Ciência Do Óbvio
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Maria é uma cientista e a especialidade dela são as cores.
Ela sabe tudo que tem que saber sobre as cores. O comprimento da onda, os efeitos neurológicos, toda e qualquer propriedade que as cores podem ter.
Mas ela mora num quarto preto e branco. Ela nasceu lá e foi educada lá. E ela só consegue observar o mundo exterior num monitor preto e branco.
Até que um dia alguém abre a porta.
Maria sai andando. E vê o céu azul.
Naquele momento ela aprende uma coisa que todo estudo dela não pode explicar. Ela aprende o que é ver as cores.
Você é a Maria no quarto preto e branco.
Esse livro abre a porta.
O trabalho da 1ficina é explicar o óbvio sobre ser humano.
Mas a explicação do óbvio não é o óbvio.
Aliás, óbvio é inexplicável.
Como explicar a amarelidade do amarelo?
Impossível. E mais: desnecessário.
Amarelo é obviamente e inexplicavelmente amarelo.
Para explicar a amarelidade do amarelo, basta apontar para o amarelo. O olhar olha e vê. Pronto. A amarelidade do amarelo está explicada sem explicação.
Está evidente, está explícita, está óbvia.
Explicar o óbvio é como explicar cor para cego: inútil e impossível.
E por que a 1ficina se dispõe a isso?
Porque você, leitor, não é cego. Apenas está dormindo. Você pode abrir os olhos e sair da ignorância sobre ser humano.
O trabalho da 1ficina é te ajudar nesse despertar.
Mas para tanto, não leia este livro, nem qualquer outro da 1ficina, tentando aprender.
Leia tentando despertar.
Explicações são placas.
Não olhe para as placas. Olhe para onde elas apontam.
As explicações da 1ficina apontam para você.
Olhe para si.
Uma coisa é somar coisas, como uma laranja e um abacate. Outra coisa é somar fantasmas, como xis mais ípsilon.
O resultado da soma de xis mais ípsilon é tão fantasmagórico quanto xis e ípsilon.
Esse é o problema de equacionar conceitos sem ter ciência do que se está equacionando.
Saber a explicação não é estar ciente do que está sendo explicado. É apenas saber a explicação.
Explicações são meu-bem meu-mal na prática do autoconhecimento. São mapas para ajudar no despertar da consciência.
Só que o mapa não é o território.
Por isso, quanto mais você soma, divide e multiplica conceitos, mais afunda na matemática de fantasmas.
E menos entende.
Explicações são placas que apontam para alguma obviedade. Não são a obviedade em si.
Explicações sobre o que é ser humano são placas que apontam para você. Mas você não é uma explicação.
Você é obviamente você.
É um absurdo que existam explicações sobre o que é ser humano, já que você é um ser humano.
Mas existem. Por quê?
Porque você não é óbvio para si.
Seu autoconhecimento não é produto de evidenciação. É produto de aprendizagem, educação, cultura.
Seu autoconhecimento é um amontoado de blábláblá e decoreba.
Viver é colocar o autoconhecimento à prova.
Não funciona copiar e colar nessa prova.
Por isso você vive mal.
Crenças são explicações que nascem da ignorância e só sobrevivem na ignorância.
Você só acredita quando ignora.
Quando é óbvio, acreditar é impossível, pois a própria evidenciação é a explicação.
Quando você é criança, por exemplo, ignora como nasceu.
Então pergunta sobre seu nascimento a alguém que, segundo sua memória, já existia antes de você existir.
Você pergunta aos seus pais: Como eu nasci?
Seus pais decidem que não é apropriado lhe apresentar ao óbvio ainda e respondem: Uma cegonha trouxe você.
Para reforçar essa crença, mostram uma linda ilustração.
Você acredita por ignorar o óbvio.
Passado algum tempo, se você é homem, introduz o óbvio em sua parceira. Se é mulher, o óbvio é introduzido em você.
Nove meses de gestação.
Nasce seu filho.
Morre a crença na cegonha.
Verdade é o que você acredita ser verdadeiro.
Mas o que você acredita ser verdadeiro não é demonstrável. Logo, não é comprovável. Por isso você não consegue convencer o outro de verdade alguma.
Vamos supor que você acredite que Elvis Presley é lindo.
Como você pode demonstrar isso?
Como o outro pode comprovar?
Impossível.
"Elvis Presley é lindo" mora dentro da sua crença. Ninguém tem como comprovar isso.
Só o óbvio é demonstrável, comprovável e dispensa argumentos.
Quando alguém não sabe que fogo queima, por exemplo, você não precisa argumentar. Basta riscar um fósforo e pedir para a pessoa colocar a mão no fogo.
Óbvio não precisa de advogado de defesa. Só verdade precisa de convencimento. Porém, não sendo óbvia, jamais convence.
Por isso, briga é sempre pela verdade.
Nunca pelo óbvio.
Quer parar de acreditar e começar a saber?
Então desista de buscar respostas e se torne um fabricante de perguntas.
Questione toda e qualquer resposta que tiver, alheia ou própria.
Não se preocupe com respostas.
Se ocupe em exercitar a inteligência.
Uma vez que você formule a pergunta, a resposta surgirá inevitavelmente.
Pois a resposta é sempre a mesma: você.
Resposta é cartão postal de onde você irá chegar quando conseguir formular a pergunta.
Ao invés de colecionar cartões postais, trilhe o caminho das perguntas.
Até porque, só tem uma pergunta a ser feita.
Sabe qual?
Se não sabe, comece a se perguntar agora mesmo.
Parte do trabalho de um guru é apontar para o seu cu, para sua ferida, para seu equívoco, para a causa do seu sofrimento.
Mas se seu guru não for humano igual você, se não tiver cu igual você, que competência ele tem para falar do cu seu?
Daí fica igual padre dando conselho de casamento.
Minha sugestão é que você levante a batina do seu guru e confira a humanidade dele. Se ele tiver cu igual você, se for humano: ponto para ele.
Mas não pare sua investigação no primeiro cu.
Guru que é guru tem dois cus.
O primeiro cu é o que faz dele humano igual você.
O segundo cu é o que faz dele guru: iniciativa em ser o primeiro a colocar o cu na reta (ser praticante do que professa).
Afinal, não é preciso maestria para falar do cu filosófico, nem do cu alheio.
Se você tiver um guru, investigue debaixo da batina dele.
Se não tiver dois cus, tenha você: desista dele!
Muito já foi dito sobre ser humano.
Muito muito muito mesmo.
Então, recorrentemente, pessoas que já leram muito sobre o assunto, ao perceberem que explico diferente, e muitas vezes até o oposto do que leram, vêm me questionar:
"Ah, mas fulano fala isso, ciclano fala aquilo, beltrano fala grilo e crocodilo." Eu pergunto:
— Sabe por que eles falam isso?
Meu interlocutor responde:
— Não, por quê?
E fica aguardando a resposta, crente que vou explicar o motivo dos mestres e gurus falarem o que falam.
Mas o que os outros falam não é problema meu.
E tem infinitos motivos para uma pessoa defender um equívoco: raiva, orgulho, fidelidade à tradição, medo, ignorância, etc. Não tenho como saber.
E não preciso saber. É irrelevante.
Então, respondo:
— Eles falam isso porque têm boca!
Não importa por que alguém fala o que fala.
E também não importa o tamanho da fama e da graduação de quem está falando.
Quem tem boca fala o que quer.
Mas quem experimenta na pele o resultado de tudo que você acredita é você.
Então o que importa é por que você acredita no que está sendo dito sem comprovar por si mesmo.
Não seja crente, seja autocientista.
Comprove por si mesmo.
E deixe que digam, que pensem, que falem.
Autoconhecimento não se aprende, se desperta.
Para produzir autoconhecimento, o aluno precisa praticar autociência e colocar à prova as explicações recebidas.
Mas quando o aluno recebe uma explicação, ele tem duas reações:
A) AMÉM! — Idolatria — O aluno acredita nas explicações ao invés de colocá-las à prova.
B) AH! NEM! — Antipatia — O aluno renega as explicações ao invés de colocá-las à prova.
Tanto a opção A quanto a opção B impedem o autoconhecimento.
Existem dois tipos de perguntas:
Pergunta de explicação
Pergunta de sim ou não
Pergunta de explicação é quando você NÃO SABE e pergunta para receber uma explicação que te ajude a descobrir.
Pergunta de sim ou não é quando você PENSA QUE SABE — tem uma crença — e está buscando confirmação para sua crença em alguém que você considera uma autoridade: um professor, um guru, um Phd, etc.
Teve uma época que não respondia pergunta de sim ou não.
Me recusava a responder.
Depois, mudei de pedagogia.
Achei mais útil responder assim:
Se responder que sim, você acredita?
Se responder que não, você acredita?
Fiz isso para os alunos perceberem que estavam praticando acreditação ao invés de ciência do óbvio.
Se você quer ser um autocientista, nunca, jamais, em hipótese alguma, faça perguntas de sim ou não.
Nunca, jamais, em hipótese alguma, busque confirmação para suas crenças no outro.
Seja sua própria autoridade.
Quem é você para confiar em si?
Quem é você para confiar em seu sentimento, sensibilidade, autoridade e juízo!?
Que absurdo! Pirou?
Para viver bem, você precisa do aval do Dalai Lama, do Buda, de Jesus, do Papa, do Xamã Pena Branca, do Einstein, do Stephen Hawking, da NASA, do Freud, do Jung, do Allan Kardec, do teorema de Pitágoras, do Guru da Baba Azul e, principalmente, do Elvisleno, o camelô, filho do Elvis Presley com o John Lennon, que vende relógio suíço na rua 25 de Março, em São Paulo.
Quer algo em que confiar?
Confie no horóscopo, na propaganda política, no facebook, na previsão das cartomantes, nos comerciais de margarina, na novela das oito que começa às nove, nos filmes do Chuck Norris e nas revistas de fofocas.
Confie em qualquer coisa.
Confie na fada do dente.
Confie nas fitinhas do Senhor do Bonfim.
Confie em São Longuinho.
Só não cometa a insanidade de confiar em si mesmo.
Jamais!
Quem avisa amigo é!
Confie em mim.
A explicação do óbvio não lhe dá nada.
Nem há nada para ser dado.
Você já é você. Sempre é. Nunca deixa de ser.
A explicação do óbvio explica o que você é, mas não está percebendo. Isso incomoda. Causa revolta.
É uma afronta à sua inteligência.
— Como óbvio! Se fosse óbvio, eu saberia! — você pensa.
Saber é da sua natureza. Então, quando você fica sabendo que não sabe, sua inteligência se revolta.
Um dos propósitos da explicação do óbvio é esse: incomodar sua inteligência para retirá-la da inércia.
A ostra produz a pérola para solucionar um incômodo.
O processo começa quando um grão de areia consegue entrar dentro da ostra.
O grão irrita a mucosa da ostra.
Para solucionar o incômodo, a ostra envolve o grão de areia com camadas concêntricas de madrepérola. Essa substância cristaliza-se formando uma esfera ao redor do problema:
A pérola.
O mesmo acontece com você.
Sua inteligência é a ostra e as explicações do óbvio são grãos de areia que irritam sua inteligência.
Para resolver a irritação, você precisa sair da inércia consciencial (ignorância) e investigar o assunto.
Como o assunto é você, o resultado é uma eurékola:
Autoconhecimento.
O método científico para produção de conhecimento começa e termina na observação.
Mas observação é sempre do outro.
Por isso não serve para produção de autoconhecimento.
O método para produção de autoconhecimento é a auto-observação.
Observação produz conhecimento.
Auto-observação produz autoconhecimento.
Ser humano é três em um:
Você existencial (ser)
Você psicológico (humano)
Você pessoal (fulano)
Então, existem 3 tipos de autoconhecimento:
Autoconhecimento existencial (ser)
Autoconhecimento psicológico (humano)
Autoconhecimento pessoal (fulano)
O que é existir?
Essa é a pergunta a ser respondida na prática do autoconhecimento existencial.
Você deve observar sua existência até descobrir o que é existir.
Quando você descobre, você tem um despertar existencial.
Despertar existencial é instantâneo.
Você desperta para sua existência e pronto.
Fim. Acabou.
Como eu funciono?
Essa é a pergunta a ser respondida na prática do autoconhecimento psicológico.
Despertar psicológico é gradual e lento.
Mas você pode acelerar seu despertar psicológico estudando conteúdos de psicologia.
Quem sou eu?
Essa é a pergunta a ser respondida na prática de auto-observação pessoal.
Você descobre isso observando sua personalidade.
Uma tartaruga marinha subiu na borda de um poço e viu um sapo morando lá dentro.
