*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

RÉGUA DO MEDO

06/09/2021 by in category Textos tagged as , , with 0 and 0

A pista de skate está cada dia mais cheia de meninas, talvez por conta da conquista da Rayssa Leal nas olimpíadas. Ontem, quando cheguei para andar, uma menina estava parada feito estátua em cima do quarter, olhando para baixo.

Quarter é uma rampa com aproximadamente dois metros de altura que os skatistas usam para descer e pegar velocidade. Descer é dropar. Para dropar é preciso colocar o skate na borda da rampa e se atirar rumo ao chão em queda livre.

Para quem é skatista faz tempo, dropar nem é uma manobra. Mas para quem é iniciante, como no caso dessa menina, dropar é como pular de um penhasco.

Comecei meu rolê. Meia hora depois, quando fui beber água, olhei para o quarter e a menina ainda estava lá, parada na mesma posição, olhando para baixo.

— Tenta na miniramp primeiro, que é menor, depois você volta aqui — aconselhei a menina.

— Na miniramp é fácil, eu já consigo — ela respondeu.

— Treina lá até pegar confiança — acrescentei.

A menina aceitou meu conselho. Dropou várias vezes na miniramp e depois voltou para o quarter. Mas ainda não sentia confiança suficiente para dropar no quarter.

Um skatista que também estava andando no quarter, conversou com ela. Mostrou como dropar. Disse que era fácil e que não precisava ter medo.

Mais de uma hora de rolê e a menina ainda estava parada no topo do quarter, exatamente na mesma posição de quando cheguei. Podia até ver a briga dentro dela. O desejo gritava — Vai, vai, vai logo! — E o medo gemia — Nãaaao! Não faz isso!

— O máximo que pode acontecer é você se esborrachar no chão — disse explicitando sua briga interna e tentando colocar um sorriso na sua cara tensa.

Ela sorriu nervosa. Depois, respirou fundo e disse confiante:

— Agora eu vou!

Mas ela não foi. A menina não se moveu um milímetro. Continuou olhando para o chão e parada exatamente no mesmo lugar, como se fosse uma fotografia.

Ficou óbvio que ela estava determinada, que não iria desistir até conseguir, que a pista poderia fechar, que poderia passar uma semana, um mês, um ano, a vida inteira, mas ela iria continuar alí, na mesma posição, até perder o medo e dropar daquele quarter.

— Quer que eu segure sua mão? — perguntei.

— Sim, sim, quero! — ela respondeu contente com a oferta.

Segurei firme na mão da menina e ela dropou perfeitamente, como se fosse a milésima vez naquele dia. Assim que percebeu o que havia acabado de fazer, voltou correndo para cima do quarter e disse esquecida de todo o passado recente:

— Agora eu vou sozinha.

E a menina dropou uma dezena de vezes na sequência, só para exorcizar o medo.

Voltei para casa pensando como o medo deixa as coisas maiores do que são. Um quarter de dois metros não tem nem dez centímetros para quem está acostumado a dropá-lo, mas para os iniciantes, por conta do medo, parece um abismo.

O mesmo acontece com a prática da autoanálise. O medo amplia a dor, constrói um cenário catastrófico na imaginação e bloqueia o iniciante dropar dentro de si, das memórias e dos traumas. Por isso a mão solidária de um praticante mais experiente é muito bem vinda nesse momento. Depois, a régua do medo diminui e o iniciante vai por conta própria.

© 2021 • 1FICINA • Marcelo Ferrari