Bermuda feia


Adoro a expressão — não tem onde cair morto —. É de uma precisão geográfica fascinante. Fico imaginando o sujeito em suspensão, um astronauta da penúria. Para lá não pode, para cá não dá, subir é impossível, descer é proibido. O sujeito se vê impedido até de cumprir a lei da gravidade por falta de chão. O que pode ser pior?


Mas esse raciocínio é literal. O significado popular da expressão é não ter dinheiro, ser duro, descapitalizado, pé-rapado. O senso comum faz pensar num mendigo de esquina, sem eira nem beira. Ledo engano. Existe uma fatia imensa da classe média que também vive abaixo da linha da pobreza: os filhos. 


O único dinheiro que sentem o cheiro — quando sentem — é a mesada. Aquele valor simbólico que, com sorte, paga um pastel e um caldo de cana (pequeno) na feira do lado da escola. Quem se identifica levanta a mão. Eu! 


Do nascimento até o primeiro emprego, sobrevivi com o dinheiro de um pastel de feira. Não porque meus pais não podiam me dar mais, mas porque não queriam. Todas as minhas necessidades eram supridas em produtos, nunca em espécie. Precisava de camisa? Minha mãe comprava. Tênis? Ela escolhia. 


Resultado: minha mãe era o meu Clodovil. Era ela quem ditava a moda na minha vida. Cuecas, meias, bermudas: tudo passava pelo crivo dela. E o problema não era o gosto — ela era elegante, reconheço —. O problema é que o gosto era dela e o corpo era meu. 


Alguém dirá — Reclama de barriga cheia! Quanta gente não tem o que vestir! —. É verdade. Mas calma! Não me julgue tão rápido. O problema não era a falta de pano, era a falta de pertencimento. Minhas roupas eram estrangeiras pra mim.


Roupa é um ato político. É dizer ao mundo quem você é sem precisar abrir a boca. Quando um jovem veste a camiseta de uma banda ou uma mulher se equilibra num salto alto, estão hasteando bandeiras. Eu queria hastear a minha, mas, como não tinha onde cair morto, desfilava os valores, as crenças e o refinamento materno.


Até que veio o primeiro emprego e salário.


Me lembro da sensação de entrar sozinho na loja de magazine. Eu era um índio realizando um ritual de passagem, um neném cortando o próprio cordão umbilical. Comprei uma bermuda amarela enorme, com tarja alaranjada. Uma peça de gosto duvidoso, para dizer o mínimo. A família inteira a rotulou de feia. Eu nem tchum!


Usei a bermuda até ficar esfarrapada. Minha mãe, desesperada, pensando no que o mundo iria dizer sobre seu filho, comprou uma bermuda — bonita — para substituir o desastre. Não troquei. Aquela bermuda feia não era uma peça de roupa, era meu 7 de setembro, era o meu grito do Ipiranga contra a tirania do bom gosto alheio.


Com certeza você passa por uma tirania similar. É a vida! Se conselho fosse bom, teria nota fiscal, mas vai um aqui: compre uma bermuda feia! Dê seu grito de independência também. Assuma seus próprios critérios. Você vai desagradar a geral, é certo. Mas, pela primeira vez na vida, terá permitido se agradar. E se tiver a primeira vez, pode ter a segunda.