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*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.


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A primeira vez que produzi um vídeo clip da música Shangrilá para publicar na internet, eu morava em um sítio com minha avó. No sítio ao lado morava Sebastião, irmão mais velho da minha avó. Bastião, como todos o chamavam, acordava todo dia bem cedo para fazer caminhada na rodovia vicinal que passava em frente o sítio. Ele andava dois quilômetro ida e volta, bem devagar, arrastando as botinas pelo asfalto. Dava tempo de ordenhar todas as vacas do sítio e Bastião ainda não havia terminado sua caminhada matinal.

A paciência de Bastião em caminhar tão tranquilo e vagarosamente me encantava. Era como se ele caminhasse cantando “Shangrilá é lá, eu vou a pé. Shangrilá é aqui…”. Então, certo dia, peguei minha filmadora e gravei Bastião caminhando até chegar na porteira do seu sítio. Depois peguei a gravação, acrescentei a música Shangrilá e carreguei no youtube. Foi o primeiro clipe da música. A versão atual dessa música é com outra gravação e outro vídeo, mas a caminhada de Bastião permanece na minha memória como fonte de inspiração.

Bastião era caipira pira pora, mas caminhava como um iluminado dando passinhos de zazen. Será que todo caipira é iluminado? Minha avó também era iluminada. Ela tinha até mantra para expressar o caminho para iluminação. Ela me dizia assim: “Devagar é pressa”. Sabe quando uma pessoa querida te abraça calorosamente numa situação de estresse e te diz: “Calma! Está tudo bem”. Eu sentia o mesmo conforto ouvindo o mantra da minha avó.

“Mas onde quero chegar com tudo isso?”, você deve estar se perguntando. Quero chegar em Shangrilá e explicar a diferença entre paciência e passividade. Contei tudo isso para introduzir e ilustrar o tema. O que desejo esclarecer é porque paciência é uma virtude e passividade não.

Primeiro vamos entender o que é passividade. Imagine que você está jogando xadrez. Passividade é a crença equivocada de que você não precisa fazer nada para ganhar o jogo, que um milagre irá pensar por você, mexer suas peças por você, jogar por você e ganhar por você. Passividade é esperança. É esperar que algo ou alguém irá fazer por você o que só você pode fazer por você: viver sua vida.

Por isso que passividade não é virtude. Passividade é sua vida sem você. Passividade é você sentado no banco do passageiro assistindo os outros e as circunstâncias dirigirem sua vida. E pior! Na maioria das vezes, dirigindo sua vida para o lugar oposto de onde você deseja estar.

É por isso que muitas vezes você perde a paciência, berra, esperneia, roda a baiana e parte para briga. Você pensa: “Passividade não, passividade nunca, passividade jamais!”. Seu pensamento está correto, pois passividade não te ajuda mesmo. É preciso ter atitude para ser autor da própria história. Mas não é perdendo a paciência que você consegue isso.

Voltando ao jogo de xadrez, você deve agir para jogar e ganhar o jogo. Você deve pensar, optar e mover suas peças. Mas isso é na sua vez de jogar. Uma vez que você moveu sua peça, sua vez acabou e começa a vez do outro. É a vez do outro pensar, optar e fazer a jogada dele. Nesse momento do jogo, quando é a vez do outro jogar, não há nada externo que você possa fazer, pois você não controla o arbítrio do outro. Nesse momento do jogo, a única coisa que você pode fazer é ter paciência.

Eis o desafio do jogo da convivência. Conviver é igual dirigir carro no trânsito, você dirige seu carro, mas só dirige o seu, não dirige o carro dos outros. Quando você esquece disso ou ignora, é impossível ter paciência.

Passividade é fruto do medo, paciência é fruto da lucidez. Passividade é quando você se proíbe de agir por medo da reação do outro. Paciência é quando você sabe que é impossível agir pelo outro e por isso nem tenta. Quem olha para você de fora vê o mesmo comportamento, você não agiu, mas na paciência você fica em paz com não agir e na passividade você fica contrariado.

