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*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

TRÊS PASSOS DA CURA PSICOLÓGICA

23/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

INTRODUÇÃO

Uma vez por ano a 1ficina realiza um ciclo de estudos chamado Autociência Passo a Passo. Em 2020 acontecerá a sexta edição desse ciclo. Na primeira edição, percorri os principais temas da autociência em ordem crescente de entendimento, começando pelo existencial, passando pelo psicológico e chegando no social (convivência). Foram em torno de 27 conversas, uma por semana. Todas foram gravadas. Terminado esse primeiro ciclo de estudos, decidi transcrever as conversas, revisá-las e transformá-las em livros. Transcrevi todas, menos a última, chamada: Três passos para a cura psicológica. Agora, terminado o quinto ciclo de estudos, decidi transcrevê-la e transformá-la em livro também. Três passos para a cura psicológica é um livro curto, simples e direto, escrito para quem realmente deseja viver bem e está disposto a pagar o preço. Ou seja, não é para interessados, é para comprometidos. Por isso foi a última conversa do primeiro ciclo de estudos. Se você ainda não está acostumado com a terminologia da 1ficina, principalmente com a palavra “outroísmo”, provavelmente terá um entendimento superficial dos três passos. Para aprofundar, você pode ler os outros livros e participar de um ciclo de estudos.


01 | PRIMEIRO PASSO | ADMITA

Uma amiga decidiu buscar apoio num grupo de anônimos e pediu que eu fosse junto. O encontro foi numa igreja no centro de São Paulo. Aceitei, pensando em ajudá-la. Ledo engano! Para minha amiga foi um banho de sal grosso, para mim, foi tratamento de choque, 220 volts. Sentados em cadeiras plásticas, os criminosos se sentiam muito à vontade para relatar seus crimes, revelar seus segredos mais íntimos, confessar suas cagadas mais inconfessáveis. Gostei tanto daquele confessionário que ir às reuniões se tornou meu programa favorito de sábado. Enquanto minha amiga refletia sobre sua compulsão, eu aprendia sobre o primeiro passo da cura psicológica.

Provavelmente você já ouviu falar do AA (Alcoólatras Anônimos). Se nunca ouviu, trata-se de um grupo de apoio, sem fins lucrativos, para ajudar alcoólatras a se manterem sóbrios. O AA funciona basicamente através de reuniões semanais. Durante essas reuniões os participantes contam sobre suas vidas, sobre seus dramas com o alcoolismo e sobre o processo de abstinência.

Muitos alcoólatras se recusam a participar das reuniões do AA. Por que? Porque participar de uma reunião de AA significa admitir que você é um alcoólatra. Muitos não querem admitir isso. Por isso, quando um alcoólatra entra em uma reunião de AA, ele está dando o primeiro passo para cura do alcoolismo: admitir o alcoolismo.

O mesmo acontece com o outroísmo. O outroísmo é a doença psicológica por trás de todas as doenças psicológicas. O outroísmo é a raiz de todas as doenças psicológicas. Todos os seres humanos, sem exceção, possuem mentalidade outroísta, embora em diferentes graus e modalidades. Então, o primeiro passo para a cura psicológica é você admitir seu outroísmo.

É a negação da doença que impossibilita a cura. Quando você está doente e não admite que está doente, isso só perpetua e agrava sua doença. Quando você vai ao médico ou até a farmácia, isso significa que você deu o primeiro passo para curar sua doença: você admitiu estar doente.

Enquanto você não admitir que sua mentalidade está doente (outroísta), a negação do outroísmo ficará impedindo a cura. Então, negar a doença é o primeiro obstáculo. Só que você nem sabe que está doente. Você acredita que está saudável, que não tem nada de errado com sua mentalidade. Você nem sequer sabe que sua mentalidade é outroísta. Você nem sequer sabe o que é outroísmo.

Resumidamente, outroísmo é você vivendo em desacordo com você. Se você não está em acordo com você, logo, está em acordo com os outros (outroísmo). Sem que sequer desconfiasse, você foi programado e se programou para viver de forma outroísta. Eis porque você é outroísta sem saber.

O que você sabe é que você vive mal, vive sofrendo, vive em conflito consigo e com os outros. Mas você acha que é assim mesmo. Sequer desconfia que isso é resultado de uma mentalidade outroísta. Eu lhe garanto que é. Não existe outra causa para viver mal senão o outroísmo. Você vive mal porque vive outroísta. E você vive outroísta porque sua mentalidade é outroísta.

Mas não estou escrevendo para lhe convencer que está doente, escrevo para que comece a considerar que está doente e possa dar o primeiro passo da cura psicológica: admitir a doença. Sendo que está lendo esse livro, suponho que está disposto a dar o primeiro passo. Meus parabéns! Boa prática! E vamos ao segundo passo da cura psicológica.


02 | SEGUNDO PASSO | AUTOOBSERVAÇÃO

Todo dia uma velhinha passava de motocicleta pela fronteira carregando uma caixa na garupa. O fiscal da alfândega começou a desconfiar dela. Um dia, quando a velhinha vinha passando, o fiscal mandou ela parar e perguntou: “O que tem dentro dessa caixa na garupa da motocicleta?”. A velhinha respondeu: “Areia”. O fiscal duvidou e abriu a caixa. Realmente, só tinha areia dentro da caixa. Encabulado, o fiscal liberou a velhinha, mas não se deu por convencido, talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba. No dia seguinte, o fiscal parou a velhinha e examinou a caixa novamente. Só tinha areia. Durante um mês, todos os dias, o fiscal parou a velhinha e examinou o conteúdo da caixa. Era sempre areia. Cansado, frustrado e intrigado, o fiscal fez uma proposta para velhinha: “Eu prometo que deixo você passar, não dou parte, não te prendo, não conto nada para ninguém, mas a senhora precisa me dizer qual é o contrabando que está passando por aqui todos os dias”. A velhinha respondeu: “motocicleta”.

Você é igual o fiscal da alfândega. Você se preocupa com o que está acontecendo, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua preocupação. Você se magoa com o outro, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua mágoa. Você se entristece com algo, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua tristeza. Você odeia isso e aquilo, mas jamais observa o funcionamento psicológico do seu ódio. Enfim, você não pratica autoobservação. Por isso, não importa quantos livros de psicologia, filosofia, autoajuda e autoconhecimento você já leu e ainda lerá. Sem autoobservação é impossível produzir autoconhecimento e sem autoconhecimento é impossível você curar sua mentalidade outroísta.

O segundo passo da cura psicológica é praticar autoobservação. Só isso! Nada além disso! Autoobservação basta. Essa é a boa notícia. Com autoobservação você fica consciente e sai da ignorância, com consciência você se cura psicologicamente. Mas tudo tem um preço. A má notícia é que não há nada mais difícil do que praticar autoobservação. Por que? Porque você precisa virar o olho do avesso. Seu objeto de estudo na autoobservação é você mesmo e você foi educado na contramão da autoobservação. Você foi educado a ler livros, mas nunca foi educado a ler a si mesmo. Você não tem prática em observar seu funcionamento psicológico, você só tem prática em olhar para caixa na garupa da motocicleta, ou seja, olhar para o lugar errado.

Você fica onde foca. Se você foca na caixa na garupa da motocicleta, você fica na caixa e não descobre o contrabando de motocicletas. Se você foca nos acontecimentos do mundo externo, você fica no mundo externo e não descobre seu mundo interno (mundo psicológico). Se você foca em teorias, você fica nas teorias e não se conhece de fato, não produz autoconhecimento. Por isso não tem salvação fora da autoobservação. Sem autoobservação você permanece na ignorância. Com ignorância você fica impossibilitado de curar sua mentalidade outroísta, pois é a ignorância do seu outroísmo que perpetua seu outroísmo.


03 | TERCEIRO PASSO | TEIME

Na medicina física, o processo de análise do paciente leva ao diagnóstico da doença, o diagnóstico leva a indicação do remédio e a repetição do remédio leva a cura. Na medicina psicológica, não precisa do remédio, o processo de autoobservação já é a cura. Outroísmo só sobrevive na ignorância. Uma vez que você se observa e fica consciente sobre o funcionamento do seu outroísmo, ou seja, entende quando ele acontece, porque acontece, como acontece, etc, é o fim do seu outroísmo.

Mas se autoobservação basta, por que terceiro passo? Porque seu outroísmo não está em um ponto isolado, está espalhado por toda sua mentalidade, igual um vírus de computador. Você não tem apenas uma crença outroísta. Todo seu sistema de crenças é feito de lógica outroísta. Com autoobservação você vai detectando cada crença outroísta e se curando, porém, como são muitas crenças e sobrepostas umas as outras, requer prosseguir até o fim. E quando é o fim? Quando termina. E quando termina? Quando acaba. E como sei que acabou? Você começa a viver bem onde vivia mal.

Ninguém vive bem por acaso, milagre ou destino. Viver bem é maestria em prática. Só que ninguém é mestre por acaso, milagre ou destino também. Maestria é produto da teimosia. Assim como um neném precisa teimar em se levantar e se equilibrar para adquirir maestria em andar, você também precisa teimar em observar seu outroísmo para adquirir maestria em viver bem. Observar seu outroísmo é o segundo passo da cura psicológica, mas entre o segundo passo e a maestria há uma longa jornada de teimosia.

Para dar um testemunho, não cheguei ao fim do meu outroísmo. Nem me preocupo com isso. Me ocupo apenas de praticar autoobservação. Sei que todo resto é efeito do meu nível de autoconhecimento e maestria. Mas já caminhei um bocado na prática de autoobservação e posso afirmar que vale prosseguir. A prática faz a prática. Quanto mais pratico autoobservação, mais fácil fica praticar, mais maestria. Quanto mais maestria, melhor a qualidade das minhas escolhas, ou seja, melhor a qualidade do meu viver.

Concluindo, enquanto você não for capaz de admitir sua doença, você sequer irá começar sua viagem de cura, aliás, estará ampliando sua doença. Quando admitir, sua viagem de cura terá começado, mas é uma viagem muito muito muito longa, então, você precisa ser muito muito muito teimoso para persistir rumo a maestria, pois desistir é muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito mais fácil.

AUTOBIOGRAFIA DA CURA
Texto adaptado de Sogyal Rinpoche

Ando por uma rua.
Há um buraco.
Não vejo.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo, mas não admito.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo e admito,
mas não sei o que fazer.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo e sei o que fazer.
Dou a volta.

Ando por outra rua.

FIM

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Terapia é executar um processo psicológico para realizar a cura de uma doença psicológica. O que leva a duas perguntas que nenhuma escola terapêutica responde:

1) O que é doença psicológica?
2) Quais são as doenças psicológicas?

Entende? O problema das terapias é que elas não sabem qual é a doença humana. Como podem ter eficiência na realização da cura de uma doença que ignoram? Simples: não podem.

A 1ficina explica o óbvio. Então, o primeiro passo para você conseguir explicar para os outros o que a 1ficina explica para você, é estar consciente sobre o que foi explicado. A explicação do óbvio não é o óbvio. Então, se o que a 1ficina lhe explicou ainda não está óbvio para você, se é apenas uma explicação, uma teoria, você não tem o mínimo necessário para explicar nada para os outros. Se você está consciente sobre o que foi explicado, se o óbvio está óbvio para você, você deve executar o processo de explicação da mesma forma que a 1ficina executa com você, através do diálogo.

Eu tinha vários problemas para resolver em relação aos grupos de práticas. O grupo dos veteranos era um amontoado de pessoas, não era um grupo. Havia muita animosidade e mágoa entre alguns membros, logo, nenhuma possibilidade de confiança entre eles, logo, nenhuma possibilidade de trabalho terapêutico em grupo. Haviam também muitos veteranos apáticos, inertes, que só faziam número no grupo, mas não praticavam. Isso entre outros problemas. E um grupo de calouros terminando o ciclo de estudos e prestes a se tornarem veteranos. O que fazer?

Foi aí que começou a nascer a ideia dos eurekarios como solução para tudo isso. Minha primeira ideia foi fazer vários grupos de dois e colocar esses grupos de dois para fazer egofonia um com o outro. Mas daí tinha um outro problema. Poucas pessoas no grupo tinham competência em fazer os 10 passos da egofonia. Foi então que lembrei de uma prática que já tínhamos executado chamada “Diário do Traidor”, onde semanalmente cada veterano testemunhava qual tinha sido o outroísmo traído na semana anterior.

