Várias pessoas chegam baleadas no hospital do seriado Anatomia de Grey. A médica chefe aparece e pergunta aos internos sobre os procedimentos já realizados. Uma das internas responde que aplicou cinco miligramas de morfina em um dos baleados. No mesmo instante, o paciente reage, impaciente:
— Não foi suficiente. Pode aplicar mais, porque ainda está doendo.
Quem quer dor, levanta a mão!
Ninguém?
E quem quer morfina?
Cada um tem a sua preferida. Há quem fume um cigarro. Há quem recorra ao álcool. Outros devoram chocolate. Há quem busque escape nos videogames, nas compras compulsivas de sapatos ou morando nas redes sociais.
Muda o nome da morfina, a função é a mesma — colocar alguma coisa entre você e a dor. Qualquer coisa. O que for. Desde que doa menos.
A grande ironia é que o sofrimento é o mestre da felicidade. Logo, fugir da dor é fugir da felicidade.
“Mas dói! Eu quero morfina! Quero alívio para dor! Não quero enfiar o dedo na ferida!”.
Eu entendo. E respeito.
A morfina existe por um bom motivo — ninguém aguenta tudo o tempo todo, e nem é isso que estou dizendo. Mas morfina não extrai a bala. Morfina só faz você esquecer, por algumas horas, que ela ainda está lá dentro.
Mas não existe atalho.
Então, por que continuar adiando a jornada dolorosa que existe justamente para levá-lo ao fim dessa dor?