Há no prédio da Avenida Marechal Dumas, em Morro Alto, um sujeito que sofre de uma patologia muito comum, mas pouco diagnosticada: síndrome de deus.
Não Deus de tudo. Ditador da porra toda. Apenas da vida dos erráticos moradores do vigésimo andar.
O sujeito se chama Sísifo. Não tem um título, uma escritura ou sequer um apartamento. Ele mora no corredor, entre o extintor de incêndio e o elevador de serviço.
Dali, exerce sua micro-onipotência sobre os moradores legítimos, aqueles que pagam condomínio e têm chave, mas que, na prática, são meros súditos.
Ele fiscaliza o teor das sacolas de compras, os pensamentos e o hálito de quem chega depois da meia-noite.
É o legislador, o juiz e o executor de uma jurisdição de trinta metros quadrados de carpete desbotado.
Nesse cenário…
Eis que um sujeito distraído erra o andar.
Desembarca no território de Sísifo.
Antes mesmo da porta do elevador terminar o seu "plim", Sísifo já está em cima, com o dedo em riste e o cenho franzido.
— Onde pensa que vai? — dispara.
— Desculpe, eu... que andar é este? — balbucia o intruso.
— O Vigésimo. Mas não um vigésimo qualquer. O meu Vigésimo. Aqui as coisas têm ordem. Aqui se obedece. Eu decido quem sobe, quem desce e quem respira.
O intruso, que tem aquele pragmatismo irritante das pessoas normais, olha ao redor. Vê apenas um homem num pijama gasto, policiando vidas que não são suas.
— E o senhor é o quê? Síndico? — pergunta o intruso.
— Sou o dono da porra toda aqui. Há trinta anos mantenho todos sob controle. Vinte e quatro horas por dia de vigilância sanitária, moral e civil. Não tiro férias. Se me afasto cinco minutos, o vigésimo andar vira uma Sodoma de vidas e tapetes fora de esquadro.
O intruso caminha até a janela do corredor.
Aponta para a linda cidade de Morro Alto.
Cheia de luzes, bares, museus e vidas acontecendo sem nenhum tipo de autorização prévia de Sísifo.
— Já foi naquela churrascaria da esquina? — quis saber o visitante.
— Não tenho tempo — respondeu Sísifo, seco.
— Conhece o cinema novo do shopping?
— Nunca ouvi falar.
— Já atravessou o parque?
— Que parque?
— Tomou um chope na calçada?
— Não, mesmo.
— Conhece alguém que não more no vigésimo andar?
— Meu filho, você não entende a responsabilidade de ser o dono da porra toda — explicou Sísifo, com um ar de mártir. — Para eu mandar aqui, o mundo lá fora não pode existir. O Vigésimo é um emprego de tempo integral.
O intruso aperta o botão do elevador.
Mas antes de entrar, lança a dúvida braba:
— Se você só tem tempo para cuidar da vida alheia, você é dono delas ou é escravo?
A porta fecha.
Sísifo anda até o meio do corredor.
Olha pela fechadura da porta.
Confere como estão os moradores do apto 2012.
Endireita um quadro na parede.
Ele é o deus do vigésimo andar.