VIVER BEM NÃO É VIDA BOA

15/11/2020 by in category Textos tagged as , , with 0 and 0

Muitas frases da 1ficina tem a palavra “não” no meio. Isso acontece porque muitas e muitas vezes você está equivocado e o primeiro passo para desfazer um equívoco é receber a explicação de que o que você está acreditando não é correto.

“Liberdade não é livre-arbítrio” é uma dessas frases e um desses casos. Todo aluno que chega na 1ficina, chega acreditando que liberdade é sinônimo de livre-arbítrio. Então, para começar a esclarecer esse equívoco, uso a frase “liberdade não é livre-arbítrio”.

Como são muitos equívocos, são muitas frases dizendo que isso não é aquilo. Outro equívoco clássico é a crença de que viver bem é sinônimo de felicidade. Demora até sair desse equívoco.

Viver bem independe da felicidade. Felicidade e sofrimento são estados emocionais que oscilam independente do arbítrio do indivíduo. Viver bem é lidar bem com essa oscilação. Ou seja, viver bem é lidar bem com a vida quando está boa (felicidade) e quando está ruim (sofrimento). Isso sim é opcional e só depende do indivíduo. E para expressar esse equívoco, uso uma frase que diz: “viver bem não é vida boa”.

Johnny Cash tem uma música que expressa a trajetória de uma pessoa que vivia nesse segundo equívoco e que despertou para o equívoco. A letra da música dele conta toda a saga da pessoa. Diz assim:

Meu pai saiu de casa quando eu tinha 3 anos,
E ele não deixou muita coisa para mamãe e nem pra mim,
Só este velho violão e uma garrafa vazia de bebida.

Eu não o culpo porque ele fugiu e se escondeu,
Mas a coisa mais malvada que ele já fez,
Foi que antes de partir me deu o nome de Sue.

Bem, ele deve ter achado que era uma piada e tanto,
E isso rendeu muitas risadas de um monte de gente,
Parecia que eu teria que lutar a minha vida Inteira.

Alguma namorada poderia rir e eu ficava vermelho,
E algum cara riria e eu quebraria a cabeça dele,
Eu lhe digo, a vida não é fácil para um garoto chamado Sue.

Eu cresci rápido e cresci malvado,
Meus punhos duros, e meus movimentos mordazes,
Eu vaguei de cidade em cidade para esconder minha vergonha.

Mas eu me fiz jurar pra lua e pras estrelas,
Que procuraria nos bordéis e bares,
E mataria o cara que me deu aquele nome horrível.

Era Gatlandburg em meados de junho,
Mal cheguei à cidade, minha garganta estava seca,
Pensei: eu vou parar e tomar uma bebida.

Num velho saloon numa rua de lama,
Ali estava numa mesa sentado apostando,
O cão imundo e sarnento que me chamou de Sue.

Sabia que aquela cobra era meu doce papai,
Por uma uma foto velha que minha mãe tinha,
E eu conhecia aquela cicatriz no rosto e seus olhos maus.

Ele era grande e curvado, e grisalho e velho,
E eu olhei pra ele e meu sangue gelou, e eu disse,
“Meu nome é Sue! Como vai? Agora você Morrerá!”
Sim, isto foi o que eu disse a ele.

Bem, eu o acertei forte no meio dos olhos,
E ele caiu, mas para minha surpresa,
Veio com uma faca e cortou fora um pedaço da minha orelha.

Eu quebrei uma cadeira direto em seus dentes,
E nós quebramos a parede e saímos pra rua,
Chutando e socando na lama no sangue e na cerveja.

Eu lhe digo que já lutei com homens mais fortes,
Mas realmente não consigo lembrar quando,
Ele chutava como uma mula e mordia como um crocodilo.

Eu o ouvi rindo, e o ouvi tossindo,
Ele pegou sua arma, mas eu peguei a minha primeiro,
Ele ficou lá olhando para mim, e eu o vi sorrir.

Então ele disse, “Filho, este mundo é cruel,
E se um homem quer sobreviver tem que ser durão,
E eu sabia que não poderia estar lá para te ajudar.

Então eu lhe dei esse nome e disse adeus,
Eu sabia que você teria que ficar durão ou morrer
E foi esse nome que lhe ajudou a te fazer forte.

Agora, você acaba de lutar uma bela de uma briga,
E eu sei que você me odeia e você tem o direito
De me matar agora e eu não vou te culpar se você o fizer.

Mas você tem que me agradecer antes de eu morrer,
Pelas pedras no seu estômago e pela cuspida no seu olho,
Porque eu sou o filho da puta que te deu o nome de Sue.

O que eu poderia fazer, o que eu poderia fazer?
Bem, eu fiquei sem ar e joguei minha arma fora,
O chamei de pai e ele me chamou de filho,
E eu vim embora com um ponto de vista diferente.

Eu penso nele agora e sempre,
Toda vez que eu tento e toda a vez que eu ganho,
E se eu tiver um filho,
Eu acho que o chamarei de,
Bill ou George, qualquer coisa menos sue!
Eu ainda odeio aquele nome!

Quando ouvi essa música pela primeira vez, fiquei pasmo com a genialidade da metáfora. Johnny Cash está explicando através dessa história o mesmo que explico na 1ficina quando digo que “viver bem não é vida boa”. Dito isso, se seu nome for Sue ou sua vida está ruim, pode reclamar e blasfemar, faz parte, não tem problema nenhum, mas saiba que só está sendo assim para que você aprenda a viver bem.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari