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*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

Repetir, repetir, repetir

13/04/2020 by in category Textos, Tic tac tagged as , , with 0 and 0

Michelangelo pintou a Capela Sistina deitado em um andaime. Até aí tudo bem. Mas foi Michelangelo que construiu o andaime. Imagina o cara louco para pintar o que estava imaginando, mas tendo que construir uma andaime. Bem chato, né?

Andaimes estão presentes em todos os aspectos da sua vida. Representa uma chatice, que se não for aceita e suportada, impede você de chegar à realização de algo desejado, impede você de pintar sua Capela Sistina.

Vou contar um exemplo pessoal. Eu ando de skate. Skatistas se dividem basicamente em dois grupos, os que conseguem executar o kickflip e os que não conseguem. Outro dia, acertei meu primeiro kickflip. Adivinha quanto tempo tive que praticar para conseguir executar uma manobra que demora 3 segundos para ser executada?

Um ano! Isso mesmo! Um ano de tentativa e erro, erro, erro, erro, erro, erro. E vai, e vai, e vai…. e nada. E vai de novo, de novo, de novo, de novo… e nada, nada, nada. Um ano de absolutamente nada. Um ano de fracasso após fracasso. Um anoooooo!

Como se não bastasse o recorrente fracasso, minha cabeça falava assim: “Desiste dessa merda! Essa merda não é pra você! Você está velho. Nem os moleques conseguem, vai fazer outra coisa. Desiste logo! Não vai conseguir nunca! Esquece isso!”.

Não desisti. E por que não? Porque já fui professor de inglês. Como assim? Explico.

O aluno que vai aprender inglês (segundo idioma) não se lembra do processo pelo qual passou na infância para aprender o primeiro idioma. Ninguém lembra. Então, surge no aluno a crença (equivocada) de que aprendizagem é um processo sem processo.

Grande engano. Para aprender um segundo idioma o aluno deve passar pelo mesmo processo de aprendizagem que passou para aprender o primeiro. Óbvio! Só que tem uma coisa no processo de aprendizagem do segundo idioma, que também teve no processo de aprendizagem do primeiro, que o aluno esqueceu e não está interessado em lembrar. O que é?

Repetição. Infinitas horas de repetição. Tediosas horas de repetição. O saco explodindo de não aguentar mais repetir a mesma palavra, a mesma estrutura gramatical, o mesmo som, o mesmo vocabulário, o mesmo mesmo.

Eu já vi aluno chorando, sangrando, se descabelando, fazendo promessa, implorando de joelhos, oferecendo pagar o dobro, o triplo, o que fosse preciso para aprender sem precisar passar pelo processo de aprendizagem.

Vi também muitos alunos desistirem de aprender inglês. Aliás, a maioria esmagadora desiste. Alguns voltavam depois, mas desistiam novamente. E voltavam de novo, mas desistem novamente. E ficavam assim, rodando em círculos na estaca zero.

Mas também vi o milagre da aprendizagem acontecendo com os alunos que persistem, que pagavam o preço da aprendizagem, que suportavam e sobreviviam ao tedioso processo da repetição.

De tanto ver isso nos meus alunos, ficou óbvio para mim que a prática faz a prática. Por isso não desisti de acertar o kickflip, sabia que se continuasse praticando inevitavelmente acertaria e foi o que aconteceu.

Claro que desisto de muitas coisas. Saber desistir é tão importante como saber persistir. Quando percebo que algo estou persistindo não está me ajudando, desisto imediatamente. Quanto mais rápido desisto, melhor.

Por exemplo, teve uma vez que comecei a fazer Tai Chi Chuan. Gostei bastante. Mas logo percebi que não era prioridade para mim. Assim que entendi isso, desisti imediatamente. Fui gastar minha energia e tempo com outras atividades que tinham maior prioridade.

A tediosa e infinita repetição é o andaime que leva a competência. Só talento não é suficiente. Talento facilita, mas não substitui o processo de aquisição da nova competência. E pior! O talento apodrece.

Trabalho com desenvolvimento humano, vejo pessoas com talento apodrecido e teimando em perpetuar o apodrecido todo dia. E por que? Por não pagarem o preço do desenvolvimento da competência: a repetição.

Dói desenvolver uma nova competência. Dói mais ainda mudar de uma velha competência (hábito atual) para uma nova competência (hábito novo). Mas não tem atalho: fugir da repetição do novo é perpetuar o velho.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari