gordura hidrogenada. O garçom, um anjo caído, deposita entre eles uma travessa com dois bifes — um anatomicamente mais generoso que o outro.
O Diabo não hesita. Sem qualquer freio moral, estica o tridente e espeta o pedaço maior, puxando-o para o próprio prato com a naturalidade de quem cumpre as leis de Deus.
Santo Antão fecha a cara e reage:
— Você é incorrigível. Sempre egoísta!
O Diabo, cansado de comer o pão que ele mesmo amassou, e perito em lidar com a santidade humana, ergue os olhos e pergunta:
— Por que o julgamento, Antão?
— Você pegou o bife maior sem a menor cerimônia — acusa o santo.
O Diabo esboça um sorriso fino, quase pedagógico:
— Cerimônia não é coisa de diabo, Antão, é coisa de santo.
Depois, com uma humildade de deixar Francisco de Assis envergonhado, devolve o bife maior à travessa e faz um gesto magnânimo:
— Por favor, faça as honras. Pegue você primeiro.
Santo Antão faz o sinal da cruz, arruma a auréola luminosa sobre a cabeça e pega o bife menor.
O Diabo volta a pegar o bife maior e comenta:
— Olhe para os nossos pratos, meu amigo. Estou com o bife maior, exatamente como decidi desde o início; você continua com o bife menor, exatamente como sua vaidade exigia. Cadê meu pecado, Antão? Por que me chamou de egoísta?
Moral da história:
Santo Antão também queria pegar o bife maior, apenas fingiu santidade. Você faz o mesmo com tudo na vida, também quer o que é melhor para você. Claro! E não existe pecado nisso, pois é impossível não ser egoísta.
Altruísmo e abnegação são farsas. Você pode ser um egoísta franco, responsável, aberto ao diálogo e disposto a encontrar meios para conciliar os desejos. Ou você pode ser um egoísta hipócrita, vitimista e manipulador, que reclama e condena os outros por serem o que você é, mas finge que não, como Santo Antão.
São duas opções sobre a mesa. Dois jeitos de viver.
Qual você escolhe?
As palavras "ego” e “egoísmo" são tão apedrejadas pela cultura religiosa e espiritualista que se tornaram sinônimo de demônio. No início dos trabalhos da 1ficina, quando explicava que egoísmo é natural, o repúdio vinha na velocidade da luz: “Você é uma pessoa esclarecida, como pode defender o egoísmo? Ficou maluco?”. Essa trava cultural tornava quase impossível aprofundar qualquer conversa sobre autoconhecimento.
Para entender o tamanho deste mal-entendido, pense na sua respiração. Quando você puxa o ar, você não está sendo generoso e dividindo o oxigênio com o vizinho; você está garantindo a sua sobrevivência. Isso é egoísmo: cuidar de si.
Em algumas tradições, o demônio recebe o nome de egoísmo; em outras, de desejo. Mas egoísmo e desejo são sinônimos. Egoísmo é desejar. Você quer o seu próprio bem, o tempo todo. Isso é natural, universal e inevitável. Não é possível deixar de desejar, porque você é desejo. Sua natureza existencial é pulsante, desejante.
Egoísmo não é prejudicial; é benéfico, tanto para você como para os outros. uando você cuida de si, beneficia a si mesmo por se manter bem cuidado, e alivia todos os outros, que não precisam carregar o fardo de viver cuidando de você.
Egoísmo é desejo e desejo é energia. Sem egoísmo o universo seria como um parque de diversões sem eletricidade, completamente inerte. Egoísmo é a vitalidade que anima tudo no universo. No entanto, por pura herança cultural, a palavra gera repulsa — e essa barreira semântica representava metade do meu problema para conduzir os alunos pelo caminho do autoconhecimento.
A palavra “egoísmo”, no sentido de desejo, descreve um bem. Entretanto, no campo do comportamento, o mesmo termo passa a designar um mal: a imposição — o ato de alguém tentar tornar absoluta a própria vontade, colocando-a acima da vontade de todos os outros.
Este é o grande nó semântico da palavra “egoísmo”: um único termo que abriga dois significados opostos. Eu precisava desatar esse nó antes de qualquer coisa; só assim seria possível esclarecer a causa do mal viver.
Mas como separar duas ideias tão distintas que colaram na mesma palavra? A solução que encontrei foi cunhar dois novos termos:
Outroísmo: para designar o mau uso do egoísmo — aquele que gera mal viver.
Autoísmo: para apontar o bom uso do egoísmo — o tipo de uso que gera bem viver.
Uma vez separados esses dois jeitos de lidar com o egoísmo, deixei de utilizar a palavra “egoísmo” e passei a utilizar apenas a palavra “desejo”. É por isso que, ao longo de toda a literatura psicológica da 1ficina, você nunca encontrará o termo “egoísmo”, só encontra a palavra “desejo”.
Então existe egoísmo do bem e egoísmo do mal?
Não. Bem e mal dizem respeito à forma como você lida com o desejo, e não à natureza do desejo. O egoísmo é a gasolina do carro; você é o motorista. É você quem conduz o seu egoísmo, e não o contrário.
Pense na energia elétrica. Ela não é boa nem má; é apenas energia. Você pode usá-la para ligar o chuveiro e tomar um banho quente, mas também pode utilizá-la para eletrocutar alguém — ou a si mesmo. A eletricidade não escolhe, não discrimina, nem se recusa a servir a qualquer um desses fins. Ela sequer sabe para que está sendo usada. A eletricidade é apenas aquilo que está sendo utilizado, não é o usuário.
O mesmo acontece com o desejo. Desejo é eletricidade, impulso, vontade. Seu desejo é sua natureza pulsante, manifestante. A forma como você realiza seu desejo, porém, é responsabilidade sua, porque você é a consciência que sabe, avalia e decide. Desejo não tem consciência, não sabe o que é bem e mal, certo e errado, melhor e pior. Por isso, não existe egoísmo do mal — o que existe é o egoísmo mal usado.
Há várias maneiras de definir o outroísmo, dependendo do aspecto do autoconhecimento em que ele se insere: existencial, psicológico ou relacional. Neste livro, vamos usar a seguinte definição:
Outroísmo é um jeito de viver.
Você está sempre vivendo. Na verdade, viver é a única coisa que você faz. Isso passa despercebido porque você fragmenta o verbo viver em muitos outros: acordar, andar, estudar, trabalhar, namorar, almoçar, descansar, ir, voltar. No entanto, todos esses verbos se resumem a um só: viver.
Outroísmo é uma das maneiras possíveis de realizar essa tarefa única e inevitável: viver. Mas não é a única. Existe outra.
Você tem duas opções:
Você pode viver outroísta.
Você pode viver autoísta.
O que é cada um delas?
Autoísmo é quando você vive sendo você.
Outroísmo é quando você vive sendo outro.
Você pode viver sendo você mesmo — único, singular. Mas também pode se sabotar, impedindo-se de viver como realmente é. Quando você não está sendo você, está tentando ser outro; por isso, seu jeito de viver se torna outroísta.
Para ilustrar: imagine que sua natureza seja fazer piadas, rir alto e falar palavrão, mas você se obrigue viver com formalidade o tempo todo. Nesse caso, você está performando, tentando ser outra pessoa. Está vivendo de forma outroísta.
Disso podemos deduzir o resultado dessas duas formas de viver — o outroísmo e o autoísmo — e compreender o porquê.
Viver autoísta é viver bem, porque você funciona bem sendo você.
Viver outroísta é viver mal, porque você funciona mal tentando ser outro.
O natural seria você viver sendo você mesmo. Essa deveria ser a constante, a regra, e não a exceção. Mas, no cotidiano, a teoria se desmancha: aquilo que é natural simplesmente não acontece. Na prática, você vive sendo outro. Você vive sendo seus pais, seus amigos, seus professores, sua sociedade, o comercial de cerveja, o partido político, a religião, a moda, etc. O que acontece que impede o natural de acontecer? Acontece o cultural. Você se torna outro porque é educado para ser outro. A experiência humana é com educação.
Vamos mergulhar na educação.
O que é, afinal, educar? É o processo de aprendizagem. E o que é aprender? Aprender é imitar até decorar. Lembra do caderno de caligrafia da escola? O que você fazia nele? Praticava imitar as letras do alfabeto até conseguir reproduzi-las automaticamente.
Educar é propor um gabarito a ser imitado.
Aprender é decorar o gabarito.
Quando você pensa em educação, pensa apenas em escola. No entanto, educação acontece o tempo todo. Na escola, você é educado em gabaritos técnicos — português, matemática, ciências e assim por diante. Mas a educação escolar é apenas um tipo específico de educação.
Desde o instante em que nasce, você é bombardeado por gabaritos invisíveis vindos de todos ao seu redor. Quando sua mãe diz: “coma de boca fechada”, por exemplo, ela está te dando um gabarito para você imitar.
Que gabarito você imitou para aprender a ser você mesmo? O seu próprio? Claro que não! Você imitou todos os gabaritos que lhe deram — menos o seu. Imitou o gabarito do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, dos seus professores, dos seus colegas, da sua sociedade, da sua igreja, do comercial de margarina, dos filmes de Hollywood.
Assim como você aprendeu português imitando o som dos outros, você aprendeu a viver imitando os valores, crenças e gostos dos outros. O que os outros diziam ser certo e bom, você imitava. O que diziam ser errado, pecado ou proibido, você também imitava. Você aprendeu a ser quem é imitando o gabarito dos outros. Não é à toa que você vive sendo outro.
A serpente do Gênesis não se limitou a duas vítimas. Após fraturar a inocência de Adão e Eva, submergiu no poço que latejava no coração do Éden, dissolvendo a própria carne e veneno na fonte que alimentava o mundo.
Toda a água ficou envenenada.
Sem perceberem, os habitantes — bichos e plantas — começaram a beber o líquido contaminado. Mas não morriam: enlouqueciam!
Irrompeu uma epidemia ontológica.
O urubu dilacerava a garganta mimetizando o miado; a roseira, em espasmos de agonia vegetal, abortava tentativas de parir mangas; o gato estilhaçava a natureza em latidos fúteis; a vaca, estática sob o abismo celeste, ficava tonta pelo desejo impossível de voar; a grama insurgia-se contra o próprio verde, implorando pelo azul; peixes saltavam para o sufoco dos galhos altos; aranhas fustigavam os fios tecendo um mel estéril; o camelo, desafiando a física e a lógica, esmagava a própria carne na obsessão de passar pelo buraco de uma agulha.
A criação inteira adoeceu da mais perniciosa das loucuras: ser qualquer outra coisa, exceto o que era.
Havia, contudo, no epicentro desse hospício, uma anomalia. Um ser singular, cujo nome coincidia com o pronome: Você.
Você habitava o território soberano de si e bebia exclusivamente da própria fonte.
Mas os habitantes do Éden, cuja sanidade havia sido revogada pela intoxicação, não toleraram aquela doentia sanidade. Ao testemunharem a coerência de seus passos e a nitidez de seu olhar, aquelas tresloucadas criaturas diagnosticaram essa lucidez como a pior das demências. Concluíram, por unanimidade, que Você estava louco e que deveria ser eliminado.
Encurralado pela bizarrice, para sobreviver, Você caminhou até o poço do jardim e bebeu da água envenenada.
E foi assim que Você se esqueceu de si e começou a viver na loucura de tentar ser Outro.
Quando você nasce, não sabe de nada. Você faz a menor ideia de que está em uma brincadeira de autorrealização — e de que possui seu próprio gabarito. E pior: seus educadores também não sabem disso. Eles também foram educados por outros que igualmente não sabiam. E esses outros por outros. E assim por diante.
Educação acontece de pai para filho, nunca de filho para pai.
Quando você nasceu, não foi você quem disse aos seus pais: “Oi! Meu nome é Fulano. Sou seu filho.” Aconteceu o contrário. Você nasceu e seus pais lhe sentenciaram: “Seu nome é Fulano”.
A partir dali, eles não apenas lhe deram um nome, mas entregaram um manual inteiro de instruções. Inúmeros gabaritos. Desde então, você os imita e reproduz para viver— exatamente como fazia ao copiar as letras desenhadas no topo daquele caderno de caligrafia.
E foi assim que você virou outro.
Seus pais querem outro filho. Seus filhos querem outro pai, outra mãe. Sua esposa quer outro marido. Seu marido quer outra esposa. Seus amigos querem outro amigo. Seus professores querem outro aluno. A sociedade quer outro cidadão. O padre quer outra ovelha. E, segundo a Bíblia, até Deus quer outra criatura.
Ora, se até o arquiteto do universo te recusa como você é — quem diabos você pensa que é para insistir em ser você?
De onde vem essa soberba escandalosa de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo monstruoso, insuportável e indecente é esse de se recusar a andar em fila indiana? Que loucura suprema é essa chamada autenticidade?
É engolindo essas verdades e cuspindo em si mesmo que você se dobra, se molda, se apaga — e finalmente, com alívio coletivo, deixa de ser um estorvo. Afinal, as engrenagens do mundo giram muito melhor sem peças originais.
Cada pedaço de educação que você recebe é um programa rodando dentro de você. Um programa que diz: você tem que isso, aquilo, grilo, esquilo, mamilo, Murilo, crocodilo.
Se você é homem, por exemplo, um dia você chorou. Coisa mais natural do mundo — você era uma criança, e crianças choram. Mas sua mãe olhou pra você e disse: "Para de chorar, moleque. Homem não chora."
Ela não sabia o que estava fazendo. Provavelmente nem pensou muito. Mas naquele momento, instalou um programa em você. E o pior: esse programa não era dela. Era da mãe dela. Que herdou da mãe da mãe dela. Que herdou de alguém antes. Ninguém sabe mais quem escreveu o código original — talvez não exista nem uma origem clara, só cópias de cópias de cópias, cada geração repassando o arquivo sem abrir, sem ler, sem questionar.
Você recebeu o programa. Rodou. Imitou. Imitou de novo. Imitou até não precisar mais imitar — até virar automático. Até virar você. Agora o programa roda sozinho, em segundo plano, o tempo todo. Você quer chorar. Precisa chorar. O corpo pede. Mas o piloto automático assume o controle antes — aperta a garganta, endurece o rosto, manda você engolir.
E você engole. Não porque escolhe. Mas porque nem sabe mais que existe uma escolha.
Você não nasceu falando português. Aprendeu. Repetiu sons sem entender. Errou. Corrigiu. Repetiu de novo. Até que um dia parou de pensar nas palavras e simplesmente falou. O idioma entrou no subconsciente e ficou lá, rodando sozinho, para sempre.
Com o outroísmo foi igual. Você não nasceu vivendo para os outros. Aprendeu. Alguém te ensinou que suas necessidades vinham depois. Que sua opinião precisava de aprovação. Que existir do seu próprio jeito era perigoso, egoísta, errado. Você repetiu esse padrão. Repetiu de novo. Repetiu até não precisar mais pensar — até virar automático.
Isso tem um nome: competência subconsciente. É quando um comportamento desce do nível consciente para o nível do hábito. Você não executa mais — simplesmente acontece. Falar português é uma competência subconsciente explícita. Você sabe que sabe. O outroísmo é uma competência subconsciente implícita. Você nem percebe que está fazendo.
Agora a pergunta óbvia: como desliga?
Não desliga.
Competência subconsciente não tem botão de off — e ainda bem, porque ela é uma das capacidades mais poderosas da mente humana. É por causa dela que você dirige, cozinha, trabalha, conversa, tudo ao mesmo tempo, sem travar. O problema não é a capacidade. O problema é quando ela é executada de forma nociva— contra a sua unicidade.
Viver de forma outroísta é uma execução ruim de uma capacidade boa.
E enquanto seu subconsciente for outroísta, não importa o quanto você queira viver bem — o hábito mental vai te puxar de volta para decisões outroístas e te fazer viver mal. Não por fraqueza. Mas porque é o que o programa manda.
Essa é a má notícia.
A boa notícia é simples — e muda tudo: se foi você que se ensinou a viver de forma outroísta, você também pode se ensinar a viver de forma autoísta. A mesma chave que te prendeu pode te libertar. Basta girá-la no sentido oposto — no sentido do autoísmo.
Imagine que você é dono de uma fábrica.
Cabe a você decidir o que ela produz. Você treina seus funcionários, define os processos, estabelece o funcionamento. Com o tempo, a fábrica entra no ritmo — e passa a produzir automaticamente exatamente o que você quer, sem que você precise intervir a cada etapa.
Agora imagine que você herdou essa fábrica.
Ela já estava funcionando quando você chegou. Os funcionários já tinham seus hábitos. Os processos já estavam estabelecidos. Então, o produto que ela fabrica — esse produto você não escolheu. E mais: você não gosta. Não quer. Mas ela continua produzindo, dia após dia, porque é o único funcionamento que conhece.
O que você faz?
Você não joga a fábrica fora. Você não demite todos os funcionários de uma vez. Você começa a ensinar um novo funcionamento. Devagar, com repetição, com paciência — até que o novo jeito de operar substitua o antigo. Até que a fábrica, que um dia produziu o que te foi imposto pela herança, passe a produzir o que você de fato deseja.
A fábrica é você. Os funcionários são seu subconsciente. O produto atual é sua realidade como ela está — moldada pelo outroísmo herdado, pelo funcionamento que te ensinaram antes que você pudesse escolher.
E o novo dono?
Também é você. Sempre foi. Sempre será. Porque viver é isso: herdar-se de si mesmo a cada instante. Você acorda hoje e recebe como herança tudo que foi ontem — seus hábitos, suas crenças, seus automatismos. Mas você também acorda como novo dono. Com a mesma autoridade de sempre para começar a ensinar seus funcionários a operar de outro jeito.
Não de uma vez. Não do dia pra noite. Mas passo a passo.
Você é o eterno herdeiro de si mesmo. Cada pequena escolha é uma instrução nova para o subconsciente. Cada vez que você decide diferente do condicionamento herdado, reescreve o manual da fábrica — e faz com que ela comece a produzir uma nova realidade.
Você olha pela janela, se compara com o outro e conclui que falta alguma coisa em você. Falta algo no seu nariz, no seu jeito de andar e no seu guarda roupas. Ou então o oposto: acha que tem algo demais na sua bochecha e nos seus valores — e que precisa passar o bisturi.
Você mede a si mesmo com a régua do outro — e, claro, sai com déficit. Sempre sai. Porque a régua do outro não foi feita para você. Foi feita para ele. Só que você acredita em um bicho de duas cabeças chamado comparação. E desse bicho nasce outro chamado imperfeição.
O problema não é o nariz. Não é o jeito de nadar. Não é valores. Nada disso. O problema é um só: a crença na imperfeição.
Deixemos a crença de lado e vamos ao fato: você não é imperfeito — você é ímpar-feito. Seu nariz é ímpar-feito. Sua bochecha é ímpar-feita. Seu jeito de andar é ímpar-feito. Tudo em você é ímpar-feito.
E não estou dizendo isso para elevar sua autoestima — é pura matemática. A natureza do universo é a universalidade. E universalidade significa que um nunca é igual a um. Cada folha difere de cada folha. Cada grão de areia difere de cada grão de areia. Cada ser humano difere de cada ser humano.
Ser diferente não é defeito, é regra.
Você não é um original com falhas.
Você é um original — e ponto.
Assim que o patinho colocou a ponta do bico para fora de casa, a fofoca começou: “Quá-quá-quá!”. Era um barulho chato, parecendo torcida de patobol de um time só.
— Olha lá, que pato mais fora do padrão! — grasnou uma pata antipática.
— Ele anda todo torto, parece que está pisando em ovos... e ovos fritos! — sentenciou o tribunal dos marrecos.
— Vai estragar o visual do nosso feed do Instaganço! — reclamou outra, ajeitando as penas.
Era muita patacoada! Com o coração murcho feito balão esquecido depois da festa, o patinho resolveu arrumar as malas (que na verdade eram só as suas asas) e partiu. Caminhou tanto que os dedinhos da pata ganharam nós. Dormiu abraçado a uma árvore e, ao acordar, deu de cara com uma lagoa lisinha, parecendo um espelho gigante.
Ao olhar para baixo, viu alguém na água. Sem perceber que estava olhando para si mesmo, achou o outro pato simpático e resolveu puxar papo:
— Ei... por que você está com essa cara de quem comeu um pedaço de genipapo e ficou engasgado com dor no papo?
— Boa pergunta. Por que você também está? — respondeu o reflexo.
— É que eu sou todo esquisito. Imperfeito.
— Quem foi que inventou isso?
— Todo mundo na minha rua diz!
— E desde quando “todo mundo” entende de pato? — perguntou a imagem, dando uma piscadinha.
— Ué, eles são a maioria. Se todos dizem, deve ser verdade.
O reflexo soltou uma bolhinha de ar e perguntou:
— E como você queria ser, afinal?
— Ah... perfeito. Igualzinho aos outros. Bonitinho, alinhado, sem passar vergonha.
— Mas se você for outro, quem vai ser você? Sacou? Já tem muita gente sendo igual por aí, é um tédio só!
— É... pensando bem, é verdade. Mas eu só queria que gostassem de mim.
A imagem na água amoleceu o olhar, cheia de doçura:
— Eu gosto de você!
— Gosta mesmo? Assim, todo tortinho e desengonçado?
— Exatamente assim. Suas bizarrices são a sua melhor parte! É o que te faz ser esse pato exclusivo, edição limitada!
O patinho sentiu um quentinho no peito, como se tivesse tomado um chocolate morno num dia de chuva. A tristeza derreteu na hora.
— Sabe de uma coisa? Você não é perfeito — disse o reflexo, rindo. — Você é ÍMPAR-FEITO! Único no universo inteiro!
— Caramba! É verdade! Até minha asa parou de doer! Posso te dar um abraço de urso... quer dizer, de pato?
— Pula aqui para dentro!
O patinho não pensou duas vezes. Deu um salto bombástico na água — TIBUM! — quebrando o espelho em mil pedaços de alegria. Quando voltou para a superfície, sacudindo as penas e espirrando água para todo lado, estava mais feliz que pato na água. Não precisava mais da aprovação de ninguém. Estava batizado em ser feito à mão, peça única, singular, à imagem e semelhança: ÍMPAR-FEITO!
É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar.
É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. "Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!" O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico. O vazio é o fruto da busca pelo pote de ouro no final do arco-íris — ou seja, pela perfeição.
Mas o pote de ouro não existe. E o arco-íris nunca termina.
Perfeição é um equívoco.
Perfeição é a suposição de que você deveria viver segundo um padrão que não é seu. Isso é impossível. E a prova mais simples disso é que, se fosse possível, você já teria conseguido.
A solução não é preencher o vazio com algo artificial — é retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde; apenas remove o que a está bloqueando. Retirado o obstáculo, a saúde volta por conta própria — porque saúde é o estado natural, não uma conquista.
Ímpar-feição é natural.
Sua crença na perfeição é o bloqueio. Quando você desperta e percebe a insanidade de tentar ser perfeito, imediatamente para de tentar — e se permite ser você: ímpar-feito.
Despertar para a ímpar-feição é curar-se do equívoco da perfeição. E quanto mais você se cura, mais evidente fica que o vazio não é vazio. É você cheio de autonegação.
A sabedoria necessária para você viver bem vem de fábrica. Não há necessidade de educação. Para viver bem, basta viver sendo fruto da sua própria semente — produto da sua própria individualidade. Pé de você.
O que acontece é que isso não acontece.
Você vive como uma laranjeira que dá manga, morango, kiwi, tomate, pepino, presunto, tofu, doritos, coca-cola, fanta uva, suflair, gasolina — tudo, menos laranja. Você vive sendo outro. Por quê? Porque foi educado pelo outro. E qual é o problema nisso? O problema é que o outro é incapaz de saber por você — e vice-versa. Como pode, então, o outro te ensinar a viver bem, se ele é incapaz de saber o que é bem para você?
Bem e mal não são iguais para todos. São igualmente diferentes — relativos à unicidade de cada um. Por mais bem-intencionados que fossem seus educadores, eles não tinham como te ensinar a viver bem. O fracasso deles era inevitável. Você vivendo mal é a prova viva disso.
Por que continuar? De que outra prova você precisa para deixar de viver de acordo com o bem que aprendeu — e passar a viver de acordo com o que lhe faz bem?
Guardo na memória o amanhecer na roça. O cheiro do orvalho se misturando com a crueza do esterco fresco. Foi numa dessas manhãs, em visita familiar, que vi meu avô tangendo o gado. O homem, de pele curtida e cabelos de algodão, trazia no peito, estampado em sua camiseta, um paradoxo estético: Eddie, o mascote cadavérico da banda Iron Maiden.
Aquele choque de culturas era de um lirismo absoluto. Perguntei se ele sabia o que era Iron Maiden. Ele me olhou com a mesma erudição musical do capim em que pisava e respondeu sorrindo: — Sei não, fio.
A camiseta, descobri depois, fora minha: tinha ficado velha e minha mãe a despachou — sem meu consentimento — para virar pano de surra na roça. Caí na gargalhada, aquela risada limpa de moleque que adora uma coisa malfeita. Meu avô, sem entender o motivo, riu junto, fisgado pela pura cumplicidade do instante.
Ninguém ali tinha o verniz social necessário para ditar o guarda-roupa de um velho de botas sujas. E, mesmo que houvesse, meu avô ignoraria as etiquetas com a mesma naturalidade escatológica com que as vacas balançam o rabo e adubam o mundo.
A velhice, afinal, surge como a última trincheira para reconquistar a singularidade que a educação moral e cívica nos rouba. Quando crianças, ignoramos as regras por inocência, por desconhecer a legislação social. Na etapa final, temos a chance de fazer o mesmo, mas por decreto pessoal. Quando a morte se muda para a casa ao lado, a obediência perde completamente o sentido.
Compartilho com você a herança que meu avô me deixou naquele dia, sem saber o que estava fazendo: liberte-se do tribunal da opinião alheia. Esqueça a multidão que habita o universo da camiseta para fora. Viva para quem existe da camiseta para dentro — sempre e em primeiro lugar. Do contrário, em vez de cruzar o pasto da vida cagando e andando, como as vacas, só conseguirá chorar o leite derramado.
Você não tem como saber que está vivendo autoísta, mas pode sentir. Felicidade e sofrimento servem pra isso— não como recompensa e castigo, mas como informação. Como o seu sistema de navegação interno dizendo: mais quente. mais frio. chegou.
Você calça 37. Mas alguém te ensinou que 35 é o número certo. Elegante. Adequado. O número que pessoas sérias, corretas, bem-educadas usam. Então você compra o 35. O dedão fica roxo. Dói. Por que tanta dor? Não é punição. É informação. Seu pé está dizendo, com toda a clareza que um pé consegue ter: esse não é o seu número. Mas você não sabe ainda qual é. Então tenta de novo.
Você opta pelo 36. Mais razoável. Meio-termo. Talvez seja esse. Dói menos. O dedão passa de roxo para azul-marinho. Ainda dói. Ainda é informação: chegou mais perto. mas ainda não é.
Então você tenta o 37. E aí acontece algo diferente. O dedão fica rosinha. Normal. Relaxado dentro do sapato como se sempre tivesse sido assim — porque sempre deveria ter sido assim. O pé não grita mais. O pé respira. Que felicidade. Que alívio. Que obviedade escandalosa. Claro que é 37. Óbvio que é 37. Evidente que é 37. Como demorou tanto para chegar numa coisa tão simples? Eureka. Eu sou 37.
A laranjeira não tem escolha. Laranjeira dá laranja. Sempre deu. Sempre dará. Não existe, para ela, a possibilidade de autonegação — nenhuma crise existencial, nenhuma dúvida, nenhum momento em que olha para uma jabuticabeira e decide que preferia ser outra coisa. A laranjeira está condenada a ser ela mesma.
Você é diferente. Você tem arbítrio. E isso significa que você pode fazer algo que nenhuma laranjeira jamais conseguiu: pode se proibir de ser você. Pode passar a vida inteira sendo o que não é. Pode engolir o que sente, negar o que quer, seguir o mapa errado com dedicação total. Pode usar o sapato 35 até o fim — e chamar isso de virtude.
E aqui está a notícia boa e ruim ao mesmo tempo:
Livre-arbítrio é incorruptível.
Não existe força no universo capaz de te tirar essa liberdade. Nenhuma pessoa. Nenhuma instituição. Nenhum deus. O universo inteiro: absolutamente impotente diante do seu arbítrio.
Entende o tamanho disso?
Você é o ser mais empoderado que existe — porque nada, absolutamente nada, tem poder sobre sua escolha. E é exatamente aí que mora o problema. Porque se nada pode te impedir de viver bem — nada pode te impedir de viver mal. Tudo na sua mão. Tudo no seu arbítrio.
Então: livre-arbítrio — benção ou maldição?
Resumindo e finalizando:
O que é outroísmo? — É um jeito de viver.
Que jeito é esse? — Quando você vive sendo outro.
Por que você faz isso? — Porque foi educado pelo outro.
Você pode mudar isso? — Sim, você pode.
Como mudar isso? — Praticando autociência e ficando consciente do seu outroísmo.
Sim, você é altruísta porque isso te faz bem. Egoísmo é desejar o próprio bem. Logo, altruísmo é egoísmo assim como todo e qualquer desejo.
Autoísmo é uma guerra contra tudo e contra todos?Pelo contrário, é estar em paz consigo e com todos. No viver autoísta, você se permite viver sendo você, isso é viver em paz consigo. Quando você vive em paz consigo, você entende como é ruim se obrigar a ser outro e para de fazer isso com o outros. Você para de tentar mudar os outro, você permite que o outro seja outro e convive em paz com o outro. Fim da guerra.
Como deixar de viver outroísmo?Outroísmo é sua competência subconsciente atual. Para você viver autoísta, é necessário você se desensinar do outroísmo. Como? Ficando consciente do seu outroísmo. A desaprendizagem acontece através da observação. Observar e perceber que você é diferente do outro e que o outro é diferente de você. Toda vez que você deixa isso evidente para si mesmo, você está se desensinando a viver outroísta e se ensinando a viver autoísta.
Como distinguir bondade, empatia e misericordia de outroísmo?Para fazer essa distinção você precisa estar consciente sobre o que é outroísmo e como o outroísmo funciona. E quando digo ficar consciente, não me refiro a estudar intensamente os livros da 1ficina, me refiro a observar intensamente o próprio outroísmo. Quanto mais você observa seu outroísmo, mais consciente fica dele e mais fácil fica você perceber quando ele surge disfarçado de bondade, empatia e misericórdia.
Como ficar consciente que desejo é existencial?Tudo que é existencial não é opcional. Observe sua vontade. Você tem a opção de não querer? Não me refiro a não querer isso ou daquilo, me refiro a não-querer, não ter vontade. Não tem. Por que não tem? Porque sua vontade é existencial, logo, não é opcional.
Como o autoísmo está relacionado com as atitudes?Uma atitude, seja qual for, é efeito da sua opção entre viver autoísta ou viver outroísta.
Como se forma meu gabarito?Gabarito é uma metáfora para unicidade. Sua unicidade não se forma, sua unicidade é existencial.
Como ser autoísta e não impor minha vontade?Cuidado para não confundir imposição com interferência. A realização do seu desejo irá interferir na realidade do outro inevitavelmente. Tudo que você faz interfere na realidade do outro. E tudo que você não faz também interfere na realidade do outro. Impor seu desejo ao outro é obrigar o outro a desejar igual VOCÊ.
Comparação é outroísmo?Comparação em si não é outroísmo. A comparação em si é um processo mental natural e inevitável. O processo mental da comparação acontece para que você possa diferenciar características dos objetos observados. Outroísmo acontece quando você se obriga a ser igual ao objeto ao qual está se comparando. Quando se obriga a ser igual ao outro, ou quando obriga o outro a ser igual a você.
Desejo pode virar neurose?Desejo não, mas como você lida com o desejo, sim. Outroísmo não é desejo, é como você lida com o desejo. Outroísmo é farinha, as diferentes neuroses são diferentes bolos, parecem diferentes, mas são todas feitas da mesma coisa: outroísmo.
É possível aprender sem imitar?Não, pois aprender é imitar.
É possível conviver sem alguma espécie de convenção social?Sim, o reino animal é exemplo disso.
É possível ser autoísta e viver bem em sociedade?É mais do que possível! Só pessoas autoístas conseguem viver bem em sociedade. As sociedades humanas sempre foram, e ainda são locais de má convivência, porque as pessoas são outroístas e não porque são autoístas. Se todas as pessoas do mundo fossem autoístas, a convivência humana seria maravilhosa.
É possível ser autoísta quando o outro também é autoísta?Sim! Nesse caso acontece a convivência autoísta. Duas pessoas autoístas se entendem, entendem o desejo um do outro e juntos constroem uma convivência em que o desejo de ambos são realizados. O problema da boa convivência é quando as partes são outroístas e uma quer impor sua vontade ao outro, daí a boa convivência fica impossível.
É possível viver autoísta e ter amigos de verdade?É mais do que possível. Só duas pessoas autoístas são amigas de verdade.
Existe algum tipo de educação que não seja outroísmo?Não, pois educação é outroísmo. Toda educação é o outro lhe programando para viver dentro de um sistema de crenças que não é o seu.
Fazer acordo é autoísmo?Sim, é convivência autoísta.
Ignorância equivale a viver outroísta?Ignorância e outroísmo estão ligados, mas não são o mesmo. Ignorância é o estado consciencial que leva um indivíduo a viver de forma outroísta.
Não importa o que eu faço, importa se é um fazer autoísta ou outroísta?Exato! Seu comportamento é desdobramento da sua opção entre viver autoísta ou viver outroísta. Toda opção de comportamento no cardápio outroísta, é viver outroísta. Toda opção de comportamento no cardápio autoísta, é viver autoísta.
