Na cidade 37, ninguém nasce cidadão, vira.
E vira do mesmo jeito, há gerações: quando corpo e alma entram inteiro no gabarito 37.
Enquanto não entram, a pessoa é ninguém. Sem voto na praça. Sem trabalho. Sem nome de batismo reconhecido. Sem direito de sentar à mesa no domingo.
Por isso, ao completar sete anos, toda criança é levada à Central 37, para o ritual de formatura. O funcionário não precisa de fita métrica. Já sabe. É 37. Sempre é 37.
A Central 37 fica no centro da cidade, ao lado da igreja, porque os dois lugares cuidam da mesma coisa: transformar o que chega singular em padrão.
Na vitrine, sobre veludo vermelho, como relíquia, está a fôrma completa: o sapato, o chapéu, o cinto, o paletó. Tudo 37.
Ninguém nunca viu medir coisa nenhuma. O funcionário olha a criança da cabeça aos pés, balança a cabeça, e já sabe o que precisa ser feito: 37.
Antes de cada criança entrar, os pais assinam um livro grosso, encadernado em couro, com o nome de todas as crianças que já passaram por ali.
O avô assinou. O pai assinou. Agora é a vez do filho.
— É assim que se vira gente — dizem os pais, empurrando a criança pela porta, exatamente como foram empurrados um dia.
O funcionário da Central 37 recebe cada criança com educação.
Manda sentar. Manda confiar.
A formatura começa pelo chapéu.
Antes de colocar, o funcionário pergunta:
— Em que você acredita?
Se a resposta não for 37, ele aciona um mecanismo para apertar a cabeça. Dentro do chapéu tem uma armação de ferro que se fecha devagar, uma volta de cada vez, até a cabeça ceder e a crença de dentro se dobrar, se calar, se esquecer do que pensava por conta própria.
Não sai sangue. Sai uma lágrima. Mas depois o milagre acontece. A criança nunca mais erra nenhuma pergunta, pois sabe que a resposta é sempre 37.
A cidade chama aquilo de inteligência.
Depois vem o cinto.
— Do que você gosta? — pergunta o funcionário.
Ele aperta o cinto na resposta errada, na cintura da criança, até o gosto dela se acostumar a caber ali, até ela aprender a escolher só o que tem sabor de 37.
Dói fundo, na boca do estômago, um tipo de dor que ninguém sabe apontar com o dedo.
A cidade chama aquilo de bom gosto.
Depois vem o paletó, que ensina compostura.
Os braços da criança, ao entrarem nas mangas, se dobram na direção que o paletó manda, não na direção que querem ir sozinhos.
Se um braço se desvia, se não segue o rumo, o funcionário entorta-o com arame.
A cidade chama aquilo de juízo.
E por fim, o sapato.
Pé pequeno, ele estica na manivela de couro e correntes, devagar, até o osso ceder. Pé grande, ele apara com a navalha fina, um dedo de cada vez, com a calma de quem corta unha.
Esse é o momento mais visível da formatura. O único que sangra por fora. E por ser o único que sangra, é o único que recebe o nome de sacrifício.
Os outros três, que doem tanto quanto, ninguém chama de nada. Só chama de educação.
Os pais esperam do lado de fora.
Ouvem os filhos gritarem quatro vezes, uma para cada peça. E se orgulham, porque o grito é sinal de que estão avançando na formatura.
Ninguém pergunta por que 37.
Um menino, uma vez, perguntou ao pai por que não existiam outras crenças, outros gostos, outros valores além do 37.
O pai não respondeu.
Levou o filho pela orelha até a Central 37, uma semana antes da idade certa.
— Melhor resolver isso logo — disse.
Os mais velhos contam, entre risadas, as próprias histórias de ajuste, como se contassem histórias de guerra vencida.
— Meu chapéu levou três voltas de ferro até eu aprender a acreditar direito — diz um, com orgulho.
— Meu cinto quase não fechava, de tanto que eu gostava de coisa errada — diz outro, rindo da própria criança que foi.
Quando a criança sai de chapéu, cinto, paletó e sapato, tudo 37, mancando, tonta, com a voz mais mansa do que entrou, a cidade toda aplaude. Bate palma. Chora de emoção.
Ali está, completamente formado: mais um cidadão 37.