Achei uma boa ideia voltar com o “Diário do Traidor”, até porque gerava interação entre o grupo. Mas todo mundo falava ao mesmo tempo, ficava uma bagunça e um atrapalhava a análise do outro ao invés de ajudar. Foi então que tive a ideia de dividir os praticantes em grupos de sete e colocar um praticante em cada dia da semana. Simples e eficiente. Seria o fim da bagunça. E ao invés de um atrapalhar o outro, um iria ajudar o outro. Fiquei muito feliz com a ideia.

Fiz um convite no grupo dos veteranos e 12 deles aceitaram começar com o novo modelo de práticas. Os inertes foram retirados do grupo dos veteranos, o que já resolveu o problema da inércia. Para tentar resolver o problema da animosidade e da mágoa tive a ideia de colocá-los para ouvir a história de vida um dos outros. Para ajudá-los a contar suas histórias, ia fazendo perguntas e foi assim que foi nascendo as perguntas que hoje são a prática da linha do tempo.

Ajudou a resolver um pouco da animosidade e da mágoa entre alguns veteranos, porém, mais do que isso, esses 12 desbravadores mergulharam fundo em suas histórias de vida e tiveram eurekas pessoais profundas e muito curadoras. Foi nesse ponto que comecei a perceber que havia acertado em um alvo muito maior do que havia mirado. A prática da linha do tempo não era tão eficiente assim para resolver conflitos externos, mas era super eficiente para resolver conflitos internos.

Quando os 12 veteranos terminaram de contar a história de vida deles um para os outros, já estava claro para mim que o próximo passo, depois de ter feito a viagem pela linha do tempo, era entrar em cada ponto de dor daquela linha. E foi assim que tive a ideia do “Diário da Consciência”, que é uma análise pontual do que foi contado na prática da Linha do Tempo.

Quando terminou o ciclo de estudos, peguei tudo que já tinha aplicado no grupos dos 12 veteranos e apliquei nos novos veteranos. Chamei também veteranos que estavam sumidos para participarem dos eurekarios, pois sabia que participar seria de grande poder curativo.

Foi foda pacarai aplicar a linha do tempo em mais de 70 pessoas em um prazo de dois dias cada um. Cada cabeça é um universo e eram muitos universos dentro da minha cabeça. E ainda tinha egofonia de terça e quinta. Mas esse era o preço da realização dos eurekarios, então, fiz o que sempre faço para não enlouquecer, pisei onde o pé estava. E assim, passo a passo, a criação dos eurekarios foi se realizando.

Eu não inventei a autoobservação. Não tem como vender autoobservação. Autoobservação é uma capacidade inata humana tanto como raciocinar. Assim como não tem como dar ou retirar a capacidade de raciocinar, também não tem como dar ou retirar a capacidade de autoobservação de um ser humano. Por isso não há nada para ser vendido.

Mas capacidade não é sinônimo de competência. Todo ser humano tem capacidade inata de raciocinar, mas nem todo ser humano executa a capacidade inata de raciocinar com competência. O mesmo acontece com a autoobservação. Todo ser humano tem capacidade inata de autoobservação, mas nem todo ser humano executa a capacidade inata de autoobservação com competência.

É aí que entra o trabalho da 1ficina. O trabalho da 1ficina não é te dar a capacidade de autoobservação. Isso é impossível e desnecessário. O trabalho da 1ficina é lhe ajudar a se tornar competente na sua capacidade inata de autoobservação. Você tem a capacidade, mas não tem a competência. Ter capacidade sem ter a competência é quase como não ter capacidade nenhuma.

Tudo que a 1ficina faz é para lhe ajudar a adquirir competência em autoobservação. O ciclo de estudos é para lhe ajudar a adquirir competência em autoobservação. As conversas são para lhe ajudar a adquirir competência em autoobservação. O ciclo de egofonias é para lhe ajudar a adquirir competência em autoobservação. Tudo, tudo, tudo, tem apenas esse propósito.

E você não precisa da ajuda da 1ficina para se tornar competente em autoobservação. Você pode fazer isso sozinho. Assim como você não precisa de personal trainner para desenvolver seus músculos, você pode fazer isso sozinho, você também não precisa de ninguém para praticar autoobservação, você também pode fazer isso sozinho. Basta se comprometer em praticar e se desenvolver.

O problema é que você não faz isso. Ninguém faz. Você não tem ânimo nem de ir ao cinema sozinho, quanto mais praticar autoobservação e desenvolver sua competência. Então, é por isso que você vem aqui na 1ficina. Para praticar em grupo e ter um chato que nem eu te enchendo o saco para olhar aqui e ali e ficar consciente disso e daquilo outro.