Não precisamos de uma educação comum? Com um mínimo de valores comuns para que a sociedade funcione?E qual é o gabarito que vai servir de base para todos seguirem? O seu? O meu? O de quem? Percebe? A ideia de uma educação comum é a gênese de toda guerra e de todo mal viver.
Não somos seres relacionais? Se me afasto do outro, não estou vivendo?O jogo é de relacionamento, mas você pode optar por viver autoísta ou outroísta dentro do jogo. Para você se afastar do outro o outro precisa existir, não é? Como você poderia se afastar de alguém que não existe? Impossível. Ou seja, se afastar também é você se relacionando com o outro. É uma qualidade diferente de relacionamento, mas também é relacionamento. Dito isso, você decide a qualidade do seu relacionamento. Isso é opcional. Não se relacionar é impossível. O jogo é de relacionamento.
Outroísmo pode produzir bem viver?Bem viver, não, mas vida boa, sim. Aliás, se você quer vida boa, viva de forma outroísta. Quando você mente, por exemplo, isso lhe favorece. A verdade lhe desfavorece. Só que ao mentir, você está se condenando a viver uma vida de fingimento e isso é viver mal.
Por que não consigo ser eu na convivência?Porque você não suporta a dor da rejeição. Seu viver autoísta desagrada o outro e o outro te rejeita. Para evitar a rejeição do outro, você opta pelo viver outroísta.
Qual é o problema com a palavra egoísmo?É uma palavra que ninguém sabe usar, pois não sabe do que está falando quando usa.
Quantos anos você levou para ser autoísta?Pratico desde que nasci e vou praticar até morrer.
Se opto pelo autoísmo meu outroísmo desaparece?Lembra do filme Uma Mente Brilhante? Lembra que mesmo quando o John Nash fica lúcido, ele continua tendo alucinações? Ele apenas não acredita mais nelas e não age mais de acordo com elas. O mesmo acontece com você. Mesmo experimentando seu outroísmo, essa opção continua presente, mas você está lúcido, então, apenas não opta mais.
Se você é mestre em viver bem, por que não experimenta só o que quer?Porque estou participando de uma experiência coletiva e o resultado da minha opção não depende só do meu arbítrio, depende do arbítrio coletivo. Eu opto só pelo que quero experimentar, igual você. Isso só depende de mim, o resultado, não. Dito isso, você está confundindo bem viver com vida boa. Viver bem não é vida boa, viver bem é lidar bem com a vida, seja vida boa, seja vida ruim.
Um psicopata quer matar alguém e mata, está vivendo autoísta?Você quer matar uma barata e mata, você está vivendo autoísta?
Viver autoísta significa optar só pelo que eu quero?Você não precisa e nem deve abrir mão da sua vontade em prol da boa convivência. Se você abre mão da sua vontade, você vive mal. Quando você vive mal, a boa convivência fica impossível para você. Como você pode proporcionar ao outro um bem viver quando você mesmo está vivendo mal? Impossível! Então, primeiro você precisa viver bem, para depois poder conviver bem. Sempre nessa ordem, nunca o contrário.
Porém, isso não significa que você não possa e não deva colaborar com o outro. Sim, você pode e deve. Por exemplo, você quer tomar banho, outra pessoa na sua casa também quer tomar banho. Só tem um banheiro na casa. A coisa mais inteligente que vocês dois podem fazer é colaborar um com o outro. Conversar e decidir quem toma banho primeiro e quem toma banho depois.
Sem colaboração, o que terá é competição, um prejudicando o outro para ter seu desejo satisfeito. Você sai correndo e entra no banheiro. A outra pessoa desliga a eletricidade e diz que se você não sair ela não liga de volta. Você fica lá dentro e diz que se ela não ligar você não sai. E assim fica. Ninguém toma banho. Ninguém realiza o desejo por falta de colaboração.
Se vocês colaboram um com o outro, um toma banho rápido, sai, entra o outro e pronto! Ambos tomam banho. Ambos realizam o desejo, sem precisar abrir mão. Então, nem você nem ninguém precisa abrir mão do seu desejo em prol da boa convivência. Mas precisa sim aprender a considerar o desejo dos outros, conversar e encontrar maneiras de convivência em que todos realizem seus desejos.
Vontade de controlar o outro é um desejo existencial?Controlar o outro não é desejo, é estratégia. Você tem vontade de algo e para realizar esse algo você usa a estratégia de controlar o outro. Por exemplo, você quer beber água. Ao invés de levantar a bunda da cadeira e ir até o filtro, você começa. "Fulano! Ooooô fulano! Pega um copo d'água pra mim". O fulano não pega. Você tenta controlá-lo para ele realizar seu desejo. Você diz, por exemplo: "Nossa! Pensei que eramos amigos. Pensei que nossa amizade tinha algum valor. Nem um copo d'água você consegue pegar para mim. Credo! Rapidinho! Pega lá!". Percebe? Você não quer controlar o outro, você quer beber água. O controle é a estratégia que você está usando para realizar seu desejo.