Eu amo açaí.
Desde o primeiro encontro, numa lanchonete. Foi inevitável.
Por que estou te contando isso? Porque meu amor pelo açaí vai te explicar algo sobre todo amor que você já sentiu.
Meu amor pelo açaí é platônico.
Começa em mim. Termina em mim. O açaí não me ama de volta — e você há de concordar comigo nisso. Já pensei em ameaçá-lo de abandono. O açaí não ligou. Tanto faz para ele. E eu sei que não vou abandoná-lo. E o açaí, ingrato, também sabe.
Continuo amando esse ingrato.
Achou graça no meu amor platônico pelo açaí?
Pois saiba: todo amor é platônico.
Todo amor começa em você e termina em você. O açaí estimula algo que está em mim — o prazer de comer açaí. Esse prazer não está no açaí. Está em mim. O açaí é só o gatilho.
Amor é desejo. Desejo é atração. Você ama coisas, situações e pessoas por conta própria — independentemente se a coisa, a situação ou a pessoa ama de volta.
Isso é amor platônico.
Seu amor pelas pessoas também é platônico.
E o amor delas por você, também.
Mas você só se permite amar quem te ama de volta — como se o amor dependesse de reciprocidade para existir. Por isso fica confuso. Por isso sofre. Por isso chama de desamor o que é apenas amor não correspondido.
O má convivência acontece por uma razão simples:
Ninguém percebe que o amor é platônico.
Presos na ilusão da reciprocidade, as pessoas se unem para mútua satisfação — e se odeiam quando a reciprocidade acaba. Como se o outro tivesse quebrado um contrato. Como se amar de volta fosse obrigação.
Não é. Nunca foi.
O açaí nunca me amou. Eu nunca deixei de amar o açaí por isso.