Guardo na memória o amanhecer na roça. O cheiro do orvalho se misturando com a crueza do esterco fresco. Foi numa dessas manhãs, em visita familiar, que vi meu avô tangendo o gado. O homem, de pele curtida e cabelos de algodão, trazia no peito, estampado em sua camiseta, um paradoxo estético: Eddie, o mascote cadavérico da banda Iron Maiden.
Aquele choque de culturas era de um lirismo absoluto. Perguntei se ele sabia o que era Iron Maiden. Ele me olhou com a mesma erudição musical do capim em que pisava e respondeu sorrindo: — Sei não, fio.
A camiseta, descobri depois, fora minha: tinha ficado velha e minha mãe a despachou — sem meu consentimento — para virar pano de surra na roça. Caí na gargalhada, aquela risada limpa de moleque que adora uma coisa malfeita. Meu avô, sem entender o motivo, riu junto, fisgado pela pura cumplicidade do instante.
Ninguém ali tinha o verniz social necessário para ditar o guarda-roupa de um velho de botas sujas. E, mesmo que houvesse, meu avô ignoraria as etiquetas com a mesma naturalidade escatológica com que as vacas balançam o rabo e adubam o mundo.
A velhice, afinal, surge como a última trincheira para reconquistar a singularidade que a educação moral e cívica nos rouba. Quando crianças, ignoramos as regras por inocência, por desconhecer a legislação social. Na etapa final, temos a chance de fazer o mesmo, mas por decreto pessoal. Quando a morte se muda para a casa ao lado, a obediência perde completamente o sentido.
Compartilho com você a herança que meu avô me deixou naquele dia, sem saber o que estava fazendo: liberte-se do tribunal da opinião alheia. Esqueça a multidão que habita o universo da camiseta para fora. Viva para quem existe da camiseta para dentro — sempre e em primeiro lugar. Do contrário, em vez de cruzar o pasto da vida cagando e andando, como as vacas, só conseguirá chorar o leite derramado.