Naquela sala saturada de poeira, fumaça de cachimbo e volumes encadernados em couro, um jovem de olhar febril busca uma fresta de luz na sabedoria de Schopenhauer.
— Qual é a decisão mais sábia que um homem pode tomar na vida? — o jovem pergunta.
Com o peso de quem já esgotou os mapas da existência, o filósofo responde, seco:
— Já não tomou.
— Como assim?
— A decisão mais sábia que um homem pode tomar, ele já não tomou — replica o filósofo.
O rapaz mergulha dentro da própria mente, atordoado pela resposta enigmática. Não encontrando lógica na declaração ouvida, pergunta:
— Que decisão é essa?
— Não nascer.
— A decisão mais sábia que um homem pode tomar é não nascer? É isso que está me dizendo?
— Sim, exatamente.
— E por que diz isso?
— Porque, ao nascer, o homem se condena ao inevitável sofrimento de viver. Pense na sua vida. Toda a dor que você já atravessou e que ainda atravessará deriva unicamente desse primeiro passo, não é mesmo?
Milênios antes dele, Sidarta Gautama — o Buda —, após atingir a iluminação, inaugurou seus ensinamentos com as Quatro Nobres Verdades. A primeira delas, despida de eufemismos, resumia-se a isto: nasceu, fodeu. Sidarta não utilizou esse vernáculo exato, devidamente atualizado para o século XXI, mas foi precisamente o que quis dizer.
O interlocutor, frustrado pelo pessimismo cortante da resposta, mas agarrado a uma esperança teimosa como amor de mãe, insiste:
— Mas, filósofo, dado que já cometi o erro de nascer, qual é a decisão mais sábia que posso tomar agora?
Schopenhauer liga o rádio. Gira o dial devagar. A primeira estação cospe uma música de sofrência. A segunda repete o mesmo lamento. A terceira, sem surpresa, insiste no mesmo acorde doloroso. Música após música, sem trégua ou exceção, o aparelho apenas sintoniza a sofrência em looping. Então, desliga-o e encara o jovem:
— Entendeu a resposta?
— Não — admite seu interlocutor.
Schopenhauer explica, com a lucidez fria de uma lâmpada fluorescente:
— A melhor decisão para um homem já nascido também pertence ao reino do impossível.
— Por quê?
— Porque a única decisão que anularia o sofrimento seria não amar. Mas essa decisão não existe.
— Por que anularia o sofrimento? — A pergunta sai fraca, quase um sussurro de quem preferia não tê-la feito.
— Porque amar é a premissa sine qua non do amor frustrado, ou seja, do sofrimento. Mas é impossível não amar. Amar não é uma escolha, é uma incontinência. O amor brota no peito com a mesma falta de educação com que a fome rasga as vísceras. Logo, ao nascer, o homem está condenado a amar e, consequentemente, condenado a sofrer.
Possuído pela esperança cega dos ingênuos, e mesmo golpeado pela lógica implacável do filósofo, o rapaz insiste, buscando uma fresta no muro da própria prisão:
— Qual é a decisão mais sábia que um homem pode tomar, uma vez que já nasceu e descobriu-se incapaz de não amar?
Schopenhauer não responde.
Caminha até a estante com a calma de quem se rendeu à inevitabilidade do sofrimento. Desliza os dedos sobre uma pilha de discos como quem folheia a Bíblia. Para de repente. E pinça um deles. Coloca-o no toca-discos e deixa a agulha encontrar as ranhuras do vinil.
Enquanto a voz de Lara Fabian inunda a sala, Schopenhauer abre uma garrafa de Chartreuse. Serve uma dose para si e outra para o visitante. O ritual se repete: outra rodada, mais uma, e mais outra, até os versos de "Je Suis Malade" serem cantados por ambos a plenos pulmões.
Quando a música termina, com os olhos turvos de álcool e ironia, Schopenhauer pede que o jovem repita sua última pergunta. O jovem repete:
— Qual é a decisão mais sábia que um homem pode tomar, uma vez que já nasceu e descobriu-se incapaz de não amar?
Schopenhauer responde:
— Conhece o mito de Sísifo?