Quando despertei, achei que havia me formado. Ensino superior do autoconhecimento. Diploma na mão. Pronto. Foi o sofrimento que me mandou de volta para a escola. Porque mesmo ciente da minha existência, continuava sofrendo feito criança mimada.
E pior: o sofrimento não diminuiu depois que despertei. Aumentou. Porque não tinha mais para onde correr. A consciência tinha fechado todas as saídas.
Restavam duas opções:
Abraçar o diabo. Ou continuar no inferno de viver fugindo dele.
Abracei o diabo.
O que veio depois não foi iluminação. Foi rendição.
E rendição, nesse caso, não foi metáfora. Começou com um chute no meio das pernas — chute mesmo, de karatê, o tipo que dobra os joelhos antes que a cabeça entenda o que aconteceu. Depois veio soco. Porrada. Bomba.
Tentei me levantar algumas vezes.
Não compensava.
Então comecei a andar de joelhos.
E foi de joelhos que aprendi o que nenhum despertar tinha me ensinado.
Que rendição não é derrota. É postura. É a única postura que o sofrimento aceita antes de começar a falar.
Quando o ciclo terminou, me levantei.
Diferente.
Hoje, quando o sofrimento vem, eu me ajoelho antes dele chegar. Não por humilhação. Por escolha. Sei o que acontece quando se resiste à lição — soco, porrada e bomba até dobrar de qualquer jeito.
Melhor dobrar logo. Melhor chegar já de ouvidos abertos.
Render-se a condição de aluno do sofrimento parece humilhação e fracasso aos olhos da ignorância PHD.
Mas é o único caminho.
Não para sofrer menos — para sofrer melhor.