Imagine que você está tentando limpar uma casa. Você tem água, sabão, detergente, escovas, aspirador de pó e muita motivação. Porém, por mais que você tente limpar essa casa, você não consegue. A sujeira não sai. A bagunça continua. Você não entende porque fracassa, mas também não desiste. Nada abala sua motivação. Todo dia você acorda e tenta novamente. Heroicamente. E assim você prossegue fracassando até morrer.

Quando você percebe que morreu, você fica arrasado. Você passou sua vida inteira tentando limpar uma casa e fracassou. Você sente que desperdiçou sua vida. Tanto trabalho para nenhum resultado. A frustração é tanta que você não consegue parar de chorar. Então, um anjo escuta seu choro e vem conversar com você. Ele pergunta o que aconteceu e você conta sua triste história. O anjo vai até a casa que você morreu tentando limpar e volta para conversar com você.

“Fui até a casa que você morreu tentando limpar e percebi que você cometeu um grande equívoco”, diz o anjo.
“Qual equívoco?”, você pergunta, “Usei o sabão errado? Usei a escova errada? Usei o detergente errado? O que foi que eu fiz de errado?”.
E o anjo lhe responde: “Você passou sua vida tentando limpar a casa errada, aquela casa não é a sua”.

Não faça a coisa certa no lugar errado. Faxina mental é certo, é positivo, faz você viver bem. Mas mentalidade do outro, responsabilidade do outro. A única mentalidade que você consegue limpar é a sua.

Autoanálise acontece junto com a autoobservação, mas não é a mesma coisa. Autoobservação é ver o pensamento. Autoanalise é pensar o pensamento que você está vendo. Se você não estiver vendo o pensamento, não tem como você pensar o que não está vendo, por isso ambas acontecem simultaneamente, mas não são a mesma coisa.

(1) Deixar o outroísmo explícito.
(2) Deixar a função espelho explicita.
(3) Entender a relação entre 1 e 2.

O que mais?
Mais nada.
Se não fizer isso?
Não resolve o mal viver.
Se fizer só parcialmente?
Só resolve parcialmente o mal viver.

Tem um filme chamado “Um método perigoso”. Esse filme mostra Jung, bem novinho, na época que residente e começou a trabalhar em um hospício. Haviam uns pacientes nesse hospício que eram casos perdidos. Daí Jung pediu para tratar desses pacientes. Os médicos perguntaram como ele iria tratar desses pacientes se já haviam dado todo tipo de remédio e nada havia resolvido. Perguntaram o que ele tinha de novo para oferecer. Jung respondeu que iria usa um novo chamado psicanálise. Os médicos perguntam do que se trata esse novo método, como funciona. Jung responde: “Eu converso com os pacientes e eles se curam conversando comigo”. Imagina a reação dos PHDs da medicina ao ouvirem que o Jung iria curar os loucos conversando com eles. Começaram a rir muito. Entende? Se nem os médicos entendem o poder de cura da análise, menos ainda os pacientes.

Pergunta completa: Traumas são criados num instante. Porque não são desconstruídos num instante também? Porque precisa de tempo e persistência para se desconstruí-los?

Primeiro, você está confundindo trauma com padrão de comportamento. Trauma é memória. Memória não se descontrói. Você não consegue deletar memória. Dito isso, através da repetição de um padrão de comportamento, você vai criando uma memória desse padrão de comportamento. Demora muito tempo e requer muita repetição para você criar uma forte memória de um padrão de comportamento. Logo, requer muito tempo e repetição para substituir um padrão de comportamento por outro. Então, não se descontrói trauma e nem padrão de comportamento. Trauma se acumula e padrão de comportamento se substitui, igual arquivos em um pendrive.

 

Dei o nome de Romeu para seu marido para facilitar responder. A resposta é simples! Você permanece casada com Romeu porque opta por permanecer casada com Romeu. Ninguém te obriga a permanecer. Nada lhe impede de mudar de opção. Todo dia você acorda e continua casada com Romeu porque todo dia você diz sim para Romeu, igual você disse no dia do seu casamento. No momento em que você decidir dizer não para Romeu, pronto, será o fim do seu casamento com Romeu.