A tartaruga perguntou ao sapo:
— Há quanto tempo você mora aí embaixo?
— Eu nasci aqui e sempre morei aqui — respondeu o sapo. — E você? Onde você mora?
— Eu moro no oceano — respondeu a tartaruga.
— Oceano! O que é isso? — perguntou o sapo.
— É um lugar cheio de água — explicou a tartaruga.
— Cheio de água igual esse poço? — perguntou o sapo.
— Não, tem muito mais água que esse poço — explicou a tartaruga.
— Quanto mais? Dez vezes mais? — perguntou o sapo.
— Não, muito mais — explicou a tartaruga.
— Quanto mais? Cem vezes mais? — perguntou o sapo.
— Não, muito mais — explicou a tartaruga.
— Quanto mais? Mil vezes mais? — perguntou o sapo.
— Não, muito mais — explicou a tartaruga.
— Quanto mais? Um milhão de vezes mais? — perguntou o sapo.
— Não, muito mais — explicou a tartaruga.
— Quanto mais? Um bilhão de vezes mais? — perguntou o sapo.
Diante da persistência do sapo, e da impossibilidade de explicar o tamanho do oceano usando um poço como base de comparação, a tartaruga teve uma ideia.
Ela jogou uma corda e ajudou o sapo a sair do poço.
Depois levou o sapo para ver o oceano.
E finalmente o sapo entendeu por que não entendia.
Você é o sapo.
Tudo que você estudou sobre autoconhecimento são teorias sobre um oceano que você nunca viu.
A 1ficina é a tartaruga.
As explicações da 1ficina são uma corda para lhe ajudar a sair da ignorância.
O oceano é o autoconhecimento.
Escalar a corda é praticar autociência.
Por que você busca autoconhecimento em gurus, escolas, filosofias, livros, vídeos, baralhos e biscoitos da sorte ao invés de buscar em si e por si?
O que você quer com isso?
Você quer gozar com o pau dos outros.
Buda disse Om, Jesus disse Amor, Einstein disse que é relativo, Sócrates perguntou, Freud explicou, Descartes duvidou, etc.
E assim você segue copiando e colando sabedoria, porém, jamais sabendo.
Não adianta acreditar que fogo queima, você precisa colocar a mão no fogo para saber.
O mesmo com autoconhecimento.
Você deve se estudar para saber de si e não estudar o que dizem sobre você.
Acreditar não é saber – é copiar e colar.
Um fazendeiro estava caminhando por sua fazenda quando encontrou um filhote de passarinho caído no chão.
Ele procurou o ninho de onde o passarinho havia caído, mas não encontrou.
Para que o passarinho não morresse de fome, o fazendeiro o colocou para viver no galinheiro, junto com as galinhas.
Três anos depois, o fazendeiro recebeu a visita de um amigo especialista em pássaros.
Enquanto passeavam pela fazenda, o amigo viu o passarinho no galinheiro e disse:
— Esse pássaro não é uma galinha, é uma águia.
O fazendeiro, que já tinha percebido isso com o crescimento do pássaro, respondeu:
— Sim, é uma águia, mas foi criada como galinha. Ela acredita que é galinha, então não é mais águia.
— Águia é águia — retrucou o amigo. — Vou fazer ela voar!
— Não vai conseguir — insistiu o fazendeiro. — Ela acredita que é galinha, então jamais voará como águia.
O amigo propôs um teste.
Subiu com a águia até o telhado, ergueu-a bem alto e disse:
— Você é uma águia! Abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do amigo como se fosse um poleiro.
Olhou para baixo, viu as galinhas ciscando e foi para junto delas para ciscar também.
— Eu avisei! — disse o fazendeiro. — Ela virou galinha.
— Faremos outro teste amanhã — disse o amigo.
No dia seguinte, o fazendeiro e seu amigo pegaram a águia e a levaram para a beira de um abismo no topo de uma montanha.
O amigo pegou a águia e a jogou no abismo.
A águia saiu voando.
A águia é você.
A galinha é tudo que você pensa que sabe.
O abismo é a prática da autociência.
Para sair do poleiro da crença e voar pelo autoconhecimento: pule no abismo.
A explicação do óbvio não é o óbvio, é uma ponte até o óbvio.
Para ficar óbvio, você precisa atravessar a ponte.
Boa travessia!