QUATROLÊNCIA

04/11/2016 by in category Livros with 0 and 0

PRIMEIRA PARTE

A palavra violência vem do verbo violar. Quando você está executando um ato de violência, você está violando o outro. Quando o outro está executando um ato de violência, o outro está violando você. Violência é violar, invadir, infringir, transgredir. A partir dessa definição, vamos aprofundar no entendimento do que é violência. Existe uma forma de falar de violência que é assim: “Fulano violou a integridade física de ciclano”. No estupro, por exemplo, uma pessoa viola a integridade física da outra. Quando uma pessoa esfaqueia a outra pessoa também está violando a integridade física do outro. Agora vamos deixar explícito o que está implícito no termo “violar a integridade física”. Vamos supor que você queira violar a integridade física de uma pessoa. O que essa pessoa precisa ter para que seja possível você executar a violência?

PARTICIPANTE: Um corpo.

Exato! Como você pode violar o corpo de uma pessoa sem corpo? Você não consegue. Óbvio que sem corpo não tem pessoa física, mas estamos aqui para entender o óbvio mesmo. Você só consegue violar o corpo de uma pessoa porque a pessoa tem um corpo, caso contrário, você vai violar o quê? Mas corpo é um jeito bem superficial de entrarmos no assunto. Tem outra palavra bem melhor e similar a corpo que esclarece mais o que é violência. Que palavra é essa?

PARTICIPANTE: Individualidade.

Isso! Para você poder violar a integridade física de uma pessoa é preciso que essa pessoa seja uma integridade física. Integridade = individualidade = unicidade. Uma pessoa é uma integridade, é uma individualidade, é uma unicidade. A palavra unicidade vai esclarecer e ampliar nosso entendimento do que é violência. Só existe violência porque existe unicidade. Unicidade física é entendida por corpo. Violência física é você violando o corpo do outro e vice-versa. Só que a unicidade de uma pessoa não é apenas física. Então, violência não é só física.

Ser humano não é só corpo (fisicalidade). Ser humano é um quaternário, tem unicidade física, sensorial, afetiva e racional. Então, assim como existe violência física, também existe violência sensorial, afetiva e racional. Só que a violência física é única considerada violência e as outras três não são. Quando uma pessoa viola sua unicidade sensorial, ou afetiva ou racional, essa pessoa não considera que executou um ato de violência com você. E o contrário também. Quando você viola a unicidade sensorial, ou afetiva ou racional do outro, você também não considera que executou um ato de violência com o outro.

Por exemplo, quando você tenta enfiar seu critério de certo e errado goela abaixo no outro, você não considera que está executando um ato de violência com o outro, muito pelo contrário, você acha que está fazendo um bem para o outro, que está ajudando o outro. Afetividade é valor. Vamos supor que você se ache uma boa mãe. Só que seu filho não acha. O critério de valor dele é diferente do seu. Então, você começa a brigar e obrigar seu filho a te reconhecer como uma boa mãe. Ao fazer isso, você não vai considerar que está cometendo um ato de violência com seu filho, mas está. Violência afetiva. Quando você quer obrigar alguém a gostar de um estilo de música. Você enche o saco da pessoa, faz ironia, guerra de nervos, só que você não considera isso um ato de violência. Mas é violência também. Quando o outro não gosta de algo, forçar a barra é violência sensorial.

Violência sensorial, afetiva e racional não são consideradas violências. Se não cortou o pescoço, não furou os olhos, não tem hematoma e sangue jorrando, não é violência. Mas é. Violência é violar. Quando você viola a unicidade do outro, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou racionalmente, você está executando um ato de violência com o outro. Quando o outro viola sua unicidade, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou racionalmente, o outro está executando um ato de violência com você. Violência não é só física, é quaternária: física, sensorial, afetiva e racional. Então, você viola e é violado de quatro maneiras. Só que apenas a violência física é considerada violência, as outras três não são. Mas isso é um equívoco. O que expliquei até aqui foi para desfazer esse equívoco. Ficou claro? Alguma pergunta?


SEGUNDA PARTE

PARTICIPANTE: Como um pai pode ser violento com um filho que ama?

O filme Sociedade dos Poetas Mortos dá um exemplo disso. O pai queria que o filho fosse médico. Colocou todo o amor dele naquele ato de obrigar o filho a ser médico. Os pais violentam os filhos por amor. Eles acreditam que estão fazendo bem aos filhos. É um equívoco sincero, bem intencionado, mas é um equívoco. Nenhum pai acha que está violentando o filho. Os pais acreditam que estão fazendo o melhor, que estão educando os filhos. Mas educação sem diálogo, na base da imposição, sem entender que o filho é outro, diferente, que tem unicidade própria, não é bom para o filho nem para os pais, pois gera má convivência. Não adianta você educar um gato para botar ovos. Por mais amor que você coloque nessa tentativa, você vai estar violentando o gato, pois gato não bota ovos, não é da natureza dele. A unicidade de cada um é a natureza de cada um. Se o seu filho tem natureza de gato, seu filho jamais irá botar ovos. Ele só vai fingir que bota e ainda vai ficar magoado com você.

PARTICIPANTE: Se ignoramos nossa unicidade, como saber da unicidade dos outros?

Exato! Violamos a unicidade dos outros porque ignoramos nossa própria. Percebe a sutileza? Violência nem é o assunto. É só auxílio ao assunto. O assunto mesmo é a ignorância. A ignorância é a raiz da violência. Se ignoramos nossa própria unicidade, como lidar bem com a unicidade do outro? Impossível.

PARTICIPANTE: A violência é uma bola de neve. Eu violento você, você me violenta de volta. E a bola de neve vai aumentando.

Isso mesmo! Mas não sabemos viver de outro jeito. Só sabemos jogar o jogo da violência, que é oscilar entre opressor e oprimido, violentado e violentador. Nossa mentalidade coletiva diz que liberdade é estar na posição de opressor, violentador, controlador, etc. Escravidão é estar na posição de oprimido, controlado, violentado. Quando você está sendo violentado, você é prisioneiro, o outro está te dominando, então, você deve buscar liberdade se tornando o opressor do opressor. E assim por diante, até o topo da pirâmide do controle, onde você pode controlar todos e ninguém pode controlar você. Daí você é absolutamente livre. Isso é um equívoco. Vamos estudá-lo em breve.

PARTICIPANTE: A solução é o respeito?

Não! A solução é lucidez. Respeito é desdobramento da lucidez. A palavra respeito só serve de gasolina para perpetuação da violência. Todo mundo quer ser respeitado, mas ninguém respeita ninguém. Respeito não se pede, respeito se dá. Quando você pede respeito, na verdade, o que você está pedindo é que o outro reze sua cartilha. Isso não é respeito, isso é violência. Quando você realmente respeita, você respeita inclusive o desrespeito. Mas ninguém respeita o desrespeito. Respeitar o desrespeito é a história de oferecer a outra face. Quem oferece a outra face?

PARTICIPANTE: Como inibir a violência do outro?

Olha aí o problema pintado de solução! Inibir a violência do outro é usar a violência para acabar com a violência. É tentar apagar o fogo jogando gasolina. É impossível inibir a violência do outro. Você pode tentar. Mas essa tentativa é você violentando o outro.

PARTICIPANTE: Por que o outro viola minha unicidade?

Porque o outro ignora sua própria unicidade (dele mesmo).

PARTICIPANTE: A violência está por todo lado.

A violencia é o alicerse da nossa sociedade. Nosso sistema jurídico se chama “sistema penal”, ou seja, é a regulamentação da violência.

PARTICIPANTE: Acreditamos que estamos fazendo o melhor.

Exato! Não somos violentos por maldade. Somos equivocados sinceros. Todo pai e toda mãe, ao violar a unicidade do filho, acredita que está executando um ato de amor. Por isso que o problema não está na violência, mas no que vem antes, na ignorância de si. Quando você entende que você é uma unicidade, diferente do outro, automaticamente você entende que o outro também é uma unicidade, diferente de você. Entende também, que por serem diferentes, o que é melhor para você é diferente do que é melhor para o outro e vice versa.

PARTICIPANTE: No filme do super homem, ele fica em dúvida se deve interferir ou não na vida dos humanos. Eu acho que esse é o problema: interferência. A gente acha que é o super-homem e interfere na vida do outro, impõe para os filhos nosso modo, e assim segue uma geração após a outra.

O problema não é a interferência. O problema é que não consideramos o outro como sendo outro. Falamos em “outro”, mas só falamos, é só uma palavra vazia. Consideramos o outro como extensão de nós mesmos, feito um sapato, um garfo, uma mochila, um chaveiro. Ou seja, uma coisa sem vontade e sem unicidade. Pensamos no outro como um robô que só existe para satisfazer nossos desejos e expectativas. Então, o problema não é a interferência. O problema é a ignorância da unicidade. Se entendêssemos o outro como sendo outro, não haveria como existir violência. Vamos supor que você vai almoçar com seus colegas de trabalho. Você come feijoada. No caminho de volta a feijoada começa a borbulhar no seu estômago. Sua barriga vai ficando inchada. Você entra no elevador com a turma e você tem duas opções: peidar ou morrer. Para não morrer, você decide peidar. Seus companheiros de trabalho não têm para onde fugir. Elevador não tem janela. Pergunto: você interferiu na experiência dos seus companheiros de trabalho?

PARTICIPANTE: Sim, interferi.

Você acha que interferiu pouco ou muito?

PARTICIPANTE: Bastante.

Você acha que eles prefeririam a interferência do super homem ou a sua?

PARTICIPANTE: Do super homem.

Criei essa imagem para deixar bem explícito que interferir é inevitável. Não é opcional. A qualidade da sua interferência que é opcional. Foi exatamente o que o super homem entendeu. Não fazer nada é um tipo de interferência. Fazer alguma coisa é outro tipo de interferência. Autoísmo é um jeito de você interferir na convivência. Outroísmo é outro jeito. Interferir é inevitável. Se sua interferência é outroísta ou autoísta, isso sim é opcional.

PARTICIPANTE: Quando sou humilhado tenho que aceitar a humilhação. Isso é respeitar?

Respeito é desdobramento da lucidez, não da autoimposição. Respeito por autoimposição é fingimento. Você só é capaz de executar o respeito quando está consciente do ciclo vicioso da violência. Uma vez consciente, para não perpetuá-lo, você executa o respeito. Então, quando uma pessoa te humilha, não adianta você pensar assim: “Como aprendi que respeitar é a opção que quebra o ciclo vicioso da violência, vou aceitar essa humilhação”. Isso não funciona. Você continua no ciclo vicioso da violência. Você está se obrigando a fazer uma coisa que não quer e não entende. Você está violentando seu nível de consciência. Você não tem lucidez suficiente para executar o respeito, assim como um surdo não tem audição para cantar afinado. Então, assim como não funciona o surdo se obrigar a cantar afinado, também não adianta você se obrigar a respeitar. A solução para o surdo cantar afinado é recuperar a audição. A solução para você executar o respeito é despertar a consciência para sua unicidade.

Lembra da conversa sobre medicina preventiva e medicina curativa? É isso! Como não temos lucidez ainda, vamos para gangorra da violência quase sempre. 99% das vezes. Daí o jeito é praticar medicina curativa para sair da gangorra. Saímos. A lucidez aumenta 1%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 98% das vezes. Melhoramos. Mas ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. Saímos de novo. A lucidez aumenta para 2%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 97% das vezes. Melhoramos mais um pouco. Porém, ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. E assim por diante. Até ficarmos mestres em viver bem. Daí, ao invés de medicina curativa, passamos a praticar medicina preventiva.

PARTICIPANTE: Qual é a ligação da violência com o outroísmo?

Outroísmo é violência. Atenção! Não é que outroísmo gera violência. Outroísmo é violência. Outroísmo é tentar uniformizar o outro, fazer o outro igual a você e vice-versa. Um tentando uniformizar o outro é violência. Então, embora não tenhamos consciência disso, estamos a todo instante sendo estimulados e estimulando nossa coletividade a perpetuar a violência. E pior! Fazemos isso falando de amor, paz, respeito, educação e várias outras palavras que são apenas disfarces para violência.


