SoCo | Chora Maria!

27/08/2020 by in category Podcasts tagged as with 0 and 0

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Esse SOCO é para Maria, mas Maria não é só a Maria, também é você. E mesmo que você for homem, você também é Maria, porque sofrimento não tem sexo, nem idade, nem classe social. Então, quando disser Maria, escute você, escute sua Maria.

Salve Maria!

Minha mãe também se chama Maria. Quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida. Minha mãe é forte como você, muito forte. E paradoxalmente essa é grande fraqueza dela.

Conta minha mãe que ela era miudinha, franzina, um bichinho frágil que vivia entre os leões da família, que assim como no seu caso, também tentavam mordê-la e arrancar pedaços dela. Então, o que Maria minha mãe fez para se proteger e sobreviver no ambiente hostil?

Maria minha mãe foi engrossando a pele, foi construindo uma armadura de proteção da dor e das mordidas, foi fechando portas e janelas emocionais, foi se encastelando em mecanismos de defesa. Isso possibilitou que Maria minha mãe sobrevivesse e chegasse na idade adulta, mas matou sua criança.

Maria minha mãe não sabe ser criança, não sabe ser boba, não sabe contar piada e falar besteira, não sabe se lambuzar comendo sorvete,, não sabe ouvir música batendo o pé no chão, não sabe dançar, não sabe dar cambalhota no tapete, e o pior de tudo, não sabe ser fraca. Maria minha mãe não sabe acolher seu sofrimento.

Ontem você não chorou, Maria. Ontem você contou tudo como uma verdadeira Maria: forte, forte, forte. Uma sobrevivente. Ontem você contou tudo como uma adulta, afinal, chorar é coisa de criança. Big girls dont cry. Adultos não choram.

Ontem você foi tão adulta que contou sua dor frente do lobo mal como se fosse uma notícia de jornal, não derramou nenhuma uma lágrima de dor, nem deixou transparecer uma ruga de sofrimento sequer. Ontem você foi tão adulta que perdoou o lobo mal e colocou a culpa em si mesma.

Tem uma frase famosa do Che Guevara que diz assim: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura”. Parafraseando, prefiro assim: “Hay que amadurecer, pero sin perder la criança”.

Tudo que é duro demais, quebra. O bambu enverga e balança para lá e para cá, mas só enquanto é vulnerável, quando fica seco demais, duro demais, invulnerável demais, o bambu quebra.

O vento se encarrega de fazer o bambu quebrar e a vida se encarrega de fazer o mesmo com as pessoas enrijecidas. Só que o bambu não tem escolha, o sol o endurece e não há como o bambu voltar a ser flexível. Pessoas têm escolha sempre.

Pessoas podem se despir voluntariamente de suas armaduras, passar creme hidratante na alma e voltar a ficar a flor da pele. Pessoas fortes, duras, adultas, soldados da invulnerabilidade podem dar marcha ré e voltarem a sofrer e chorar feito crianças.

Chora, Maria! Pode chorar!

Se permita ser fraca como toda criança e deixe transpirar seus sentimentos. Deixe as nuvens carregadas se descarregarem. Dê início ao seu dilúvio. Faz o rio Amazonas ficar com vergonha de tanta água que irá brotar de você.

Maria minha mãe, assim como sua mãe, foi uma pessoa forte e sobrevivente, que pensando no meu bem, tentou me fazer mais forte do que ela.

Felizmente, Maria minha mãe, não conseguiu me fazer ser uma pessoa forte.

Sou fraco, fraco, fraco. Eu sou um fraco com aço, eu sou um fracasso. Fracasso no ofício da invulnerabilidade. Eu sou uma pessoa que sofre e chora de alegria e chora de tristeza. Mas ser um fracasso é minha maior força. Ser fracasso é o que me faz envergar feito bambu e não quebrar. É minha derrota constante para presença do meu sofrimento que não me deixa ficar alheio ao sofrimento alheio.

Chora, Maria! Pode chorar!

Ainda dá tempo de ser um fracasso. No seu caso, uma fracassa. Fracassa ao sofrimento, fracassa ao sentimento, fracassa as emoções, fracassa a negação de si. Ainda dá tempo de perder o jogo do não e dizer sim. Ainda dá tempo de abrir a janela e deixar o sol e sim entrar.

Deixa o sim entrar e as lágrimas saírem.

Sim, pode chorar, Maria.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari