TRÊS PASSOS DA CURA PSICOLÓGICA

05/11/2018 by in category Livros with 0 and 0

INTRODUÇÃO

Uma vez por ano a 1ficina realiza um ciclo de estudos chamado Autociência Passo a Passo. Em 2020 acontecerá a sexta edição desse ciclo. Na primeira edição, percorri os principais temas da autociência em ordem crescente de entendimento, começando pelo existencial, passando pelo psicológico e chegando no social (convivência). Foram em torno de 27 conversas, uma por semana. Todas foram gravadas. Terminado esse primeiro ciclo de estudos, decidi transcrever as conversas, revisá-las e transformá-las em livros. Transcrevi todas, menos a última, chamada: Três passos para a cura psicológica. Agora, terminado o quinto ciclo de estudos, decidi transcrevê-la e transformá-la em livro também. Três passos para a cura psicológica é um livro curto, simples e direto, escrito para quem realmente deseja viver bem e está disposto a pagar o preço. Ou seja, não é para interessados, é para comprometidos. Por isso foi a última conversa do primeiro ciclo de estudos. Se você ainda não está acostumado com a terminologia da 1ficina, principalmente com a palavra “outroísmo”, provavelmente terá um entendimento superficial dos três passos. Para aprofundar, você pode ler os outros livros e participar de um ciclo de estudos.


01 | PRIMEIRO PASSO | ADMITA

Uma amiga decidiu buscar apoio num grupo de anônimos e pediu que eu fosse junto. O encontro foi numa igreja no centro de São Paulo. Aceitei, pensando em ajudá-la. Ledo engano! Para minha amiga foi um banho de sal grosso, para mim, foi tratamento de choque, 220 volts. Sentados em cadeiras plásticas, os criminosos se sentiam muito à vontade para relatar seus crimes, revelar seus segredos mais íntimos, confessar suas cagadas mais inconfessáveis. Gostei tanto daquele confessionário que ir às reuniões se tornou meu programa favorito de sábado. Enquanto minha amiga refletia sobre sua compulsão, eu aprendia sobre o primeiro passo da cura psicológica.

Provavelmente você já ouviu falar do AA (Alcoólatras Anônimos). Se nunca ouviu, trata-se de um grupo de apoio, sem fins lucrativos, para ajudar alcoólatras a se manterem sóbrios. O AA funciona basicamente através de reuniões semanais. Durante essas reuniões os participantes contam sobre suas vidas, sobre seus dramas com o alcoolismo e sobre o processo de abstinência.

Muitos alcoólatras se recusam a participar das reuniões do AA. Por que? Porque participar de uma reunião de AA significa admitir que você é um alcoólatra. Muitos não querem admitir isso. Por isso, quando um alcoólatra entra em uma reunião de AA, ele está dando o primeiro passo para cura do alcoolismo: admitir o alcoolismo.

O mesmo acontece com o outroísmo. O outroísmo é a doença psicológica por trás de todas as doenças psicológicas. O outroísmo é a raiz de todas as doenças psicológicas. Todos os seres humanos, sem exceção, possuem mentalidade outroísta, embora em diferentes graus e modalidades. Então, o primeiro passo para a cura psicológica é você admitir seu outroísmo.

É a negação da doença que impossibilita a cura. Quando você está doente e não admite que está doente, isso só perpetua e agrava sua doença. Quando você vai ao médico ou até a farmácia, isso significa que você deu o primeiro passo para curar sua doença: você admitiu estar doente.

Enquanto você não admitir que sua mentalidade está doente (outroísta), a negação do outroísmo ficará impedindo a cura. Então, negar a doença é o primeiro obstáculo. Só que você nem sabe que está doente. Você acredita que está saudável, que não tem nada de errado com sua mentalidade. Você nem sequer sabe que sua mentalidade é outroísta. Você nem sequer sabe o que é outroísmo.

Resumidamente, outroísmo é você vivendo em desacordo com você. Se você não está em acordo com você, logo, está em acordo com os outros (outroísta). Sem que sequer desconfiasse, você foi programado e se programou para viver de forma outroísta. Eis porque você é outroísta sem saber.

O que você sabe é que você vive mal, vive sofrendo, vive em conflito consigo e com os outros. Mas você acha que é assim mesmo. Sequer desconfia que isso é resultado de uma mentalidade outroísta. Eu lhe garanto que é. Não existe outra causa para o mal viver senão o outroísmo. Você vive mal porque vive outroísta. E você vive outroísta porque sua mentalidade é outroísta.

Mas não estou escrevendo para lhe convencer que está doente. Escrevo para que comece a considerar que está doente e possa dar o primeiro passo da cura psicológica: admitir a doença. Sendo que está lendo esse livro, suponho que está disposto a dar o primeiro passo. Meus parabéns! Boa prática! E vamos ao segundo passo da cura psicológica.


02 | SEGUNDO PASSO | AUTOOBSERVAÇÃO

Todo dia uma velhinha passava de motocicleta pela fronteira carregando uma caixa na garupa. O fiscal da alfândega começou a desconfiar dela. Um dia, quando a velhinha vinha passando, o fiscal mandou ela parar e perguntou: “O que tem dentro dessa caixa na garupa da motocicleta?”. A velhinha respondeu: “Areia”. O fiscal duvidou e abriu a caixa. Realmente, só tinha areia dentro da caixa. Encabulado, o fiscal liberou a velhinha, mas não se deu por convencido, talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba. No dia seguinte, o fiscal parou a velhinha e examinou a caixa novamente. Só tinha areia. Durante um mês, todos os dias, o fiscal parou a velhinha e examinou o conteúdo da caixa. Era sempre areia. Cansado, frustrado e intrigado, o fiscal fez uma proposta para velhinha: “Eu prometo que deixo você passar, não dou parte, não te prendo, não conto nada para ninguém, mas a senhora precisa me dizer qual é o contrabando que está passando por aqui todos os dias”. A velhinha respondeu: “motocicleta”.

Você é igual o fiscal da alfândega. Você se preocupa com o que está acontecendo, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua preocupação. Você se magoa com o outro, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua mágoa. Você se entristece com algo, mas jamais observa o funcionamento psicológico da sua tristeza. Você odeia isso e aquilo, mas jamais observa o funcionamento psicológico do seu ódio. Enfim, você não pratica autoobservação. Por isso, não importa quantos livros de psicologia, filosofia, autoajuda e autoconhecimento você já leu e ainda lerá. Sem autoobservação é impossível produzir autoconhecimento e sem autoconhecimento é impossível você curar sua mentalidade outroísta.

O segundo passo da cura psicológica é praticar autoobservação. Só isso! Nada além disso! Autoobservação basta. Essa é a boa notícia. Com autoobservação você fica consciente e sai da ignorância, com consciência você se cura psicologicamente. Mas tudo tem um preço. A má notícia é que não há nada mais difícil do que praticar autoobservação. Por que? Porque você precisa virar o olho do avesso. Seu objeto de estudo na autoobservação é você mesmo e você foi educado na contramão da autoobservação. Você foi educado a ler livros, mas nunca foi educado a ler a si mesmo. Você não tem prática em observar seu funcionamento psicológico, você só tem prática em olhar para caixa na garupa da motocicleta, ou seja, olhar para o lugar errado.

Você fica onde foca. Se você foca na caixa na garupa da motocicleta, você fica na caixa e não descobre o contrabando de motocicletas. Se você foca nos acontecimentos do mundo externo, você fica no mundo externo e não descobre seu mundo interno (mundo psicológico). Se você foca em teorias, você fica nas teorias e não se conhece de fato, não produz autoconhecimento. Por isso não tem salvação fora da autoobservação. Sem autoobservação você permanece na ignorância. Com ignorância você fica impossibilitado de curar sua mentalidade outroísta, pois é a ignorância do seu outroísmo que perpetua seu outroísmo.


03 | TERCEIRO PASSO | TEIME

Na medicina física, o processo de análise do paciente leva ao diagnóstico da doença, o diagnóstico leva a indicação do remédio e a repetição do remédio leva a cura. Na medicina psicológica, não precisa do remédio, o processo de autoobservação já é a cura. Outroísmo só sobrevive na ignorância. Uma vez que você se observa e fica consciente sobre o funcionamento do seu outroísmo, ou seja, entende quando ele acontece, porque acontece, como acontece, etc, é o fim do seu outroísmo.

Mas se autoobservação basta, por que terceiro passo? Porque seu outroísmo não está em um ponto isolado, está espalhado por toda sua mentalidade, igual um vírus de computador. Você não tem apenas uma crença outroísta. Todo seu sistema de crenças é feito de lógica outroísta. Com autoobservação você vai detectando cada crença outroísta e se curando, porém, como são muitas crenças e sobrepostas umas as outras, requer prosseguir até o fim. E quando é o fim? Quando termina. E quando termina? Quando acaba. E como sei que acabou? Você começa a viver bem onde vivia mal.

Ninguém vive bem por acaso, milagre ou destino. Viver bem é maestria em prática. Só que ninguém é mestre por acaso, milagre ou destino também. Maestria é produto da teimosia. Assim como um neném precisa teimar em se levantar e se equilibrar para adquirir maestria em andar, você também precisa teimar em observar seu outroísmo para adquirir maestria em viver bem. Observar seu outroísmo é o segundo passo da cura psicológica, mas entre o segundo passo e a maestria há uma longa jornada de teimosia.

Para dar um testemunho, não cheguei ao fim do meu outroísmo. Nem me preocupo com isso. Me ocupo apenas de praticar autoobservação. Sei que todo resto é efeito do meu nível de autoconhecimento e maestria. Mas já caminhei um bocado na prática de autoobservação e posso afirmar que vale prosseguir. A prática faz a prática. Quanto mais pratico autoobservação, mais fácil fica praticar, mais maestria. Quanto mais maestria, melhor a qualidade das minhas escolhas, ou seja, melhor a qualidade do meu viver.

Concluindo, enquanto você não for capaz de admitir sua doença, você sequer irá começar sua viagem de cura, aliás, estará ampliando sua doença. Quando admitir, sua viagem de cura terá começado, mas é uma viagem muito muito muito longa, então, você precisa ser muito muito muito teimoso para persistir rumo a maestria, pois desistir é muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito mais fácil.

AUTOBIOGRAFIA DA CURA
Texto adaptado de Sogyal Rinpoche

Ando por uma rua.
Há um buraco.
Não vejo.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo, mas não admito.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo e admito,
mas não sei o que fazer.
Caio no buraco.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco.
Vejo e sei o que fazer.
Dou a volta.

Ando por outra rua.

FIM

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