SEXO, FUNCIONAMENTO E MORALIDADE

09/05/2020 by in category Textos with 0 and 0

Como você considera a questão da sexualidade? Tem certo e errado?

Quando a água é aquecida, vira vapor. Tanto faz se você goste ou desgoste disso, tanto faz se você considera certo ou errado, tanto faz se você acha que deveria ser diferente. É assim que funciona. Mesmo que você convença todas as pessoas do planeta que o comportamento da água está errado, que deveria ser diferente, ainda assim a água continuará tendo o mesmo comportamento. Você pode criar uma lei proibindo a água de virar vapor. Você pode mandar prender a água. Você pode até condenar a água a pena de morte por desobedecer sua lei. E ainda assim a água continuará tendo o mesmo comportamento.

Ou seja, a natureza não funciona de acordo com a moral, funciona de acordo com o natural. Por isso, o trabalho de um cientista é observar e estudar o funcionamento da natureza, não é fazer julgamento moral sobre esse funcionamento. Um cientista não é moralista, nem imoral, é amoral. O mesmo acontece com a autociência. O trabalho de um autocientista é observar e estudar o funcionamento da natureza humana, não é fazer julgamento moral sobre esse funcionamento. Por isso, tanto faz minha opinião moral sobre a sexualidade humana. A sexualidade humana funciona como funciona e não muda por conta da minha opinião moral, nem por conta da opinião moral de ninguém.

Dito isso, posso compartilhar um pouco do que já observei e descobri sobre o funcionamento da sexualidade humana. O mais importante a ser observado e comprovado é que sexualidade não se resume a sexo. Atração sexual é atração pelo prazer. Se imagine fazendo sexo com um liquidificador, por exemplo. Isso te dá tesão? Claro que não! Por que não? Porque ao fazer sexo com um liquidificador você irá experimentar o oposto do prazer, você irá experimentar dor. Você faz sexo para experimentar prazer. Só que sexo não é a única forma de você experimentar prazer. Você pode experimentar prazer ouvindo música, comendo macarrão, praticando esporte, assistindo filmes, conversando, contando piada, entrando no mar, rolando na areia, etc.

Sexualidade é sensorialidade. Sensorialidade é lidar com o prazer e o desprazer. Cada um tem uma sensorialidade única, particular, diferente dos outros. Então, cada um tem um critério de prazer e desprazer único, particular, diferente dos outros. Eu, por exemplo, detesto comer jiló, pois não tenho prazer em comida amarga, é desprazeroso para mim. Mas tem pessoas que adoram comida amarga. Eu detesto techno music também, mas tem pessoas que adoram techno music justamente pelo mesmo motivo que detesto, o repetitivo som de bate estaca.

Sensorialidade funciona assim, você tem tesão pelo que te dá prazer e brocha com o que te dá desprazer. Porém, só você é capaz de saber O QUE te dá prazer, QUANDO te dá prazer e COMO te dá prazer, pois mesmo a coisa prazerosa, no momento errado ou de forma errada pode gerar desprazer ao invés de prazer. Então, cabe a você decidir o que, quando e como é prazer e desprazer para você. Ninguém pode fazer isso por você, porque só você tem acesso a sua unicidade e a sua experiência humana.

Dito isso, vou responder o resto da sua pergunta:

PERGUNTA: Como viver em paz com a própria sensorialidade (sexualidade)?

Simples, não entrando em guerra. Onde não há guerra, há paz.

COMPLEMENTO: …que precisa ser aceita pelo outro para que possamos conviver bem?

Essa sua crença é um equívoco. Quem deve aceitar sua sensorialidade é você, não o outro. Ninguém tem obrigação de aceitar sua sensorialidade. Ninguém tem obrigação de aceitar nada. Não existe obrigação no universo. Uma pessoa pode até respeitar sua sensorialidade voluntariamente. Mas só fará isso se for uma pessoa iluminada, um ser humano consciente sobre o que é respeito e porque é a melhor opção de convivência. Seres humanos assim são raros. Então, se você ficar esperando o outro aceitar sua sensorialidade para viver bem, tudo que irá conseguir será morrer esperando e vivendo mal. O que você pode fazer é se libertar dessa esperança. Você pode desistir de esperar que o outro lhe aceite e se aceitar. Isso sim irá lhe ajudar a viver e conviver melhor.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari