*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

UM SOU DOIS

24/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

01 | OBSERVAÇÃO E CONHECIMENTO

Observar é o primeiro passo para conhecer. Se você não tivesse visão, tato, paladar, audição e olfato, o que você poderia conhecer do universo? Não poderia conhecer nada, pois você não teria acesso a nenhum tipo de informação sobre o universo. Mesmo que o universo estivesse ao seu redor, mesmo que você estivesse contido no universo, sem a capacidade de observar, você não conheceria nada do universo, seria como se o universo não existisse para você. Na terminologia científica, observar é medir. Todo conhecimento produzido pela ciência tem origem na medição. Os cientistas usam diversas ferramentas para medir as coisas e o comportamento das coisas, para observar as coisas e o comportamento das coisas. Só depois da observação e coleta de dados, começa a fase da produção do conhecimento científico.


02 | OBSERVADOR E OBSERVAÇÃO

Sem observação é impossível produzir conhecimento, isso é óbvio. Porém, tem algo que também é óbvio, mas que passa desapercebido para você e para a maioria dos seres humanos, inclusive dos cientistas. Que algo é esse? Sem observador é impossível existir observação. Observar só é possível porque existe um observador observando. É a existência do observador que possibilita a observação. Isso também deveria ser óbvio para você e para todos os seres humanos. Só que não é. Pelo contrário, essa obviedade é ignorada pela maioria dos seres humanos, inclusive pelos seres humanos mais inteligentes do planeta. E é essa ignorância que dá origem ao paradigma materialista da existência. Paradigma no qual está alicerçado todo conhecimento humano.


03 | OBSERVADOR E OBSERVADO

Despertar para o óbvio de que observar só é possível porque existe um observador observando é fundamental para a prática da ciência e produção de conhecimento científico. Porém, é mais fundamental ainda para a prática da autociência e produção de conhecimento autocientífico (autoconhecimento). Vou fazer um paralelo da ciência com a autociência para explicar o problema de ignorar o observador na produção de autoconhecimento.

A prática da ciência é feita através da observação e a prática da autociência é feita através da autoobservação. Então, na observação científica, por mais que o cientista ignore que ele é o observador, ele entende que não é o observado. Por exemplo, quando um cientista está observando um grão de areia, ele entende que o grão de areia não é ele, que o grão de areia é o objeto observado. Então, mesmo com pouca lucidez, a divisão observador e observado acontece na prática da ciência e produção de conhecimento científico.

Essa divisão entre observador e objeto observado é fundamental na ciência, mas é mais fundamental ainda na autociência. Porém, não acontece na prática da autociência. E por que não acontece? Porque você ignora o observador que você é. E por que você ignora? Porque sua observação não consegue observar sua observação.


04 | SER E ESTAR

Assim como sua visão não vê sua visão, mas vê apenas os objetos físicos, sua consciência também não vê sua consciência, vê apenas os objetos psicológicos, como lembranças, imaginações, pensamentos, sentimentos e emoções. Por ignorar o observador que você é, você se confunde com o observado, você se confunde com suas imaginações, lembranças, pensamentos, sentimentos e emoções. Você passa a acreditar que você é tudo isso que você está experimentando. De certa forma, você é sim tudo que você está experimentando (observando), mas existe também uma divisão entre observador (ser) e observado (estado). Quando você observa sua febre, por exemplo, a febre está em você, mas a febre não é você. A febre em você acontece (começa e termina). Você não acontece, você não começa nem termina, você é sempre você, ser.


05 | CEGO NO TIROTEIO

Para praticar autociência, é fundamental que você desperte para o observador que você é, caso contrário, jamais irá conseguir se autoobservar com eficiência. Ao invés de se observar, você ficará perdido e desesperado como um cego em um tiroteio, pois irá acreditar equivocadamente que você é sua imaginação, sua lembrança, seu pensamento, seu sentimento e sua emoção, sem perceber que você é o observador disso tudo.

