A maioria das pessoas são paus-mandados.
Tem a faca e o queijo na mão, mas não comem.
Por que não?
Porque não tem o principal: fome.
Paus-mandados são como velas: necessitam que uma mão alheia risque o fósforo e as acendam. Não produzem luz por motivação própria.
E a mão alheia é sempre a mesma: o dinheiro.
Sem o chicote do dinheiro estalando no lombo, um pau-mandado não produz nada.
Claro que a necessidade financeira é uma realidade para subsistência. Só que ser humano não é sobreviver, é sobre viver.
A fome do dinheiro não é por beleza, sensibilidade, sabedoria, alegria, verdade, etc. A fome do dinheiro é por mais dinheiro.
Dinheiro é um cachorro correndo atrás do rabo.
Agora vamos à minoria.
Quem são?
São os paus-empoderados.
Nunca viu? Nem nunca vai ver?
São um amontoado de desdentados. Sem nomes, sem roupas, sem instrumentos, sem dinheiro e, muitas vezes, sem técnica e competência.
A faca e o queijo são uma miragem para os paus-empoderados. Mas, em compensação, eles têm o que nenhum dinheiro é capaz de produzir: fome.
Tem uma música da Adriana Calcanhoto, chamada “Senhas”, que foi feita para os paus-empoderados. Diz assim: “Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”.
Competência pode ser desenvolvida. Basta treino.
Vocação não!
Vocação é fome.
É impossível desenvolver vocação.
Ou você tem, ou não tem.
E se não tem, não tem.
Vocação é quando você mesmo risca seus palitos de fósforos e acende sua vela.
O queijo e a faca são incapazes de inventar a fome. O efeito não pode produzir a causa. A criatura não pode produzir o criador.
A gênese não começa pelo fim, começa pelo começo.
E no princípio é (sempre) a fome.
Na adolescência, assisti a um filme de Sessão da Tarde chamado “O sentido da vida”. Nunca tinha pensado nisso antes. Os personagens eram adultos e estavam em crise de vocação. Eu nem sabia o que era vocação. Mas a pergunta me pegou.
Hoje sei o que é vocação e explico.
Muitos já explicaram antes de mim. Aristóteles usava o termo “eudaimonia”. Jesus chamou de “cristificação”. Jung chamou de “individuação”. Joseph Campbell chamou de “Siga sua benção” (vocação). Paulo Coelho chamou de seguir a lenda pessoal. Eu chamo de fome.
Seguir sua fome, em um mundo que faz de tudo pra você se satisfazer com o comercial de margarina, não é fácil. É soco, porrada e bomba. É apanhar e se levantar pra apanhar mais.
Vale a pena?
Na música “Havaiana De Pau”, tem um trecho que digo: “Se for entrar, vá até o fim, ou então, nem entre!”.
Eu entrei e aconselho entrar também.
Soco, porrada e bomba, dói.
Mas pior que sentir dor, é não sentir nada.
Viver uma vida não-vivida.