Narciso saiu da beira do lago, subiu a montanha e veio ao meu encontro.
Ele não era o primeiro. Antes dele, havia outros.
Vinham com os joelhos cheios de terra, os olhos queimados pela luz das cidades, e se sentavam diante de mim.
Eu era. Eu sou. Eu serei.
Estava aqui antes de todos eles chegarem. Antes de decidirem que sou o lugar certo para um homem se encontrar. Eu estava aqui. Úmida, antiga, sem função além de ser o que sou.
Mas nenhum deles me viu.
O primeiro que veio, trazia o pai nas costas. Não literalmente. Trazia-o na rigidez dos ombros, na mandíbula fechada, no silêncio que não era silêncio, mas um velho argumento interrompido há vinte anos e nunca resolvido. Sentou-se em lótus, os olhos abertos na minha direção, e passou três semanas olhando para o pai.
Eu estava ali. Ele não.
O segundo trazia uma mulher. Reconheci pela forma como ele franzia os lábios, o modo como os dedos tocavam o joelho em intervalos regulares e a respiração pesada. Por horas ele a visitou, ali, olhando para mim. Discutiu com ela. Perdoou. Voltou a acusar. Perdoou de novo.
Eu estava ali. Ele não.
Vieram muitos assim.
Traziam guerras, dívidas, filhos, vergonhas antigas. Traziam a memória das tardes de domingo na casa da mãe e o cheiro de feijão. Traziam os vizinhos. A cidade inteira. O barulho do mercado, a fumaça das chaminés, o riso das crianças que eles foram um dia. Sentavam e viajavam. Eu era uma máquina do tempo, que às vezes os levava de volta ao passado e outras vezes ao futuro. Dentro de mim, iam e voltavam, sem sair do lugar.
Eu era a tela em branco sobre a qual projetavam a vida que acreditavam ter deixado do lado de fora. Mesmo vazia, estava sempre cheia. Mesmo minúscula, continha mundos inteiros. Tantos quantos eram trazidos para dentro de mim.
Então, veio Narciso.
Ele também entrou acreditando estar despido das praças, das vozes, dos olhos que o seguiam nas cidades como dívidas não pagas. Também acreditando que bastava entrar dentro de uma caverna para que o mundo ficasse do lado de fora.
Seu mundo, porém, entrou com ele. Nas solas dos sapatos gastos pela correria da cidade. No cheiro educado de perfume espalhado pela camisa.
Cada figura que Narciso projetava nas paredes era uma prova do quanto o mundo havia entrado nele assim como ele havia entrado em mim.
Os dias não têm nome dentro de mim. O sol alcança em certo ângulo até a metade, mas não se sabe se é domingo ou dia útil, se passou uma semana ou um mês. O tempo do calendário pára. E no lugar dele, fica um tempo estranho, espesso como o oceano, que não anda para frente nem para trás, mas aprofunda.
E na profundidade, Narciso encontrou multidões.
Fui paciente. Sou pedra. Paciência é minha natureza mais bruta.
Observei Narciso me observando até os dias perderem os nomes.
O homem que está entre outros homens sempre tem para onde fugir. Mas o homem diante de uma parede não tem saída. Cada vez que Narciso me olhava, mesmo não me vendo, eu estava aqui. Óbvia. Imóvel. A mesma.
Gradativamente, Narciso aprendeu com isso. Não porque ensinei, mas porque a pedra não cede. Aprendeu que o homem que foge do mundo para se conhecer carrega o mundo como a tartaruga carrega a concha.
Foi então que reconheci algo diferente em Narciso. Não na postura. Era igual, lótus, coluna, olhos abertos. Não na respiração. Era a mesma de sempre, lenta, deliberada, o esforço visível de quem tenta transformar o corpo num instrumento. O que era diferente estava em outra coisa. Uma qualidade de visão que eu não sabia nomear até então porque nunca a havia encontrado nele.
Narciso olhava para mim.
Não para o pai. Não para a mulher perdida. Não para a cidade, a guerra, a vergonha.
Para mim.
Ao perceber isso, cheguei até a ficar tímida. Me senti nua.
Narciso retirou de mim o que em mim nunca esteve: o mundo, as pessoas, as filosofias, os afetos e os desafetos. Passei a existir para Narciso como existo para os pássaros que se abrigam em mim durante a chuva.
Foi uma sensação estranha ser vista pela primeira vez.
Narciso veio aprender com meu vazio, e aprendeu.
Foi difícil. Nada requer maior discernimento do que ficar de frente ao espelho e se tornar capaz de enxergar o espelho em si, além do espelhamento. Mas finalmente Narciso aprendeu a me ver sem se ver em mim.
E nesse dia, após ter passado seis horas inteiras apenas comigo, Narciso levantou-se. Não havia mais nada que eu pudesse lhe dar que ele não pudesse agora encontrar em qualquer lugar.
Olhou para mim uma última vez. Sem gratidão. Com o olhar de quem reconhece um igual. Pedra olhando para homem olhando para pedra.
Narciso saiu de mim.
Desceu a montanha em processo de destilação. Feito água de chuva batendo em cada pedra até chegar na planície.
Voltou ao mundo do qual os homens nunca saem — por serem homens — e no qual as pedras nunca entram — por serem pedras.
Eu fiquei. Como sempre fico. Aberta para o próximo homem que subirá a montanha e entrará em mim acreditando que deixou o mundo do lado de fora.
Vou recebê-lo da mesma forma. Vazia. Em silêncio.
Esperando o momento em que, após me encarar durante meses, me veja pela primeira vez, pelo que sou, um buraco na pedra, e nada mais.