Na prática da autoobservação, o observador é você mesmo e o observado também é você. Mas são dois, tem uma divisão. Não é uma divisão espacial, mas é uma divisão. O observador é o ser que você é, o observado é tudo que você está experimentando: imaginações, lembranças, pensamentos, sentimentos e emoções.

Sem a divisão observador-observado, você não consegue se aprofundar no seu objeto de estudo, porque não tem um observador para se aprofundar no objeto de estudo, só tem o objeto de estudo. Claro que sempre tem o observador, mas quando você se ignora como observador, sua atenção é carregada pelos objetos, você se perde na tempestade de imaginações, lembranças, pensamentos, sentimentos e emoções.


06 | FILME MENTAL

O que acontece quando você se ignora como observador é similar à quando você vai no cinema. Você esquece que está sentado na cadeira e entra no filme. Daí, se o filme é um dramalhão, você fica preso no dramalhão, se o filme é aterrorizante, você fica preso no terror, se o filme é raivoso, você fica preso na raiva.

Quando você olha para as paredes do cinema, você sai da prisão do filme e volta a ficar consciente que o filme é um filme e você é o observador do filme. Você deve fazer o mesmo para sair do cinema mental. O problema é que não tem parede no cinema mental para você olhar, só tem tela, e sua observação está colada na tela, como se a tela do cinema fosse sua retina.

Por isso é tão difícil se dividir em observador e observado na prática da autoobservação. Não tem espaço físico separando o observador do observado. No cinema a tela está lá e você está aqui, sentado na poltrona. Na experiência humana não tem essa distância, então, a divisão entre observador e observado não tem como ser feita com uma faca, colocando observador de um lado e observado do outro, a divisão entre observador e observado só acontece através de um despertar consciencial.

Você observa um pensamento, e enquanto você está observando o pensamento, você observa que você é o observador do pensamento. Você se dá conta que sem você, observador, como aquele pensamento poderia estar sendo observado por você? E assim por diante e com tudo que você experimenta. Você observa a imaginação, a lembrança, o sentimento, a emoção, e enquanto você está observando tudo isso, você observa que você é o observador disso tudo. Você se dá conta que sem você, observador disso tudo, como isso tudo poderia estar sendo observado?

É assim que você sai da confusão e separa o observador do observado. É simples assim! Você se dá conta que sem observador não tem observado, e como sempre tem observado, sempre tem você: observador.


07 | DESPERTAR EXISTENCIAL

Esse despertar é um despertar existencial, pois você, observador, é a existência observadora da realidade observada. Outras tradições chamam esse despertar de despertar espiritual, outras de iluminação e outras de estado meditativo. Para produção de autoconhecimento pessoal e psicológico, não importa o nome atribuído ao despertar, o que importa é despertar, pois antes desse despertar existencial a prática da autoobservação até acontece, mas fica com o freio de mão puxado. Só quando você desperta para o observador você solta o freio de mão.


08 | FILME REVÓLVER

O vídeo abaixo é um trecho do filme Revólver. Por favor, assista antes de continuar lendo.

Essa cena ilustra bem uma pessoa despertando para o observador. Jake tem pânico de ficar preso em lugares apertados. Em outra cena, mostra ele subindo e descendo pelas escadas para não usar o elevador. Nessa cena, Jack decide descer de elevador e acaba ficando preso. O pânico explode e Jake começa a experimentar um turbilhão de pensamentos, imaginações, sentimentos e emoções. Só que, de repente, ele diz sereno para o ataque de pânico: “Eu posso te ouvir”. Ou seja, “eu estou te observando”. Jake despertou para o observador.


09 | UM SOU DOIS

É muito comum pessoas despertarem para o observador no meio de uma crise de pânico. O testemunho do escritor Eckhart Tolle, na introdução do livro Poder do Agora, deve ser um dos exemplos mais populares disso, parece até que ele estava dentro do mesmo elevador que o Jake. Segue a transcrição:

Até os meus 30 anos, eu era extremamente ansioso, sofria de depressão e tinha fortes tendências suicidas. Hoje, parece que estou falando da vida de outra pessoa.

Tudo começou a mudar pouco depois do meu aniversário de 29 anos, quando acordei certa madrugada com uma sensação de pavor absoluto. Não era a primeira vez que eu tinha uma crise de pânico, mas aquela, com certeza, foi a mais forte de todas. Tudo parecia estranho, hostil, absolutamente sem sentido. Senti uma profunda aversão pelo mundo e, principalmente, por mim mesmo. Qual o sentido de continuar a viver com o peso dessa angústia? Para que prosseguir com essa luta? Um profundo anseio de destruição, de deixar de existir, tinha tomado conta de mim, tornando-se até mais forte do que o desejo instintivo de viver.

“Não posso mais viver comigo”, pensei. Então, de repente, tomei consciência de como aquele pensamento era peculiar. “Eu sou um ou sou dois? Se eu não consigo mais viver comigo, deve haver dois de mim: o “eu” e o “eu interior”, com quem o “eu” não consegue mais conviver”. “Talvez”, pensei, “só um dos dois seja real”.

Fiquei tão atordoado com essa estranha dedução que a minha mente parou. Eu estava plenamente consciente, mas não tinha mais pensamentos. Fui arrastado para dentro do que parecia um vórtice de energia. No início o movimento foi lento, mas depois acelerou. Fui tomado de um pavor intenso e meu corpo começou a tremer. Ouvia as palavras “não resista”, como se viessem de dentro do meu peito. Eu estava sendo sugado para dentro de um vácuo que parecia estar dentro de mim e não do lado de fora. De repente, perdi o medo e me deixei levar. Não me lembro de nada do que aconteceu depois.

No dia seguinte, fui acordado por um pássaro cantando no jardim. Nunca tinha ouvido um som tão maravilhoso antes. Meu quarto estava iluminado pelos primeiros raios de sol da manhã. Sem pensar em nada, eu senti – soube – que existem muito mais coisas para vir à luz do que nós percebemos. Aquela luminosidade suave que atravessava as cortinas da janela do meu quarto era o próprio amor. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu percebi que nunca tinha reparado na beleza das pequenas coisas, no milagre da vida. Era como se eu tivesse acabado de nascer de novo.


10 | FILME PEQUENO BUDA

O vídeo abaixo é um trecho do filme O Pequeno Buda. Por favor, assista antes de continuar lendo.

Essa cena mostra Sidarta Gautama, o Buda, sentado em posição de meditação, ou seja, desperto para o observador. Por isso ele não se abala com nada que acontece, pois não confunde observador com observado. No final da cena, tem uma provação final, quando ele se encontra consigo mesmo. Porém, Sidarta não se abala também, nem se confunde, ele coloca a mão no chão e diz que a terra é sua testemunha, ou seja, ele explica para si mesmo o que é observador e observado, igual Jake no elevador.


11 | PRIMEIRO PASSO

Quem é o observador? O observador é você, que está observando a realidade externa e interna. Só isso que você pode saber sobre você observador. Quem é o observado? É tudo que você, observador, está observando. Ou seja, são seus pensamentos, imaginações, lembranças, sentimentos e emoções. Para simplificar, vamos supor que seu nome seja Jake, como o personagem do filme Revólver. Praticar autoobservação é você, observador, observando o Jake. Observando o que do Jake? Tudo do Jake. Tudo, tudo, tudo mesmo. Quando você estiver com medo, por exemplo, você entenderá que Jake está com medo, e continuará calmo, mesmo com medo. Daí, e só depois disso, você vai conseguir dar o segundo passo.


12 | SEGUNDO PASSO

O segundo passo é conversar com o observado buscando descobrir o que ele tem para lhe ensinar sobre você e sobre ser humano. Vamos supor que seu nome seja Jake. Se você for o Jake com medo, o segundo passo é você conversar mentalmente com o medo. Busque entender o que é medo, qual é a causa do medo presente e o modus operandi do medo presente. Se você for o Jake com raiva, faça a mesma com a raiva. Se você for o Jake deprimido, faça a mesma coisa com a depressão. Seja qual for seu estado emocional, faça a mesma coisa.


13 | USO E USUÁRIO

A natureza humana é uma ferramenta extraordinária. Possibilita que você tenha noção de espaço (altura, largura, profundidade) e tempo (passado e futuro), possibilita você pensar e sentir, possibilita você aprender e inventar. Mas como toda ferramenta, a natureza humana não é usuária de si mesma. O usuário da natureza humana é você. E quando você, usuário da ferramenta, se confunde com a ferramenta, quando acredita que você é a ferramenta, o resultado é mal uso. Usar mal a natureza humana é viver mal. Para viver bem, saia da confusão. Você não é só ser, nem é só humano, você é ser humano. Você não é um, nem dois, você é umdois.

Fique consciente disso. E boa prática!

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Não! A voz que você e todos os seres humanos escutam “dentro da cabeça” é o pensamento. O pensamento também é um objeto observado assim como os objetos físicos, porém, o pensamento é um objeto psicológico. A consciência é o que está observando os pensamentos. Só que toda a cultura psicológica e filosófica humana usa a palavra “consciência” como sendo sinônimo de pensamento. Então, somos intensamente incentivados a igualar consciência com pensamento. Esse é um dos equívocos que o livro UM SOU DOIS aponta e esclarece.

O tratamento é a autoanálise. O perdão acontece como consequência.

Passo a passo, funciona assim:

VOCÊ PRATICA

1) Autoobservação
2) Admitir
3) Autoanálise

QUANDO SUA AUTOANÁLISE É EFICIENTE, o resultado automático é:

4) Perdão a si mesmo e ao outro

Ou seja, você não pratica o perdão diretamente, o perdão, tanto a si mesmo como ao outro, é resultado da prática de autociência. Sem a prática de autociência seu perdão não tem efeito nenhum. Com a prática, você nem precisa perdoar, o perdão acontece por lucidez.

PERGUNTA: Aceitação perdão são a mesma coisa?

Depende do que você entende por “aceitação”. Se você se refere a aceitar que o leite derramou e não adianta ficar chorando o leite derramado, não, isso não é perdão, isso é lucidez, isso é abandonar um equívoco. Seu choro não faz o leite derramado voltar para panela.

Não existe autoobservação sem autoanálise, é impossível. Alguma autoanálise sempre acontece, inevitavelmente. Se é uma autoanálise competente ou não, com critério A ou B, daí é outra história.

Autoobservação é saber de si, não é um exercício. Você está sempre sabendo de si, inevitavelmente, caso contrário, você sequer saberia que existe. O que acontece é que você está sabendo de si com pouca lucidez. Sua autoobservação é confusa. Você não tem discernimento sobre o que está “vendo”. Você sequer entende que está constantemente observando a si mesmo. Você acredita que está vendo o mundo, a realidade, o universo, a vida, enfim, algo que não é você. É como se seu discernimento estivesse bêbado ou adormecido. Então, ao invés de você se aprofundar no autoconhecimento, você fica patinando no mesmo lugar. Ou pior! Amplia a confusão. Então, exercitando o discernimento, você diminui a confusão e melhora sua autoobservação.

Seres conscientes vivem bem. Se você está vivendo mal, está na ignorância.

Autociência é a prática que produz autoconhecimento. Se você está produzindo autoconhecimento (em algum nível), então, é porque está praticando autociência (em algum nível).

Não existe autoobservação doentia, existe é autoanálise doentia. Para resolver isso, você precisa da ajuda de um mestre infalível. Esse mestre se chama: sofrimento.

Quando você está consciente que é observador, você se permite sentir medo, se permite sentir raiva, se permite sentir inveja, se permite sentir frustração, enfim, se permite ser humano. Ao se permitir, retira a desnecessária resistência (proibição). Ao invés de autonegação, aceita a si mesmo e começa a se observar, se estudar e produzir autoconhecimento psicológico e pessoal. Ou seja, quanto mais consciente você fica de que não é só humano, mais humano você se permite ser.

Sim, você pode usar essa terminologia se quiser. Na prática, pouco importa a terminologia.

PERGUNTA COMPLETA: Um dia me dei conta que não sou só o que penso. Notei que sou observador do pensamento. Isso é iluminação (despertar existencial)?

Sim, é simples assim! O esperto pensa que sabe, o desperto sabe que pensa. Quando comecei a falar sobre iluminação, despertar da consciência, usava o termo “sei que sei”. Você estava no “sei”, então, se deu conta: “Peraí, eu sei, mas como eu sei que sei?”. E daí despertou para o óbvio. Você sabe que sabe porque você é saber (consciência). Consciência é uma das suas três naturezas existenciais. Tem mais duas. Estudaremos todas as três durante o ciclo de estudos.

Não! Porém, para ter um despertar existencial, você deve praticar autoobservação existencial. Autoobservação psicológica não produz despertar existencial, produz despertar psicológico.

Sim, serve de metáfora para o despertar existencial. É muito útil citar a Alegoria da Caverna de Platão em meios acadêmicos, pois é uma das poucas explicações desse tipo que faz parte do mundo acadêmico. Platão explicou o funcionamento do cinema 2000 anos antes da invenção do cinema. E explicou que a realidade é virtual antes da invenção do computador e da realidade virtual. Platão foi genial. Merece toda nossa admiração.

A resposta é: sim e não. O problema nessa pergunta é o entendimento sobre separação. Na lógica materialista, separação necessita de espaço e tempo. A cadeira está separada da mesa no espaço-tempo, o passado está separado do presente no espaço-tempo. Se você tentar colocar o ser aqui e o humano ali, não irá conseguir, pois não existe essa separação espaço-temporal.

Mas tem uma separação sim, mesmo que não seja espaço-temporal. Mas como separar o inseparável? Usando o discernimento. Essa é a função do discernimento: separar o inseparável.

Por exemplo, olhe para um objeto, qualquer objeto. Você verá que esse objeto tem três dimensões: altura, largura e profundidade. Você consegue separar no espaço-tempo a largura, da altura, da profundidade? Consegue colocar a largura do objeto em cima da mesa, a altura no bolso e segurar a profundidade na mão? Não. São inseparáveis. Contudo, você sabe que são três dimensões distintas (separadas). Isso é óbvio. E como você sabe? Através do discernimento. Analogamente, também é através do discernimento que você separa o serumano em dois: ser e humano.

Sim, exatamente! No estado de ignorância existencial você acredita que é SÓ humano, mas você não é SÓ humano, você é um SER humano.

A palavra meditação está mais adulterada do que gasolina de posto barato. Tem meditação para ficar rico, meditação para aumentar o tamanho do pênis, meditação para trazer marido de volta, meditação do empoderamento, meditação da família, etc. Um show de horrores. Algumas pessoas fazem dinâmicas de imaginação e chamam de meditação. Tem pessoas que dão exercícios de relaxamento e concentração e chamam de meditação. Meditação é autoobservação. Sendo que a prática da autociência é executada através de três tipos de autoobservação: existencial, psicológica e pessoal. Então, meditação pode ser existencial, psicológica e pessoal.

Não, isso é um equívoco. Meditação é estar consciente que saber não é pensar. Quando você está consciente disso, fica óbvio que você é a consciência observadora do pensamento. Então, metaforicamente, se diz que meditação é não pensar. Só que ninguém explica isso para o leigo, então, lá vai o leigo tentar o impossível, e pior, desnecessário.

PERGUNTA COMPLETA: Aquele clip do filme Revólver que está no livro, mostra o protagonista no elevador e duas vozes acontecendo simultaneamente na cabeça dele. A voz do medo é a voz do eu-psicológico ou do eu-pessoal? E a voz sábia é a voz do eu-ser?

Primeiro vou falar da questão da voz no filme. O produtor do filme queria mostrar a consciência (observador) no filme. Mas a consciência não é um objeto, a consciência é o sujeito que observa os objetos. Então, como ele iria colocar a consciência na tela do cinema uma vez que tudo na tela do cinema, inclusive os sons, são objetos observados? O truque cinematográfico que ele usou foi colocar a consciência como sendo uma VOZ, ou seja, como se fosse o PENSAMENTO do personagem.

Só que a consciência não é voz nem pensamento, é o observador de tudo, inclusive do pensamento. Então, no rigor autocientífico, a tal da voz não é você-ser. Mas com licença cinematográfica, sim, o produtor do filme está sim tentando colocar você-ser na tela do cinema, e usou a voz (pensamento sábio) para representar isso.

Dito isso, vou falar do medo em si. Mas só um pouquinho, porque vamos estudar o medo com profundidade na parte psicológica do ciclo de estudos. Para falar do medo em si, vou encurtar sua pergunta:

PERGUNTA: Medo é a voz do eu-psicológico ou do eu-pessoal?

Sim, o medo é um objeto psicológico e pessoal (você-psicológico e você-pessoal). O medo em si é um objeto psicológico (você-psicológico) e o conteúdo do seu medo é um objeto pessoal (você-pessoal). Como todo medo tem conteúdo, ou seja, especificidade, então, todo medo que você-ser experimenta é simultaneamente um objeto psicológico e pessoal.

Para adquirir autoconhecimento você deve ler a si mesmo através da prática da autoobservação. Qualquer trabalho de despertar da consciência que não explique isso para seus alunos, não serve para autoconhecimento, só serve para produzir unicórnios espiritualistas.

Humildade não é ser pequeno, humildade é ser do próprio tamanho. Tem gente que é humilde sendo pequeno por seu tamanho ser pequeno. Tem gente que é humilde sendo grande por seu tamanho ser grande. Humildade tem a ver com justiça. Uma pessoa humilde é JUSTAmente do tamanho que é, nem mais, nem menos. Arrogância é o oposto. Arrogância é quando você quer PARECER maior do que é. A arrogância é um obstáculo para o autoconhecimento, pois quando você PENSA QUE SABE (arrogância intelectual) você se fecha para aprendizagem.

Observador não analisa, apenas vê. Pense na sua visão. Sua visão analisa o que está vendo? Não. Sua visão apenas vê, apenas enxerga. Quem analisa o que você está vendo não é a visão, é a razão. O mesmo se dá na produção do autoconhecimento. Quem observa é o observador, quem analisa é a razão. Observação e análise acontecem em simultâneo, mas não são a mesma coisa.

A prática da autociência é executada através da prática de autoobservação. A dificuldade em despertar a consciência ocorre devido à falta de prática em autoobservação. Tem uma pergunta na parte de perguntas e respostas do livro CIÊNCIA DO ÓBVIO que amplia um pouco mais o entendimento dessa dificuldade:

PERGUNTA: A qualidade da observação do céu depende da ferramenta mais apropriada. No caso da observação de si, qual é a ferramenta mais apropriada?

No caso da observação de si (autoobservação), não se trata de ferramenta mais APROPRIADA, se trata de ferramenta menos ATROFIADA. A qualidade da autoobservação depende do grau de lucidez do observador. Só que nunca ninguém te incentivou a desenvolver clareza de percepção e entendimento, ou seja, lucidez. Pelo contrário, todos seus educadores lhe ensinam a decorar e acreditar. Até porque, seus educadores também foram ensinados a decorar e acreditar. Mesmo na fase adulta, podendo mudar isso, você ainda permanece nesse tipo de educação porque é mais fácil decorar e acreditar do que observar e pensar. O resultado é que sua lucidez atrofia ao invés de se desenvolver.

