Você cita alguns autores em seus textos. Você ainda estuda? Você ainda se interessa pelo que outros autores estão ensinando ou já passou dessa fase e apenas observa?

20/11/2020 by in category Perguntas tagged as , with 0 and 0

Sim, eu ainda estudo. Professor que não estuda está na profissão errada. Professor é um aluno que transformou ser aluno em profissão. Vida de professor é aprender, não é ensinar. Professor ensina porque ensinando aprende cada vez mais sobre o que ama estudar. Dito isso, se tratando de autoconhecimento, estudar outros autores pode ser um problema em vez de um solução. E por que? Porque para produzir autoconhecimento o livro que você deve ler é você mesmo, é sua própria natureza humana, e você não está em livro nenhum, você está em você.

Se você ler e estudar todos os livros de filosofia, todos os livros de psicologia, todos os livros de religião, mas nunca praticar autoobservação e ler a si mesmo, você só terá um monte de teorias que irão conflitar umas com as outras e lhe assombrar feito fantasmas. Já vivi assim. O que as tradições religiosas diziam, conflitavam umas com as outras que conflitavam com as tradições filosóficas, que também conflitam umas com as outras, que conflitavam com as tradições psicológicas e assim por diante. Era um inferno viver nesse constante conflito mental de teorias sem nenhuma clareza própria.

Então queimei todos os livros, todos os discursos, todas as tradições e fiquei só com a prática da autoobservação. Só! Decidi que enquanto não produzisse meu próprio autoconhecimento através da autoobservação não ir dar ouvidos a nenhuma teoria. E hoje vejo que minha decisão foi ótima. Finalmente comecei a produzir meu próprio autoconhecimento. E continuo produzindo até hoje. O que é ser humano e como funciona a natureza humana não é mais teoria para mim, é óbvio.

Porém, não sou o único ser humano que praticou autoobservação, que produziu autoconhecimento e escreveu a respeito do que descobriu. Tem muitos outros. Freud, Jung e Lacan são três exemplos disso na psicologia. Gosto de ler o que outros autores escreveram a respeito de ser humano para saber se observaram o mesmo que eu. Algumas vezes descubro que sim. Outras vezes descubro que não. E ainda, outras vezes, descubro que observaram parcialmente.

É trabalhoso traduzir o dicionário mental de um autor para o nosso próprio. Demorei um bom tempo até traduzir pro meu próprio dicionário os conceitos freudianos de id, ego e superego, por exemplo. Mas valeu o esforço, pois retirado o obstáculo semântico, toda a lógica mental do Freud se abriu para mim. E mais! Como a psicologia acadêmica e os acadêmicos falam quase que única e exclusivamente a linguagem psicanalítica (freudiana), isso facilitou minha comunicação com a academia e os acadêmicos.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari