Essa é minha cena preferida do seriado Adolescente. Quando assisti pela primeira vez, a viagem da câmera com essa musica quase arrancou meu coração.
Que espetáculo! É quando a arte atinge aquele estado de graça e nos desarma.
Mas porque me sensibilizou tanto? Porque as crianças cantando me lembram anjos chorando. Olhando para a miséria humana e nos perguntando: "Até quando?".
A letra bate na costela. Não é poesia, é curativo arrancado a seco.
Lembrei na hora daquele famoso lance do Pelé, na Copa de 70.
A bola mansa no círculo central, ele olha, percebe o goleiro adiantado e emenda de primeira, por cobertura. A bola viajou um século, raspou o poste e saiu. Não foi gol, mas ficou para a história.
E ficou também a frase do locutor no rádio: "Se faz esse gol, sai todo mundo do estádio, volta e paga o ingresso de novo."
Se a mim coubesse o microfone desse imenso estádio onde a humanidade desajeitada tenta conviver, após essa cena do seriado Adolescente, com esse coro de anjos, eu diria: “Sai todo mundo de si, chora a miséria humana até desidratar a alma, volta e começa tudo de novo".
Só que não. Ninguém chora. Ninguém percebe que aquilo na tela é um espelho escancarado na parede da sala. Achamos que é ficção.