TERCEIRA PARTE

Para terminar, vou esclarecer mais um ponto. Quando pensamos em violência, pensamos sempre em ataque. Ataque físico, ataque psicológico. O mais comum é pensarmos em ataque. Só que violência não é ataque. Se violência não é ataque, o que é?

PARTICIPANTE: É defesa.

Exato! Violência é defesa. Violência parece ataque porque a melhor defesa é o ataque. Você ataca o outro para se defender. O outro ataca você para se defender. A melhor defesa é o ataque. Entender isso possibilita você se investigar e sair do ciclo vicioso da violência. Você pode se perguntar: “Por que estou atacando isso ou aquilo no outro? O que estou tentando defender dentro de mim?”. Essa investigação vai produzindo autoconhecimento e retirando você do ciclo vicioso da violência.


RESUMINDO:

> Violência é violar a unicidade do outro.
> Violência pode ser física, sensorial, afetiva e racional.
> Você viola a unicidade do outro porque ignora sua própria.
> Violência é outroísmo.
> Violência não é ataque, é defesa.
> Violência parece ataque porque o ataque é a melhor defesa.
> Você sai do ciclo da violência se tornando consciente de que está dentro dele.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Qual é a diferença entre violência física e sensorial?

Violência física é violar a unicidade física do outro. Você tenta forçar um BEM para o outro, mas o seu BEM resulta em um MAL. Ex: Você me obriga a beber suco de laranja. Vai me fazer MAL. Coisa ácida faz MAL para mim. Violência sensorial é violar a unicidade sensorial do outro. Você tenta forçar um BOM para o outro, mas o seu BOM resulta em um RUIM. Ex: Você me obriga a escutar funk. Vai ser RUIM. Ouvir funk é um desprazer para mim. O suco de laranja é prazeroso, mas a acidez me faz mal. Percebe que uma mesma interferência pode ser violenta em uma dimensão e não em outra? Não é fácil ser quaternário.


PERGUNTA: Quando alguém interfere no meu arbítrio…

Isso é impossível. Se fosse possível não era seu arbítrio era de quem executasse primeiro. Arbítrio é feito mouse de computador. Vc está usando o seu. Eu estou usando o meu. Cada um no seu arbítrio. A interferência é na realidade. Você está lendo minha mensagem nesse momento porque usei meu arbítrio para interferir na sua realidade. Arbítrio é particular e ninguém tem acesso ao do outro.

Então, refraseando sua pergunta…

PERGUNTA: Quando o outro interfere na minha realidade para me convencer das ideias dele, mesmo com a minha aceitação, isso é violência?

Se o outro está tentando violar sua unicidade racional, sim. Essa é a definição de violência. Só que o outro não tem acesso a sua unicidade racional, então ele não sabe que está violentando você. Muito provavelmente acredita que está fazendo um bem, tal quando as mães obrigam os filhos a isso e aquilo, convictas de que estão fazendo uma coisa boa. Por fim, se você discorda das ideias do outro, mas decide viver em acordo com elas, daí você está se submetendo racionalmente, está sendo outroísta submisso racional.


PERGUNTA: Quer dizer que executo atos de violência sem perceber? 

Exato! Você só tem duas opções. Você pode:

(A) Viver AUTOísta (viver em universalidade – viver respeitoso)
(B) Viver OUTROísta (viver em uniformidade – viver violento)

Não tem terceira opção. Então, sua opção por viver de forma outroísta resulta em você executar atos de natureza outroísta (atos violentos).


PERGUNTA: Vingança é um ato de violência?

Vingança é uma estratégia de convivência. Mas é uma estratégia de convivência outroísta (violenta), então, geradora de atos violentos.


PERGUNTA: Sendo que iluminação é menos, por que tem mais 3 tipos de violência?

Iluminação é menos ignorância. Logo, é mais lucidez. Quando é retirada a ignorância de que violência é só física, surge a lucidez de que violência é quatrolência. Nada foi acrescentado de novo na violência. Violência sempre foi e sempre será quatrolência, mas com a retirada da ignorância fica MAIS evidente que violência é quatrolência. 

CONVERSA DENTRO

TRECHOS (TODOS)

Menos um

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Ciclo da violência

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Conversando a gente se entende

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Vingança e perdão

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