No diálogo Hípias Maior, de Platão, Sócrates pergunta ao seu interlocutor:
— O que é o belo?
O diálogo termina sem resposta objetiva. Por quê? Porque beleza é significado. E significado é sempre pessoal, relativo, particular. Nunca objetivo.
Por mais estranho que pareça: não existe beleza no mundo. Só existe mundo.
Uma flor não é bela. Uma flor é uma flor. O canto do rouxinol não é bonito. O canto do rouxinol é o canto do rouxinol.
Os significados que você vê constantemente no mundo não estão no mundo — são projeções da sua mentalidade.
Pegue o celular. Ligue a câmera.
Tudo que você consegue fotografar está no mundo. É significante. Tudo que não consegue fotografar está dentro da sua cabeça. É significado.
Você considera Elvis Presley bonito?
Tente fotografar a beleza do Elvis. Impossível. Você só conseguirá fotografar o Elvis — porque beleza é significado, não significante.
Você considera errado roubar?
Tente fotografar o errado. Impossível. Você só conseguirá fotografar pessoas roubando — porque errado é significado, não significante.
Você considera chocolate gostoso?
Tente fotografar o gostoso. Impossível. Você só conseguirá fotografar o chocolate — porque gostoso é significado, não significante.
É por isso que pessoas diferentes têm significados diferentes no mesmo objeto. O significado não está no objeto. Está dentro da cabeça de cada um.
Entendido isso — tem mais uma camada. O significado que você projeta no mundo está intimamente ligado à cultura em que você foi criado.
Uma vaca, por exemplo.
Para um indiano: religião.
Para um brasileiro: churrasco.
Qual é o significado certo?
Nenhum.
Vaca não é religião. Vaca não é churrasco. Vaca é vaca.
Significado é projeção — cultural, pessoal, mental.
Projetar o significado da cultura em que você foi criado é natural. Inevitável. Não tem nenhum mal nisso. O mal viver começa quando você ignora que é projeção.
Quando você acredita que o significado que está projetando está objetivamente no mundo — e que portanto todas as pessoas deveriam ver o mesmo que você. O outro comete o mesmo equívoco do lado dele. Resultado: mal viver. Conversa de surdo-mudo.
O filme Silêncio mostra isso com precisão.
Para os portugueses — criados numa cultura cristã — a cruz é sagrada. Para os japoneses — criados numa cultura budista — a cruz é um problema.
A cruz é sagrada ou problema?
Nem uma coisa nem outra. A cruz é cruz.
Tente fotografar o sagrado e o problema na cruz.
Impossível. Você só conseguirá fotografar uma cruz — porque sagrado e problema são significados, não significantes.