Santo Antão queria ser santo. Para tanto, passou a vida dentro de uma caverna, jejuando e sendo atacado pelo demônio.
Quando Antão rezava, o demônio vinha lhe distrair. Quando Antão olhava para o crucifixo, ao invés de ver Cristo, o demônio fazia ele ver uma mulher nua. Quando Antão estava fazendo jejum, o demônio preparava um banquete com as mais deliciosas comidas.
Mas Antão foi fiel. Resistiu a tudo.
Quando Antão estava próximo de completar 105 anos, o demônio desistiu e disse:
— Você me venceu, Antão. Pela primeira vez encontrei um homem mais forte que eu.
O demônio virou as costas e começou a sair da caverna.
Antão caiu de joelhos e disse:
— Finalmente, senhor, me tornei um santo.
O demônio sorriu e voltou.
Tem pessoas que contam essa história dizendo que Antão resistiu a todas as tentações menos a vaidade. Não discordo, mas acho pouco. Usar a palavra vaidade como crime, bater o martelo e encerrar o assunto, é jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. Afinal, ser vaidoso da própria superação não é crime, nem faz mal a ninguém.
Para mim, o verdadeiro pecado de Santo Antão foi a outroestima.
Preciso explicar esse termo para que você me entenda.
Autoestima é quando seu valor próprio está baseado na sua própria atribuição — logo, independe da atribuição do outro. Outroestima é o oposto: é quando seu valor próprio está baseado na atribuição do outro.
Se considerar um péssimo jogador por atribuição própria é autoestima. Se considerar um ótimo jogador por atribuição do outro é outroestima.
Autoestima e outroestima não dizem respeito à qualidade da sua avaliação de valor. Dizem respeito à fonte da avaliação.
Quando a fonte é você mesmo, seja a qualidade ótima ou péssima, é auto-estima. Quando a fonte é o outro, seja a qualidade ótima ou péssima, é outroestima.
Quando digo que o pecado de Santo Antão foi outroestima, estou me referindo à fonte da sua estima. Ele não resistiu às tentações para vencer o demônio e provar sua determinação a si mesmo, mas para ter a benção de Deus, para receber o apreço divino.
Santo Antão passou 105 anos tentando comprar o amor de Deus.
Quando terminou o sexto episódio de Bebê Rena, depois que o protagonista confessou todos seus pecados chorando num palco de stand up comedy, eu pensei:
— Pronto, terminou. Por que será que tem um sétimo episódio?
A resposta era: porque o demônio da outroestima é muito mais traiçoeiro, ardiloso e sutil do que qualquer Santo Antão possa imaginar.