Dito isso, acrescento que existem três tipos de autoobservação:

Autoobservação existencial
Autoobservação psicológica
Autoobservação pessoal

Cada uma tem sua dificuldade específica. Mas não adianta eu lhe falar das dificuldades específicas sem que antes você entenda o que é cada prática. Para entender, você pode ir até o site da 1FICINA e ler o livro CIÊNCIA DO ÓBVIO.

Sobre a outra parte da sua pergunta…

Despertar é de uma vez ou por camadas?

Despertar existencial é instantâneo, puf, despertou, acabou, pois não tem nada abaixo do ser (existência). A existência é o fundamento da experiência e não tem camadas de existência.

No caso do despertar psicológico, não são camadas, são mídias simultâneas, ou seja, sua natureza psicológica é multimídia. Você experimenta emoção, pensamento, sensações, desejo, valores, crenças, tudo ao mesmo tempo. Cada coisa é uma coisa, mas a experiência é simultânea. É como se você estivesse ouvindo dez músicas diferentes ao mesmo tempo. Vira uma confusão. Você confunde a música da emoção com a música do desejo, com a música do pensamento, com a música das sensações etc. Para você conseguir discernir uma música da outra é preciso bastante prática de autoobservação psicológica.

No caso do despertar pessoal, daí sim, são camadas, feito uma cebola. A prática do despertar pessoal é você descascando sua cebola. Você descasca uma camada e tem outra e outra e outra. A prática do despertar pessoal não acaba nunca. Você irá descascar cebola sua vida inteira. Mas não precisa chorar. Quanto mais descascar sua cebola, melhor será a qualidade do seu viver.

A coletividade humana é constituída por aleijados científicos. Não me refiro à ciência como conhecimento, mas à prática de observação e análise que resulta na produção do conhecimento. A competência da maioria das pessoas em observar e pensar sobre o que estão observando é zero. Muito provavelmente esse é seu caso também. Nem sua escola, nem seus pais, nem ninguém, lhe ensinou a observar e pensar, você foi educado a acreditar e repetir.

Sua deficiência científica parece irrelevante. Você não é médico, nem biólogo, nem químico. Você não precisa praticar ciência para ganhar dinheiro, pagar as contas e viver sua vida. Só que você é um ser humano. E você sofre. E a causa do seu sofrimento é sua ignorância sobre o que é ser humano. E o caminho para descobrir não é acreditar e repetir, o caminho é observar e pensar. Mas sendo que você não tem prática em ciência (observação e análise), tem menos prática ainda em autociência (autoobservação e autoanálise). Eis o motivo da dificuldade.

Porque você-ser é a visão. A visão não consegue ver a visão, é impossível. Faça o seguinte experimento. Fique parado em frente um espelho e tente ver a visão. Você verá tudo, menos a visão. Você verá o ambiente, verá seu corpo, verá seus olhos, verá as pupilas dos olhos, mas jamais verá a visão. Contudo, é obvio que a visão está presente, caso contrário, como você estaria vendo todos esses objetos sem visão? Só que é impossível ver a visão. E por quê? Porque visão é você-ser, você-consciência, você-observador.

Quando vezes ao dia você está consciente que só está enxergando porque você tem visão? Zero vezes, não é? Você é capaz de passar anos sem se dar conta que só está enxergando porque tem visão. Analogamente, o mesmo acontece com a consciência, que é muito mais implícita que a visão.

Sim, você pode e deve. Se você ficar esperando despertar existencialmente para depois começar um trabalho psicológico e pessoal, vai morrer esperando, nunca irá fazer.

Estarei construindo uma casa de palha como a casa dos três porquinhos?

