A gênese humana é sanguínea.
No princípio era o sangue.
Caim sangrou Abel. Deus pediu para Abraão sangrar o próprio filho. Jesus tentou lançar o movimento hippie fora de época e foi mais sangrado que bife. Tem fila na igreja até hoje para beber o sangue dele.
Somos criaturas amotinadas com marretas.
Temos sede de destruição.
Queremos sangue.
Mas não podemos admitir nossa tara em público. Muito menos saciá-la. Leis civilizadas estão sempre prontas para sangrar os infratores.
O que fazer?
Sangue virtual.
Em vez de hemácias e glóbulos brancos, bytes e pixels. Não tem a mesma sinestesia, mas facilita a vida — ou melhor, a morte. Ninguém vai preso e podemos sangrar uns aos outros via internet. Se há sangue em alguma parte do mundo, podemos vê-lo, ouvi-lo, cortá-lo, espalhá-lo pela rede.
Eu sei, desconsiderei a compaixão humana.
Se ela existe mesmo, me perdoe.