O livro Sidarta, de Hermann Hesse, tem uma bela passagem sobre a paciência. Sidarta está procurando emprego e vai conversar com um comerciante:

– O que você sabe fazer? – pergunta o comerciante.
– Sei pensar, sei esperar, sei jejuar. – responde Sidarta.
– E que valor tem saber isso? – pergunta o comerciante – O jejum, por exemplo, para que serve o jejum?
– O jejum é a coisa mais inteligente que se pode fazer para quem não tem o que comer. Se eu, por exemplo, não tivesse aprendido a suportar a fome, seria obrigado a aceitar hoje mesmo um serviço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome me forçaria a fazê-lo. Mas posso aguardar os acontecimentos com toda calma. Não preciso ficar impaciente. Para mim não existem situações embaraçosas. Posso aguentar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir dela. É para isso que serve o jejum.

Hermann Hesse está explicando porque você perde a paciência. A fome representa a dor, esperar representa a paciência. Quando você está sofrendo, seja com dor física, como na fome, seja com dor psicológica, como na raiva, a probabilidade de você perder a paciência aumenta, pois você precisa ter sabedoria interior para suportar a dor do desejo insatisfeito. Sabedoria interior para suportar a dor do desejo insatisfeito é o que Hermann Hesse chama de jejum (suportar a fome).

Hermann Hesse explica que paciência é uma aprendizagem, ou seja, que requer prática, e explica o benefício: “Se eu não tivesse aprendido a suportar a fome, seria obrigado a aceitar hoje mesmo um serviço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome me forçaria a fazê-lo”. Ou seja, paciência não é heroísmo, nem abnegação, é apenas inteligência, é apenas a melhor opção. Se Sidarta perdesse a paciência e não suportasse a dor, teria que aceitar um serviço qualquer.

A famosa oração da serenidade diz assim: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as coisas que posso e a sabedoria para discernir uma da outra”. Note que a oração explica que tem coisas que são do seu arbítrio e coisas que não são, mas o segredo do sucesso é discernir uma da outra. Ou seja, viver mal não vem do fato de que tem coisas que são do seu arbítrio e coisas que não são, mas da ignorância disso. Por isso, para ter paciência, só com lucidez.

⁠Paciência é o tanto de contrariedade, frustração e desconforto que você consegue suportar até realizar o que quer. Essa é minha definição autocientífica de paciência. Quando olho para minha paciência é isso que vejo.

Sou uma pessoa paciente, por isso me sinto a vontade para definir essa competência. Mas não nasci paciente. Ninguém nasce com paciência. Todo ser humano quando nasce é um bicho com reação instintiva e capacidade zero de suportar a dor. Paciência é uma competência intelectual, adulta, madura e desenvolvida através de muita prática de autoobservação e autoanálise. Assim como não é num click que você consegue suportar 20 quilos com os braços, também não é num click que você consegue suportar contrariedade, frustração e desconforto com a consciência.

Não é nada fácil desenvolver a paciência e digo isso por experiência própria. Não é fácil suportar a dor. É um trabalho de Hércules. Não é fácil discernir entre o que são as coisas que você pode mudar e as coisas que não pode. É um trabalho de Buda. Mas vale todo o esforço.

Com paciência você vive e convive bem. Assim como John Lenonn, você entende que nada é capaz de mudar seu mundo (tirar sua paz) e ao invés de enroscar nas circunstâncias feito carrapicho, você começa a deslizar feito sabonete. Assim como minha avó, você entende que devagar é pressa e começa a caminhar tranquilamente e feliz como Bastião. Assim como Sidarta no final do livro de Hermann Hesse, você descobre que Shangrilá é aqui, se torna barqueiro e vai morar na terceira margem do rio.

Se interessou pela paciência? Boa prática!

© 2021 · 1FICINA · Marcelo Ferrari