Você é memória

15/09/2021 by in category Capitulos, Pensamento no divã, Textos tagged as , , , , with 0 and 0

A escritora Adélia Prado, em um texto intitulado “O que a memória ama, fica eterno”, diz o seguinte:“Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano. É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo. O tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos, mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.”

Nesse texto, Adélia Prado nos faz lembrar da importância da memória na experiência humana. Só que a memória é mais do que importante, é fundamental. Tudo que você pensa é baseado em suas memórias. Tudo que você faz é baseado em suas memórias. Sem memória você é como um bebê recém nascido, só consegue mijar e cagar. Memória é tudo. Então, tudo que você pensa, faz e que resulta em mal viver, também tem origem em suas memórias. Por isso é fundamental voltar às memórias da infância e analisá-las para que você possa se libertar de padrões de comportamentos nocivos. É na infância que estão assentados os primeiros tijolos dos seus padrões de comportamentos atuais. Ao ficar consciente dos primeiros tijolos, você reconhece todos os tijolos subsequentes, você reconhece a casa inteira de comportamentos nocivos. Só que raramente você se dá ao trabalho de voltar ao passado para descobrir o alicerce dos seus comportamentos nocivos. Até porque, mais raramente ainda, você tem consciência do papel central da memória na sua experiência pessoal.

O filme, Para Sempre Alice, faz brotar essa consciência mostrando o processo de perda da memória da protagonista Alice, que adquire Mal de Alzheimer. Alice se esquece das memórias que tinha, para que você, espectador, se lembre das que ainda tem, mas desconsidera. Considere! Você é sua memória.

© 2023 • 1FICINA • Marcelo Ferrari