Você se mata para limpar a casa.
Usa água, sabão, desinfetante com cheirinho de lavanda, escova de dente para limpar rejunte e uma motivação que daria inveja a coach de Instagram.
Mas por mais que tente, não consegue. A sujeira não sai. A bagunça continua. A poeira parece que brota do além.
Você não entende o porquê do fiasco, mas é teimoso.
Não baixa a guarda por nada.
Nada abala sua motivação.
Todo santo dia você acorda, amarra o avental e cai para dentro.
Um verdadeiro herói do rodo.
E vai nessa batida, fracassando com dignidade, até o dia de bater as botas.
Quando percebe que morreu, fica arrasado.
Pensa: "Poxa, passei a vida esfregando azulejo e a casa ainda tá uma imundície".
Dá aquela sensação de que você jogou seu tempo no lixo.
Muito suor para nenhum brilho.
Você abre o berreiro, inconsolável.
Nisso, aparece um anjo plantonista e vem puxar papo.
Pergunta qual é o drama e você desenrola a história toda.
O anjo dá um pulinho lá na tal residência e volta com uma cara de quem sabe de algo.
— Meu amigo, você deu uma bola fora daquelas — diz o anjo, quase rindo.
— O quê? — você reage — O sabão era vagabundo? A escova estava gasta? Errei a mão no detergente? Onde foi que eu pisei na bola?
— Você tentou limpar a casa errada! — solta o anjo.
— Como é que é? — você pergunta, sem acreditar.
— Aquela casa lá não é sua, criatura! É a casa do outro!
Moral da história: não faça a coisa certa no lugar errado.
A faxina mental é ótimo, mas a única casa que você consegue limpar é a sua.
O resto é invasão de domicílio.