Sala de meditação. Silêncio com grife de franquia — do tipo que faz questão de ser percebido. Um dos meditadores ultrapassa os sete véus de maya, as fronteiras do materialismo paraguaio e acaba diante de Krishna.
Seu nome é Anara. Não o nome de cartório. O outro. O nome que o guru lhe deu depois de concluir que o anterior não ajudava muito na iluminação.
Anara abre o terceiro olho. Com olheiras. Olhar de quem medita diariamente e, ainda assim, não consegue dormir direito.
— Lord Krishna, estou sofrendo.
— Já notei — diz Krishna. — Quem não está?
— Vivo dividido. Gosto da filosofia da não dualidade, do silêncio, da não mente, do não desejar. Mas também gosto do oposto. Das miudezas do mundo. Milhas aéreas, fofocas no WhatsApp, o ar-condicionado no 21, sobremesa gourmet no delivery. Entende? — diz Anara, piscando o terceiro olho.
— Entendo.
— Entende mesmo?
— Meu caro, eu sou uma divindade. Meu emprego consiste basicamente em administrar as contradições do algoritmo humano.
Anara solta um suspiro cósmico.
— E o que eu faço?
— Autoconhecimento.
— De novo isso?
Anara irrita-se. Krishna espera, com a paciência de quem já viu todos os memes da internet.
— Medito todos os dias há sete anos — continua Anara. — Sento naquela almofada de merda como quem cumpre pena. Observo a respiração, os pensamentos passando como no feed do Instagram, o observador observando o observador do observador. Quanto autoconhecimento uma pessoa precisa?
— Não é quanto autoconhecimento, é qual. Você já conhece tudo sobre o nada — autoconhecimento existencial. Mas não conhece nada sobre o tudo — autoconhecimento psicológico e pessoal. Entende?
— Não, nada.
— Me diga: como se conhece qualquer coisa hoje em dia?
Anara faz o impensável: pensa.
O que, para um meditador, é uma recaída.
— Navegando na internet.
— Vire o navegador em 180 graus: navegue em si mesmo.
— Mas se eu sou o vazio, como navegar no vazio?
— Aí é que está. Isso é saber tudo sobre o nada. Mas você não é apenas o Ser puro — só ser. Você é um ser humano. Precisa conhecer também o motorzinho que transforma o nada em tudo: sua natureza humana.
Anara franze o terceiro olho, desconfiado.
— Mas isso... isso não seria uma identificação com o ego? — pergunta Anara, já procurando o contato de Krishna no celular para deletá-lo.
É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein. E a situação piora quando o preconceito é o Ray-Ban do terceiro olho.
— Vamos fazer um trato — propõe Krishna. — Guarde a palavra "ego" no bolso das calças por cinco minutos. Junto com o iPhone.
— E depois?
— Depois você decide se quer levá-la para casa.
Anara obedece.
— Você é um ser humano, certo?
— Certo.
— E o que você sabe sobre isso?
— Sobre ser humano?
— Sim.
Anara abre a boca para responder.
Fecha.
Pensa.
Abre novamente.
Fecha de novo.
— Não sei.
— E sobre você, Anara?
— Também não sei.
— Exatamente.
Krishna sorri satisfeito.
— Você sofre porque é Anara.
— Não captei.
— Seu nome. Sabe o que significa?
— Não.
— Vem do sânscrito. "A" é o prefixo de negação. "Nara" significa humano. Você sofre porque ignora e nega sua humanidade. Você é A-Nara. Sem Humano.
A revelação do próprio nome golpeia Anara no plexo solar e esfarela os sete chakras.
Ele experimenta ali algo muito mais raro que um satori: a verdade nua, crua e difícil de engolir. Esperava que Krishna dissesse isto ou aquilo, mas ouviu isto e aquilo.
É muita coisa para processar. E pensar é coisa do ego. Melhor não.
Pensa Anara, colocando a mão no bolso.