Entendido isso, você pode me perguntar: E por que eu opto por continuar casada com Romeu?

Eu lhe pergunto: Quem opta por permanecer casada com Romeu?

Você responde: Sou eu que opto.

Eu lhe pergunto: Então, por que está perguntando o motivo para mim?

Entende? Eu não sei o que acontece dentro de você. Certamente você tem um motivo para optar por continuar casada com Romeu. Porém, só você tem acesso a você, então, só você pode saber o motivo. E se quiser saber, se pergunte: por que opto por permanecer casada com Romeu? Encare a resposta, seja qual for. Uma vez que você descobrir o motivo, você pode avaliar se é um bom motivo se perguntando exatamente isso: esse motivo é um bom motivo para permanecer casada com Romeu? Se você continuará casada com Romeu depois disso, não sei, você decidirá, mas você ficará mais consciente do motivo de permanecer casada e isso lhe ajudará a optar melhor.

Certa época, minha esposa foi contratada para dar aula de ciências numa escola pública, no ensino fundamental, de 5ª a 8ª série. Quando chegou para dar aula, foi inviável, porque os alunos não eram sequer alfabetizados. Eles não conseguiam estudar nada porque não conseguiam ler nada. Minha esposa, espantada, foi conversar com a diretora e disse que não tinha como dar aula para eles, que eles tinham que ser alfabetizados primeiro. A diretora disse: “Então, faz isso, alfabetiza eles primeiro”. Analogamente, foi isso que aconteceu quando decidi criar o ciclo de estudos EUreka. Eu falava sobre ser humano para os outros, mas ninguém me entendia. Então, entendi que para poder conversar com os outros seres humanos sobre a experiência humana, primeiro eu precisava alfabetizá-los sobre o que é ser humano. O ciclo de estudos EUreka sou eu ensinando o bê-a-bá do que é ser humano.

A 1ficina NÃO FAZ TERAPIA. A 1ficina explica o que é ser humano existencialmente e psicologicamente. Mas tem um terceiro aspecto do ser humano que é o fulano, o aspecto pessoal. Esse terceiro aspecto, só você pode investigar e descobrir. Para que você possa produzir autoconhecimento pessoal, você deve praticar autoobservação pessoal. Para ajudar você a praticar autoobservação pessoal, a 1ficina produziu uma metodologia de estudo, um passo a passo, chamado Egofonia. A prática da Egofonia produz autoconhecimento pessoal.

O EFEITO COLATERAL da produção de autoconhecimento pessoal é cura psicológica. Mas isso precisa ficar claro! A egofonia não é uma terapêutica. A egofonia é uma forma de facilitar a prática da autoobservação pessoal e produção de autoconhecimento pessoal.

Sua natureza humana é um programa consciencial similar ao sistema operacional de um computador. Autoobservação psicológica é você observando o funcionamento do seu sistema operacional humano. Só que, conforme você vai vivendo, você vai customizando seu sistema operacional humano, igual você faz com seu computador. Todo computador vem com o windows igual, mas cada usuário vai customizando seu windows para sua necessidade. A customização do seu sistema operacional humano é sua personalidade. Autoobservação pessoal é você observando o funcionamento da sua personalidade. Claro que ambos, psicológico e pessoal, estão juntos e misturados. Por isso a dificuldade em discernir um do outro.

A pior análise é aquela que você nunca começa.

A principal doença psicológica do ser humano, não é psicológica, é existencial. Esse é o problema. A principal doença do ser humano se chama: ignorância. Mas ignorância do que? IGNOR NCIA SOBRE O QUE É SER HUMANO. O ser humano ignora a si mesmo. Viver outroísta é apenas efeito colateral da ignorância sobre o que é ser humano. Nenhum ser humano lúcido vive outroísta porque é óbvio que é a maior roubada. Ignorância é uma questão existencial. O doente é o ser. A doença do ser é dormir (estado de ignorância). O humano não tem nada a ver com isso. O humano é só um programa rodando dentro do ser. O humano é como um carro. O ser é o motorista. O motorista dorme no volante e o carro cai no abismo. Que culpa tem o carro? Nenhuma!

Fazendo uma analogia, é a mesma diferença entre ouvir música e fazer uma música. Quando você está ouvindo uma música, mesmo que seja uma composição sua, a música já está feita e você está apenas dando REplay e ouvindo PASSIVAMENTE. Quando você está fazendo uma música, você não está dando REplay, você está ATIVAMENTE produzindo a música que depois você irá dar REplay e ouvir passivamente. Entende a analogia? Pensar o pensamento é o ato ativo e consciente de analisar os velhos pensamentos e produzir novos pensamentos. Pensar o pensamento é fazer novas composições mentais. Experimentar pensamentos é ficar ouvindo todos os pensamentos que já estão gravados e que ficam tocando subconscientemente num REplay infinito.

Vamos investigar a fome primeiro.

Quando a fome acontece em você, qual das duas opções abaixo você executa?

OPÇÃO A – ( ) comer pão
OPÇÃO B – ( ) abrir a janela

OPÇÃO A – (x) comer pão

Pergunta: Por que você opta por comer pão?

Porque é a melhor opção para lidar com a fome.

Pergunta: Por que você não opta por abrir a janela?

Porque não é a melhor opção para lidar com a fome.

Pergunta: Por que você afirma que comer pão é melhor que abrir a janela?

Porque ao comer pão eu lido com a fome e ao abrir a janela não.

Pergunta: Por que você afirma que ao comer pão você lida com a fome e ao abrir a janela não?

Porque eu sei que comer pão mata a fome e abrir a janela não.

Exatamente! Você sabe como lidar bem com a fome. Você sabe qual é a função da fome e como a fome funciona. Então, é óbvio o que fazer quando a fome acontece. Você não abre a janela, pois você sabe que fazer isso é tolice. Você sabe que para lidar bem com a fome você deve se alimentar. É óbvio. Porém, contudo, todavia, entretanto, você não sabe o que fazer quando o sofrimento acontece. Você ignora a função do sofrimento e como funciona. Quando o sofrimento acontece você abre a janela, fuma cigarro, toma antidepressivo, toma pinga, briga com deus e o mundo, se tranca no banheiro, bate a cabeça na parede, bate punheta, pratica yoga, vai rezar, faz simpatia, faz promessa, assiste netflix, enfim, faz de tudo, menos o que você deve fazer: usar o sofrimento como estudo de caso para praticar autociência e produzir autoconhecimento.

Você me perguntou: Se sofrimento é um acontecer: o que fazer?

Usar esse acontecimento para praticar autociência e produzir autoconhecimento.

Vou ter que estudar um por um? Ansiedade, angústia, desespero, tristeza, etc.

Se quiser produzir autoconhecimento, sim. Mas você não precisa ir atrás do estudo, o estudo vem até você. Toda vez que um sofrimento acontecer em você, é o estudo batendo na porta. Abra a porta e aproveite a oportunidade de estudo daquele momento. Em outro momento haverá outro sofrimento batendo na porta. É outra oportunidade de estudo. E assim por diante, até o fim das oportunidades, ou seja, até morrer.

Seu eu-presente condena seu eu-passado pelos erros que ele cometeu. Só que o eu-passado não sabia o que o eu-presente sabe, então, não tinha como fazer diferente. A prática do perdão nesse caso, é a mesma do perdão para com o outro. Você deve colocar o eu-presente para calçar os sapatos do eu-passado. O eu-presente que condena o eu-passado geralmente é adulto. E o eu-passado era só uma criança que na época não sabia nada de nada, mas era cobrado em fazer tudo certo, e um certo que desconhecia, até porque, o tal do certo, era só uma norma que não estava escrita em lugar nenhum e mudava de um adulto para o outro.

Fazendo uma analogia com o computador, o psiquiatra mexe no hardware (cérebro) e o psicólogo mexe no software (programação mental). O que acontece é que, se o problema for de software, não adianta ficar mexendo no hardware e vice-versa. E quando é problema de software, só o usuário (indivíduo) tem acesso a sua programação mental. Então, o psicólogo funciona como um técnico em informática lhe dando instruções pelo telefone sobre como consertar o bug que deu no Windows. É difícil? É. É limitado? É. Demora? Sim, bastante. Mas é melhor isso do que nada. Talvez no futuro seja possível conectar um cabo USB da cabeça do terapeuta para a cabeça do paciente. Por enquanto, ainda não é. Então, a única porta de entrada que o terapeuta tem para entrar no paciente é o diálogo, ou seja, a conversinha. É o que tem para hoje.

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