Sim, estará, mas é o que você tem para hoje. Vai assim mesmo. A pergunta que você deve se fazer é: “Eu quero viver bem?”. Se a resposta for sim, a pergunta subsequente é: “Aceito pagar o preço de viver bem, seja qual for?”. Se a resposta for sim, o que tiver que vir, virá.

Não é uma obrigação, nem é possível. Tente ficar consciente da respiração por cinco minutos, por exemplo. Você não irá conseguir. Você deve ficar mais consciente quando necessário.

E quando é necessário?

Quando você está vivendo mal.

Por que é necessário ficar mais consciente quando estou vivendo mal?

Porque você só vive mal quando está ignorante, quando está consciente você vive bem. Então, para sair do mal viver e entrar no bem viver, você deve ficar consciente do que está sendo ignorado e que, por estar sendo ignorado, está resultando em viver mal.

A ciência usa o método científico e estuda o objeto observado. A autociência usa o método autocientífico e estuda o observador. O método cientifico é a observação. O método autocientífico é a autoobservação.

O trabalho da 1ficina é explicar o que é o método autocientífico, para que serve e como aplicá-lo. Porém, a 1ficina faz isso com um público que não tem a menor ideia do que é método científico, então, tem menos ideia ainda do que é método autocientífico.

PERGUNTA COMPLETA: A qualidade da observação do céu depende da ferramenta mais apropriada, no caso da observação de si, qual é a ferramenta mais apropriada?

No caso da observação de si (autoobservação), não se trata de ferramenta mais APROPRIADA, se trata de ferramenta menos ATROFIADA. A qualidade da autoobservação depende do grau de lucidez do observador. Só que ninguém nunca te incentivou a desenvolver clareza de percepção e entendimento, ou seja, lucidez. Pelo contrário, todos seus educadores lhe ensinam a decorar e acreditar. Até porque, seus educadores também foram ensinados a decorar e acreditar. Mesmo na idade adulta, podendo mudar isso, você ainda permanece nesse tipo de educação porque é mais fácil decorar e acreditar do que observar e pensar. O resultado é que sua lucidez atrofia ao invés de se desenvolver.

Raciocinar é humano. Você, enquanto ser, é existência, potência e consciência. O raciocínio surge quando você entra na experiência humana. Na experiência mineral e vegetal, por exemplo, não tem raciocínio. Pedra e alface (supostamente) não pensam.

Interlocutor: Minha dificuldade é separar a consciência da razão.

Todos os seres humanos vivem nessa confusão. A solução é simples, basta ficar consciente que você sabe do pensamento, mas o pensamento não sabe de você.

Leia essa frase, por exemplo: “O menino chutou a bola na parede”.

Para entender cada parte dessa frase, menino, bola, parede e chutar, você teve que raciocinar (fazer um processamento de dados), mas para saber que entendeu você teve que saber do raciocínio (observar o processamento de dados), senão seria como assistir um filme de olhos fechados, mesmo que o filme estivesse passando, você não saberia disso.

Para separar a consciência do raciocínio, basta você ficar consciente que você é o observador do processamento de dados (raciocínio), assim como você, no cinema, é o observador do filme. O raciocínio é o filme (observado), a consciência é o observador do filme.

Interlocutor: Com o despertar existencial conseguirei separar o raciocínio da consciência?

Separar o raciocínio da consciência é o despertar existencial.

Não! E o motivo é simples. Despertar da consciência não é uma experiência, despertar da consciência e se tornar consciente sobre o que é experimentar. Ninguém jamais experimentou ou irá experimentar o despertar da consciência. Isso é um equívoco.

Não! Quem desperta é sempre e só a consciência, o observador, você-ser. Seu sistema psicológico (você-humano) não é um observador, é um objeto observado, logo, não desperta. O mesmo para sua personalidade (você-fulano). É você-ser que desperta, que fica consciente do seu funcionamento humano (psicológico) e pessoal (fulano). Sua natureza humana e sua personalidade são observados, são objetos que você-ser observa e do qual fica consciente.

ÁUDIOS

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